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Mostrando postagens de 2017

Pânico moral na cracolândia

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Será que as ações recentes da prefeitura paulistana da chamada cracolândia refletem um pânico moral?

Explicando: "pânico moral" é o nome dado por cientistas sociais a situações em que a sociedade, ou uma parte da sociedade, é tomada por uma preocupação irracional e exagerada em relação a uma circunstância que, por algum motivo, é vista como um problema social. Alguns críticos desse conceito queixam-se de que "pânico moral" é apenas um pejorativo usado por uma parcela da sociedade para desqualificar as preocupações de outra, já que não há uma definição objetiva do que seria um "exagero".

Os defensores da validade da expressão, por sua vez, citam exemplos como a Caça às Bruxas do fim da Idade Média e a onda de medo que tomou conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, nos anos 80, associada a alegações de que cultos satânicos estariam sequestrando e abusando de crianças. Nada pode ser mais objetivamente exagerado, apontam, do que uma convulsão social em tor…

Debates científicos: quanto é o bastante?

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Um cacoete bastante comum no mundo das pseudociências é o apelo à prova final que está logo ali na esquina -- mais um experimento, mais uma bolsa do CNPq, mais uma análise estatística e o mundo cairá aos nossos pés (ou, melhor dizendo, aos pés lá deles). Se ao menos esses céticos pentelhos não ficassem sabotando...

Duas variações populares do tema são a da conversão iminente -- já temos provas suficientes e o consenso da comunidade científica está prestes a se transformar, espere só mais um bocadinho -- e a da novidade redentora: vocês vão ver como, daqui a pouco, a física quântica (ou a teoria do caos, ou a lógica paraconsistente, ou qualquer que seja o novo craque em campo) vai provar que nosso Mestre estava certo o tempo todo!

Não há nada de essencialmente errado nesse tipo de alegação, é bom reconhecer. Às vezes acontece de aparecer um visionário anunciando uma revolução científica iminente e, pimba!, a revolução vem. O problema é: quanto tempo é o bastante? Qual a hora de parar …

Vacinas, terapias e verdades alternativas

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Poucas leituras me foram mais penosas que a do primeiro capítulo do livro The Panic Virus, uma história do movimento antivacinação nos Estados Unidos e seu terrível impacto sobre a saúde pública.  O relato abre com a história de uma criança de três anos que morreu porque seus pais se recusaram a vaciná-la -- e de outras duas, de poucos meses de idade, que morreram porque os filhos dos vizinhos não tinham sido vacinados, o que as privou do benefício da chamada "imunidade de manada", que existe quando uma proporção suficientemente grande da população tomou vacina e, com isso, cria uma barreira que impede a chegada da doença a crianças que são novas, ou frágeis, demais para receber a imunização.

Esses relatos arrepiantes sempre me vêm á mente quando leio algo sobre os avanços do movimento antivacinação no Brasil, mais uma moda lamentável importada dos EUA, a exemplo do movimento do design inteligente. Neste domingo, o jornal O Estado de S. Paulotraz uma reportagem sobre o assu…

Pint of Science: é hoje!

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Só lembrando os incautos: esta noite estarei no Alzirão II, em Campinas, para falar sobre a sempre tumultuada relação entre a ficção científica e o futuro da humanidade. Não vai ter palco, não vai ter Power Point, só microfone, cerveja e a cola no caderninho. Quem puder, apareça!

Centenário de Fátima: considerações

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Este sábado, 13 de maio, além de ser véspera do Dia das Mães, marca o centenário da primeira suposta aparição de Maria em Fátima. Embora essa aparição inicial tenha tido pouca repercussão pública na época (o famoso "milagre do Sol" só correria meses mais tarde, em outubro) foi ela que desencadeou o que depois viria a ser uma comoção popular em Portugal. Espera-se que dois dos três visionários sejam canonizados, como parte das celebrações deste centenário.A imprensa brasileira está batendo bumbo com o fato de que um dos "milagres" que tornou a canonização possível envolveu compatriotas, mas já escrevi sobre como "milagres" que levam à canonização de figuras populares são quase que estatisticamente inevitáveis.

Em meio ao fervor religioso que deve cercar a festa, é improvável que a mídia tradicional abra espaço para a discussão antropológica, política e científica do fenômeno. Então, tomo a liberdade de fazê-lo aqui. A primeira coisa importante é pôr a ap…

Olha eu no Pint of Science!

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A escritora Ursula K. Le Guin certa vez disse que, para o autor de ficção científica, "o futuro é uma metáfora". Já para o inventor da expressão "ficção científica", o escritor e editor Hugo Gernsback, uma das principais funções do gênero era inspirar engenheiros e cientistas, dando-lhes ideias para serem executadas no futuro. Esse foco no desenvolvimento técnico talvez ajude a explicar por que tantas aventuras passadas milhares de anos no futuro reproduzem estruturas sociais dos anos 30.
Ao longo do século 20, milhares de contos, novelas e romances previram coisas a colonização do Sistema Solar, o Holocausto Nuclear ou a conquista da Terra por alienígenas -- mas apenas uma história, publicada em 1946 e hoje quase esquecida, previu não só a internet como os serviços de streaming, e também os dilemas éticos envolvendo privacidade e liberdade de informação que enfrentamos hoje.
Afinal, qual a relação entre a ficção científica e o futuro? Na noite da próxima terça-fe…

Design Inteligente é propaganda, não ciência

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Bom, a esta altura acho que todo mundo já viu ou ouviu falar da notícia, publicada na Folha de S. Paulo, de que a Universidade Presbiteriana Mackenzie formou uma parceria com Discovery Institute dos Estados Unidos, famoso (ou infame) por desenvolver propaganda religiosa disfarçada de ciência, a fim de trabalhar na promoção da "teoria" do Design Inteligente. A parceria tem um site, que pode ser acessado aqui. O texto de abertura -- "(...) promove estudos científicos focados em complexidade e informação na busca de evidências que apontem para a ação de processos naturais ou design inteligente na natureza (...)" -- sugere que a coisa toda trata de ciência, mas isso é mera cortina de fumaça: trata-se, estritamente, de uma questão de política e relações públicas.

Porque o Discovery Institute é uma instituição de relações públicas. Se não acredita em mim, leia esta declaração de missão no site dos caras. Cito: "A missão do Centro para Ciência e Cultura do Discovery…

Vacina anti-besteira

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Há um ditado no meio da divulgação científica que alega que uma bobagem dita em dez palavras requer pelo menos 100 para ser desmentida. Depois de minhas experiências recentes com as questões da fosfoetanolamina e da Terra plana, temo que essa avaliação seja otimista demais. A questão não é apenas que argumentos intelectualmente honestos requerem espaço para se desenvolver, e a correção de erros conceituais muitas vezes demanda longas explicações passo-a-passo para que se encontre o ponto exato em que o raciocínio caiu no acostamento: há ainda barreiras psicológicas a vencer, muitas das quais só começaram a ser identificadas recentemente.

Há, por exemplo, o efeito rebote, em que bombardear uma pessoa com evidências de que ela está errada gera uma reação defensiva que reforça sua crença inicial -- aquela história de que a fé se fortalece nas adversidades tem lá sua razão de ser.

Esse efeito provavelmente está ligado à estrutura em rede das crenças humanas, a constatação de que crenças n…

Os dançarinos de Conan Doyle

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Acho que ainda não comentei aqui no blog sobre a magnífica coleção de fac-símiles dos manuscritos de Sir Arthur Cona Doyle publicada pelos Baker Street Irregulars. Então, começo a reparar essa omissão logo pelo mais recente, o volumeDancing to Death, que reproduz as páginas manuscritas originais do conto "The Adventure of the Dancing Men", geralmente traduzida como "A Aventura dos Dançarinos":


Este foi o quarto conto produzido por Conan Doyle para a série do Retorno de Sherlock Holmes, que ele foi basicamente subornado a escrever depois de ter dado Holmes como morto e sepultado nas cataratas de Reichenbach, na aventura do Problema Final, publicada em 1893. Dez anos mais tarde, uma oferta feita por um editor americano, de US$ 4 mil por conto (obscenos US$ 100 mil em dinheiro de hoje!), para uma série de oito a doze histórias, produziu a desejada ressurreição de Sherlock Holmes.

Tendo sido a quarta história escrita, Dancing Men foi a terceira a ser publicada, por sug…

Blog One Million!

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Em algum momento nesta última madrugada, este blog cruzou a barreira do um milhão de visitas acumuladas em toda sua história -- que teve início em 2011, um mês depois de receber o bilhete azul do Grupo Estado. Sei que, no Grande Esquema das Coisas, um milhão de visitas em pouco mais de seis anos não é lá muito notável -- tem gente que atinge essa marca diariamente, e não estou me referindo apenas a youtubbers -- mas, já que este espaço, além de ser baseado em texto, esta mídia semimorta, dedica-se principalmente a temas um tanto quanto impopulares  (a saber, ciência e eu mesmo), tomo a liberdade de me iludir e achar que o milhão é algo significativo.

Agora, algumas curiosidades: a postagem mais acessada da história do blog, de longe, é A falácia da falsa discriminação, em que aponto alguns problemas lógicos num artigo da Veja sobre o movimento pelos direitos dos homossexuais. Quando digo "de longe", é de longe mesmo: esta postagem tem trez vezes o número de acessos que a se…

O apelo à pesquisa irrelevante

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A edição mais recente da revista Skeptical Inquirer (nota aos supersticiosos: é sempre melhor dizer "mais recente" que "última") traz um artigo de autoria de Craig Foster e Serena Ortiz -- ambos integrantes da Academia da Força Aérea dos Estados Unidos -- que aponta o florescimento de uma nova tática entre os promotores de pseudociências: a do apelo à pesquisa irrelevante.

Foster e Ortiz apontam que a maioria das análises das técnicas usadas pelos promotores de ideias infundadas que tentam se revestir de autoridade científica chama atenção para dois pontos, a descrição imprecisa de eventos (dizer, por exemplo, "minha tia se curou de câncer depois de visitar a benzedeira!", omitindo o curso de quimioterapia que se desenrolou nos meses anteriores à visita) e a seleção capciosa de observações pouco representativas do todo.

Uma forma clássica de responder a essas manobras é apelar à literatura científica, onde, espera-se, as observações passam por tratamento…

Manipulação textual e espinhal: quiropraxia na Folha

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Em 1º de maio, The New York Times publicou um artigo de opinião -- basicamente, uma postagem de blog -- assinada por um médico, Aaron E. Carroll, formulando a ideia de que alguns estudos recentes parecem sugerir que a chamada terapia de manipulação espinhal, oferecida em práticas como quiropraxia e osteopatia, tem algum efeito benéfico para dor lombar. Eis então que, em 2 de maio, a página "Equilíbrio" da Folha de S. Paulo publica uma versão do artigo de Carroll que não só omite o fato de que o autor é médico, não jornalista, como também maquia o texto para fazê-lo parecer uma reportagem, e não uma opinião.

A versão nacional ainda faz o favor de incluir uma referência à inclusão de terapias ditas alternativas, entre elas a quiropraxia, no SUS. Abaixo, o leitor incrédulo pode cotejar os parágrafos iniciais do original americano com os da tradução oferecida ao indefeso assinante da FSP, onde a mudança de tom (de "é o que eu acho" para "eis os fatos") fica …

Os manuais Disney e eu

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Minha geração é uma das grandes injustiçadas da história brasileira. Nascidos no início dos anos 70, chegamos tarde demais para sermos rebeldes com causa (quando chegamos à adolescência, a ditadura já estava nos estertores), e cedo demais para nos encaixarmos nos rótulos mercadológicos que depois viraram moda (Geração X,  yuppies, Geração Y, millennials, etc.). Teríamos ficado a ver navios ou, como na imortal canção de Roberto e Erasmo, a sentados na beira do caminho, suponho, não fossem os manuais Disney.

Falando especificamente do meu caso: as duas carreiras que acabei seguindo -- jornalista e escritor -- talvez não me tivessem ocorrido se não fossem o Manual do Peninha e o Manual do Mickey, ambos relançados recentemente.

O Manual do Mickey, especificamente, é um fantástico compêndio de informação sobre literatura policial e de mistério. Foi lá que, pela primeira vez, ouvi falar no Agente Secreto X-9, em Hercule Poirot, Inspetor Maigret e Padre Brown. Não seria exagero dizer que mi…

Filosofia da falsa polêmica

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Imagino que um tema, qualquer tema, precisa atingir um status especial antes que alguém resolva usá-lo como princípio organizador de livro-texto de filosofia. Se essa intuição minha está correta, a publicação de Creating Scientific Controversies, de David Harker, provavelmente significa que chamadas "manufactrovérsias"-- controvérsias manufaturadas, falsas polêmicas que tentam convencer a população em geral de que um determinado consenso científico, na verdade, não existe -- estão solidamente integradas à paisagem cultural humana, assim como a música pop ou os seriados de TV: temas, títulos e modos de disseminação podem mudar, mas a forma em si deve perdurar enquanto houver civilização.
O livro de Harker é um curso de filosofia da ciência construído em torno do tema das falsas controvérsias. Ele abre com uma revisão histórica do caso da percepção pública da relação entre tabaco e câncer -- que se tornou consenso na comunidade científica décadas antes de ser aceita pela popu…

Baleia ou barriga?

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Em sua imortal crítica à novela Brejal dos Guajás, de José Sarney, Millôr Fernandes, irritado com o uso inadequado do condicional ("iam", "deviam") reclama: "afinal, deviam chegar ou chegavam? o autor tá aí pra dar informações, pô!". Imagino que, se o autor de uma obra de ficção "tá aí pra dar informações, pô!", o jornalista, mais ainda. Infelizmente, a grande imprensa brasileira parece estra se esquecendo disso. Caso em tela: o infame "jogo da Baleia Azul".

A coisa começou a me incomodar ontem à noite, quando o painel do Em Pauta, da Globo News, que pretensamente reúne alguns dos comunicadores mais influentes e qualificados do Brasil, começou uma discussão histérica sobre o assunto, como se a existência dessa suposta "ciranda da morte" online, manipulada por sinistros vilões anônimos "que têm de ser presos",  já fosse um fato estabelecido.

É meio deprimente ver gente como Eliane Catanhêde, que passa mais da metade…

Pós-verdade em propaganda de jornal, pode?

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Suponho que o calhau acima, publicado na Folha de São Paulo de hoje -- calhau, segundo o amigo Houaiss, é "notícia, artigo etc. utilizado para preencher espaço criado pela falta de material editorial ou por falha no cálculo da diagramação" -- faça referência à pesquisa sobre hábitos de leitura dos vestibulandos publicada pela própria Folha no ano passado. Só posso supor, porque o anúncio fala abstratamente em "pesquisa DataFolha", sem nenhuma outra referência para a fonte em questão. Não custa lembrar que até anúncios de cosméticos vagabundos que citam "pesquisas" em seu favor costumam trazer mais dados checáveis do que isso aí.

 Bem, imaginando que a pesquisa referenciada seja a mesma divulgada em novembro de 2016, vale repetir aqui o que escrevi a respeito, na época:

Aos números. Eles mostram que maioria esmagadora dos candidatos à Fuvest consome notícias online (85% dos aprovados, ante 78% dos reprovados, dentro da margem de erro declarada de 4 pontos)…