sábado, 16 de julho de 2016

Besteirol corporativo: eu no Zero Hora

Até hoje me lembro de como fiquei chocado quando, no fim do século passado, tive em mãos um jornalzinho produzido pelo setor de marketing da agência de notícias em que trabalhava, para ser divulgado entre executivos de grandes empresas -- na época, antes do boom da internet, o principal mercado da agência eram empresas que precisavam de serviços de informação em tempo real.

O primeiro impacto foi notar como o texto era ruim, mal escrito, mal ajambrado. O segundo foi decifrar, debaixo da massa ignara de anglicismos toscos e mal resolvidos (antes da esquerda nos trazer o "empoderamento", o capitalismo gerou a "monetização") e da sintaxe confusa de quem pensa em inglês ruim e escreve em português pior ainda, os significados pobres, as promessas vazias, o otimismo imbecil e a absoluta ausência de lógica.

Foi ali que comecei a desconfiar que a fronteira final a ser conquista pelo pensamento crítico racional não seria a medicina alternativa, a crença na vida após a morte ou os feitiços para trazer a pessoa amada em três dias, mas o mundo corporativo. Meu breve convívio (alguns anos depois) com um processo de "reestruturação corporativa", a recente crise global desencadeada pela "exuberância irracional" dos mercados e a atual cultura do "empreendedorismo" só fizeram transformar essa desconfiança em certeza.

Basta passar dois ou três minutos assistindo aos vídeos de "coaching" ou de "consultores de marketing" que pululam nas redes sociais para ver que hoje vivemos num mundo onde as pessoas parecem convencidas todas as desgraças apontadas por Arthur Miller em sua peça A Morte do Caixeiro Viajante -- a subserviência abjeta, a aterradora vacuidade espiritual, a manipulação fria e egoísta dos afetos -- são abertamente recomendadas, elogiadas e ensinadas como virtudes. A sinceridade de quem receita esses comportamentos é fantástica. Estamos numa era para além da hipocrisia.

Foram reflexões assim que me levaram a escrever o artigo A Superstição Empreendedora, publicado na edição deste sábado do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Drosófila astrológica: a utilidade das pseudociências

Como parte da pesquisa para escrever meu Livro da Astrologia, fiz uma assinatura (anual, £16) da revista Correlation, publicada pela Associação Astrológica da Grã-Bretanha e definida pelos editores como  "um periódico de pesquisa". A Correlation é publicada há três décadas, e seus arquivos estão disponíveis, online, para os assinantes. A revista tem todas as marcas distintivas de um journal: capa sóbria e levemente desinteressante, artigos precedidos por abstracts, cheios de gráficos e equações, uma preocupação quase obsessiva com valores-p que chegam abaixo de 0,05 (se você já está acostumado com essa conversa de valor-p, pode pular o parágrafo entre parênteses, abaixo).

(O valor-p representa a probabilidade de se obter dados idênticos ou ainda mais extremos que os gerados pelo experimento, pressupondo-se que o trabalho foi bem conduzido e que a hipótese testada é falsa. Por conta disso, um valor-p baixo muitas vezes é interpretado como sinal de que seria razoável supor que a hipótese testada é verdadeira. Por razões históricas, a marca de 0,05 é considerada o limiar da "significância" -- um sinal de que o resultado merece atenção da comunidade científica.)

Tem gente por aí que parece não entender por que me dedico tanto a pesquisar coisas em que não acredito. Fora meu interesse quase patológico em formas e estruturas de raciocínio em geral -- mesmo, ou principalmente, as que dão em becos sem saída -- parte da explicação está no que podemos aprender sobre o que é, ou deveria ser, a prática legítima da ciência quando mergulhamos nos meandros das pseudociências. 

O psicólogo holandês Eric-Jan Wagenmakers certa vez se referiu ao estudo da paranormalidade como a "drosófila das práticas questionáveis de pesquisa". "Se uma metodologia de pesquisa particular (...) mostra, consistentemente, a existência do paranormal, isso significa que essa mesma metodologia não pode ser usada com segurança em outros campos", escreveu ele no artigo "A Skeptical Eye on Psi".

A leitura de Correlation mostra exemplos sortidos de como a astrologia também se presta muito bem a esse "efeito drosófila". Um caso especialmente didático publicado na edição mais recente, de dezembro de 2015, é o artigo "A study of minor and major aspects in theologians’ charts". Seu autor se vale de uma lista de datas de nascimento de mais de 6 mil teólogos finlandeses para tentar extrair aspectos do planeta Júpiter que sejam significativos para essa carreira, ou para a vocação religiosa mais genérica. Um "aspecto" é um ângulo dotado de significado especial (normalmente, 60º, 90º e seus múltiplos) entre dois planetas, tal como lançados numa carta astrológica. 

O trabalho levou em conta data, mas não horário de nascimento, porque esse dado não estava disponível, e os mapas astrais foram elaborados usando um horário estimado de meio-dia. O artigo afirma que "os aspectos sob consideração encontram-se em efeito por vários dias, portanto nenhuma imprecisão grave será causada". Mil grupos de controle foram gerados por um processo de rotação aleatória das datas de nascimento obtidas, misturando-se dias, meses e anos. 

O artigo começou testando uma lista de 11 aspectos, e depois foi ampliando a busca. Constatou-se um excesso significativo (valor-p variando de 0,04 a 0,003, dependendo do número de aspectos incluídos na varredura) de aspectos de Júpiter na relação de teólogos em comparação com os grupos de controle. E então? Milhares de teólogos! Mil grupos de controle! Valor-p na escala dos milésimos! Vamos todos nos curvar diante do fato inquestionável de que Júpiter influencia a vocação religiosa?

Na-na-ni-na. Quando diz que "os aspectos sob consideração encontram-se em efeito por vários dias", o artigo entrega uma de suas fraquezas fatais (outra é usar a mesma base de dados para testar várias hipóteses consecutivamente, o que vai aumentando, de modo progressivo, a chance de efeitos espúrios aparecerem por mero acaso -- quem procura com afinco, afinal, sempre acha. Até mesmo o que não está lá).

Não sei qual a taxa de natalidade da Finlândia, mas é de se supor que, nessa janela de "vários dias", tenham nascido algumas centenas, talvez milhares, de crianças que não cresceram para se tornar teólogos, ministros religiosos ou mesmo leigos devotos. O verdadeiro teste da hipótese "aspectos de Júpiter predispõem as pessoas a serem religiosas" não é ver qual a proporção de pessoas, numa amostra de religiosos, que tem esses aspectos, e sim ver, numa amostra de pessoas com esses aspectos, qual a proporção que se torna religiosa. A amostra de religiosos pode permitir formular a hipótese, mas não confirmá-la.

Aí entra o "efeito drosófila" de que fala Wagenmakers: a confusão entre estudos exploratórios (que permitem identificar possíveis padrões na natureza) e confirmatórios (que buscam checar se esses padrões são reais)  não é exclusiva das artes esotéricas e das pseudociências. Pode-se argumentar que defeitos assim são especialmente prevalentes nessas áreas, mas volta e meia aparecem em trabalhos publicados sob a chancela do mainstream científico. O hábito de identificá-los in vitro, nos meios de cultura alternativos, pode servir como vacina para as eventuais aparições in vivo.  

domingo, 10 de julho de 2016

O psiquiatra exorcista


A falácia do apelo à ignorância -- alegar que, já que um fenômeno X não tem explicação racional conhecida, todos deveriam aceitar a explicação irracional Y -- tem uma espécie de toque de Midas  retórico: faz arrogância insuportável soar como profunda humildade.Quem a utiliza geralmente começa declarando, humildemente, que não sabe explicar X, que na verdade ninguém sabe explicar X, para em seguida argumentar que, se você não for um cabeça-dura orgulhoso, resta a opção de aceitar que a única explicação cabível é Y. O argumentador está, em resumo, dizendo: "eu sou humilde, e se vocês forem humildes como eu, vão aceitar que estou inquestionavelmente certo e que a verdade é Y".

Essa manobra toda fica muito clara no artigo "As a psychiatrist, I diagnose mental illness. Also, I help spot demonic possession", publicado no início do mês pelo jornal The Washignton Post. Nele, o psiquiatra e psicanalista Richard Gallagher, católico, relata como se converteu numa espécie de assessor para os exorcistas católicos dos Estados Unidos, depois de encontrar casos que era "incapaz de explicar com meu treinamento".

A ideia de que o treinamento -- psiquiátrico, psicanalítico -- poderia ter sido inadequado ou insuficiente para os casos específicos que o levaram a abraçar a hipótese da possessão não pareceu ter lhe ocorrido. Trata-se de uma dose dupla de arrogância: a de se considerar um médico dotado de conhecimento perfeito sobre sua ciência e, além disso, a de se ver como membro da única religião verdadeira sobre a face da Terra.

Como detalha bem o neurologista Steve Novella em seu blog, Gallagher usa uma cadeia de falácias, que vai do apelo à ignorância ao argumento da incredulidade pessoal ("não posso acreditar, logo..."), passando pela sempre profícua confusão entre inexplicado (não há explicação racional disponível neste momento) e inexplicável (nenhuma explicação racional jamais será possível).

Alguns dos exemplos citados pelo psiquiatra são especialmente patéticos quando lidos por alguém com alguma experiência em fraudes psíquicas e/ou técnicas de persuasão usadas por videntes: para citar um só caso, ele parece ter ficado impressionado com o fato de um paciente "possesso" ter sido capaz de apontar "fraquezas secretas, como orgulho indevido", de seus interlocutores. Mesmo? Qualquer cartomante de esquina, digna de seu velho tarô ensebado, faz o mesmo com um pé nas costas.O nome do truque é Efeito Forer.

Ele também parece impressionado com casos em que a pessoa supostamente possessa fala em línguas que não conhece, ou "não poderia conhecer". Pondo de lado a questão de relatos exagerados -- tanto da proficiência do possuído quanto de sua ignorância pré-possessão -- a ideia de que uma pessoa pode, ao longo da vida, captar, aqui e ali, palavras, frases ou mesmo intuir regras gramaticais de uma língua estrangeira com a qual nunca teve contato formal, e acumular esses dados no inconsciente, parece estar além de seu horizonte explicativo.

"O que devo pensar de pacientes que, inesperadamente, começam a falar em latim perfeito?", pergunta ele. É uma boa questão, mas outra ainda melhor é: por que apelar para a mitologia católica da possessão demoníaca para respondê-la? Por que não deixar a pergunta em aberto até que haja evidências mais conclusivas ou, então, respondê-la com algum outro absurdo igualmente "plausível", como o cérebro do paciente estar captando transmissões de rádio de 3.000 anos atrás? Ou uma "simples" reencarnação?

Além de se gabar "humildemente", Gallagher cita alguns números preocupantes: diz, por exemplo, que a Igreja Católica nos Estados Unidos conta hoje com 50 exorcistas "estáveis", nomeados por seus bispos para dar combate ao demônio de modo quase rotineiro. Dez anos atrás, o número era doze. Trata-se de uma maré crescente de irracionalidade.

Cuido da questão da possessão demoníaca a fundo no meu Livro dos Milagres, e o consenso absoluto das fontes científicas e seculares é de que o fenômeno, na verdade, se desdobra numa série de causas, que vão de distúrbios psiquiátricos ou neurológicos a válvulas de escape para inadequações sociais e que inclui, também, fraude pura e simples. Tentar reabilitar, seja sob o aspecto clínico ou científico, a ideia de possessão como um fenômeno causado por espíritos ou demônios prejudica os doentes, encobre os estresses sociais e acaba sendo uma mão na roda para os espertalhões.