O memorando do cara do Google: ofuscados pela ciência




Quem viu a postagem anterior do blog sabe que andei meio fora de contato com os dramas da civilização nesta semana. Ao que parece, enquanto eu me envolvia com questões menores como a devastação da Mata Atlântica, a poluição das águas, a sustentabilidade das comunidades indígenas e a pesquisa sobre o paleoclima do Hemisfério Sul, algo realmente importante estava acontecendo --  a saber, a demissão de um engenheiro do Google, por ter divulgado um memorando que argumenta que a política da empresa de buscar paridade de gênero em todas as áreas, incluindo liderança e programação, é injusta, incorreta e viola as conclusões da melhor ciência disponível, ciência essa que apontaria uma inadequação inata do sexo feminino para essas posições.

Mas, enfim. Como tenho um histórico de discutir questões envolvendo o choque entre ciência e preconcepções políticas (como em minhas várias postagens sobre aquecimento global e transgênicos), e o assunto envolve o princípio da liberdade de expressão, algo pelo que venho argumentando forçosamente há mais tempo do que gostaria de me lembrar, é natural que me cobrem comentários sobre o assunto. Então, fui ler o tal memorando do cara, e algumas das respostas/reações mais citadas. Sobre a parte científica do argumento, a melhor resposta que encontrei foi este artigo de Suzanne Sadedin.

Mas, como diria o estripador cartesiano, vamos por partes. Começando pela questão da liberdade de expressão, ele é um direito da esfera social. Minha posição é de que ninguém deveria ser impedido de propor uma questão para debate público, não importa o quanto o argumento seja idiota ou ofensivo, porque apenas o debate público e aberto pode determinar se o argumento é, mesmo, idiota ou ofensivo. Se o engenheiro em questão tivesse sido demitido depois de publicar um artigo sobre diferenças de sexo numa carta a um jornal, por exemplo, ele teria toda a minha solidariedade. Mas, ao fazê-lo num memorando interno, sua situação é bem mais nebulosa.

O ponto aqui é que a liberdade de dizer o que se pensa não equivale à liberdade de fazê-lo de qualquer jeito e em qualquer lugar. Eu seria totalmente a favor de chamar a polícia para retirar da plateia de um teatro um sujeito que se levante no meio da peça para declamar poemas, ou da sala de aula estudantes que a invadam para "problematizar" o tema do curso.

No caso específico, o espaço interno de uma empresa (o Google) não é o espaço público, e regras diversas se aplicam. Agora, a demissão foi conveniente, no sentido de ter sido a melhor reação possível da empresa? Nesse ponto, acho que não, e concordo com esta peça da Economist.  Em linhas gerais, tendo a concordar com as advertências do autor do memorando sobre o efeito deletério do silenciamento, via pressão social, de posições conservadoras.

Agora, a ciência: quem tem alguma familiaridade com o universo dos debates em torno de questões como medicina alternativa ou parapsicologia sabe muito bem que citações da literatura científica podem ser usadas como tacapes -- para bater na cabeça das pessoas até fazê-las perder os sentidos. Minerando a literatura é possível até encontrar artigos com peer-review argumentando que preces são capazes de mudar o passado. Citar papers ao léu não faz muito sentido se a qualidade e a confiabilidade do material citado não estiver estabelecida, ou se sua pertinência para a questão em debate não for clara.

E pertinência é a verdadeira questão de fundo, um fato que, no turbilhão político-ideológico criado pelo caso, parece ter escapado a muita gente. À medida que as pessoas vão pegando as manhas de quais são as aparências e trejeitos de um debate científico, o apelo à pesquisa irrelevante vai se tornando uma estratégia retórica cada vez mais popular.

Sim, existem diversos artigos que indicam tendências de diferenças de personalidade entre os sexos (aqui e aqui), na reação do organismo a medicamentos (aqui) e na funcionalidade cerebral (aqui). A questão que as pessoas que engoliram a arenga do (ex-)cara do Google deveriam estar se fazendo (e que é muito bem colocada no artigo de Suzanne Sadedin) é: e daí?

O trecho crucial do memorando parece ser este:

"Simplesmente afirmo que a distribuição de preferências e competências entre homens e mulheres difere, em parte, devido a causas biológicas e que essas diferenças podem explicar por que não vemos uma representação igualitária de mulheres em tecnologia e liderança".

Os negritos são ênfases meus. Não vou nem dar muito destaque à gritante falácia naturalista ("na natureza/biologia é X, logo X é certo/necessário/inevitável"). Quero mesmo é chamar atenção para a inclusão injustificada de "competências" junto a "preferências" (mesmo imaginando que a maioria das mulheres não goste de dar ordens ou de fazer matemática, isso não significa que as que gostam sejam menos competentes que os homens nessas tarefas), e para o salto em que o autor passa, da admissão de que os fatores citados têm efeito parcial,  para a hipótese de que os mesmos fatores podem ser uma explicação total do fenômeno.

O argumento desta parte do memorando pode ser resumido no seguinte entimema:

(1) Há, na média da população, diferenças inatas de personalidade entre homens e mulheres
(2) Diferenças inatas de personalidade equivalem, na média da população, a diferenças inatas de competência

CONCLUSÃO (I): Há áreas em que homens, na média da população, são naturalmente mais competentes do que mulheres (e vice-versa)

CONCLUSÃO (II): Logo, é injusto esperar paridade de gênero em posições de liderança e programação dentro do Google.

O que me parece é que muita gente, ofuscada pela literatura científica mobilizada em defesa do argumento (1), acabou engolindo o (2), que é, e deixe-me enfatizar isso com itálico e negrito, totalmente injustificado: ele não só não decorre do material citado no memorando, como ainda contraria a literatura a respeito de diferenças de competência (citações, aquiaqui, aqui e aqui). E sem o argumento (2), a coisa toda desmorona como um castelo de geleca.

Vale ainda a pena ressaltar que, mesmo que o argumento (2) corresponda aos fatos, a "Conclusão (II)" não decorre. E não decorre por causa da ressalva "na média da população". Afinal, é extremamente improvável que o Google recrute suas programadoras e gestoras dentro de uma amostra média da população em geral, do mesmo modo que um time feminino de vôlei não recruta suas jogadoras entre as meninas de estatura mediana.

Escolher os melhores profissionais para um trabalho talvez seja o procedimento mais diverso do de se obter uma amostra aleatória da população que alguém poderia imaginar. Meninas enfrentam diversas barreiras sociais para se destacar em carreiras de exatas, e é até razoável supor que as que superam essas barreiras -- a ponto de entrar no radar do RH do Google -- sejam até mais competentes e qualificadas que os homens na mesma posição. Essa hipótese, aliás, é suportada por um estudo comparativo entre os sexos de competência em programação.

Comentários

  1. Agora é traduzir teu texto pro inglês, só pros gringos verem que uma das melhores ponderações sobre a treta toda é tua. :-D

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  2. Outros textos interessantes sobre o assunto:

    https://medium.com/@yonatanzunger/so-about-this-googlers-manifesto-1e3773ed1788

    http://www.npr.org/sections/money/2014/10/21/357629765/when-women-stopped-coding

    E essa comic do XKCD:

    https://xkcd.com/1357/

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  3. Se preces são capazes de mudar o passado eu não sei, mas que a ideia de retrocausalidade vem ganhando força no mainstream, vem sim. Recentemente ocorreu o terceiro simpósio sobre o assunto na Universidade de São Diego sob os auspícios da Divisão do Pacífico da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), para discutir a interseção do tempo e da consciência. No prefácio do simpósio, é dito: "A retrocausalidade é a proposição de que o futuro pode afetar o presente de uma maneira análoga a como o passado afeta o presente através da causalidade. Sabe-se que as equações fundamentais da física são simétricas no tempo, ou seja, possuem soluções temporárias (retardadas) e reversas no tempo (avançadas), mas isso desmente nossa experiência temporariamente assimétrica do mundo, que avança unidirecionalmente para o futuro. A física quase universalmente adota esse viés ao descartaras soluções avançadas como “não físicas”. Este simpósio desafia esse pressuposto." Há um artigo em especial que oferece evidência bastante persuasiva, se não de retrocausalidade, ao menos de precognição, e foi publicado pelo American Institute of Physics: http://aip.scitation.org/doi/pdf/10.1063/1.4982772

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  4. Meus pitacos.

    http://genereporter.blogspot.com.br/2017/08/como-e-que-e-mulheres-evitam-empregos.html
    ----

    []s,

    Roberto Takata

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  5. Exatamente. Como é bom ler uma pessoa sensata em meio a tanta histeria - dos dois lados.

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  6. Deixa eu perguntar duas coisas...

    1) se concordamos que há uma diferença (estatística), no interesse por determinados assuntos, partindo do princípio que o interesse leva ao estudo, dedicação e desenvolvimento de competências no assunto, não seria uma conclusão óbvia que isso leva a uma diferença (estatística) de competências?

    2) se, digamos 20% dos engenheiros formados são mulheres, por que seria razoável esperar que representem 50% dos engenheiros contratados pelo Google? Engenheiras mulheres são superiores em algum aspecto ou seria puramente a defesa de que o Google dê preferência para mulheres pra fabricar uma estatística bonita?

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    1. Deixa eu tentar responder...

      (1) Não, porque a relação entre "interesse" e "competência" na escolha de uma área profissional é diferente, por exemplo, da que existe nas disciplinas do Ensino Médio. No Ensino Médio todo mundo é obrigado a estudar, digamos, química e literatura, e quem se interessa mais por uma matéria vai ser mais competente nela do que em outra. Na questão da escolha profissional, no entanto, o interesse é pré-requisito: ninguém é obrigado a ser engenheiro. Quem não se interessa por engenharia não vai estudar para ser um engenheiro medíocre, vai fazer outra coisa. Assim, a relação entre interesse e competência se quebra: numa profissão, a pressuposição é que todos que optaram por ela são interessados, mas alguns são mais competentes que outros.

      (2) A questão aqui é o papel social que a empresa vê para si. O pressuposto é que as mulheres enfrentam mais barreiras que os homens para se tornar engenheiras e, uma vez formadas, enfrentam mais barreiras para se estabelecer e subir na carreira. Essas barreiras vão desde machismo explícito a pressões indiretas, de caráter psicológico, familiar, social. Com isso, existiria uma "interferência de background" que faz com que existam menos engenheiras, e menos engenheiras bem colocadas profissionalmente, do que poderia haver. O ponto de discórdia em torno do memorando é que seu autor pressupõe que essa interferência é pequena o suficiente para que supostos efeitos biológicos predominem na formação do déficit.

      O Google decidiu adotar uma política de RH que tenta, de algum modo, neutralizar essa interferência (que a empresa e muita pesquisa científica apontam ser grande), seja estimulando a demanda (meninas, estudem engenharia que o Google quer vocês!), seja buscando talentos que, por serem femininos, estão sendo subestimados. Se existem, sei lá, 10 mil vagas de engenheiro de software no Google, o que a política da companhia diz é que a firma está disposta a gastar tempo e esforço para localizar 5 mil que sirvam aos requisitos da empresa. Não é nada implausível que essas 5 mil mulheres existam por aí.

      Enfim, não é a questão de criar um número "bonitinho" (embora a coisa possa ser vista dessa maneira). É ver como a companhia enxerga o impacto de suas decisões internas no meio em que está inserida.

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    2. Sobre o ponto (2), o problema está justamente no "pressuposto". Tratar como auto-evidente que o sexismo explica a falta de paridade, mesmo com 20% de engenheiros formados sendo mulheres (nesse caso parece que a Google só reflete a quantidade de engenheiros disponíveis), é algo que carece de evidenciação. Não respostas irritadas a quem pareça questionar ou negar que é um fator importante ou existente (na minha opinião, existente, mas no caso específico em discussão não vi mensuração de sua importância). Fazer o contrário é o que o filósofo Joseph Heath chama de "sociologia normativa": que os fenômenos sociais estão moralmente obrigados a serem explicáveis de certas formas pré-definidas.

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  7. Tanto você quanto Takata preferiram não tocar no ponto mais forte e mais justificado do documento: interesses não se distribuem igualmente entre os sexos, logo, não faz sentido esperar numa população grande de empregados como a da Google que uma paridade de 50% seja atingida, muito menos atribuir a falta dessa paridade totalmente à discriminação sexista. A maior parte do memorando continua correta tanto nos fatos quanto nos argumentos morais. Tomemos habilidades: ele não falou disso na maior parte do texto, sendo o trecho que você selecionou uma exceção. (Você traduziu como "competência".) É verdade que homens e mulheres podem diferir não só em preferências, mas habilidades também? Sim. Ao menos duas habilidades: mulheres são melhores em ler as emoções pela face, homens são melhores em girar objetos 3D mentalmente. São habilidades relevantes para engenharia de software? Talvez sim, talvez não. Mas o ponto principal é que diferem em preferências e portanto há menos busca da profissão por mulheres. A proporção de mulheres formadas academicamente na área já reflete a proporção de empregada do Google na área: 20%.

    Tanto quanto é uma prática arriscada fazer cherrypicking de paper, também é ignorar os principais pontos do memorando.

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    1. Quando você escreve que " o ponto principal é que diferem em preferências e portanto há menos busca da profissão por mulheres", você está assumindo que a questão de gênero biológico predomina sobre o sexismo social na questão da escolha de carreiras, o que não está demonstrado.

      Sexismo e predisposição natural não são mutuamente excludentes. A questão é que ninguém sabe qual a colaboração de cada fator, e nem qual seria a proporção de engenheiras (ou presidentes de empresas, ou primeiras-ministras) num mundo sem sexismo (20%? 30%? 40%? 70%?). O que o exemplo histórico sugere é que, quanto menor o sexismo do meio, mais mulheres se envolvem com as áreas STEM. É só ver o número de pesquisadoras em física e matemática que havia 100 anos atrás e hoje. E até por conta disso, não me parece razoável imaginar que a taxa de formandas atual já seja a taxa "de equilíbrio", livre de sexismo ou em que o sexismo tenha se reduzido à irrelevância.

      Nesse cenário de incerteza, a meta de 50% adotada pelo Google não em parece irrazoável (nem moralmente problemática), principalmente tendo em vista seu provável impacto social -- por exemplo, acenando para as meninas que pensam em entrar para a área que o Google tem um déficit de programadoras.

      Além disso, a paridade pode trazer outros benefícios para a empresa, como , com o perdão do clichê, grupos de trabalho capazes de pensar "fora da caixa" (masculina) e redução do sexismo nas relações internas -- é muito mais fácil constranger a única mulher num grupo de dez homens do que cinco mulheres juntas no mesmo grupo.

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    2. você está assumindo que a questão de gênero biológico predomina

      Ou não. Apenas se admite que existe a questão biológica e que ela não é desprezível. Isto até põe em xeque a questão do "sexismo social", mas mesmo assim é algo esperado.

      O que o exemplo histórico sugere é que, quanto menor o sexismo do meio, mais mulheres se envolvem com as áreas STEM.

      Isto é duvidoso. Afinal, em países com IDH mais baixo, a participação per capita de mulheres em C&T é mais paritária que em países com IDH mais elevado. A feminista C. H. Sommers nota esse fenômeno.

      É só ver o número de pesquisadoras em física e matemática que havia 100 anos atrás e hoje

      E o fato que, hum, bem, tá bem mais fácil ser cientista hoje que antigamente? Maria Sklodowska não tinha um CERN, e hoje em dia computadores, cada vez mais relevantes nestas áreas, não custam muito mais que dias ou semanas, no máximo alguns meses, de trabalho.

      Sendo mais fácil ser cientista, também acaba sendo mais atraente para quem antes nem sonharia com isso.

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    3. [Apenas se admite que existe a questão biológica e que ela não é desprezível. Isto até põe em xeque a questão do "sexismo social"]

      Não põe, porque, como escrevi, a taxa "natural" (sem coação direta/indireta do meio) de flutuação para a área é desconhecida, e é plausível que mude em razão da própria natureza do meio. Para fazer uma citação: " We conclude that early experience, biological factors, educational policy, and cultural context affect the number of women and men who pursue advanced study in science and math and that these effects add and interact in complex ways. There are no single or simple answers to the complex questions about sex differences in science and mathematics." (http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1111/j.1529-1006.2007.00032.x)

      [em países com IDH mais baixo, a participação per capita de mulheres em C&T é mais paritária que em países com IDH mais elevado.]

      É duvidoso que o IDH seja um bom proxy para o sexismo na sociedade, no recorte de liberdade de escolha profissional. Mesmo GDI, "Gender Deveopment Index", que captura o IDH específico da parcela feminina da sociedade, não captura fatores culturais como, por exemplo, a pressão social para ficar em casa cuidando dos filhos. Na Noruega, país que tem o maior GDP (0,91), as mulheres são maioria nos cursos de doutorado (52%), mas apenas 32% dos pesquisadores ativos. Você pode supor que a diferença de 20 pontos percentuais reflete o número de mulheres que optou livremente por (ou foi induzido pelos hormônios a) fazer outra coisa, mas será só uma suposição.

      [E o fato que, hum, bem, tá bem mais fácil ser cientista hoje que antigamente?]

      Se eu trocar "número" por "proporção", melhora?

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    4. Correção: o GDP da Noruega é 0,99. Mas o PIB per capita das mulheres é apenas 80% do dos homens.

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  8. Há atualmente no mundo uma clara (e triste) tendência à polarização em tudo quanto é debate, onde somos quase que forçados a nos posicionar em um dos extremos, como se tons de cinza - também com o perdão do clichê - fossem proibidos ou, pior, sinais de indecisão e fraqueza. Como bem colocado, a questão não pode se resumir a "sexismo x predisposição natural", no sentido de que "ou é uma coisa, ou outra". Certamente não são excludentes, só não sabemos ainda onde se situa o "ponto de inflexão" ou de equilíbrio desse sistema.

    Por outro lado, concordo que o Google talvez esteja apostando alto demais ou "forçando um pouco a barra" ao passar dos 20% de graduandos em engenharia do sexo feminino para um padrão 50-50 na empresa. Me pergunto se a coisa não poderia ser mais paulatina, por exemplo iniciar com uma proporção de 40-60, o que já representaria o dobro de profissionais mulheres em relação ao percentual que se forma na área. Creio que os benefícios citados seriam igualmente colhidos e o desenvolvimento rumo à tendência igualitária entre gêneros poderia soar menos artificial. Mas como eu disse, é uma aposta, e é válida; suponho que eles devem ter debatido bastante esses pontos antes de definirem a política a ser adotada na empresa.

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  9. Tem uma lógica nesse argumento da Média que simplesmente não está batendo. É claro que a Google não contrata entre a média da população ela contrata quem estaria na extremidade daquela curva média. No entanto se em uma dada característica X existem mais homens na extremidade, seria de se esperar que ao coletar as pessoas no geral que estão na extremidade, mais homens seriam selecionados não? Fazendo um paralelo aí com a altura, se o parâmetro de escolha fosse escolher as pessoas mais altas, e considerando que na curva média existem mais homens altos na extremidade do que mulheres altas, não é de se esperar uma disparidade?

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    1. Oi, Alan! O que a questão da média procura mostrar é que, mesmo havendo menos programadoras que programadores, o Google deve ser perfeitamente capaz de preencher sua cota de programadoras sem precisar "baixar o nível" -- mesmo que o conjunto do 1% das melhores programadoras do mundo contenha menos elementos que o conjunto do 1% de melhores programadores, ele provavelmente conterá um número absoluto de indivíduos capaz de atender às exigências da empresa. Existe até um estudo que indica que as mulheres que se destacam em programação são mais competentes que os homens (https://peerj.com/articles/cs-111/).

      Vamos supor que a empresa tenha 50 vagas, e haja no mercado 60 homens e 30 mulheres capazes de ocupá-la. O que o Google faz é recrutar 25 homens e 25 mulheres. Quem defende que a contratação deveria seguir as médias populacionais proporia algo como 34 homens e 16 mulheres como sendo uma divisão "justa", e que no sistema do Google há 9 homens que foram injustamente preteridos. Pra mim, esse é o argumento que não faz muito sentido.

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    2. Nenhum dos dois argumentos me faz sentido, nem esperar por paridade nem esperar por representação populacional, e isso também não endereça o questionamento que eu fiz. O ponto que eu trouxe era sim o parâmetro de seleção, considerando "competência" era o fator de nivelamento, não o parâmetro de seleção. Os pontos indicados pelo sujeito do memorando mostram aquelas tendências de personalidade e preferências. Se o parâmetro de seleção nesse caso altera o pool de pessoas que já estão nesse 1%, então é de se esperar a disparidade. Aliás, é de se esperar disparidade sempre que o parâmetro de seleção seja uma característica que é mais presente em um grupo do que em outro. Por exemplo, se possuir menos "agreeableness" for um parâmetro de seleção pra cargos de liderança (o que faz algum sentido, visto que ter muito "agreeableness" levaria pra uma liderança sem cobrança por prazos e metas), então inevitavelmente, por esse parâmetro, teríamos um número maior de homens do que de mulheres selecionados pra um cargo de liderança, uma vez que os níveis maiores de "agreeableness" estão concentrados mais em mulheres do que homens, e isso refletiria, inclusive, no pool de 1%.

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    3. Vamos supor que exista um nível perfeitamente ideal de "agreableness" para líderes -- digamos, 6,247 numa escala de 0 a 10. E que esse nível seja mais fácil de encontrar em homens do que em mulheres: de cada mil pessoas treinadas em administração, apenas 10 terão esse ajuste exato, e dessas dez, sete serão homens e três, mulheres. Agora, vamos supor que o Google tenha quatro vagas com esse perfil, e os dez candidatos da cauda extrema da distribuição se apresentem. A política da empresa, então, levaria à contratação de duas duas mulheres e de dois dos homens.

      A conclusão do ex-funcionário do Google parece oscilar entre "é forçar a barra achar que sempre vai dar pra achar 50% de mulheres para qualquer cargo" e "é injusto com os homens preteridos". Por exemplo, e se só houvesse uma mulher entre os dez com o nível exato e o Google insistisse, só pra preencher a cota, em pegar uma mulher com "agreableness" de 6,248, acima do ponto ideal?

      Meus pontos são:

      (1) dada a desproporção entre a população total e o número de vagas, é altamente improvável que não se consiga preencher a cota de 50% com mulheres tão ou mais capazes que os homens. A questão é que o recorte é tão pequeno, e tão perto do topo, que mesmo havendo muito mais homens ali, a tendência é sempre haver mulheres suficientes.

      (2) O Google adota essa política por uma questão da visão que tem de seu papel na sociedade. Dado que o equilíbrio entre sexismo e livre escolha é desconhecido, e reconhecendo que o sexismo existe, a empresa adotou a cota, digamos, "cromossômica" de 50%. Diante dos fatos conhecidos, tanto científicos quanto sociais, não há motivo para considerá-la injusta.

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    4. Isso é supondo que seja possível atribuir esse valor ideal e supondo que a google estivesse, conscientemente, aplicando esse método.

      Essa explicação também falharia se considerasse a google como a empresa que é, com sede em vários lugares diferentes e vagas distribuídas entre essas sedes, o que você vai ter dificilmente vai ser a distribuição ideal na maioria das sedes. Assim, supondo esse exemplo você tem, nessa sede que você usou, uma proporção de 7x3 que te permite pegar 2x2 e distribuir entre as vagas. Outras sedes, devido a distribuições demográficas acidentais, teriam números menos ideais. 2x4 em certas localizações, 2x0 em outras, e por aí vai. O número da curva média preveria, portanto, que em escala nacional, através de todas as amostras, teria-se um número maior de um grupo e não de outro, sendo esse representante da projeção do número na população média (da curva). Isso se, claro, o fator decisivo não fosse o gênero. Se o fator decisivo fosse o gênero então teríamos, espalhados entre as sedes, homens preteridos ou mulheres preteridas, dependendo da amostra retirada.

      Nesse ponto eu diria que é sim injusto justamente porque o desequilíbrio entre sexismo e livre escolha é desconhecido. O método justo seria aquele que tentasse endereçar o sexismo sem trazer consequências negativas para quando ele não é um fator relevante. E propostas para esse tipo de abordagem têm aos montes.

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  10. Confesso que ainda não tinha visto esse documentário norueguês, que me parece central a esse debate. Impactante, sem dúvida. Devemos reconhecer que a ciência torna-se particularmente atraente quando conflita com o dito senso comum, e o senso comum sugere que há diferenças biológicas inatas entre meninos e meninas. Mas isso não significa que a relação entre ciência e senso comum deva ser sempre em rota de colisão, ou seja, não é proibido à ciência ir ao encontro do senso comum de vez em quando! Game over? I think so... https://www.youtube.com/watch?v=G0J9KZVB9FM

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