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Mostrando postagens de Julho 10, 2016

Besteirol corporativo: eu no Zero Hora

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Até hoje me lembro de como fiquei chocado quando, no fim do século passado, tive em mãos um jornalzinho produzido pelo setor de marketing da agência de notícias em que trabalhava, para ser divulgado entre executivos de grandes empresas -- na época, antes do boom da internet, o principal mercado da agência eram empresas que precisavam de serviços de informação em tempo real.

O primeiro impacto foi notar como o texto era ruim, mal escrito, mal ajambrado. O segundo foi decifrar, debaixo da massa ignara de anglicismos toscos e mal resolvidos (antes da esquerda nos trazer o "empoderamento", o capitalismo gerou a "monetização") e da sintaxe confusa de quem pensa em inglês ruim e escreve em português pior ainda, os significados pobres, as promessas vazias, o otimismo imbecil e a absoluta ausência de lógica.

Foi ali que comecei a desconfiar que a fronteira final a ser conquista pelo pensamento crítico racional não seria a medicina alternativa, a crença na vida após a mort…

Drosófila astrológica: a utilidade das pseudociências

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Como parte da pesquisa para escrever meu Livro da Astrologia, fiz uma assinatura (anual, £16) da revista Correlation, publicada pela Associação Astrológica da Grã-Bretanha e definida pelos editores como  "um periódico de pesquisa". A Correlation é publicada há três décadas, e seus arquivos estão disponíveis, online, para os assinantes. A revista tem todas as marcas distintivas de um journal: capa sóbria e levemente desinteressante, artigos precedidos por abstracts, cheios de gráficos e equações, uma preocupação quase obsessiva com valores-p que chegam abaixo de 0,05 (se você já está acostumado com essa conversa de valor-p, pode pular o parágrafo entre parênteses, abaixo).

(O valor-p representa a probabilidade de se obter dados idênticos ou ainda mais extremos que os gerados pelo experimento, pressupondo-se que o trabalho foi bem conduzido e que a hipótese testada é falsa. Por conta disso, um valor-p baixo muitas vezes é interpretado como sinal de que seria razoável supor qu…

O psiquiatra exorcista

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A falácia do apelo à ignorância -- alegar que, já que um fenômeno X não tem explicação racional conhecida, todos deveriam aceitar a explicação irracional Y -- tem uma espécie de toque de Midas  retórico: faz arrogância insuportável soar como profunda humildade.Quem a utiliza geralmente começa declarando, humildemente, que não sabe explicar X, que na verdade ninguém sabe explicar X, para em seguida argumentar que, se você não for um cabeça-dura orgulhoso, resta a opção de aceitar que a única explicação cabível é Y. O argumentador está, em resumo, dizendo: "eu sou humilde, e se vocês forem humildes como eu, vão aceitar que estou inquestionavelmente certo e que a verdade é Y".

Essa manobra toda fica muito clara no artigo "As a psychiatrist, I diagnose mental illness. Also, I help spot demonic possession", publicado no início do mês pelo jornal The Washignton Post. Nele, o psiquiatra e psicanalista Richard Gallagher, católico, relata como se converteu numa espécie de …