sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Fraudes controladas


Uma "fraude controlada" é um tipo de experimento psicológico/metodológico/social: trata-se da produção deliberada de eventos ou resultados falsos, com o objetivo de testar a resiliência e a confiabilidade de uma metodologia científica, de um processo cognitivo ou de comunicação.

Ela se distingue da fraude pura e simples porque, enquanto esta última é construída de modo a circum-navegar os mecanismos humanos (senso crítico, bom-senso) e institucionais (revisão, crítica dos pares, controles) de checagem e alerta, a fraude controlada é criada com uma série de características salientes para excitar os mesmos mecanismos -- desde que, é claro, eles estejam funcionando adequadamente, ou haja uma intenção honesta de usá-los.

Nos últimos tempos, fraudes controladas passaram a ser um meio relativamente comum usado para revelar fragilidades no processo de comunicação científica -- seja a comunicação entre pares, por meio de periódicos especializados, seja a comunicação com o público, por meio do jornalismo. Talvez o caso mais recente tenha sido o protagonizado pelo jornalista John Bohannon, em 2015, quando ele não só conseguiu empurrar para um periódico um artigo de péssima qualidade com uma conclusão absurda -- a de que comer chocolate emagrece -- como ainda viu o artigo ganhar repercussão na mídia de massa.

Esta não foi a primeira fraude do tipo perpetrada por Bohannon: em 2013, ele havia enviado um artigo de biologia, obviamente imprestável, a centenas de journals que, supostamente, faziam revisão pelos pares, e viu-o ser aceito, acriticamente, diversas vezes. 

Como o próprio jornalista escreveu na revista Science, "qualquer revisor com mais do que um conhecimento de ensino médio em química e a capacidade de interpretar um gráfico simples deveria ter notado as inadequações do artigo na hora. Os experimentos descritos são tão ruins que o resultado não faz sentido".




Antes do trabalho de Bohannon neste século, a fraude controlada mais famosa provavelmente foi o Projeto Alfa, conduzido pelo mágico James Randi em 1979. Randi enviou dois jovens ilusionistas a um laboratório de pesquisa parapsicológica. 

Durante quase cinco anos, os dois foram levados a sério e considerados paranormais legítimos pelos pesquisadores, que acreditavam estar utilizando controles adequados contra fraude. O projeto só terminou em 1983, com a confissão dos ilusionistas, mas desde 1981 o próprio Randi já vinha alertando publicamente para os controles inadequados e a possibilidade de fraude nos testes realizados.

Uma fraude controlada pouco conhecida, e que antecede o Projeto Alfa, é descrita numa monografia britânica publicada em 2005, Conclusions from Controlled UFO Hoaxes, de David Simpson, que descreve um experimento envolvendo uma série de falsos "discos voadores" -- na verdade, balões de gás com lâmpadas e baterias penduradas -- lançada no céu de um vilarejo inglês no fim dos anos 60. 

Simpson, um dos responsáveis pelas fraudes, descreve alguns efeitos impressionantes, incluindo descrições exageradas e distorcidas dos objetos no céu por ufólogos -- alguns acreditavam que as luzes dos "óvnis" (as lâmpadas ligadas a baterias) piscavam em resposta a sinais enviados do solo, ou a seus pensamentos -- e a absoluta incapacidade dos mesmos ufólogos em aceitar a confissão, pelo grupo de fraudadores, de que os objetos não passavam de criações terrestres. 

Há uma grande controvérsia ética em relação às fraudes controladas, já que elas envolvem mentira e, no limite, a humilhação pública dos envolvidos. Em entrevista para o livro How UFOs Conquered the World: The History of a Modern Myth, Simpson não manifesta nenhuma dúvida quanto à correção de suas ações: os ufólogos enganados por ele estavam fazendo declarações públicas, almejavam à credibilidade pública e eram tratados como fontes confiáveis pela imprensa da época, incluindo a BBC. Nada mais justo que essa presunção de credibilidade e seriedade fosse posta à prova. Confiança não se dá de graça.

O mesmo argumento pode ser aplicado ao Projeto Alfa e ao trabalho mais recente de Bohannon. Em ambos os casos, pistas suficientes foram dadas -- o alerta de Randi em 1981, a qualidade sofrível dos falsos artigos -- para que as fraudes fossem detectadas por suas próprias vítimas. Também é possível argumentar que esse tipo de "experimento" produz resultados científicos úteis, ao mostrar como a mante humana está pronta para o engano, sempre predisposta a construir narrativas que tornem plausíveis os maiores absurdos, desde que devidamente motivada -- seja por vaidade, esperança ou (no caso dos periódicos engabelados) lucro.  



Uma segunda questão às vezes levantada é a do impacto de longo prazo dessas fraudes, ainda mais num mundo hipermidiatizado, dado o alcance limitado das revelações e desmentidos. É possível, talvez até provável, que o resultado do "chocolate emagrecedor" de Bohannon ainda seja citado em revistas de dieta como verdadeiro, e que os avistamentos de óvnis provocados pela fraude de Simpson ainda apareçam em parte da literatura ufológica como eventos inexplicados ou, até mesmo, de origem extraterrestre. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Assassinatos em massa: a ciência

Publicada em 2014 pela editora acadêmica John Wiley & Sons, The Encyclopedia of Criminology and Criminal Justice traz um verbete de duas páginas e meia sobre "Mass Murders", isto é, "assassinatos em massa". Ali aprendemos que o termo é aplicado cientificamente "à matança, não-sancionada pelo Estado, de pelo menos três vítimas durante um único episódio", é às vezes considerado um sinônimo de "massacre" e se distingue de outros fenômenos de violência de vítimas múltiplas, como guerras, linchamentos, assassinatos em série e genocídios por uma série de características.

Entre elas, estão fatos como o de que o assassino em massa "tem alta probabilidade de conhecer pessoalmente as vítimas, utiliza armas de fogo e vê seus atos como um 'gesto definitivo de revolta', sem a intenção de realizar matanças futuras". Além disso, o assassino em massa tem uma chance muito maior do que outros tipos de criminoso de terminar seu crime cometendo suicídio, seja pelas próprias mãos ou sob a forma de "suicídio por policial", quando o criminoso armado ameaça as autoridades de modo a induzir a polícia a alvejá-lo.

O verbete prossegue delineando uma espécie de taxonomia dos assassinos em massa.Somos apresentados a categorias como "cidadão revoltado", "funcionário revoltado" e "atiradores escolares", mas o texto nota que a maioria dos matadores em massa -- responsáveis por 40% do total de massacres -- são os "aniquiladores de família", que "matam diversos membros da própria família. Esses crimes são frequentemente cometidos pelo chefe masculino da casa", embora também haja registros de mulheres e crianças "aniquiladoras". De qualquer modo, o caso típico citado no verbete é o de um pai de família que matou 14 parentes durante o Natal de 1987, no Arkansas (EUA).

Encyclopedia nota que esses crimes têm causas complexas, em que fatores sociais, pessoais e comunitários interagem, mas que de uma perspectiva individual parecem desencadeados pela percepção de uma "ofensa catastrófica" que "frequentemente leva a fantasias violentas de vingança".

Em artigo publicado no periódico Men and Masculinities, o mesmo pesquisador responsável pelo verbete, Eric Madfis, da Universidade de Washington, aponta que, nos Estados Unidos, assassinatos em massa são cometidos por um número desproporcionalmente grande de "homens brancos heterossexuais de classe média", adolescentes ou de meia-idade.

Analisando as possíveis causas dessa desproporção, Madfis sugere que "a relação da masculinidade heterossexual com a violência", somada à perda de posição social e de privilégios até então vistos como naturais e automáticos dessas três categorias -- homem, branco, hetero -- pode servir de gatilho para casos de assassinato em massa. Citando: "entre muitos assassinos em massa, os triplos privilégios da masculinidade branca heterossexual, que tornam as perdas  subsequentes ao longo da vida mais inesperadas e, portanto, mais vergonhosas, acabam cedendo sob os fracassos da mobilidade social descendente, e resultam num ato final de violência para evitar a masculinidade subordinada".

Também existe bastante pesquisa sobre o efeito copycat -- quando a divulgação de um crime acaba incentivando atos semelhantes -- em assassinatos em massa. Uma apresentação feita durante conferência da Associação de Psicologia dos Estados Unidos (APA, na sigla em inglês), no ano passado, levantou a questão de que fantasias violentas de vingança são bastante comuns, mas muito poucas são executadas; portanto, algum fator deveria ser responsável por "desequilibrar a balança" e levar o crime da imaginação para a realidade.

Os autores sugerem que "a identificação com assassinos anteriores, que se tornaram famosos por conta da extensa cobertura midiática (...) é um incentivo mais poderoso à violência que o estado de saúde mental ou mesmo o acesso a armas de fogo". O painel reconhecia, no entanto, que o "modelo do contágio da violência pela mídia" historicamente não era levado muito a sério, mas argumentava que estudos recentes deveriam levar a uma revisão dessa posição. O trabalho não sugeria censura, mas sim a elaboração de um guia de boas práticas para a cobertura desse tipo de evento.

Um dos artigos citados no painel como base para essa revisão foi Contagion in Mass Killings and School Shootings, publicado em 2015 na PLoS ONE. Esse trabalho aplicou dois modelos matemáticos a séries históricas de assassinatos em massa nos Estados Unidos,  um utilizando um "termo de contágio" -- que faz com que a probabilidade de novos crimes seja mais alta em períodos próximos a um massacre já consumado -- e outro, sem esse termo.

A conclusão é de que o "termo de contágio" faz com que o modelo se ajuste melhor aos dados. "Encontramos evidência significativa de que assassinatos em massa envolvendo armas de fogo são incentivados por eventos similares no passado imediato. Em média, esse aumento temporário em probabilidade dura 13 dias, e cada incidente incita pelo menos 0,3 novos incidentes". Os autores reconhecem, no entanto, que essa conclusão não equivale à afirmação de que a cobertura midiática é o fator desencadeante do "contágio".

"Embora nossa análise tenha sido inspirada, inicialmente, pela hipótese de que a atenção da mídia dada a eventos violentos sensacionais pode promover ideação em indivíduos vulneráveis, na prática o que nossa análise testa é se os padrões temporais nos dados indicam evidência de contágio, por quaisquer meios", diz o artigo, acrescentando que, como muitos desses eventos terminam com o suicídio do criminoso, "provavelmente nunca saberemos quem foi inspirado por atos anteriores, particularmente já que a ideação pode ser subconsciente".