sexta-feira, 1 de julho de 2016

Pensamento positivo, cura e café fraco


Durante séculos, o templo de Esculápio em Epidauro, na Grécia, foi o principal centro de cura do mundo antigo. Doentes dirigiam-se até lá para se submeter ao ritual da incubação. Nesse rito, os afligidos passavam a noite e dormiam numa área especial do templo, o abaton, esperando que Esculápio, o deus da Medicina, lhes aparecesse em sonho e ditasse o tratamento adequado. Arqueólogos já encontraram inúmeras placas votivas, contendo depoimentos de pacientes satisfeitos que gravaram, para a posteridade, seus sonhos divinos e curas maravilhosas. Hoje, o templo de Epidauro está em ruínas -- parte delas você vê na imagem acima --, e é considerado um Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A despeito dos séculos acumulados de depoimentos positivos e relatos sinceros de cura, não se veem mais multidões ansiosas pela próxima incubação.

Corta para o Brasil, 2016. Num domingo desses, pela manhã, estava eu num hotel em São Paulo e, zapeando pela TV, parei no programa de uma igreja neopentecostal. Fascinado, como o proverbial camundongo hipnotizado pelo olhar da serpente egípcia, fiquei assistindo a uma série de depoimentos de gente que havia superado problemas gravíssimos de violência doméstica, alcoolismo, drogas, pobreza e analfabetismo para passar a viver em mansões, com piscina, carro importado, TV de plasma e cães de raça, tudo graças às doações -- "sacrifícios" -- feitos à igreja.

Os depoentes pareciam todos muito felizes e sinceros, homens de cara escanhoada, cabelo curto emplastado de gel e camisa polo, mulheres maquiadíssimas, com brincos maiores que as orelhas. Conheço muita gente que acha que esses depoimentos na verdade são dados por atores, mas isso não me parece necessário para explicá-los.

A memória, afinal, é reconstrutiva -- quando nos lembramos de alguma coisa, não resgatamos um passado gravado no cérebro como a agulha da picape resgata a música gravada nos sulcos do vinil. Em vez disso, o cérebro reconstrói, recria as lembranças a cada recordação, e todos temos a tendência de exagerar as dificuldades que vencemos quando nos projetamos como heróis de nossas próprias vidas.

Além do quê, numa igreja com milhares, ou milhões, de fiéis, não deve ser difícil encontrar dezenas (ou centenas) de pessoas com histórias pessoais de superação e sucesso que tenham coincidido, no tempo, com seu envolvimento com a instituição. É até concebível que alguns tenham realmente tirado certo benefício concreto das palestras motivacionais de pensamento positivo, disfarçadas de sermões religiosos, que são oferecidas nesses templos, muito embora a melhor ciência indique que esse tipo de motivação é fundamentalmente inútil ou mesmo deletéria, e certos autores sugiram que sua principal função é manter as pessoas mansas e iludidas, ainda que sob condições intoleráveis.

De qualquer modo, também é importante notar que existem, ainda que divulgados com bem menos destaque, inúmeros depoimentos de fiéis -- ou, em muitos casos, ex-fiéis -- cujos "sacrifícios" e cuja atenção aos sermões/palestras não foram devidamente recompensados, muito antes pelo contrário.

Alguma semanas antes da viagem a São Paulo, eu havia assistido -- num arquivo do YouTube -- a um apresentador de programa popular de televisão concordar com a crítica de que, ao tratar de uma nova terapia "polêmica", era preciso dar menos atenção a "médicos e cientistas" e maior destaque aos depoimentos de pacientes. Na mesma época, uma postagem que encontrei nas redes sociais traduzia o mesmo sentimento: "não importa o que digam os pesquisadores, ainda confio mais na palavra dos pacientes curados".

Um defeito desse tipo de raciocínio é o de não levar em conta o simples fato de que pacientes não curados raramente falam (ou deixam placas votivas gravadas, por falar nisso): ou por culpa e vergonha (nossa "cultura do pensamento positivo" pune duramente quem sucumbe), ou porque ninguém os procura, ou porque estão mortos.

Eis a razão pela qual a palavra de médicos e cientistas é, na esmagadora maioria das vezes, mais valiosa que uma coleção de depoimentos individuais: médicos e cientistas costumam ter acesso a um ponto de vista mais amplo, à paisagem completa, formada pela totalidade dos dados disponíveis. E não apenas a recortes, a cenas particulares ampliadas e tiradas de proporção por interesses vários.

E não importa quantos desses recortes apareçam, sua soma nunca terá o mesmo valor que a paisagem total, cada parte em sua perspectiva correta, articulada às demais e vista no devido contexto. Há várias formas de traduzir esse  princípio. A mais tradicional é "o plural de anedota não é dado" ou, numa formulação mais clara, "o plural de caso individual não é informação". A minha favorita é: "juntar várias xícaras de café fraco não faz uma garrafa de café forte".

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Moral ambígua para a inteligência artificial

Carros autônomos, controlados por algoritmos, vêm sendo desenvolvidos há vários anos, e já foram testados em condições reais diversas vezes. No entanto, seu uso em larga escala requer a definição de algumas prioridades morais – por exemplo, caso um acidente seja inevitável, a inteligência do carro deve adotar a conduta que maximiza a segurança dos passageiros, ou a dos pedestres ao redor?

Na revista Science, pesquisadores da França e dos Estados Unidos revelam o resultado contraditório de uma série de pesquisas de opinião pública sobre o tema: a maioria das pessoas prefere que os outros comprem carros programados para poupar pedestres, em prejuízo dos passageiros – mas a maioria também diz que preferiria andar num carro que preserva a vida dos passageiros a qualquer custo.

Se ambos os tipos de veículo entrarem no mercado, especulam os autores, o modelo “altruísta” provavelmente será eliminado pela competição “egoísta”. Já uma regulamentação que obrigue todos os carros a serem “altruístas” poderá levar ao fracasso do produto.

O artigo ainda lembra que dilemas morais mais complexos – por exemplo, onde o resultado final da ação do veículo no bem-estar humano não é claramente previsível – terão de ter soluções discutidas e pactuadas antes que esses carros cheguem ao grande público. “À medida que nos preparamos para dotar milhões de veículos de autonomia, uma consideração séria da moralidade algorítmica nunca foi mais urgente”, escrevem. (Esta nota é parte da coluna Telescópio do Jornal da Unicamp)

Estado da ciência na China


A revista Nature da semana passada dedicou uma seção especial ao panorama da ciência na China. Em comentário escrito para o periódico, Wei Yang, presidente da Fundação Nacional de Ciências Naturais do país asiático, diz que a produtividade chinesa cresceu, mas que é preciso aumentar o impacto das publicações e reduzir os casos de má-conduta científica, como fraude e plágio.

"A má conduta – incluindo falsos autores e falsos revisores – tem se disseminado, como fica evidente na série de retratações de artigos de autores chineses em periódicos da BioMed Central, Elsevier e Springer nos últimos dois anos", escreve ele. 

Seu olhar crítico se estende, ainda, ao papel da ciência chinesa na economia e aos níveis de investimento: "O progresso científico e tecnológico contribuiu com apenas 55% do crescimento econômico na China em 2015, comparado com 88% nos Estados Unidos no mesmo período", queixa-se. "E a China gasta relativamente pouco de seu orçamento total de pesquisa e desenvolvimento (público, industrial e privado) em pesquisa básica".

Rumo aos Exaflops

Pela primeira vez, os Estados Unidos deixaram de ser o país com a maior capacidade instalada de supercomputação. A coroa, agora, pertence à China. O país asiático não só possui o supercomputador mais rápido do mundo, Sunway TaihuLight, com performance máxima de 93 quadrilhões de cálculos por segundo (petaflops/s, ou apenas Pflop/s), como a capacidade total de seus 167 supercomputadores de alto nível chega a 211 Pflop/s, bem acima dos 173 Pflop/s dos 165 melhores supercomputadores dos Estados Unidos. Já Europa fica com meros 115 Pflop/s.

O avanço chinês, nota o site da revista Science, não tem impacto apenas nas áreas de ciência e tecnologia, mas também no comércio: a China já detém 34% do mercado mundial de supercomputação. O país asiático espera romper a barreira dos exaflops – 1 quintilhão de operações por segundo – até 2020. Máquinas de exaflops podem trazer avanços importantes na simulação da mudança climática e na compreensão do cérebro humano, entre outras áreas. ( Postagem adaptada a partir de notas publicadas na coluna Telescópio do Jornal da Unicamp)

terça-feira, 28 de junho de 2016

Superstição chique

Quando, no meu Livro da Astrologia, refiro-me à prática astrológica como uma "superstição socialmente sancionada", eu estava me referindo a coisas assim (recorte da coluna de Sonia Racy do último domingo):


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Treino placebo para o cérebro

Estudo publicado no periódico PNAS mostra que muitos dos resultados apresentados pela chamada indústria do “treinamento cerebral” – que oferece jogos e atividades capazes, de supostamente, aumentar a memória e a inteligência – na verdade podem ser apenas efeitos placebo.

“Demonstramos clara evidência de efeitos placebo após uma rotina curta de treinamento cognitivo que levou a ganhos significativos de inteligência fluida”, escrevem os autores. “Nossa meta é enfatizar a importância de se excluir explicações alternativas antes de atribuir efeitos às intervenções”.

O trabalho consistiu no uso de dois tipos de panfletos para recrutar voluntários para um exercício de treinamento cerebral. Um dos panfletos foi escrito em tom entusiástico, de modo a estimular uma resposta placebo, enquanto o outro descrevia o experimento de modo neutro. No final, testes de inteligência mostraram que os voluntários que participaram do treinamento após receber o convite-placebo se saíram muito melhor que os que fizeram o treinamento com base no estímulo neutro. (Esta nota é parte da coluna Telescópio do Jornal da Unicamp).