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Mostrando postagens de 2017

Baleia ou barriga?

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Em sua imortal crítica à novela Brejal dos Guajás, de José Sarney, Millôr Fernandes, irritado com o uso inadequado do condicional ("iam", "deviam") reclama: "afinal, deviam chegar ou chegavam? o autor tá aí pra dar informações, pô!". Imagino que, se o autor de uma obra de ficção "tá aí pra dar informações, pô!", o jornalista, mais ainda. Infelizmente, a grande imprensa brasileira parece estra se esquecendo disso. Caso em tela: o infame "jogo da Baleia Azul".

A coisa começou a me incomodar ontem à noite, quando o painel do Em Pauta, da Globo News, que pretensamente reúne alguns dos comunicadores mais influentes e qualificados do Brasil, começou uma discussão histérica sobre o assunto, como se a existência dessa suposta "ciranda da morte" online, manipulada por sinistros vilões anônimos "que têm de ser presos",  já fosse um fato estabelecido.

É meio deprimente ver gente como Eliane Catanhêde, que passa mais da metade…

Pós-verdade em propaganda de jornal, pode?

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Suponho que o calhau acima, publicado na Folha de São Paulo de hoje -- calhau, segundo o amigo Houaiss, é "notícia, artigo etc. utilizado para preencher espaço criado pela falta de material editorial ou por falha no cálculo da diagramação" -- faça referência à pesquisa sobre hábitos de leitura dos vestibulandos publicada pela própria Folha no ano passado. Só posso supor, porque o anúncio fala abstratamente em "pesquisa DataFolha", sem nenhuma outra referência para a fonte em questão. Não custa lembrar que até anúncios de cosméticos vagabundos que citam "pesquisas" em seu favor costumam trazer mais dados checáveis do que isso aí.

 Bem, imaginando que a pesquisa referenciada seja a mesma divulgada em novembro de 2016, vale repetir aqui o que escrevi a respeito, na época:

Aos números. Eles mostram que maioria esmagadora dos candidatos à Fuvest consome notícias online (85% dos aprovados, ante 78% dos reprovados, dentro da margem de erro declarada de 4 pontos)…

Astrologia financeira, ó céus!

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Um amigo me envia, pelo Facebook, o link para uma matéria da Folha de S. Paulo sobre "astrologia financeira". Não trato diretamente desse assunto no meu "Livro da Astrologia", mas foi só esticar o braço aqui na estante de casa e pegar o volumoso "Tests of Astrology", um compêndio publicado em Amsterdã no ano passado, que reúne e analisa centenas de experimentos envolvendo astrologia realizados nas últimas décadas. Uma olhada no índice e vi que ele contém duas páginas e meia dedicadas à aplicação da astrologia nas finanças.

A principal ilustração é essa que você vê aí em cima, comparando os preços do ouro em Londres durante os primeiros meses de 1984 e a previsão de um "consultor astrológico" para o mesmo período. Esse consultor, Daniel Pallant, não era um astrólogo qualquer, mas o diretor  de uma firma (Commodity Consultants, Ltd.) que vendia suas dicas astrológicas a clientes investidores.

O verbete em "Tests of Astrology" comenta ain…

O financiamento público da pseudociência

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A ciência brasileira está nas cordas, cambaleando, por causa de cortes drásticos no orçamento do setor -- e isso quem diz não sou eu, deu na Nature. Sintomaticamente, menos de uma semana antes, a Science havia publicado estudo mostrando que o investimento público em pesquisa científica é fundamental para o sucesso da indústria farmacêutica, base de um mercado que, em 2015, gerou receitas globais de mais de US$ 1 trilhão, ou meio Brasil.

Ninguém ignora, ainda, que toda a "economia do conhecimento" em que estamos imersos se apoia em tecnologias desenvolvidas com verbas públicas, seja por meio de dotações a universidades ou de contratos entre governos e empresas que mantêm departamentos robustos de pesquisa e desenvolvimento, além de laços com universidades.

Há quem se escandalize com isso, a privatização dos lucros gerados com conhecimento financiado pelo público, etc., mas o fato é que, pelas regras atuais do jogo global, é o gasto público em ciência que puxa o fio da meada …

Ficção científica em promoção!

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A livraria brasileira da Amazon.com incluiu dois contos meus de ficção científica em sua "Mega Oferta", que começou hoje e vai até a meia-noite do próximo dia 9 de abril. São elesDiamante Truncado e O Lamento de Suas Mulheres. O primeiro, que chegou a finalista do Prêmio Argos do ano passado, envolve um programa de pesquisa latino-americano no lado oculto da Lua, num momento do futuro em que os EUA se desintegraram por conta de conflitos internos político-religiosos e o chamado "Terceiro Mundo" cresceu para ocupar o vácuo (se a segunda parte da premissa parece fantasiosa demais, olhem para o governo Trump e digam-se se a primeira não foi profética!).

O Lamento de Suas Mulheres é uma espécie de reflexão que põe em paralelo duas visões do planeta Marte, a dos romances científicos do início do século passado -- que viam lá um cenário que misturava fantasia medieval com faroeste -- e a oferecida pela ciência moderna. O título, claro, é uma paráfrase da frase atribu…

"Science": sem investimento público, sem inovação privada

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A verba para pesquisa biomédica fornecida pelo governo dos Estados Unidos, por meio de seus Institutos Nacionais de Saúde (NIH), é fundamental para o desenvolvimento do setor privado na área, argumenta estudo publicado na revista Science. De acordo com levantamento que cobre os últimos 27 anos, 10% das dotações (“grants”) dos NIH são responsáveis diretas por novas patentes, e 30% das demais geram artigos que acabam citados em pedidos de patente subsequentes.
“Embora os formuladores de políticas públicas frequentemente ponham foco nas patentes obtidas diretamente por pesquisadores acadêmicos, o grosso do efeito da pesquisa dos NIH sobre patentes parece ser indireto”, escrevem os autores, do MIT, Harvard, Columbia e do Bureau Nacional de Pesquisa Econômica. “Também não encontramos nenhuma relação sistemática entre o foco de uma dotação em pesquisa ‘fundamental’ ou ‘aplicada’ e sua chance de acabar citada numa patente”, destacam.
“Uma interpretação é que esta pesquisa ‘fundamental’ é qu…

Bloody Murder! Estou na Mystery Weekly!

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O filósofo estoico Epicteto tem uma máxima sobre a qual todo mundo deveria meditar pela manhã -- "o que, então, você gostaria de estar fazendo quando a morte o alcançar?" -- e creio que a minha resposta seria "planejando um assassinato perfeito". Não de verdade, claro, mas para compor um conto de mistério. E essa aplicação toda está rendendo frutos: meu conto Bull's Eye é um dos destaques da edição mais recente da revista canadense de literatura policial Mystery Weekly, já disponível para venda nas plataformas digitais.

Esta é a minha terceira história de mistério a sair numa publicação internacional, e a segunda escrita originalmente em inglês: antes já tinha sido publicado em Needle: a Magazine of Noir e (em tradução) na tradicionalíssima Ellery Queen Mystery Magazine (EQMM, para os íntimos). No início do ano, assinei contrato para uma segunda publicação na EQMM, e assim que souber quando deve sair, aviso aqui.

Quem me conhece como escritor provavelmente pen…

Comida ou amigos? A origem do cérebro primata

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A dieta de espécies primatas, se comem frutas ou folhas, permite prever o tamanho do cérebro desses animais, e com precisão maior do que a oferecida pela análise de suas interações sociais, diz artigo publicado no periódico Nature Ecology & Evolution. O trabalho, de autoria de pesquisadores dos Estados Unidos, põe em questão a chamada “hipótese do cérebro social”, segundo a qual o desenvolvimento do cérebro nos primatas teria sido estimulado, principalmente, pela convivência em grupos.

Embora a ideia do “cérebro social” tenha encontrado apoio em estudos que indicavam correlação entre o tamanho dos bandos e o tamanho relativo do cérebro, ponderam os autores, “os efeitos descritos de diferentes sistemas de organização social e sistemas de acasalamento são conflitantes”.

“Aqui, usando uma amostra muito maior de primatas (...) e técnicas estatísticas atualizadas, mostramos que o tamanho do cérebro é predito pela dieta, e não por diversas medidas de sociabilidade”. Leia mais sobre o ass…

Genitália no Santo Sudário

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Desculpe se o título da postagem soa irreverente ou blasfemo, mas não é culpa minha: o fato é que uma dupla de cientistas italianos acaba de publicar um paper alegando, and I kid you not, que é possível ver o contorno do escroto de Jesus na imagem do Sudário de Turim. Para a edificação de meus leitores, reproduzo a imagem acima, na abertura da postagem.

O artigo descreve as técnicas digitais usadas para "restaurar" e "limpar" a foto do sudário. Os autores estavam, originalmente, procurando melhorar a visibilidade das mãos (queriam encontrar sinais dos polegares, porque aparentemente há algum debate sobre a posição final dos polegares de uma vítima de crucificação, já que os pregos afetariam os nervos), e a descoberta do saco escrotal parece ter sido uma feliz coincidência.

O artigo foi publicado no periódico Journal of Cultural Heritage, que aparentemente não representa um dos esforços mais coruscantes da mega-editora científica Elsevier. Os autores, como fica cla…

Calor segue matando corais no Pacífico

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Pelo menos 40% da comunidade de coral do Atol de Dongsha, no Mar do Sul da China, morreu por causa de uma elevação de 2º C na temperatura das águas da superfície em junho de 2015, informa artigo publicado no periódico online Scientific Reports, do Grupo Nature. Os autores do trabalho apontam que esse aumento pontual da temperatura, causado pelo El Niño, normalmente não seria suficiente para causar tanto dano, mas condições de ventos fracos acabaram agravando a concentração de água aquecida na área, levando a temperatura local a exceder em 6º C a média de verão.

“Um branqueamento em massa do coral se seguiu rapidamente, matando 40% da comunidade residente num evento sem precedentes nos últimos 40 anos”, escrevem os autores, dos Estados Unidos, Austrália e Taiwan. “Nossas descobertas põem em evidência os riscos de um aquecimento de 2º C do oceano aos ecossistemas de recifes de coral, quando processos locais e globais se alinham para impulsionar um aquecimento intenso, com consequências…

Bárbaros, mas boa gente

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Análise de ossos de cemitérios húngaros do século 5 EC, localizados na fronteira do que era então a província romana de Panônia, indica que a entrada na Europa Oriental dos nômades hunos, nos anos finais do Império Romano, envolveu não apenas saques e violência, mas também estratégias pacíficas de coexistência. Pesquisadores britânicos e húngaros analisaram a composição isotópica – os diferentes tipos de átomos de um mesmo elemento – do colágeno dos ossos e do esmalte e da dentina dos dentes dos corpos encontrados.

Essa composição, explicam os autores do trabalho publicado no periódico de livre acesso PLoS ONE, permite deduzir hábitos de dieta. Além disso, uma variação grande na composição isotópica num mesmo esqueleto sugere um modo de vida nômade, em que o indivíduo consome alimentos de diferentes origens geográficas ao longo da vida.

A análise mostrou que ambas as populações, tanto os agricultores sedentários da fronteira da Panônia quanto os nômades/invasores hunos, tinham dietas a…

O baixo-ventre da divulgação científica

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A língua inglesa tem uma palavra, underbelly, que comumente é vertida como "baixo-ventre", mas que comporta também o sentido metafórico, meio intraduzível, de face sórdida, oculta, podre e vulnerável de alguma coisa. A expressão sempre me faz pensar no lado de baixo de uma tora caída na floresta, em contato constante com o solo úmido, decompondo-se em gases malsãos e alimentando criaturas assustadoras de todo tipo.

Uma característica perturbadora do underbelly é que, assim como sua tradução literal, o baixo-ventre, ele é parte indissociável do corpo principal: um não existe, não vive, sem o outro. Todas as profissões têm, imagino, seu underbelly, aquela parcela de profissionais que não podem simplesmente ser descartados como corruptos ou renegados como charlatões,  mas dos quais os colegas de boa-fé e boa reputação gostariam de se afastar o máximo possível.

Na minha área específica, a divulgação-barra-jornalismo de ciência, o underbelly é formado pela ampla categoria que co…

"Professor Fraude", num conselho editorial perto de você

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Um grupo de pesquisadores poloneses apresenta, em artigo de opinião publicado na Nature, o resultado de uma “operação secreta” realizada para testar a idoneidade de centenas de publicações que se apresentam como periódicos científicos com revisão pelos pares, e põe em evidência a proliferação de periódicos predatórios, mais preocupados em recolher taxas de publicação dos autores do que em apresentar ciência de qualidade.

Depois de descrever como estavam assustados com os convites, quase diários, que recebiam para integrar os conselhos editoriais de periódicos obscuros, os psicólogos Piotr Sorokowski, Agnieszka Sorokowska e Katarzyna Pisanski, juntamente com o filósofo Emanuel Kulczycki, relatam como criaram uma cientista fictícia – Anna O. Szust, ou “Anna Fraude”, em polonês –, com um currículo fraco e cheio de inconsistências. Em nome dessa “Professora Fraude”, enviaram e-mails a 360 periódicos, oferecendo os serviços dela como editora.

“O perfil era tristemente inadequado”, explica…

Pressão, inexperiência, caráter? Causas de viés de ciência

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Cientistas em início de carreira, trabalhando em grupos pequenos ou com colaboradores distantes e publicando em periódicos com revisão pelos pares são os que mais correm risco de divulgar resultados exagerados ou inválidos, aponta artigo sobre vieses e distorções na literatura científica publicado no periódico PNAS. O artigo também aponta que a integridade pessoal (ou falta dela) do pesquisador individual tem um peso maior na produção de falsos resultados do que a pressão social no meio acadêmico por mais publicações.
Com o título “Meta-assessment of bias in Science” (“Meta-avaliação do viés na Ciência”), o trabalho tem entre seus autores John P. Ioannidis, do Centro de Inovação em Meta-Pesquisa de Stanford (Meta-Research Innovation Center at Stanford, ou METRICS, na sigla em inglês), que há vários anos se dedica a expor as distorções da literatura científica.

Neste novo trabalho, Ioannidis e coautores debruçaram-se sobre uma série de meta-análises de diversas áreas. Como meta-análise…

Micróbios astronautas no sistema TRAPPIST-1

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Se a vida surgiu em pelo menos um dos sete planetas localizados em órbita da estrela TRAPPIST-1, há uma alta probabilidade de que ela tenha se espalhado pelos demais, aponta estudo publicado no repositório de artigos científicos de exatas ArXiv. Os trabalhos lançados no ArXiv ainda não passaram por revisão pelos pares, mas são oferecidos para discussão pela comunidade acadêmica e podem acabar sendo aceitos por periódicos estabelecidos.

Os autores do artigo, da Universidade Harvard e do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, propõem um modelo para calcular a probabilidade de ocorrência de eventos em que rochas ejetadas ao espaço por um planeta, após o impacto de um cometa ou asteroide, transportem micróbios viáveis para outro, num processo chamado “litopanspermia”. Leia nota completa no Telescópio.

O primeiro português

Um crânio hominino datado de 400 mil anos atrás foi descoberto num sítio arqueológico português, a Gruta da Aroeira, informa artigo publicado no periódico PNAS. A época coincide com a do aparecimento de vestígios do Homem de Neandertal no registro fóssil, e o crânio foi encontrado junto de restos de animais e ferramentas de pedra similares às da cultura acheulense, um tipo de tecnologia normalmente associada, na África, ao Homo erectus, uma espécie mais antiga que o neandertal.

Essa tecnologia é especialmente conhecida pela presença de “bifaces”, pedras lascadas de modo a assumir uma forma de gota, arredondada numa extremidade e pontuda na outra, lembrando uma cabeça de machado. O crânio da Aroeira representa o fóssil humano europeu localizado mais a oeste já encontrado para seu período – o Pleistoceno Médio –, e um dos mais antigos do continente a ser associado à tecnologia acheulense. Leia mais a respeito no Telescópio.

Rankings universitários: para que servem

“Sou da lógica de que a gente só conhece o que a gente pode medir. Se a gente não mede, é percepção. Sua universidade é inclusiva? Mostre. Sua universidade é produtiva? Mostre”. Assim a jornalista e pesquisadora Sabine Righetti explica sua visão da necessidade de indicadores de desempenho da educação superior, sejam ou não consubstanciados em rankings. Righetti defendeu a tese de doutorado “Qual é a melhor? Origem, limitações e impactos dos rankings universitários”, defendida no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, como parte do Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica. A tese teve orientação do professor Renato Pedrosa, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Ensino Superior (LEES).

A tese em si representa um levantamento pioneiro do que a literatura especializada traz sobre os impactos dos rankings universitários na gestão das universidades, nas políticas públicas e na decisão dos alunos, além da análise desses impactos sobre uma instituição específica,…

Imunoterapia para símios, contra HIV

Um tratamento de imunoterapia, baseado em injeções de dois anticorpos clonados de pacientes humanos com grande resistência natural ao HIV, mostrou-se promissor num teste em macacos, aponta artigo publicado online na tarde de segunda-feira pela revista Nature.

Os anticorpos, 3BNC117 e 10-1074, foram isolados na Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos. Em janeiro deste ano, a Universidade reportou bons resultados do primeiro teste em humanos de injeções de 10-1074, num pequeno estudo envolvendo 19 voluntários portadores de HIV e 14 pacientes saudáveis.

Nesse trabalho, a maioria dos doentes tratada com altas doses do anticorpo teve rápido declínio na concentração de vírus. Parte dos vírus se mostrou resistente, no entanto, e em pesquisas de laboratório essas cepas foram eliminadas, com sucesso, pela aplicação do outro anticorpo, 3BNC117. A pesquisa foi realizada em parceria com a Universidade de Colônia, na Alemanha, e publicada em Nature Medicine. Para saber mais dos novos resultados…

A nova casa do Telescópio

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Faz alguns anos, comecei uma coluna semanal para o Jornal da Unicamp chamada "Telescópio", com um resumo do que de mais legal (em minha opinião) saía na literatura científica mundial e, de um modo ou de outro, chegava à imprensa. Foram, até dezembro do ano passado, 90 páginas produzidas. 
Com a migração do Jornal para a plataforma 100% digital no início deste ano, a coluna passou a ser diária -- ou o mais perto disso que eu consiga fazer -- e as notas foram crescendo em tamanho. Sem o limite de espaço imposto pelo papel dá para explicar um pouco melhor os assuntos, mas ainda assim há a preocupação de não esticar demais os textos.
Ainda estou procurando um equilíbrio entre os temas, para não cair na tentação de só me apegar às pautas "quentes" do dia, tentação que é forte, agora que o online traz a oportunidade de marcar os embargos para imprensa -- isto é, os horários a partir dos quais é permitido divulgar a pesquisa para o público -- em cima do lance. Saber que …

Levedura sintética a caminho

A Science desta semana traz um pacote de sete artigos, assinados por integrantes do consórcio internacional Synthetic Yeast Genome Project (Projeto Genoma Artificial da Levedura), que descrevem a construção de cinco cromossomos sintéticos para o organismo Saccharomyces cerevisiae – anteriormente, já se havia produzido um cromossomo artificial da levedura.

Leveduras, que em sua forma natural são usadas na fabricação de cerveja e na fermentação de outras bebidas e alimentos, já são geneticamente modificadas para produzir biocombustíveis e medicamentos. O consórcio espera realizar, no futuro, a construção de um genoma sintético completo de levedura (chamado Saccharomyces cerevisiae 2.0) com 16 cromossomos artificiais, abrindo toda uma nova gama de possíveis aplicações.

“A otimização da levedura natural para novos produtos é ineficiente”, disse um dos autores da série de trabalhos, Joel Bader, da Escola de Medicina Johns Hopkins, em nota divulgada pela instituição. “Nosso conjunto sintético…

Os dentes do neandertal

Um homem de neandertal que viveu há mais de 40 mil anos nas Espanha era vegetariano, tinha abcesso dentário, diarreia e, talvez por causa desses problemas de saúde, mascava plantas que são fontes de ácido salicílio (princípio da aspirina) e penicilina. Sabemos tudo isso a seu respeito graças a uma análise do tártaro de seus dentes, preservados numa caverna, à espera da chegada dos modernos paleontólogos. O trabalho completo está publicado na revista Nature, mas dá pra saber um pouco mais acessando o Telescópio do Jornal ad Unicamp Online.

Como as pessoas escolhem notícias no Facebook?

O consumo de notícias via Facebook é, ao mesmo tempo, polarizado e cosmopolita, mostra estudo publicado no periódico PNAS: polarizado no sentido de que cada usuário parece perseguir uma versão pessoal preferida dos fatos, e cosmopolita no de que, nessa caçada à narrativa favorita, há pouca discriminação de origem geográfica da fonte. O resultado sugere que o sucesso das chamadas “notícias falsas” nas redes sociais é causado mais por preferências ideológicas do que por problemas de checagem e validação do noticiário. (Leia a nota completa no novo Telescópio do Jornal da Unicamp Online)

Artigos para "O Amálgama"

Assumi, agora em março, o desafio de produzir pelo menos um artigo mensal para a Revista Amálgama. Já colaborava esporadicamente com a publicação há alguns anos, e assisti à sua migração da esquerda do espectro político brasileiro para a direita -- quando comecei a publicar lá eu era talvez o maior reaça da turma, e hoje me vejo, por contraste, como um quase-socialista ali no meio.

Esse movimento da linha editorial, que afastou leitores e colaboradores (antes de atrair outros), só fez aumentar meu apreço pela publicação: mostra que o editor-chefe e mentor do projeto, Daniel Lopes, não tem medo de ir aonde a consciência e a reflexão o levam, e danem-se as panelinhas. Um brasileiro capaz de trocar o conforto das claques pela fidelidade a si mesmo é artigo raríssimo, ainda mais neste ambiente de polarização tóxica em que nos encontramos.

A relação de minhas colaborações com a revista pode ser encontrada aqui. A pauta que seguirei lá será menos específica que a que mantenho neste blog, ma…

Matriarcado pré-histórico na América

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Análise genética de um cemitério pré-histórico localizado onde hoje fica o Estado do Novo México, nos Estados Unidos, mostra que o status naquela sociedade era transmitido pela linha materna: nove dos corpos sepultados numa cripta de elite têm laços de parentesco evidenciados pelo DNA mitocondrial, que é transmitido pela linha materna.
O povo de Chaco Canyon, que floresceu no sudoeste norte-americano por volta do ano 1000 da Era Comum, vivia em edifícios de pedra, chamados Casas Grandes. Os corpos foram encontrados na chamada Sala 33 de Pueblo Bonito, a maior dessas casas, com 650 salas no total. A Sala 33 é considerada o mausoléu de uma família importante, e foi usada por mais de três séculos. O trabalho, de autoria de pesquisadores dos Estados Unidos, foi publicado em Nature Communications.

Além dos genomas mitocondriais idênticos, os corpos sepultados também tiveram parentes constatado pelo DNA nuclear, que “demonstra relações mãe-filha e avó-neto, evidência de um grupo matrilinear…

Múltiplos mundos habitáveis: história e ficção

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Sete planetas, com massas estimadas entre metade e o dobro da do planeta Terra e temperaturas capazes de suportar a existência de água em estado líquido, foram encontrados em órbita de uma diminuta estrela a 39 anos-luz da Terra. É verdade que se fala que apenas três deles estão na chamada “zona habitável” da estrela, mas esse conceito de “habitável” é, para dizer o mínimo, controverso: para defini-la corretamente, é preciso levar em consideração muitos outros fatores para além da irradiação estelar, como, por exemplo, a atividade geológica. No nosso próprio Sistema Solar, afinal, as luas de Júpiter e Saturno, que estão bem fora da zona habitável ortodoxa, são hoje os principais candidatos a abrigar formas de vida extraterrestre.


Com massa que é apenas 8% da do Sol, a estrela, chamada TRAPPIST-1, é uma “anã vermelha gelada”, pequena e de temperatura relativamente baixa. A descoberta é descrita na revista Nature. Para os fãs de quadrinhos, é curioso lembrar que a estrela do planeta Kr…

Suplemento alimentar e a fosfogringa

A categoria "suplemento alimentar" é um monstrengo inventado pelo Congresso americano nos anos 90 para acomodar o lobby de companhias que queriam poder vender pílulas e cápsulas prometendo benefícios de saúde sem, no entanto, ter de se submeter a incômodos burocráticos como oferecer prova científica de que o produto é útil e seguro.

O início do século 20 viu o auge da era do "remédio de patente", misturas misteriosas, muitas vezes à base de álcool e drogas pesadas, vendidas livremente com a promessa de operar curas milagrosas. Se você acha que os pais de hoje exageram na ritalina, em 1900 as mães americanas ou britânicas que precisavam trabalhar fora davam a seus filhos o Xarope Calmante da Senhora Winslow, uma mistura de morfina, álcool e amônia. Bastava uma colher de sopa para nocautear os pequerruchos por várias horas.
No fim da década de 30, uma fábrica de remédios, também nos Estados Unidos, resolveu criar uma versão do antibiótico sulfanilamida que fosse agr…

Internet nos anos 90: meninos, eu vi

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Uma conversa rápida no Facebook me lembrou de que, ano passado, fez 20 anos que comecei a trabalhar com jornalismo na internet -- havia entrado para a equipe online da Agência Estado um pouco antes do início dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Cobrimos os jogos em "tempo real", ou o mais parecido com isso que era possível na época da conexão discada: pegar os resultados das modalidades pela TV ou nas agências internacionais, redigir os textos (curtos!), montá-los no editor HTML e passar pro pessoal da TI (que não chamava TI, e sim "informática") "subir" a edição no FTP -- isso é file transfer protocol pra vocês aí da geração nutella-banda larga. Fazíamos quatro edições por dia. Havia um debate acalorado sobre se valeria a pena fazer uma edição de madrugada (quem fica ligado no computador depois das dez da noite? povo não tem nada melhor pra fazer?).

[NOTA: Edmundo Leite me lembra de que, na verdade, a cobertura dos jogos de 96 teve um esquema especial…

Trump contra a ciência

A comunidade científica dos Estados Unidos vinha prendendo a respiração, esperando pelo pior, desde o anúncio da vitória de Donald J. Trump na eleição para a Casa Branca. Já se sabia, afinal, que Trump é um negacionista do aquecimento global antropogênico e que seu vice, Michael Pence, não acredita no elo entre tabaco e câncer de pulmão. Após a cerimônia de posse, ficou claro que Sean Spicer, o assessor de imprensa da Casa Branca, não acredita em aritmética. O fato de jornalistas não terem perguntado aos membros da nova administração o que pensam a respeito da forma da Terra, de sua posição no espaço relativa ao Sol e, crucialmente, de que tipo de queijo a Lua é feita é, talvez, um ato de caridade para com o Partido Republicano.

Durante o período de transição, Trump logo confirmou os piores pesadelos de seus mais virulentos detratores dentro da comunidade científica. A lista de atrocidades é ampla, mas um exemplo: no início de janeiro, ainda presidente-eleito, convidou Robert Kennedy J…

Eike e as estrelas

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Meu Livro da Astrologia trata, em diversos pontos, da influência das previsões astrológicas na política, mas não falo sobre economia. Depois de ver a notícia abaixo na Folha de S. Paulo de hoje, no entanto, pergunto-me se não seria o caso de escrever um posfácio:


As pessoas talvez fiquem surpresas ao saber que investidores com bilhões em jogo dão atenção a coisas como mapas astrais, mas a verdade é que, quando se compara o mundo das altas finanças a um cassino, a metáfora está muito mais próxima da realidade do que o mito de um mercado regido por decisões racionais de agentes ideais bem-informados sugere. Sempre que risco e incerteza entram em jogo, a superstição nunca está muito longe.

Falando especificamente de "consultoria" financeira e administração de investimentos, sempre que se busca ir além do óbvio ditado pelo bom-senso, torna-se virtualmente impossível distinguir competência de simples sorte (ou venalidade, como em casos em que a posse de informação privilegiada cr…

Torquemadas bem intencionados

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O argumento geral da Inquisição era bem simples: se você acredita que quem não segue a Igreja vai para o inferno, então quem questiona a Igreja em público está cometendo um crime horrível -- tentando convencer gente inocente de mentiras e, por tabela, levando essas pessoas para o inferno! Nessa lógica, faz todo o sentido espancar, calar ou matar os hereges: ao fazer isso, o fiel prejudica um ser humano que provavelmente já estava perdido, mesmo, mas salva milhões.

De fato, é um argumento tão simples, lógico, cogente e cristalino que a Inquisição católica representou apenas uma dentre muitas manifestações terrestres dessa espécie de ideal platônico de pureza intolerante. Outros casos emblemáticos que costumam ser muito citados são os das fogueiras de livros do nazismo, e os expurgos soviéticos. As únicas coisa que mudam, de uma iteração para outra, são o nome da "igreja", a definição de "herege" e a conceptualização de "inferno".

É importante notar que, d…