sexta-feira, 26 de agosto de 2016

20 anos, 10 livros

Meu primeiro livro de contos, Medo, Mistério e Morte, foi lançado há 20 anos, em 1996, que assim como este 2016 era ano de Bienal Internacional do Livro em São Paulo. Publiquei muita coisa desde então, seja em revistas, fanzines ou antologias, no Brasil ou no exterior. Além disso, algumas obras saíram mais de uma vez, em formatos e estruturas diferentes. Mas, fazendo as contas e consolidando tudo, cheguei a um número redondo: foram dez livros em duas décadas, sendo três de divulgação científica, três volumes de contos (Medo Mistério e Morte não entra nessa conta, já que foi absorvido pela antologia mais recente Mistérios do Mal), dois romances de ficção científica (um deles, Nômade, voltado para o público juvenil) e duas novelas de fantasia. A esmagadora maioria desses trabalhos saiu pela Editora Draco nos últimos cinco anos.

O que esses números mostram? A taxa média, elevada, de um livro a cada dois anos poderia levar um observador cínico a dizer que eles confirmam o velho ditado de que quantidade e qualidade são valores antagônicos. A mim, no entanto, trazem alguma tranquilidade -- fazem com que me sinta um pouco menos vagabundo -- e me deixam com menos motivo para reclamar com os editores de que minhas obras "demoram demais para sair". Além de darem a impressão de que talvez haja algo aí a celebrar, a despeito da eterna questão de quem lê essa coisarada toda.

Com isso, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo deste ano será a décima a que compareço como autor, portanto -- mais um número redondo e mais um motivo para celebrar. Na tarde do sábado, dia 3 de setembro, vocês me acham no estande da Draco, onde as novelas de fantasia, o romance de ficção científica Guerra Justa e os três volumes de contos estarão disponíveis. Venham bater papo e participar da festa!

Ah, sim, os livros! Eles são (os de ficção primeiro):



Mistérios do Mal, ao mesmo tempo o primeiro (já que inclui o venerando Medo, Mistério e Morte) e o mais recente.



Tempos de Fúria, o segundo (já que se trata de uma edição revista e ampliada da antologia original publicada em 2005) e também o penúltimo.



Campo Total, com meus contos "perdidos" de ficção científica -- escritos para revistas e fanzines após a primeira edição de Tempos de Fúria ou considerados "pesados" ou "complexos" demais para fazer parte daquela antologia.


Flores do Jardim de Balaur, novela de fantasia que introduz meu único (até o momento) personagem de série, o filósofo Hieron de Zenária. Publicado originalmente nos anos 90, como edição especial do fanzine Juvenatrix, e relançado em 2015 pela Draco.


As Dez Torres de Sangue, novela de fantasia passada no norte da África durante uma versão "pulp-ficcional" do século XVIII (acho que é o XVIII). Minha homenagem aos contos de fantasia histórica de Robert E. Hoaward, o texto foi lançado originalmente como uma edição de bolso em 2001. Relançado pela Draco em 2012.


 Guerra Justa, romance de ficção científica que marcou o início de minha parceria com a Draco, em 2010. Para minha surpresa, foi um livro que encontrou tanto fãs entusiasmados quanto detratores furiosos.



Nômade, aventura espacial juvenil que, se não me transformou na nova sensação das compras escolares, trouxe-me a satisfação de realizar algumas palestras bem legais para adolescentes interessados. Publicado pela editora Autores Associados em 2010, com uma bela capa e fantásticas ilustrações de Renato Alarcão.

E agora, os livros de não-ficção:



O Livro da Astrologia, em papel ou ebook, ambas edições realizadas com as tecnologias de autopublicação da Amazon: por contada crise econômica que o país sofre (e, confesso, pela minha falta de paciência em mendigar atenção e espaço nos grandes grupos editoriais), resolvi lançar este trabalho por conta própria. Não me arrependo. 


Pura Picaretagem, resultado de uma parceria extremamente bem-sucedida com o físico Daniel Bezerra e meu lançamento de maior perfil até agora -- ainda mais por ter saído por uma editora de peso, a LeYa.



O Livro dos Milagres, da Vieira & Lent, meu primeiro livro de não-ficção e divulgação científica, publicado em 2011. Este livro é um fruto direto do seguro-desemprego, já que o escrevi durante os seis meses em que recebi o benefício, após ser cortado do Estadão.

Bem, este é o catálogo completo. O mais inacreditável nisso tudo é que ainda não disse tudo que tenho a dizer: há um romance de ficção científica e outro de terror que eu talvez complete um dia, contos que insistem em não me deixar dormir até que eu os escreva e, claro, os assuntos de que trato comumente neste blog.

Falar sobre minha carreira "de letras" tende a me deixar meio rabugento, basicamente porque sempre me ocorre que, se nenhum dos livros acima jamais tivesse sido publicado, minha vida, para todos os efeitos práticos, seria a mesma: continuaria tendo de pegar o ônibus cedo para ir para o trabalho, contar vinténs de tempos em tempos e, no geral, ser um ilustre desconhecido para a humanidade em geral. Mas, ora bolas, nem tudo na vida são "efeitos práticos". Hoje, ponho a rabugice de lado e me permito uma ponta de orgulho pelos últimos 20 anos. E tento não pensar muito nos próximos...

Lembrando: estarei na Bienal de São Paulo, sábado 3/9, à tarde, para rabiscar qualquer um desses amontoados de papel.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O ufólogo da Casa Branca

Enquanto no Brasil um deputado busca regulamentar a "profissão" de ufólogo, a fim de abrir caminho para o financiamento público de pesquisas sobre o tema, nos Estado Unidos a candidata à Presidência Hillary Clinton não só promete liberar "todos os documentos" sobre óvnis, caso eleita, como tem, como chefe de campanha, John Podesta, um ufólogo "obsessivo", segundo este perfil publicado pelo Washington Post. Podesta, que ocupou posições importantes no gabinete do presidente Bill Clinton nos anos 90 e foi conselheiro de Barack Obama, era conhecido por "pegar o telefone e ligar para a Força Aérea perguntando o que acontece na Área 51".

Escrevendo para a revista Skeptical Inquirer, Robert Sheaffer nota que Podesta tem uim interesse especial no chamado "caso Kekcsburg", um evento ocorrido em 1965 e que alguns documentários de TV de má reputação tentaram transformar num "segundo Roswell". Sheaffer explica que o "evento" coincide exatamente com a data, hora, local e trajetória da queda de um conhecido meteorito, mas há quem não ache essa congruência convincente ou sugestiva o bastante.

Ele lembra ainda que, perguntada por um repórter do jornal Conway Daily Sun sobre seus pensamentos a respeito de óvnis, Hillary Clinton respondeu: "Talvez já tenhamos sido visitados. Não sabemos com certeza". O que é uma respostam bem política.

Aparentemente, o impacto das crenças exóticas de Podesta sobre as políticas do governo americano não vai muito além de testar a paciência dos chefes militares ou de criar oportunidades para a CIA fazer um pouco de marketing, o que é bem inofensivo, se comparado ao casos em que as crenças exóticas do campo republicando -- que vão do criacionismo à negação do aquecimento global -- podem causar.

Falando na relação entre crenças (pseudo)científicas e políticas públicas, a edição mais recente da mesma Skeptical Inquirer traz um artigo do professor de Comunicação Matthew Nisbet sobre o que ele chama de "Paradoxo da Alfabetização Científica": basicamente, o fato de que pesquisas mostram que o nível de "alfabetização científica" de uma pessoa -- o quanto ela sabe sobre o conteúdo das ciências, como Biologia, Astronomia, etc. -- tem uma correlação baixa com as crenças sobre ciência que essa pessoa vai defender num debate sobre políticas públicas.

Em outras palavras, não é que os criacionistas (por exemplo) necessariamente ignoram a teoria da evolução: muitos deles não acreditam nela, mesmo conhecendo-a; e os que são cientificamente sofisticados usam sua sofisticação para criar argumentos em favor de suas crenças. O mesmo se aplica a outras questões contenciosas do ponto de vista político, como o aquecimento global ou o papel dos genes na formação da personalidade, ou as diferenças inatas (não culturais) entre os sexos.

Nisbet sugere que uma forma de contornar esse problema seria separar, ao menos para efeito de debate, a ciência da política. Se a psicologia sugere que há pessoas tão identificadas com determinado quadro ideológico que, diante de uma proposição do tipo "Se X é verdade, então a política Y, que contraria minha ideologia, deve ser implementada", preferem inventar razões para negar X, a despeito de toda a evidência, a aceitar Y, talvez o melhor seja, num primeiro momento, separar X de Y.

É uma proposta simpática, ainda mais quando nos damos conta de que muitos dos saltos de X para Y que vemos no dia-a-dia são um tanto quanto arbitrários, mas também limitada: afinal, há vezes em que Y decorre, sim, necessariamente, de X. E aí?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Rito satânico no CERN! (ironia, gente, ironia)

As pessoas andam tão entusiasmadas com as cerimônias dos Jogos Olímpicos que esta aqui passou batida: uma cerimônia satanista, em torno de um ídolo do Shiva, deus hindu da destruição, com sacrifício humano e tudo, realizada no CERN, o centro internacional de pesquisas científicas responsável pelo LHC, equipamento que permitiu a descoberta do bóson de Higgs. Como mostra o vídeo abaixo:



A coisa toda, é claro, não passou de uma piada. Existe muita conversa fiada por aí sobre o LHC ser uma espécie de "máquina do juízo final" -- a ideia difusa de que as colisões de partículas que acontecem ali poderiam abrir um buraco negro ou desestabilizar o espaço-tempo -- e é perfeitamente compreensível que alguns cientistas percam a paciência com essa bobagem toda e resolvam brincar com o assunto. Até mesmo os filmes da série "Código Da Vinci" já associaram o LHC ao fim do mundo, por exemplo.

Em comunicado à agência de notícias AFP, a direção do CERN reconhece que a "cerimônia" foi encenada, por pessoas com crachás válidos de segurança, no campus da organização em Genebra. Diz ainda que "o vídeo da brincadeira foi gravado sem permissão (...) o CERN não aprova esse tipo de sátira, que pode levar a mal-entendidos sobre a natureza científica do nosso trabalho (...) o CERN recebe a cada ano milhares de cientistas do todo o mundo, e às vezes alguns deles se deixam levar longe demais pelo senso de humor".

A questão dos "mal-entendidos", anotada no comunicado, é sublinhada pela geóloga e divulgadora de ciência Sharon Hill, em seu blog."Algumas pessoas estão rindo da sátira, enquanto que outras veem nela a confirmação de suas suspeitas sinistras", escreve ela.

Hill prossegue: "Como uma divulgadora da ciência que sabe como as pessoas acatam prontamente ideias ridículas a respeito do funcionamento do mundo, estou irritada com esses participantes que certamente são IGNORANTES do dano que podem causar à pobre reputação da 'big science'". "Big science" é um termo usado em referência a projetos científicos extremamente caros, bancados por órgãos estatais.

Do ponto de vista prático, tendo a concordar com ela: parte significativa da chamada "franja paranoica" da internet já abraçou o vídeo como evidência de que o LHC é um portal para a Dimensão Negra ou algo assim (talvez o "down below" da série Stranger Things?).

De um ponto de vista mais abstrato, no entanto, é meio enfadonho esse negócio de as pessoas terem de praticar autocensura  por conta do efeito inadvertido que se pode produzir sobre os idiotas do mundo, e desesperador imaginar que o ouvido coletivo da humanidade esteja ficando assim tão surdo para a sátira e a ironia.

Millôr Fernandes costumava criticar os jornais que marcavam suas seções de piadas e quadrinhos com o título "Humor": ele ponderava que o conteúdo ou era engraçado ou não era, o leitor ia rir ou não ia, e portanto não fazia sentido pôr uma plaquinha de aviso. Ao que parece, o homem era um otimista.