quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Mais transparência na ciência

A Associação Estatística dos Estados Unidos decidiu passar a exigir que todos os artigos submetidos à seção de Aplicações e Estudos de Caso de seu periódico Journal of the American Statistical Association (JASA) venham acompanhados do código de computador e dos dados utilizados no trabalho. Código e dados, diz nota divulgada pela associação, representam “um padrão mínimo de reprodutibilidade em pesquisa científica estatística”. O processo de revisão pelos pares do JASA passará a incluir a figura do editor associado de reprodutibilidade, “para garantir que atinjamos um padrão de reprodutibilidade”.

A revista Nature entrevistou Victoria Stodden, que será uma das editoras de reprodutibilidade do JASA. Ela ponderou que os padrões tradicionais de revisão da pesquisa científica foram estabelecidos para estudos que não envolvem computadores. “Uma vez que você introduz o computador, a seção de materiais de um artigo científico típico não chega nem perto de fornecer a informação necessária para verificar os resultados”, criticou.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Florais de Fátima

Imagino que todo mundo que frequenta pet-shops ou farmácias de manipulação já deu de cara com catálogos de florais -- "remédios" para condições emocionais e psicológicas, de seres humanos ou animais, baseados em flores, água e álcool. Já havia pensado em escrever sobre o assunto antes, mas como os florais representam uma espécie de dissidência da homeopatia, e como já tratei desse tema várias vezes (a mais completa sendo esta aqui), achei que o serviço já estava feito.

Mas, enfim, ledo e ivo engano, como se diz por aí. Almoço cedo. No quilão aqui perto, onde costumo ir, sempre tem uma TV ligada. Na Globo. Então, de modo quase inevitável, almoço com Fátima Bernardes -- e eis que, na segunda-feira, assisti a sete inacreditáveis minutos de promoção acrítica, basbaque e irresponsável de algo chamado "florais brasileiros". Sei que também já gastei muito teclado tratando do modo subserviente, imprudente e leviano com que a grande mídia encara temas "esotéricos" ou embarca em falsas "controvérsias" (exemplos recentes aqui e aqui), mas esse parece ser o tipo de situação em que o excesso nunca vira redundância. Então, vamos lá. Florais.

Como escrevi acima, trata-se de uma dissidência, ou ramificação, relativamente recente, da homeopatia. O inventor da ideia, um médico homeopata inglês chamado Edward Bach (1886-1936) publicou, em 1933, o livro The Twelve Healers, que ensina como extrair "essências" de flores, a partir da diluição da matéria vegetal em água, ou pela radiação solar -- segundo ele, a luz do sol, passando através da flor, "depositava" as supostas propriedades curativas da planta nas gotas de orvalho, por exemplo. Essa água, após o processo de diluição ou de iluminação, é aí misturada com álcool de uva. O floral é, basicamente, um conhaquinho diluído.

Hoje em dia, os florais são usados quase que só para tratar de aflições emocionais -- medo, ansiedade, angústia, e coisas altamente específicas como "a incapacidade de seguir a própria intuição". Mas essa é uma postura revisionista. O Dr. Bach teorizava que todas as doenças são causadas por desequilíbrios emocionais, logo os florais eram capazes de curar, bem, tudo, de câncer a unha encravada. Olha só o primeiro parágrafo de seu livro:



Tradução: "Desde tempos imemoriais, sabe-se que Meios Providenciais puseram na Natureza a prevenção e a cura da doença, por meio de ervas, plantas e árvores divinamente enriquecidas. Os remédios da Natureza dados neste livro provaram-se abençoados, acima de todos os outros, em seu trabalho de misericórdia; e provaram que lhes foi dado o poder de curar todos nos tipos de doença e sofrimento".

A linguagem, com seus apelos à "Natureza", aos "Meios Providenciais" e a coisas "divinamente  enriquecidas", soaria melhor num tratado medieval do que num livro de medicina dos anos 30. E o modo como os remédios do livro "provaram-se abençoados" não é descrito em parte alguma. Eles funcionam porque o Dr. Bach, que é um cara legal e escreve em prosa poética melosa, diz que funcionam. Ponto.

Seguidores de Bach tentam racionalizar o fato de que ele morreu de câncer quando ainda relativamente jovem, aos 50 anos -- algo inesperado, para dizer o mínimo, em alguém que tinha descoberto a cura de tudo -- dizendo que ele não morreu da doença, e sim de "exaustão".  Mas não havia floral para exaustão?

Em termos científicos: existem estudos controlados sobre a eficácia dos florais de Bach. Uma revisão sistemática conduzida em 2010 concluiu que a coisa toda não passa de placebo. Isso se encaixa perfeitamente no tipo de indicação dada, hoje em dia, para esses medicamentos. É difícil imaginar algo mais sensível ao efeito placebo do que "tortura mental por trás de um rosto alegre" ou "dificuldade em dizer não". Para alguma coisa o conhaquinho há de servir.

 E quanto aos "florais brasileiros" que tanto encantaram a apresentadora global? Uma convidada disse que a flor de hortelã "abre o cardíaco da gente" -- o que me fez pensar em desobstrução de artérias -- mas logo em seguida ela explicou o que queria dizer com isso: "facilita a expressão dos sentimentos". Já a alfazema  ajuda no "discernimento da realidade". Bom saber.

A reportagem da Globo então foi visitar o produtor dos florais, que explicou como usa alquimia (!!) para decidir qual flor é melhor para o quê. Ele também disse que usa ouro e prata em seus preparados, e fiquei preocupado com uma eventual epidemia de argiria entre o público de Fátima Bernardes, mas então me lembrei de que as diluições são homeopáticas: o produtor disse que os materiais são tratados até se tornarem "uma coisa só com a molécula de água". Ele também declarou que produz "348 remédios". Não sei o que a Anvisa acha disso.

Há duas questões aí, claro: a exploração comercial de placebos, sendo chamados de "remédios" e com a promessa clara de benefícios para a saúde, sem que as autoridades sanitárias tomem o menor conhecimento; e, em segundo lugar, a promoção disso por um veículo de comunicação de massa.

Quanto ao primeiro ponto, por mais que coisas como "incapacidade de dizer não" ou "dificuldade de expressar os sentimentos" possam ser vistos como queixas imaginárias de gente hipocondríaca que pode muito bem se beneficiar de umas três gotas de conhaque genérico na ponta da língua, a verdade é que há várias das condições imaginárias, supostamente cobertas pelos florais, que se sobrepõem a condições reais que podem requerer tratamento psiquiátrico sério.

Se podemos ser otimistas e supor que ninguém vai tomar floral de hortelã em caso de enfarte, ou de boldo (para "sentimentos duros e pesados") contra o câncer, talvez não seja exagero temer que haja pessoas tentando controlar depressão clínica, talvez lutando pela própria vida, sem nada além de água de flores e álcool de uva.

Quanto ao segundo, fica difícil discernir entre despreparo e oportunismo. A desculpa de que se trata de entretenimento, e não jornalismo, não cola, simplesmente porque nenhum esforço foi feito, logo de início, para estabelecer a distinção. Além disso, o programa de Fátima Bernardes tem uma espécie de consultor médico de estimação que, curiosamente, não apareceu no quadro dos florais. Se por coincidência ou por rejeição tácita ao tema é difícil dizer. Mas, no segundo caso, fica claro que a opção de transformar o programa num infomercial de curandeirismo esotérico foi cínica e consciente.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Extinção nos mares, versão raça humana


A atual crise de biodiversidade nos oceanos, causada principalmente pela ação humana, é diferente das demais extinções em massa registradas nos últimos 60 milhões de anos: desta vez, as espécies com indivíduos de grande porte estão mais ameaçadas que as espécies de indivíduos pequenos, o que acentua o impacto potencial das extinções nos ecossistemas. Os resultados constam de artigo publicado na revista Science.

Os autores do trabalho, vinculados a instituições dos Estados Unidos, atribuem esse diferencial à preferência humana pela caça e pesca de grandes animais. “A ameaça seletiva aos animais marinhos de grande porte traz um perigo aos ecossistemas que é desproporcional à porcentagem de espécies ameaçadas”, diz o artigo. “Animais de grande porte são essenciais para o funcionamento do ecossistema, por causa de sua posição preferencial no topo das redes alimentares”.

Os autores fazem a ressalva de que, caso a mudança climática venha a superar a caça e pesca predatória como principal fator de extinção marinha, o perfil de desparecimento de espécies poderá convergir para o visto em catástrofes do passado, quando a extinção não era seletiva quanto ao tamanho do indivíduo, ou atingia mais as espécies de pequeno porte. Esta nota faz parte da coluna TELESCÓPIO do Jornal da Unicamp.