quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Competindo com um robô virtual

Sentir-se deixado para trás pela competição – mesmo uma competição falsa, virtual – aumenta o engajamento de voluntários em projetos científicos, sugere um pequeno estudo realizado nos Estados Unidos, descrito no periódico Journal of the Association for Information Science and Technology. O trabalho, que teve como base uma iniciativa de “citizen science” da Universidade de Nova York, envolveu 120 voluntários inscritos num projeto de monitoramento ambiental, o Brooklyn Atlantis.

Nesse projeto, cidadãos são convidados a analisar fotografias tiradas por um robô que nada num rio poluído e a identificar os objetos que aparecem nas imagens – sejam pedaços de lixo, animais ou, mesmo, pessoas. Para a realização do experimento sobre o poder da competição, a interface do programa mudou para registrar a performance de um “parceiro virtual”, que supostamente também estaria envolvido na atividade de identificar as imagens. A performance era medida pelo número de imagens trabalhadas.

Esse “parceiro”, na verdade, era um algoritmo. Parte dos 120 voluntários passou a ver o desempenho de um parceiro que “trabalhava” mais do que eles no projeto (a interface revelava que o parceiro havia identificado mais imagens que o voluntário); parte, um parceiro que trabalhava menos; parte, um voluntário com desempenho igual. Outros dois grupos ganharam um parceiro com desempenho independente, e um último foi mantido sem parceiro, como controle.

No fim, o grupo que era consistentemente superado pelo parceiro foi o que trabalhou mais durante o estudo; o grupo com o parceiro ineficiente foi o mais preguiçoso. “Nossos resultados demonstram que a contribuição dos participantes pode ser ampliada pela presença de um parceiro virtual, criando um ciclo de retroalimentação onde os participantes tendem a aumentar ou reduzir suas contribuições em resposta à performance do parceiro”, diz o artigo. “Ao incluir parceiros virtuais que sistematicamente superam os participantes, demonstramos um aumento de quatro vezes na contribuição ao projeto”. O artigo original pode ser encontrado aqui. Esta nota faz parte da Coluna Telescópio do Jornal da Unicamp.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Internet contra a opressão?

O controle estatal sobre o acesso à internet, exercido em diversos países em desenvolvimento, impede que populações marginalizadas cheguem à rede e possam usá-la como meio de libertação, diz artigo publicado na revista Science. Quando é o governo quem escolhe onde haverá pontos de acesso, a internet torna-se mais disponível em áreas dominadas por etnias ou grupos que já dispõem de grande poder na sociedade.

O estudo, de autoria de pesquisadores baseados na Europa, descobriu que, mesmo controlando fatores como dificuldade de acesso geográfico e desigualdade econômica, a desigualdade digital revela um “viés político forte e persistente”.

“A discriminação digital politicamente motivada, contra grupos étnicos marginalizados, que identificamos nesta análise constitui um desafio para os proponentes da libertação pela tecnologia”, diz o texto publicado na Science.

Os autores prosseguem: “Em muitos países, o acesso às modernas tecnologias (...) é determinado pelos governos nacionais. Como demonstramos, isso pode levar a um fornecimento seletivo de comunicação digital, com os governos estendendo esses serviços primariamente a grupos favorecidos politicamente”. O abstract do artigo está disponível aqui. Já esta nota é parte da coluna Telescópio, do Jornal da Unicamp.

domingo, 11 de setembro de 2016

11/9, o dia em que a Folha pulou o tubarão


Digamos que, numa bela manhã de domingo, você leia o seguinte: que o documentário paranoico Loose Change, sobre como os atentados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center foi fruto de uma conspiração do governo Bush, é um trabalho "respeitado"; e que "ainda não há explicação científica que desvende o mistério dos aviões que 'desapareceram' dentro das torres". O que você está lendo? Uma edição especialmente delirante de Superinteressante? O website de um proponente da Nova Ordem Mundial? Uma publicação supremacista branca? Um fanzine da extrema esquerda antiamericana?

Essas frases, publicadas sem nenhuma ressalva -- por exemplo, a de que o diretor de Loose Change, David Avery, renegou o filme e hoje acha que Bush "não seria capaz de planejar uma tigela de cereais", ou de que "explicações científicas" para a destruição das torres abundam, constando tanto de relatórios oficiais quanto de investigações independentes -- estão, senhoras e senhores, num abre de página da Folha de S. Paulo. Algum dia, este domingo, 11/9 de 2016, talvez venha a ser lembrado como a data em que o jornal de maior circulação do país decidiu que preservar a própria credibilidade e fazer o máximo para dar ao leitor a melhor informação disponível são preocupações menores. Isso é o que quero dizer com "pular o tubarão": a expressão, originária do universo dos seriados de TV, refere-se ao momento em que algo tão absurdo acontece que toda a pretensão de credibilidade dos roteiros (ou, no caso, do periódico) se desintegra.

Há algo de esquizofrênico na Folha de S. Paulo. Por um lado, trata-se do único jornal diário brasileiro de grande circulação que ainda se esforça em manter uma seção diária de ciência; também é um jornal que adora se gabar de possuir "espírito crítico". Por outro, é um jornal que adora oferecer como verdade coisas que o menor arremedo de "espírito crítico" deveria ser capaz de jogar na lata do lixo. E nem me refiro aos editoriais -- onde o jornal expressa sua opinião -- e sim ao chamado conteúdo noticioso, onde, em tese, o máximo esforço deve ser feito para passar ao leitor a melhor versão disponível dos fatos.

O exemplo mais recente, antes de a FSP resolver embarcar no movimento "truther", como são chamados os teóricos da conspiração em torno dos eventos de 11/9/2001, foi o da terapia de sucção que estaria ajudando Michael Phelps. Mas o matutino da Barão de Limeira já nos havia brindado com entradas igualmente constrangedoras sobre ufologia e astrologia. Esse material sobre o 11/9, no entanto, supera, em muito, os piores momentos do passado.

Já escrevi minha cota de textos sobre as conspirações em torno do 11/9. Para quem tiver curiosidade, há um exemplo aqui e outro, aqui. Existe material abundante disponível, online e em bibliotecas, mostrando, ponto a ponto, como as suspeitas em torno da "narrativa oficial" -- de que 19 membros da Al-Qaeda sequestraram quatro aviões de passageiros, sendo que dois foram lançados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, um contra o Pentágono, sede do Departamento de Defesa americano, e o quarto caiu no Estado da Pensilvânia -- são ou infundadas ou desonestas. Até o jornal britânico Guardian, que está longe de ser um órgão oficial da família Bush, fez sua lista de desmentidos. Em 2006, um artigo na revista Rolling Stone -- mais uma vez, não exatamente uma voz do establishment -- referia-se aos "truthers" como "desesperadamente estúpidos".

Agora, o leitor que investiu alguns de seus suados cobres na edição deste domingo da Folha fica sabendo disso? Que nem David Avery acredita mais nas bobagens que pôs em seu documentário? Que mesmo a imprensa de esquerda mais responsável considera as teorias da conspiração sobre 11/9 uma estupidez? Que o relatório oficial é extremamente detalhado e minucioso? Que a revista de divulgação científica Popular Mechanics mantém um hotsite dedicado a oferecer a tal "explicação científica" que, a Folha garante a seus leitores, não existe? 

Nope. O pobre coitado que cai na asneira de achar que a Folha de S. Paulo é a melhor fonte de informação disponível recebe, em troca de seu dinheiro e de sua confiança, o equivalente a uma entrevista com membros da Sociedade da Terra Plana feita por um repórter que, aparentemente, nunca ouviu falar em Aristóteles e jamais viu uma foto da Terra feita do espaço em toda a sua a vida.

Falando em repórter: o texto publicado é assinado como "colaboração especial" -- o que significa que a autora não é funcionária da empresa. Os mais ingênuos (ou cínicos) podem usar esse dado em defesa do jornal. Mas é só exercitar um mínimo de senso crítico (aquele que a Folha diz que tem) para desmontar essa desculpa: alguém, que é funcionário do jornal, encomendou o texto; alguém, que é funcionário do jornal, leu o texto e o considerou digno de ser publicado; alguém, que é funcionário do jornal, achou que o texto merecia abrir uma página da edição de domingo.

 Se não é deliberadamente desonesta,  matéria da Folha se esforça para dar essa impressão. Cita, por exemplo, os créditos acadêmicos da teórica da conspiração Judy Wood -- detentora de duas graduações em engenharia --, mas se exime de descrever qual a "teoria" exata defendida por ela. A saber: de que as Torres Gêmeas foram destruídas por uma arma de raios. Trata-se de um caso claro em que a omissão, seja por desonestidade ou incompetência, ajuda a preservar a credibilidade da fonte: afinal, uma coisa é dizer, por exemplo, que o Sr. Doidivanas acredita que Kennedy não foi morto por Lee Harvey Oswald. Outra é dizer que o Sr. Doidivanas afirma que Kennedy foi morto por Darth Vader.

Para finalizar: nada contra a cobertura jornalística de ideias malucas. Algumas dessas ideias, infelizmente, têm ampla penetração, influenciam os rumos da sociedade, e é importante que os cidadãos em geral saibam que elas existem e que causam impacto. Mas tudo contra a cobertura irresponsável e acrítica dessas ideias, passando para os cidadãos em geral a impressão de que elas não são, afinal, tão malucas assim, e o pior: ignorando evidências claras que estão ao alcance do Google.