sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Células-tronco, esperança e a lição de Mesmer

Na próxima semana, a FDA -- que é a Anvisa lá dos Estados Unidos -- deve começar a decidir como regulamentará as terapias baseadas em injeções de células-tronco. Atualmente, clínicas norte-americanas são livres para oferecer (leia-se, *vender*) esse tipo de tratamento, mesmo sem a devida comprovação científica de eficácia e segurança.

Cientistas pressionam a FDA para que submeta as terapias de células-tronco aos mesmos tipos de exigência que pesam sobre novos medicamentos, o que inclui estudos detalhados e uma razoável certeza estatística de que a coisa funciona e não faz mal. É importante notar que há vezes em que mesmo essa certeza razoável se revela furada, mais tarde.

Os vendedores de células-tronco, claro, estão esperneando. Acusam os cientistas de atuar em conluio com a indústria farmacêutica para sufocar novas terapias promissoras (onde já ouvimos essa conversa antes?),  e dizem que a oferta ampla das terapias, mesmo quando ainda não testadas e comprovadas, faz a ciência avançar e "traz esperança para as pessoas".

A parte sobre "fazer a ciência avançar" é discutível tanto do ponto de vista técnico como ético. Tecnicamente, para ajudar no progresso da ciência, os tratamentos teriam de ser aplicados sob um conjunto muito específico de condições, incluindo uma distribuição aleatória de participantes e a presença de grupos de controle. Um esquema do tipo "pagou, levou" não ajuda muito. Já do ponto de vista ético, fica o incômodo de vender o que não se pode entregar, seja participação num suposto "estudo científico" (inútil e inválido se realizado sem os controles adequados) ou uma promessa de cura.

Já a parte da esperança me faz pensar na interpretação pessimista do mito de Pandora -- de que a "esperança" preservada no fundo da caixa, depois que todos os males foram libertados no mundo, não estava lá como alívio, mas sim como uma maldição a mais. Ouvir dizer que isso ou aquilo vai curar sua doença, ou que fulano ou beltrano passaram pela terapia X e agora estão bem não é evidência, e sim boato. E o que se ganha ao acreditar num boato não é esperança, e sim ilusão.

Esse ponto fundamental, embora amplamente ignorado até hoje, na verdade está estabelecido há séculos. Em 1784, cinco anos antes da Revolução Francesa, o rei Luís XVI criou uma comissão de notáveis (entre eles o inventor do para-raios, o americano Benjamin Franklin, e o pai da química moderna, Antoine Lavoisier) para estudar a alegações do alemão Franz Anton Mesmer, de que teria descoberto uma nova força da natureza, o "magnetismo animal". Essa costuma ser considerada a primeira investigação sistemática de um fenômeno paranormal conduzida na história do Ocidente.

Hoje em dia, Mesmer é mais lembrado como um precursor do estudo da hipnose, mas seus "magnetismo animal" envolvia muito mais do que isso: ele alegava que era possível carregar corpos e objetos com essa força, de modo análogo a uma carga elétrica, e que essa "carga magnética" poderia ser sentida, detectada e transferida, produzindo efeitos mensuráveis. Os testes realizados pelo grupo de Franklin e Lavoisier (por exemplo, pedir a um voluntário "sensitivo" que identificasse qual das árvores de um bosque havia recebido uma "sobrecarga" de magnetismo) concluíram que o magnetismo animal era uma produção imaginária e que tudo não passava de sugestão.

Um capítulo especialmente curioso do relatório entregue pela comissão ao rei é o que explica por que -- segundo uma sugestão do próprio Mesmer -- fenômenos de cura foram excluídos da análise. A justificativa:

"Observações realizadas ao longo dos séculos provam, e os médicos reconhecem, que a Natureza sozinha e sem a ajuda de tratamento médico cura um grande número de pacientes. Se o magnetismo for ineficaz, usá-lo para tratar pacientes seria deixá-los nas mãos da Natureza. Ao tentar determinar a existência desse agente, seria absurdo escolher um método que, ao atribuir ao agente as curas efetuadas pela Natureza, tenderia a provar que ele tem uma ação útil e curativa, mesmo que não tenha nenhuma (...) M. Mesmer rejeitou a cura de doenças quando esse método de provar o magnetismo foi proposto (...) é um erro, disse ele, acreditar que esse tipo de prova é irrefutável: nada prova de modo conclusivo que o médico ou a medicina curam os doentes".


Nos séculos que nos separam de Lavoisier, Franklin e Mesmer, foram desenvolvidas técnicas estatísticas que permitem determinar, com razoável confiança, se o que curou o doente foi mesmo o médico, a medicina ou a "Natureza", mas na ausência dessas técnicas -- mais precisamente, de estudos bem planejados e bem conduzidos --, a observação do relatório se mantém tão válida hoje quanto era antes da Queda da Bastilha.

Uma tréplica comum é a de que, mesmo se a esperança for ilusória, o que há de mal em oferecer uma ilusão confortável enquanto esperamos que a natureza faça seu trabalho? O problema com esse raciocínio -- apenas um dos problemas, na verdade -- é o de que ilusões, principalmente em questões de vida ou morte, saúde e doença, produzem consequências que se propagam muito depressa: na esfera individual, afetam comportamentos, sentimentos, decisões às vezes cruciais. Na coletiva, podem vir a comprometer o rumo de políticas públicas.

No caso específico das terapias duvidosas de células-tronco praticadas nos Estados Unidos, observadores apontam que os cientistas que devem depor perante a FDA terão uma tarefa espinhosa: a de explicar que os estudos com essas células são promissores, mas que a tecnologia ainda não está madura para ser oferecida ao público. Isso seria um "passeio na corda-bamba", ainda mais neste nosso mundo em que slogans passam por raciocínio e tudo parece requerer uma resposta inequívoca e imediata.

Essa estrutura de incentivos, que favorece o entusiasmo e a assertividade, também vem seduzindo pesquisadores, disse ao site de notícias biomédicas STAT a especialista em bioética Leigh Turner. Os acadêmicos "são parte da máquina de hype das células-tronco", acusa. "Vemos cientistas emitindo press-releases sobre pacientes que se levantam de cadeiras de rodas e saem andando. Eles soam exatamente como as clínicas".

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Literatura de Star Trek

A série original de TV Star Trek completa 50 anos esta noite. Muito já foi (e, com certeza, ainda será) escrito sobre o fenômeno de mídia que ajudou a pôr a ficção científica no mapa mais amplo da cultura popular: talvez apenas os quadrinhos e seriados cinematográficos de Buck Rogers e Flash Gordon tenham feito tanto, antes da estreia de Trek, para tornar os temas e tropos típicos do gênero familiares aos olhos das multidões.

De todo o material publicado, no entanto, a esmagadora maioria se concentra, de modo perfeitamente compreensível, na produção audiovisual: séries de TV, série cinematográfica, desenhos animados. Por isso, resolvi usar este espaço para chamar atenção para um cantinho normalmente negligenciado do universo de Star Trek: a literatura.

Aliás, vou circum-navegar todo o tedioso debate sobre se os chamados media tie-ins (livros de ficção "amarrados" a universos ficcionais nascidos em outras mídias) merecem ou não ser chamados de "literatura". Vou assumir que contos e romances sempre são obras literárias. Se um conto ou romance específico representa boa ou literatura, no entanto, é um juízo à parte, e que deve ser feito caso a caso: não acredito em vícios de origem.

No caso específico de Star Trek, a literatura "amarrada" à série -- contos e romances protagonizados por figuras como Kirk, Spock e McCoy, ambientados na galáxia da Federação Unida de Planetas -- tem vários pontos altos, e uma história bem interessante.

Autores consagrados dedicaram-se a produzir prosa sobre a série: os roteiros do seriado original, por exemplo, foram quase todos adaptados como contos por James Blish, uma das figuras mais brilhantes da ficção científica literária britânica (se não acredita, corra para ler a magnífica fc lógico-teológica A Case of Conscience ).

A coleção desses contos documenta algumas das interações mais intrigantes da cena da ficção científica de língua inglesa, já que muitos dos roteiros convertidos em contos por Blish tinham sido escritos originalmente por autores que eram, eles mesmos, contistas soberbos -- caso, por exemplo, de Robert Bloch, Theodore Sturgeon e Richard Matheson.

Foi Matheson, aliás (em seu roteiro para O Inimigo Interior), quem originou o conceito apropriado por Blish para seu romance original de Star Trek, Spock Must Die!  Quem assistiu ao episódio escrito por Matheson se lembra se que, nele, um probelma no teletransporte divide o Capitão Kirk em duas metades, uma boa e uma má. No romance de Blish, algo semelhante acontece com Spock -- e que vilão pode ser mais perigoso que uma versão absolutamente maligna e corrupta do impassível oficial de Ciências?

O romance de Blish é um dos pontos altos da série literária de Star Trek (que, graças ao Grande Pássaro da Galáxia, nunca deixou que bobagens como continuidade ficassem no caminho de uma boa história), mas não é o único. Dá para citar também World Without End, de Joe Haldeman, Efeito Entropia, de Vonda McIntyre, e outros.

De uns tempos para cá, a série literária meio que foi tomada por escritores profissionais de tie-in, gente que costuma pensar mais com cabeça de roteirista e centrada na mitologia interna da série. Isso tende a tornar a parte mais especulativa da ficção científica meio rala, mas em muitos casos a sensação de receber notícias de velhos amigos -- os personagens -- é recompensa suficiente.

Mas nem tudo são "velhos amigos". Há alguns anos, começaram a ser criadas séries de Star Trek exclusivas para o mercado literário, como as aventuras da nave espacial Excalibur, cuja tripulação só aparece em livros e HQs, ou as intrigas da estação espacial Vanguard. A série da Excalibur foi criada pelo veterano roteirista de HQ Peter David, e embora ele não seja um de meus autores favoritos (seu estilo é "malandro" ou "espertinho" demais para o meu gosto, se é que dá pra entender), tem muitos fãs.

domingo, 4 de setembro de 2016

De Robert Wise a Justin Lin

Sou um fã inveterado de Star Trek - The Motion Picture, o filme de 1979 dirigido por Robert Wise, um dos grandes gênios subestimados de Hollywood, autor dos dois melhores filmes de terror da história (Desafio do Além, baseado em romance de Shirley Jackson, e O Túmulo Vazio, inspirado em conto de R.L. Stevenson). Gosto principalmente da "versão do diretor" de 2002, relançada com os efeitos especiais recriados em computador. Cada vez que revejo esse filme, aprecio-o mais; a continuar assim, até o fim da década ele terá entrado na minha lista dos dez favoritos de todos os tempos.

Aliás, revi The Motion Picture na última quinta-feira, numa espécie de preparação para encarar Jornada nas Estrelas - Sem Fronteiras, de Justin Lin, na sexta. Para ver como as coisas mudam: quase quarenta anos atrás, muita gente que gostava da franquia Jornada nas Estrelas criticou o filme de Wise, por considerá-lo "parado" ou "cerebral" demais. Agora, muita gente que gosta da franquia critica o filme de Lin por considerá-lo "descerebrado" e "movimentado" demais.

(Aviso para quem liga pra esse tipo de coisa: a partir deste ponto o artigo trará comentários que podem vir a ser interpretados como leves spoilers de ambos os filmes)

De minha parte, ainda gosto mais do filme de Robert Wise, mas saí bem satisfeito da exibição de Justin Lin. Ambas as obras -- assim como os dois filmes anteriores dirigidos por J.J. Abrams, aliás -- são, quintessencialmente, Star Trek, no sentido de me proporcionarem emoções, experiências e valores que estão dentro da paleta que espero quando vejo um produto narrativo -- filme, livro, HQ -- com essa marca.

Primeiro, falando de valores: Star Trek nasceu como um veículo para a confiança na humanidade, na diplomacia, no respeito à diversidade; e no poder poético e emotivo da curiosidade e do senso de descoberta, poder esse que é realçado, não sufocado, pelos métodos e processos da investigação científica.

Tanto o filme de Wise quando o de Lin trazem isso: em The Motion Picture, a reação da humanidade à aproximação de V'Ger, uma força desconhecida e destrutiva, não é de ira, terror e retaliação (mesmo após a estação espacial Epsilon IX ter sido destruída), mas de curiosidade e cautelosa aceitação; em Sem Fronteiras, a troca do guerreiro pelo cientista-explorador, na definição do arquétipo do herói, cumpre um papel idêntico.

Agora, falando em emoções e experiências: em Star Trek eu espero "puzzle" com uma solução racional, o oficial de comando pronto a tomar decisões difíceis assumindo plena responsabilidade pelas consequências, o sense of wonder -- uma tecnologia, uma ideia, um conceito de tirar o fôlego -- e o comentário social. De novo, ambos os filmes entregam a encomenda, talvez com um déficit de comentário social no de Wise, e com o sense of wonder do de Lin dependendo, em excesso, de fatores visuais, em detrimento de ideias e conceitos.

O filme de Wise é "parado", o de Lin é "corrido", mas ambos são grandes veículos para a bagagem que constitui Star Trek. Estou introduzindo essa conversa de "bagagem" e "veículo" de propósito: é para apresentar uma pequena especulação minha a respeito de por quê há tanta rejeição, entre os fãs mais antigos, ao universo criado para abrigar a nova safra de filmes, inaugurada pelo Star Trek de J.J. Abrams, e tanto apreço por coisas como Axanar, um projeto de filme amador que pretende recriar uma grande batalha da história da Federação dos Planetas Unidos, a principal unidade política do universo de Jornada nas Estrelas. Minha especulação é a seguinte: muitos dos fãs antigos se apaixonaram de tal forma pelo veículo que esqueceram a bagagem.

Falando em Axanar: sério? um filme de Star Trek sobre uma batalha? Manobras militares? Reduzir um universo de aspirações humanistas, movido a curiosidade e convivência na diversidade, à versão para YouTube de um wargame de tabuleiro? Isso é mais fiel ao espírito original da franquia que o Kirk de Além de Escuridão, recusando-se a obedecer à ordem para executar extrajudicialmente o vilão Khan?

Resumindo o argumento: a série cinematográfica atual tem, é claro, altos e baixos, roteiros com buracos aqui e ali, incluindo algumas crateras, uma preferência irritantemente juvenil pela ação em detrimento da exposição, mas ainda assim faz um grande trabalho em preservar a bagagem.

Todo o "novo" universo criado para os filmes mais recentes parece ter sido planejado para responder à seguinte pergunta: como a utopia tolerante, curiosa e vibrante imaginada por Gene Roddenberry nos anos 60 teria sido afetada por eventos "tipo 11 de Setembro" -- no caso, a emergência da nave romulana Narada e a destruição do planeta Vulcano. O que se vê nos novos filmes é que, a despeito de alguns percalços, a humanidade -- a Federação, que inclui mais que a humanidade -- foi capaz de manter o rumo. Exploradores, não guerreiros. Curiosidade, não rancor. Isso sim é a quintessência de Star Trek. De Wise a Lin.