Postagens

Mostrando postagens de 2017

Baritsu!

Imagem
E eis que, na véspera de Natal, os Correios saem de sua notória letargia e me entregam o número 11 do volume 5 de The Watsonian: The Journal of the John H. Watson Society, edição de novembro de 2017, que traz meu paper "The Truth About Baritsu". A John Watson H. Society, como o nome sugere, é uma organização dedicada ao estudo da vida e obra de John H. Watson, médico, soldado, escritor e biógrafo de Sherlock Holmes.

Meu artigo investiga a natureza do "baritsu", a arte marcial que permitiu que Holmes lançasse o professor Moriarty nas cataratas de Reichenbach e escapasse com a vida. A maioria das autoridades -- incluindo Baring-Gould, Leslie Klinger e o editor da edição crítica de The Return of Sherlock Holmes publicada pela Universidade de Oxford, Richard Lancelyn Green, concordam que "baritsu" é uma corruptela de "bartitsu", uma adaptação do jiu-jitsu criada por E. W, Barton-Wright em 1899.

Quanto ao óbvio anacronismo -- a luta entre Holmes e Mo…

Um ano estranho

Imagem
Semanas atrás, durante um jantar na casa de um amigo, perguntaram-me como tinha sido meu ano. A única palavra que me ocorreu em resposta foi: "estranho". Como esta é a época em que blogs e outros canais de interação online costumam fazer seus balanços e deixar votos para o novo ciclo solar que se inicia, resolvi entrar na onda e elaborar um pouco mais sobre essa estranheza de 2017.

O ano começou muito bem, com a confirmação de que a Ellery Queen Mystery Magazine iria comprar um conto meu -- o segundo vendido a eles, e o primeiro escrito originalmente em inglês (o primeiro saiu em 2014; o segundo não foi publicado ainda). Logo em seguida, a canadense Mystery Weekly Magazine também confirmou seu interesse numa história minha, e tive o vislumbre de uma carreira como escritor de contos policiais para o mercado internacional (que continua em formação: a Mystery Weekly comprou outra história, agora em novembro).

Mas depois desse influxo inicial de boas notícias logo me vi precisa…

O Pentágono e os discos voadores

Imagem
Deu no New York Times: durante cinco anos deste século, entre 2007 e 2012, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos gastou U$ 22 milhões de seu "black budget" -- o orçamento secreto usado para financiar coisas, bem, secretas -- com algo chamado Programa de Identificação de Ameaças Aeroespaciais Avançadas. Em linguagem normal, um departamento secreto de caça a discos voadores.

O dinheiro e o departamento apareceram graças a uma aliança de três senadores (dois democratas e um republicano) interessados em ufologia.  O principal artífice da ideia foi Robert Reid, do Partido Democrata de Nevada. Parece haver uma certa afinidade entre os democratas e a ufologia, amis ou menos como há entre republicanos e criacionismo: John Podesta, estrategista de campanha de Hillary Clinton, é um crente de teorias de conspiração envolvendo alienígenas.

O programa financiado por Reid não representa a primeira vez que militares americanos se interessam por óvnis, claro. De 1952 a 1969, o Projet…

Fim do ano, fim da newsletter

Imagem
Há alguns meses, comecei a produzir uma newsletter -- um e-mail semanal, enviado a assinantes --, chamada Em Órbita, com um resumo das principais descobertas científicas anunciadas nos grandes periódicos (Science, Nature, etc.) que haviam circulado na semana. Hoje, despachei a edição final.

Nos meses em que esteve no ar, a Em Órbita falhou em atrair um número de assinantes que viabilizasse sua continuidade. Foi um experimento interessante, mas que se revelou inviável, a despeito de meus esforços em promover a ideia. Com novos projetos em vista para o próximo ano, não considerei responsável manter o compromisso de seguir produzindo-a.

É provável que o botão com a opção de assinatura da newsletter continue a aparecer em postagens antigas do blog. Vou tentar eliminá-lo do máximo de publicações possível, mas isso deve tomar algum tempo (e talvez alguma página escape). Peço desculpas por qualquer transtorno que isso possa causar.

Agradeço a quem apoiou a Em Órbita até aqui.

"Dizem estudos": o caso do vinagre de maçã

Imagem
Outro dia fui ao mercado comprar vinagre de maçã -- por nenhuma outra razão além da de que é o tipo de vinagre que a Mais Paciente de Todas as Esposas gosta de usar na salada -- e fiquei surpreso ao ver que, em vez de estar engarrafado em plástico, ao lado dos vinagres de vinho tinto, vinho branco e álcool, o de maçã agora aparecia em garrafas de vidro, como as de vinagre balsâmico, e custava mais que os outros. Bem mais.

Voltei para casa resmungando contra essa onda insuportável de gourmetização do trivial e não pensei muito mais no assunto, até me deparar com esta postagem do blog de Edzard Ernst,  médico e pesquisador alemão radicado na Inglaterra e, possivelmente, o maior especialista em medicina alternativa do mundo (spoiler: ele concluiu que essas coisas não prestam). No blog, Ernst comenta que o vinagre de maçã vem sendo promovido como uma panaceia por certos veículos de mídia de "estilo de vida" e "bem-estar". A lista de supostos benefícios vai de aumentar…

A dieta do brasileiro e as emissões de CO2

Imagem
A dieta média do brasileiro gera uma emissão de gases causadores do efeito estufa 200% maior que a de outros países da mesma faixa de renda, aponta estudo publicado no periódico PNAS. "Isto se deve provavelmente tanto à quantidade de carne na dieta, e à preponderância de gado alimentado com capim", apontam dos autores. A eutrofização -- a contaminação das águas por nutrientes -- causada pela criação de gado no Brasil também é elevada.

O estudo, intitulado Evaluating the environmental impacts of dietary recommendations ("Avaliando o impacto ambiental das recomendações de dieta"), compara o impacto ambiental da dieta média de diversos países, separados por faixas de renda, ao impacto que haveria se cada população adotasse a dieta recomendada pelas autoridades sanitárias nacionais.

Em linhas gerais -- há exceções --, os autores determinaram que, nos países de renda alta e média, as recomendações governamentais trazem impacto ambiental menor que a dieta média. Já em a…

Deu na "Science": armas fazem mal para a saúde

Imagem
Após o massacre de crianças na escola de Sandy Hook, nos EUA, em dezembro de 2012, quando 20 crianças e seis adultos foram mortos por um atirador, houve um aumento na circulação de armas de fogo no país, um efeito captado pelas estatísticas de verificação de antecedentes -- requerida, em alguns Estados, para a compra legal de armamento -- e, também, pelo aumento de buscas no Google sobre como adquirir e fazer a manutenção de armas de fogo. Cerca de 3 milhões de armas foram compradas nos cinco meses que se seguiram ao ataque, o que representou um pico na série histórica.

Artigo publicado na revista Science vincula a maior exposição a armas de fogo -- exposição causada não só pelas compras, mas também pelo aumento na circulação de armas que estavam guardadas --  a uma elevação na taxa de mortes acidentais causadas por essas armas. Pelo menos 60 vidas foram perdidas em disparos acidentais no mesmo período de cinco meses, para além do que seria esperado, estatisticamente, em condições no…

Censo do paranormal

Imagem
Atlântida, casas mal-assombradas e alienígenas do passado são as três crenças paranormais (eu diria, pseudocientíficas) mais prevalentes entre a população dos Estados Unidos em 2017, de acordo com pesquisa conduzida pela Universidade Chapman, da Califórnia.A pesquisa Paranormal America é  uma espécie de apêndice da  Survey of American Fears, que a cada ano pergunta aos americanos do que eles mais têm medo. A grande novidade da pesquisa sobre medo deste ano, em relação à do ano passado, é que a política de saúde de Donald Trump superou o terrorismo na segunda posição (a primeira segue sendo ocupada pela corrupção).
De acordo com o levantamento sobre crenças paranormais, 75% da população se fia em alguma delas, sejam alienígenas, videntes, Pé-Grande ou almas penadas (a lista completa aparece na imagem no alto desta postagem). A análise demográfica dos respondentes indica que baixa renda e alta religiosidade são os dois fatores que mais se correlacionam com crença no paranormal. 
Curios…

Novidades literárias!

Imagem
Novembro foi um mês de algumas novidades na minha carreira literária um tanto quanto intermitente. No último dia do mês, fui informado de que minha antologia de contos Mistérios do Mal está indicada ao Prêmio Argos, o principal -- para não dizer único -- prêmio brasileiro de literatura fantástica (ficção científica, fantasia, terror). Já recebi dois Argos de melhor conto no passado, mas esta é a primeira vez que tenho um livro inteiro indicado, na categoria antologia.

Mistérios do Mal reúne parte significativa do que escrevi no gênero de terror/horror entre 1990 e 2001, e é recompensador ver que as histórias, ao que parece, não envelheceram tão mal assim. A cerimônia de entrega do Argos acontece em meados de dezembro, no Rio de Janeiro; se eu ganhar, aviso aqui.

No front internacional, a pequena editora americana Dark Moon Books divulgou a lista de autores de sua antologia A World of Horror, que como o título sugere reúne contos de horror de várias partes do mundo -- da Austrália a Uga…

Mulheres jovens são as principais vítimas das falsas "curas" do câncer

Imagem
Mulheres jovens, de ato nível educacional e alta faixa de renda são as principias usuárias de terapias alternativas contra o câncer, e quem faz a opção por essas terapias, em substituição a tratamentos convencionais como radioterapia e químio, tem até dez vezes mais chance de morrer por causa doença. No caso específico de câncer de mama, o risco de vida médio, para quem opta por tratamentos alternativos, é mais de três vezes maior do que o de quem escolhe a via convencional.

Esses dados aparecem no estudoUse of Alternative Medicine for Cancer and Its Impact on Survival, publicado no periódico "Journal of the National Cancer Institute". O trabalho comparou  281 pacientes, que optaram por abrir mão de tratamentos convencionais e abraçar terapias alternativas, a 560 pacientes que seguiram a medicina tradicional. Foram arrolados pacientes com câncer de pulmão, próstata e mama. Pacientes dos dois grupos, tratamento alternativo ou convencional, foram associados de acordo com cara…

Livro dos Milagres no Natal!

Imagem
Óquei, sei que o título da postagem ficou infame, mas não está totalmente fora de propósito (um dos capítulos de O Livro dos Milagres trata, exatamente, do nascimento virgem). Este foi meu primeiro livro de divulgação científica, e aborda assuntos como curas pela fé, aparições marianas, exorcismos e quetais -- sob um ponto de vista cético, com referências às pesquisas científicas realizadas sobre o tema. Foi lançado originalmente pela editora Vieira & Lent -- que está sendo desativada neste ano -- em 2011.

Tenho ainda algumas dezenas de exemplares aqui em casa. Estou vendendo por R$ 40 cada, autografado e com o frete incluso. Para comprar, é só clicar no botão abaixo e depois seguir as instruções do PayPal:



Minha palestra no TEDx USP

Imagem
No fim de outubro, participei do evento TEDx USP -- Interações, onde fiz uma palestra sobre as lições que uma carreira meio bizarra no mundo do jornalismo científico, escrevendo sobre pirâmides em Marte, avistamentos do Pé-Grande e correntes de e-mail denunciando a internacionalização da Amazônia me ensinou e que pode ajudar as pessoas a navegar este mundo de bolhas online, pós-verdade e fake news.

Mais pessoas participaram, cada uma tratando de um tema diferente: Átila Iamarino, Mathhew Shirts, Sabine Righetti, André Souza, Pedro Kyatt, Hugo Aguilaniu, Mayra Castro e Natália Pasternak Taschner. Os vídeos do Átila e do André já estão no ar enquanto escrevo, os demais devem aparecer em breve.

Um TEDx é um evento que segue os padrões das TED Talks, como seu lema "ideias que vale a pena espalhar", mas organizado de forma independente (daí o "x"). Neste caso, como o nome TEDx USP diz, a organização coube à Universidade de São Paulo.

O convite para participar desta edi…

Thor, deus da antimatéria

Imagem
Me diverti com Thor - Ragnarok. [Spoilers ahead] Como um leitor antigo dos quadrinhos, no entanto, fiquei desapontado com a forma com que o o filme desperdiça a história da redenção do Executor, para mim um dos momentos mais trágicos, reveladores e emocionantes da história das HQs de super-herói: fiquei com aquilo entalado na garganta por dias, e até hoje consigo me lembrar da montagem exata da página. Acho que o Walt Simonson devia ter se aposentado depois daquilo: sua contribuição à Arte e à Humanidade estava dada.

Talvez esse meu incômodo com o Executor (não só a história é desperdiçada, como o ator, Karl Urban, que certamente poderia ter tirado mais do personagem) reflita, em parte, o que incomodou outras pessoas que viram o filme e com quem conversei. A maioria teve uma reação do tipo "é muito legal, mas alguma coisa ficou esquisita".

O "esquisito" pode muito bem ser a atrofia da dimensão trágica do filme, exemplificada no caso do Executor -- que só fica cla…

Trevas no coração do jornalismo "de bem-estar"

Imagem
Sempre tive um certo pé atrás com o modo, digamos, "canônico" de se fazer jornalismo de saúde na grande imprensa brasileira. Há uma fórmula: parte-se de uma condição (uma doença -- digamos, câncer de pulmão), de um tratamento e/ou mecanismo preventivo (digamos, uma nova técnica cirúrgica, talvez uma vacina recém-lançada) ou de uma conduta (pode ser fumar, deixar de fumar, vacinar-se, não vacinar-se).

A partir daí, buscam-se os chamados "personagens", que são pessoas que sofrem da condição/submeteram-se ao tratamento/têm ou não têm a conduta. Até algum tempo atrás, matéria de saúde em jornalão, sem personagem, era algo quase tão herético quanto matéria de economia sem o Maílson da Nóbrega. E isso porque o Maílson deu uma sumida, mas os personagens, não.

Se o núcleo de personagens envolver uma família (a combinação de criancinha fofa doente com mamãe guerreira, cheia de esperança, mas com lágrima -- quase imperceptível -- no canto do olho é especialmente matadora), …

Inteligência, adaptação: quando o que é demais atrapalha

Imagem
Dois estudos publicados neste ano -- um no início do semestre, outro nesta semana -- indicam que há contextos em que realmente é possível ser "bom demais para o próprio bem". Um deles trata da relação entre liderança de equipes de trabalho e inteligência e o outro, com adaptação ao ambiente e evolução das espécies. Ambos são destaque na minha newsletter nesta semana (detalhes abaixo).

O primeiro, realizado na Europa e publicado no periódico Journal of Applied Psychology sugere que inteligência muito alta, tal como medida em bons testes de QI, pode atrapalhar o exercício da liderança. O levantamento, que comparou características de personalidade e inteligência de mais de 300 administradores de nível hierárquico médio com suas qualidades para o papel de liderança, auferidas em questionários preenchidos por colegas de trabalho e subordinados.

Os autores encontraram uma relação de "U" invertido: quanto maior a inteligência, melhor a performance do líder era avaliada -…

Aventuras na Não-História

Imagem
Avram Davidson foi um dos grandes escritores americanos do século passado, e é uma pena que seja tão pouco lembrado hoje em dia. Além de ter produzido obras maravilhosas de ficção científica, mistério e fantasia (sua série de contos Adventures of Doctor Eszterhazy, sobre uma Era Vitoriana alternativa onde as superstições e pseudociências da época realmente "funcionavam", é uma série da Netflix ou HBO esperando para acontecer), ele também produziu algumas peças tão divertidas quanto eruditas de não-ficção, reunidas no volume Adventures in Uhhistory.

Neste livro, Davidson especula sobre as origens de algumas lendas que, durante certo tempo, foram consideradas por certas pessoas (ou por povos inteiros) fatos históricos -- como o Preste João, por exemplo, um suposto rei cristão que existiria no Oriente, durante a  Idade Média.

O tipo de "não-história" coberto em Adventures é, ao menos sob o ponto de vista atual, fundamentalmente benigno, mas há modalidades bem menos i…

Medindo o poder da mídia com ciência

Imagem
A exposição de um assunto na mídia, mesmo que apenas através de veículos de pequeno ou médio porte, é capaz de modificar a opinião pública -- e se não chega a mudar as opiniões individuais dos membros do público, ao menos afeta o tom e o conteúdo da " grande conversação" da sociedade. Esse fenômeno, que até agora só havia sido captado indiretamente, foi quantificado num estudo ambicioso publicado na revista Science desta semana.

Os autores, da Universidade Harvard e do MIT, inspirados nos protocolos usados para testar tratamentos médicos, desenvolveram um método para aplicar a "droga" de sua escolha (no caso, conteúdos jornalísticos específicos), de forma controlada e randomizada, à "população de tratamento" -- no caso, o público dos Estados Unidos.

Os autores firmaram parceria com mais de 40 veículos de pequeno ou médio porte, que concordaram em produzir conteúdo a partir de um cardápio de 11 questões de política pública -- raça, imigração, emprego, abo…

Lições de um fosfofracasso

Imagem
As autoridades sanitárias do Estado de São Paulo finalmente apresentaram ao público -- ainda que de forma limitada -- os resultados do teste, patrocinado por essa unidade da Federação, da chamada "fosfoetanolamina sintética" em pacientes de câncer. O desfecho foi considerado "desanimador", e com razão: de mais de 70 pacientes envolvidos, apenas um mostrou sinais de progresso.

Aqui, é importante notar que o estudo paulista foi feito sem grupo de controle, o que significa, em termos práticos, que qualquer sensação de melhora produzida -- por pura sorte, por uma mudança no ajuste do ar condicionado, por efeito placebo -- poderia acabar sendo atribuída, pelos groupies do criador da "fosfo", à substância. E nem com essa ajuda o produto conseguiu algo de chamativo para mostrar.

Muita gente se aferra à crença na "fosfo" por conta dos depoimentos das pessoas que acreditam ter sido beneficiadas pela cápsula. Uma das lições mais duras da história da Medic…

Diversidade na pesquisa médica

Imagem
Estudo divulgado nesta segunda-feira, 6, pelo periódico Nature Human Behaviour aponta que a presença de mulheres num grupo de pesquisa médica aumenta a probabilidade de o estudo conduzido incluir análises específicas sobre sexo e/ou gênero.

"Estudos médicos que incluem mulheres, especialmente em posições de liderança, têm muito maior chance de discutir possíveis diferenças sexuais e de gênero no risco de doenças, prevenção e tratamento", diz a nota à imprensa divulgada pelo Grupo Nature sobre o trabalho, conduzido por pesquisadores de Stanford, nos Estados Unidos, e da Dinamarca.

"Usando uma amostra de mais de 1,5 milhão de artigos de pesquisa médica, nosso estudo examinou a ligação potencial entre a participação de mulheres na ciência médica e a atenção a fatores relacionados a sexo e gênero em pesquisas específicas sobre doenças", escrevem os autores.

"Mulheres são 40% dos primeiros autores em estudos que não incluem análise de sexo e gênero (ASG), e 49% no…

Raios cósmicos e a Grande Pirâmide

Imagem
"Os egípcios não eram um povo de mentalidade esotérica", escreve o antropólogo e arqueólogo Paul Jordan em sua contribuição para o livro Archaeological Fantasies. "Mesmo os rituais de Osíris eram bem menos esotéricos que os mistérios de Elêusis dos gregos (...) O Livro dos Mortos pode ser obscuro e fantástico, mas não é uma composição esotérica". A ideia do Egito Antigo como uma terra de mistérios e segredos esotéricos escondidos por trás de uma mitologia alegórica, a ser interpretada por iniciados, é uma invenção tardia, surgida no período posterior à conquista do país por Alexandre Magno e amplificada na Europa da Renascença e, depois, na Era Vitoriana.

Por conta disso, é uma grata surpresa encontrar, na literatura científica, um verdadeiro mistério egípcio -- e envolvendo não só uma das pirâmides como, também, raios cósmicos!

Vamos lá: três experimentos envolvendo detectores de múons -- partículas criadas pela colisão de raios cósmicos com a atmosfera, e que vi…

Cidadãos-cientistas vs. mosquitos

Imagem
Um aplicativo de celular, Mosquito Alert, pelo qual cidadãos comuns podiam reportar avistamentos do mosquito-tigre (Aedes albopictus), um vetor de doenças como dengue e zika, mostrou-se mais eficiente para monitorar a invasão da espécie na Espanha do que os métodos tradicionais de vigilância, que dependem da colocação de armadilhas para capturar ovos dos insetos, diz artigo publicado em Nature Communications.

"Nosso sistema fornece informações acuradas de aviso prévio sobre o mosquito na Espanha, muito além do disponível via métodos tradicionais, e vitais para os serviços de saúde pública", escrevem os autores. "Estes resultados ilustram o quanto a participação pública na ciência pode ser poderosa, e indica que a ciência cidadã está em posição de revolucionar a vigilância das doenças transmitidas por mosquitos em todo o mundo".

Esta nota fez parte da newsletter enviada a assinantes na semana passada.


Leituras para Halloween e adjacências

Imagem
Muito tempo atrás, numa galáxia muito distante (na verdade, há uns 20 anos, e por aqui mesmo) eu escrevia histórias de terror. Muitas. Algumas até ganharam uns prêmios por aí. Saíram em fanzines xerocados de papel, em livros de editoras obscuras (e que fecharam, ou mudaram de linha editorial, há tempos). Ano passado, no entanto, boa parte dessa produção acabou reunida num livro só, de uma editora muito viva, a Draco. É este aqui:


Também tenho uns contos avulsos publicados em e-book, como este aqui, sobre vampiros e este outro, com lobisomem. Há quem diga que a coisa mais assustadora que já escrevi foi este conto de ficção (pseudo)científica, mas não vou dar palpite a respeito. Claro, se alguém quiser aproveitar o período para refletir sobre a trêmula e periclitante base factual por trás de coisas como possessões e exorcismo, tenho O Livro dos Milagres. E para quem estiver a fim de se livrar de uma superstição antiga, há O Livro da Astrologia.

A venda dessas obras ajuda a manter este b…

Monstro de Loch Ness como "fake news"

Imagem
Em 1983, o livro The Loch Ness Mystery Solved, de Ronald Binns, obteve aquele feito raro no mundo da literatura sobre mistérios do mundo real: apresentou, de fato, a solução do problema. Em pouco mais de 200 páginas, Binns destrincha cuidadosamente o caso do lago escocês, mostrando como uma série de testemunhos vagos, notícias sensacionalistas, fraudes e brincadeiras (porque, claro, o ser humano é um animal intratável) acabou moldando a narrativa de uma criatura pré-histórica vivendo em Loch Ness.

Agora em 2017, mais de 30 anos depois de seu triunfo, Binns publica um novo volume, The Loch Ness Mystery Reloaded, em que revisita a evidência coligida para o livro de 1983, atualiza alguns pontos -- por exemplo, incluindo a confissão do criador do dinossauro de brinquedo que gerou a famosa foto do monstro de 1934 (a "Fotografia do Cirurgião", abaixo) e reinterpreta a gênese do mito sob o enfoque atual das "fake news".



O momento zero da lenda do Monstro de Loch Ness pod…