sábado, 8 de outubro de 2016

"Fosfo" em SP, Homeopatia no CNPq


Em meio a um cenário de penúria generalizada no setor público, que atinge de modo especialmente grave os recursos para educação e pesquisa, o governo do Estado de São Paulo -- comandado por aquela mesma figura que acusou a agência estadual de fomento à ciência de jogar dinheiro fora com bobagens -- insiste em dar prosseguimento aos testes da tal "fosfoetanolamina sintética", um pó branco de composição desconhecida, que já fracassou em diversos testes preliminares, cujo suposto mecanismo de ação viola tudo o que se descobriu sobre a biologia do câncer nos últimos 90 anos. Além disso, na última semana noticiou-se que seis de dez voluntários que se submeteram aos testes de segurança da "fosfo" tiveram de abandonar o ensaio, por conta da progressão da doença.

Da forma como foi divulgado, sem a devida contextualização, o avanço do câncer em 60% dos voluntários submetidos ao teste de segurança não significa muita coisa: afinal, o ensaio foi feito para avaliar se a droga não causa efeitos adversos, não para testar sua eficácia. E a amostra é muito pequena. Mas, encaixado em seu devido lugar no quebra-cabeça maior da "fosfo", o dado ajuda a compor um quadro de fazer gelar a medula. Basta lembrar as repetidas garantias de resultados milagrosos oferecidas pelos propositores da droga de São Carlos, garantias dadas em tom messiânico e muitas vezes acompanhadas da sugestão de que os pacientes deveriam abandonar os tratamentos convencionais.

Não há como deixar de considerar que o prosseguimento dos ensaios em seres humanos, dado o quadro maior, é um desperdício de dinheiro público e uma crueldade para com os voluntários envolvidos. Vejamos o contexto: para além das promessas mirabolantes e sem base científica, o fato é que os testes em laboratório e em animais, realizados sob patrocínio do finado Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), já não recomendavam o avanço para a fase de ensaios em humanos. O resultado da primeira fase de testes em humanos não sugere nenhum benefício que possa vir do avanço para etapas posteriores. Ainda assim, em vez de encerrar o programa e investir o dinheiro em pesquisas mais promissoras, o Estado avança. Por quê?

Uma explicação caridosa é a de que o governo paulista quer reunir o máximo de evidências científicas inquestionáveis para, então, ter as melhores chances de vir a público e enterrar de vez a histeria criada em torno da "pílula do câncer". Uma explicação cínica é de que se trata de mera demagogia e cálculo eleitoral. Frase atribuída -- erroneamente, aliás -- ao pensador francês Alexis de Tocqueville diz que uma república chega ao fim no momento em que os políticos percebem que o público pode ser subornado com dinheiro público. Tendo mais de 16 anos, os discípulos da "fosfo" também podem votar.

Cargo Cult Science

Já na esfera federal, o CNPq, que alega não ter dinheiro nem para pagar mirradas bolsas a estudantes de iniciação científica, encontrou R$ 400 mil para investir em pesquisa sobre homeopatia.Se fosse pesquisa sobre a eficácia da homeopatia poderia ser algo de interesse científico, ainda que meio redundante (a revista Lancet, por exemplo, deu a questão como fechada 11 anos atrás), algo intelectualmente estimulante como uma nova prova de que a Terra gira em torno do Sol ou uma nova demonstração do Teorema de Pitágoras. Mas não é disso que se trata.

De fato, o edital promete dinheiro para o trabalho de caracterização de matérias-primas e preparados homeopáticos. A caracterização dos insumos tem alguma semelhança com pesquisa científica de verdade, mas as "formas homeopáticas derivadas" citadas do edital são, suponho, vidrinhos contendo água, que esteve em contato com água, que esteve em contato com água, que esteve em contato com uma molécula de alguma coisa uma centena de iterações atrás. É a análise da potência medicinal da pura água destilada.

O edital inteiro -- com suas exigências de testes estatísticos, validações múltiplas, condições analíticas, cálculos -- é um exemplo magistral de "cargo cult science" ou de "tooth fairy science": aquele momento em que a forma e as ferramentas da ciência (jalecos, equipamentos, planilhas, títulos acadêmicos) tornam-se mais importantes do que a substância do empreendimento científico, que é a busca da verdade sobre a natureza.

Seria fascinante, de um ponto de vista antropológico,  se não fosse com o dinheiro público que, segundo se diz por aí, anda tão escasso.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Profunditudes e o mundo "pós-verdade"

"Profunditude" é minha tradução pessoal para o neologismo da língua inglesa deepity, usado pelo filósofo Daniel Dennett para se referir a frases e expressões que têm dois sentidos: um verdadeiro e banal e outro supostamente profundo, mas falso. Resumindo, a profunditute só é verdadeira na medida em que diz algo trivial ao ponto da irrelevância; quando se tenta ler algo de relevante nela, torna-se falsa. Parece complicado? Talvez alguns exemplos ajudem: pense, por exemplo, naquela velha pérola da autoajuda, encruzilhada da espiritualidade prêt-à-porter com a Lei da Atração, "pensamentos são coisas materiais".

Na medida em que pensamentos são mudanças eletroquímicas que ocorrem no cérebro, trata-se de uma afirmação perfeitamente verdadeira: afinal, processos eletroquímicos são eventos do mundo material. Nesse nível, a afirmação é a mera constatação de uma banalidade. Mas, claro, quem usa a frase não está, na maioria das vezes -- perdão --, pensando nesse sentido: o que a pessoa quer dizer é que pensamentos, por si sós, são capazes de causar mudanças no mundo externo ao corpo de quem pensa. Afinal, coisas que transformam o mundo, como meteoros, vulcões e tsunamis, são materiais. Se o pensamento também é, abracadabra! Nesse nível, não-banal, a afirmação é escandalosamente falsa.

A profunditude é parente próxima da bullshit ("falação de merda"), categoria definida formalmente por outro filósofo, Harry Frankfurt, como a afirmação que é indiferente à verdade -- algo que se diz para produzir uma reação emocional ou um comportamento desejado no ouvinte, sem que o emissor se importe se o que está dizendo corresponde ou não aos fatos. A bullshit pode até ser verdade, mas quem a emprega não está nem aí para isso: o que se deseja é que o alvo vote em alguém, compre alguma coisa, indigne-se com isto ou aquilo ou abrace uma causa. Um estudo psicológico sobre o assunto ganhou o IgNobel este ano.

Exemplo clássico de bullshit é a velha anedota de que, enquanto os americanos gastaram milhões de dólares para inventar uma caneta esferográfica que funcionasse em gravidade zero, os russos usavam lápis no espaço: quem a emprega não está nem aí para o fato de que o conto é demonstravelmente falso. Quer apenas estimular alguma ideias tolinhas sobre uma suposta relação entre criatividade e simplicidade.

Nas últimas semanas, os fenômenos da bullshit e da profunditude viram-se lançados no âmago das discussões sobre o nosso momento histórico. Analisando eventos como a campanha eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos e a campanha bem-sucedida pelo Brexit, comentaristas como este articulista do New York Times expressam o temor de que tenhamos entrado num "mundo pós-verdade".

Nesse mundo, o respeito aos fatos e aos dados devidamente checados teria deixado de ser relevante no debate público: as pessoas estão dispostas a acreditar em qualquer bobagem que lhes confirme os preconceitos. Não têm mais paciência para ouvir os esclarecimentos e as admoestações de especialistas que sabem do que estão falando e, no limite, sequer para analisar a evidência dos próprios olhos. Trazendo o assunto para mais perto de casa, as críticas à redução da velocidade nas vias marginais da capital paulista são um claro fenômeno de uma sociedade pós-verdade.Talvez possamos somar a eleição de João Doria à lista de sinais dos tempos?

Mas nem todos estão convencidos. A ideia de que o debate público encontra-se numa fase "pós-verdade" foi duramente contestada nas páginas do jornal britânico The Guardian em pelo menos dois artigos, um deles de autoria de Tracey Brown, diretora da ONG de divulgação científica Sense About Science. A questão de se a humanidade (ou a civilização ocidental, ao menos) entrou numa era de "pós-verdade" é especialmente delicada para quem trabalha com comunicação pública da ciência: afinal, se a verdade objetiva e a palavra dos estudiosos não valem mais nada na hora de se formular políticas públicas, a ciência tende a desaparecer do debate político.

"A pressa em acreditar que as pessoas não ligam para fatos e evidências já chegou aos círculos profissionais e políticos, e influencia uma reflexão de como fazer comunicação com o público", escreve ela. "Sem dúvida algum marketeiro das eleições de 2020 já está escrevendo planos para como ganhar um eleitorado pós-verdade". Remando contra a corrente, ela cita uma pesquisa realizada no Reino Unido que mostra que 85% do público britânico quer que o governo ouça especialistas antes de tomar decisões complexas, e 83% querem que o governo decida com base em evidências objetivas.

A ideia de que o público em geral atingiu um estágio "pós-verdade", prossegue Brown, "bajula a timidez e o populismo fácil". "Sim, as pessoas respondem a slogan e à emoção. Funciona com a maioria de nós. Mas os políticos e comunicadores que insistem que isso significa que o público não deseja ser informado arriscam-se a nos levar a uma sociedade de dois estamentos -- uma sociedade em que a evidência é debatida nos corredores do poder, nos gabinetes dos deputados e nos clubes da alta sociedade, enquanto que, em público, os líderes jogam para a galera ou se escondem". Uma sociedade "pós-verdade", baseada na ideia de que o povo só quer e só aceita profunditudes e bullshit, é elitista e odiosa, conclui.

Em seu livro The Poet and the Lunatics, o escritor G.K. Chesterton conta como o poeta Gabriel Gale curou um jovem neurótico que acreditava ser deus: amarrou-o a uma árvore, e prendeu sua cabeça ao tronco com um par de ancinhos. O louco passou uma noite inteira lá, atado ao tronco e com o pescoço imobilizado entre os dentes dos ancinhos. Pela manhã, suas ilusões de onipotência tinham se dissipado. Uma sociedade pós-verdade é uma que, cedo ou tarde, terá seu encontro com corda e ancinhos.