sábado, 19 de novembro de 2016

Astrologia, Atlântida e as pirâmides do Egito

D. Pedro II no Egito, diante da Esfinge


Dia desses, fazendo uma leitura meio diagonal da linha do tempo do Facebook, encontrei uma referência meio que de segunda mão a uma palestra sobre "o significado astrológico das pirâmides do Egito". Isso me deixou intrigado: a astrologia, inventada na Mesopotâmia, só chegou ao Egito após a conquista da Dádiva do Nilo por Alexandre, lá por volta de 332 AEC. O mais famoso monumento egípcio s retratar temas astrológicos, o zodíaco de Dendera (hoje preservado no Louvre) data do primeiro século antes da Era Comum.

Já os monumentos de Gizé -- as três pirâmides principais e a Esfinge -- datam de cerca de 2.500 AEC. Seria curioso saber como a astrologia poderia ter influenciado a construção de monumentos egípcios mais de 2 mil anos antes de o povo egípcio ter contato com ela. No tempo das pirâmides, os egípcios sequer tinham constelações compatíveis com as do tradicional zodíaco astrológico.

Claro, isso não quer dizer que não haja influências astronômicas discerníveis nas pirâmides.Em uma série de artigos publicada na revista Sky & Telescope nos anos 90, o astrônomo Edwin C. Krupp cita trabalhos anteriores que sugerem que aberturas encontradas nas faces norte e sul da pirâmide de Quéops apontavam para as posições de estrelas importantes na religião egípcia da época, e eram passagens para que a alma do faraó pudesse comungar com os deuses representados por esses astros.

A Esfinge é mais ou menos da mesma época que as três pirâmides: acredita-se que seu rosto originalmente representasse a face do faraó Quéfren, responsável pela segunda maior pirâmide, que é superada em tamanho apenas pela de Queóps.

Alguns autores de pseudoarqueologia (ou "arqueologia alternativa") veem um rico simbolismo astrológico nessa escultura: ela representaria uma fusão dos signos de Leão e Virgem. Essa tese data, pelo menos, de 1899, tendo aparecido no livro Star Names and Their Meanings, de Richard Hinckley Allen, um guia popular (e não muito confiável) sobre a mitologia por trás dos nomes das estrelas.
O Zodíaco de Dendera

Hoje em dia, no entanto, não só já sabemos que o Egito do tempo da Esfinge e das pirâmides não reconhecia as constelações de Leão e Virgem (havia uma constelação de Leão no Antigo Egito, mas ela ficava em outra parte do céu e envolvia estrelas diferentes das que compõem o Leão zodiacal), como existem antigos textos egípcios traduzidos que trazem informações preciosas sobre o simbolismo original da Esfinge. Como explica Krupp, o  monumento, com sua face voltada para o leste -- a direção em que o Sol nasce -- é Horemakhet, "Hórus do Horizonte", a personificação do disco solar ascendente.

 Pseudoarqueólogos, no entanto, têm outras ideias. Se não chegam a concordar totalmente com os xenoarqueólogos (que veem influências alienígenas nos grandes monumentos do passado), também não hesitam em postular antigas civilizações por trás das antigas civilizações. Saem os ETs, entram os atlantes. Em uma série de livros publicados entre os anos 80 e 90 do século passado, fãs da hipótese de que a Atlântida seria a mãe do Egito tentaram vender a ideia de que as pirâmides e a Esfinge não só teriam um simbolismo astrológico, como teriam sido construídas muito antes da data oficial, por volta de 10.500 AEC.

 O argumento principal era o de que, nessa época, as pirâmides estariam perfeitamente alinhadas com as três estrelas que formam o Cinturão de Órion. Krupp e outro astrônomo, Anthony Fairall, demonstram, no entanto, que essa tese do alinhamento é falsa.

Assim como as três estrelas em Órion, as três pirâmides não estão perfeitamente alinhadas -- há um pequeno desvio numa das pontas. Krupp chama atenção para o fato de que, para haver uma possível correspondência entre as estrelas e as pirâmides, é preciso virar o mapa do Egito de ponta cabeça: a menor das pirâmides, a de Miquerinos, só corresponde a uma projeção sobre o solo da posição que a estrela Delta de Órion ocupava em 10.500 AEC se o mapa do céu estiver orientado para o norte e o do Egito, para o sul.

Já Fairall, escrevendo no periódico Astronomy & Geophysics, nota que mesmo com a inversão o resultado não seria tão bom: segundo seus cálculos, em 10.500 AEC, o Cinturão de Órion teria um desvio de 50º em relação à direção norte, enquanto que a linha que passa pela primeira e pela última das três pirâmides apresenta um desvio de 38º.

Hermes Trismegisto na Catedral de Siena
Os teóricos da Atlântida alegam ainda que em 10.500 AEC vigia a Era Astrológica de Leão. Com isso, sua data favorita ligaria não só as pirâmides a Órion como ainda a Esfinge ao zodíaco. Como explico em meu Livro da Astrologia, eras astrológicas referem-se à constelação do zodíaco que o Sol parece visitar no início da primavera do hemisfério norte, o chamado equinócio vernal. Essa constelação muda ao longo do tempo, por causa do deslocamento do eixo da Terra. Fairall, no entanto, calcula que, na época sugerida, o equinócio vernal ainda estaria solidamente em Virgem.

Um ponto interessante é que os vários anacronismos envolvidos nessas teorias -- por exemplo, atribuindo aos egípcios de 4.500, ou de 12.500 anos atrás, crenças astrológicas que só chegariam ao país milênios mais tarde -- não são novos. A Tradição Hermética da Renascença atribuía a um sábio egípcio chamado Hermes Trismegisto, que teria sido contemporâneo de Moisés ou, mesmo, dos patriarcas citados no Gênese, a criação da astrologia e da alquimia. Hoje em dia sabe-se, no entanto, que os textos atribuídos a essa figura mítica datam dos primeiros séculos da Era Comum -- são até mais recentes que o Zodíaco de Dendera.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Uma mentira de pernas longas

Imagine uma fraude jornalística tão descarada que seu autor preferiu assinar o texto como "S. Ellmore", um trocadilho farsesco da expressão "sell more" -- "vende mais" -- no caso, mais exemplares do jornal onde a mentira foi publicada. Imagine que essa fraude descreve uma violação tão cabal das leis da física e do mero bom senso que todos os especialistas no assunto são unânimes em declarar que o evento relatado é impossível. Imagine, ainda, que o próprio autor da fraude acabe vindo a público parta oferecer um desmentido.

Imagine agora que, a despeito disso tudo, o acontecimento descrito na fraude siga sendo considerado real por décadas, por multidões, por filósofos e cientistas, por pesquisadores e historiadores, que o desmentido que deveria ter posto fim a tudo seja desacreditado e que setores e líderes do povo citado -- falsamente -- como criador do evento -- inexistente -- não só passem a reivindicar a proeza, mas também a tratá-la como parte da essência de sua cultura.

Se imaginou tudo isto, você imaginou a improvável história do Truque Indiano da Corda.

Esse suposto "truque" talvez seja menos célebre entre nós do que em meio aos povos de língua inglesa, mas é provável que você já o tenha visto em uma ilustração antiga, num desenho animado ou em alguma obra de ficção. Ele existe em duas versões, a clássica e a sangrenta. Na clássica, um faquir faz uma corda desenrolar-se e subir rumo ao céu, sem meio visível de suporte. Em seguida, um menino escala a corda e, ao chegar a sua extremidade superior, desaparece. Minutos depois, ressurge no chão, para os aplausos de todos.

A versão sangrenta é, bem, sangrenta: nela, depois do menino desaparecer, o faquir, levando uma faca entre os dentes, sobe também pela corda, e desaparece. Em seguida, pedaços do corpo da criança caem do céu. O faquir reaparece no chão, junta os membros despedaçados num cesto -- e, do cesto, o menino emerge, perfeitamente saudável.

O "truque" entrou na consciência ocidental nos anos finais do século 19. Pouquíssimas pessoas alegaram tê-lo visto pessoalmente: a maioria dos relatos era de segunda ou terceira mão. Ilusionistas ilustres, como o grande J.N. Maskelyne (1839-1917), declararam que a execução, ao ar livre, do truque tal como descrito era impossível  (num teatro, a coisa mudaria de figura). Prêmios foram oferecidos; fotografias, apresentadas; registros históricos, como os relatos de Marco Polo ou do viajante medieval árabe Ibn Battuta, invocados como prova de que algo como o "truque" teria existido, durante séculos, no Oriente.

Toda essa história é relatada, em detalhes, no livro The Rise of the Indian Rope Trick,  do historiador britânico Peter Lamont. Ele realiza um levantamento bibliográfico imenso até localizar a primeira menção do truque em texto impresso -- e o que encontra é uma nota publicada no jornal Chicago Tribune em 1890, assinada por "Fred S. Ellmore", mas na verdade de autoria de John E. Wilkie (1860-1934), jornalista que anos depois viria a ser diretor do Serviço Secreto americano e recrutaria Harry Houdini para missões na Europa (mas essa é outra história).

Lamont encontrou até mesmo uma confissão da fraude, assinada por Wilkie e publicada na imprensa britânica. A carta de Wilkie à revista People's Friend termina com as palavras: "sinto muito que alguém tenha sido iludido". O historiador nota, no entanto, que a confissão nunca recebeu "sequer uma fração" da publicidade dada à história original, que simplesmente ganhou asas, cresceu e se multiplicou.

Textos como os de Marco Polo e Ibn Battuta, bem como diversos relatos folclóricos sobre pessoas que ascendem aos céus por meio de cordas mágicas, foram reinterpretados retroativamente como "evidência" do truque, num processo não muito diverso do de reinterpretação das Escrituras judaicas por teólogos cristãos, em busca de prefigurações do Messias. Exploradores foram à Índia em busca do truque. Depois de algumas décadas de insistência ocidental, indianos interessados em conquistar os crédulos começaram a dizer que truque era real. Mas jamais houve uma testemunha fidedigna ou uma apresentação convincente ao ar livre.

O livro de Lamont é fascinante tanto como história social e das mentalidades quanto como estudo psicológico e, indiretamente, do poder involuntário da mídia: Wilkie não escreveu seu artigo fatídico como parte de uma conspiração sinistra, mas apenas para vender mais jornais num determinado dia pouco movimentado da imprensa de Chicago. Mas a bola de neve simplesmente fugiu ao seu controle.

Outra lição importante do livro diz respeito ao poder que uma mentira bem divulgada tem em sufocar a verdade, ainda que haja fontes disponíveis sobre os fatos reais: basta que essas fontes sejam obscuras e em menor número. Mesmo com o desmentido de Wilkie e as fontes abundantes dando conta de que nenhuma descrição do truque jamais havia sido publicada antes de 1890, muitos autores sérios e historiadores continuaram a tratar o "truque" como algo possivelmente real. William Poundstone, normalmente um bom divulgador de ciência, na seção sobre truques de mágica de seu bom livro Bigger Secrets chega a afirmar que o truque indiano da corda "provavelmente existiu".