sexta-feira, 5 de agosto de 2016

"Astrologia" em papel: pré-venda para o Brasil!

O momento que todos esperavam (bem, que eu, pelo menos, esperava) chegou: a edição em papel de O Livro da Astrologia está disponível, em regime de pré-venda, na loja brasileira da Amazon, com preço em reais (quem não quiser esperar e não tiver medo do câmbio pode pegar o livro de imediato, no site internacional).

Este livro foi, fundamentalmente, meu principal projeto do ano passado: depois do fim da coluna "Olhar Cético" da Galileu, resolvi usar o tempo que dedicava a pesquisar e produzir os textos da revista para trabalhar um livro na mesma linha. Astrologia foi o resultado.

Ele alterna capítulos  sobre a história da prática -- de sua origem como uma forma de superstição na antiga Mesopotâmia e as mutações que passou, até virar o comércio de autoajuda que é hoje -- descreve brevemente os argumentos de seus principais críticos e apologistas, de Cícero a Carl Jung, entre muitos outros e, o que me parece a parte mais interessante, os vários tipos de teste estatístico criados e executados para avaliar a veracidade da crença (spoiler: nenhuma).

Dada a crise do mercado editorial, no entanto, não consegui publicá-lo pelas vias tradicionais, então resolvi usar as ferramentas de autopublicação da Amazon para fazer, primeiro, a edição em e-book, que saiu em dezembro passado,  e agora, finalmente, a versão física, em papel.

Uma das principais fontes do livro foi um volume dos anos 70 e hoje relativamente raro, Recent Advances in Natal Astrology, do pesquisador Geoffrey Dean. Dean, um discípulo de Michel Gauquelin e um dos principais pesquisadores da astrologia em atividade, reuniu e resumiu ali praticamente tudo o que havia a respeito de testes e teorias a respeito de astrologia.

Tendo sido publicado há quase 40 anos, no entanto, Recent Advances já não era mais tão "recente" assim quando o usei, mas era um dos melhores  compêndios disponíveis até o início deste ano, quando Dean, Arthur Mather, David Nias e Rudolf Smit publicaram, na Holanda, uma edição ampliada e revisada, Tests of Astrology. Para quem se interessa pelo exame crítico da astrologia (e das pseudociências em geral) Tests é uma festa.

Ele inclui, entre outras coisas, um capítulo detalhado sobre algo que negligenciei no Livro da Astrologia, testes envolvendo "gêmeos cronológicos", pessoas nascidas quase no mesmo instante e a uma curta distância (menos de 100 km) uma da outra. Esses "gêmeos" têm mapas astrais idênticos, o que significa, se a astrologia é válida, que deveriam ter destinos e personalidades muito próximos (novo spoiler: não têm). Tests só está disponível diretamente com o editor holandês: quem se interessar deve escrever (em inglês) para wout.heukelom [at] hetnet.nl . Ele aceita pagamentos via PayPal.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A fosfoetanolamina é segredo

Um acordo de confidencialidade, assinado entre autoridades paulistas e o professor aposentado Gilberto Chierice, proíbe que os cidadãos de São Paulo tenham acesso ao laudo que atesta o quê, afinal, está contido nas cápsulas de "fosfoetanolamina sintética" que vêm sendo usadas nos testes clínicos em andamento no Estado, testes estes generosamente financiados pelo contribuinte combalido. Foi esta a resposta que obtive após um pedido, baseado na Lei de Acesso à Informação, protocolado junto à Fundação para o Remédio Popular (FURP), encarregada de encapsular o pó produzido pela empresa PDT Pharma, de Cravinhos, sob supervisão do grupo de Chierice. Abaixo, a resposta da FURP a minha solicitação (clique para ampliar):


 A questão de o quê, exatamente, está sendo encapsulado e distribuído aos voluntários é saliente porque as informações públicas a respeito são contraditórias. Por um lado, há o pedido de patente feito por Chierice e colegas, que afirma que o processo por eles desenvolvido produz sais de fosfoetanolamina com cálcio, magnésio e zinco. Por outro, há o laudo emitido por pesquisadores do Instituto de Química da Unicamp que diz que as cápsulas que vinham sendo distribuídas irregularmente em São Carlos, por décadas, continham uma mistura variada de compostos, sendo apenas 30% de fosfoetanolamina e apresentando uma pequena dose de uma molécula tóxica, a monoetanolamina:



Além de analisar as cápsulas, o grupo da Unicamp também testou o processo descrito no pedido de patente de Chierice e obteve não os sais prometidos, mas uma mistura com características muito próximas das encontradas nas cápsulas. Nas palavras do pesquisador Luiz Carlos Dias, da Unicamp, o processo de Chierice apenas degrada os componentes que entram na reação, sem produzir nada de útil.

Diante desse aparente impasse -- Chierice diz ter um laudo, feito no exterior, que contesta os resultados da Unicamp, mas até onde sei não se deu ao trabalho de publicá-lo em lugar nenhum -- a divulgação do laudo obtido pela FURP (depois de uma série de atrasos inexplicados) poderia, finalmente, dirimir as dúvidas que pairam sobre a eficácia do processo que Chierice pretende patentear e que, supõe-se, foi utilizado pela PDT Pharma; além disso, permitiria que o público em geral e, mais importante, cientistas independentes e médicos oncologistas soubessem o que os pacientes estão, na verdade, tomando. Afinal, "fosfoetanolamina sintética" quer dizer o quê, ora bolas?

Pressupondo-se boa fé de todas as partes, a cláusula de confidencialidade é um tanto quanto inexplicável. Por que foi pedida? Por quem? Por que o governo a acatou? Em princípio, o produto final do processo de Chierice, aplicado pela PDT Pharma, não é nada confidencial: deve ser o mesmo produto descrito no pedido de patente, como se vê abaixo:



Agora, se o produto é diferente do que consta na patente (mais próximo, talvez, do encontrado pelo trabalho da Unicamp?), seria do interesse público que isso viesse à tona o quanto antes, para acabar com a onda de mistificações em torno da "fosfo".

O pedido de patente, por ser público, elimina até mesmo a questão de segredo industrial ou comercial: quem deseja preservar segredos desse tipo não patenteia seus processos. Do modo como as coisas estão, essa confidencialidade apenas alimenta as suspeitas, espero infundadas, de que o que se está a fazer  é muito menos ciência com vistas à saúde pública, e muito mais uma pantomima demagógica com fins eleitoreiros, às custas de um erário já debilitado.

Especulação e taxa de câmbio no Brasil

A alta taxa de juros e a falta de regulação no mercado de derivativos no Brasil tornam a moeda nacional especialmente vulnerável a movimentos especulativos e às flutuações da economia global. Essa vulnerabilidade faz com que o câmbio entre o real e o dólar viva uma “montanha-russa” prejudicial para o país, disse professor do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, Pedro Rossi, que lançou recentemente o livro “Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil”, pela FGV Editora. Leia entrevista em que Rossi explica suas ideias no Jornal da Unicamp.