quinta-feira, 23 de junho de 2016

Dando as devidas proporções

Imagino que os leitores habituais deste blog já estão mais ou menos familiarizados com o conceito de viés cognitivo -- filtros mentais e hábitos de pensamento que distorcem o modo como vemos e interpretamos a realidade. Os mais comumente citados são o viés de confirmação (dar importância desproporcional a eventos que parecem confirmar nossas crenças e preconceitos), a validação subjetiva (interpretar uma série de ocorrências não relacionadas como uma cadeia de eventos que confirma nossa visão particular do mundo) e o viés de disponibilidade (achar que nossa experiência pessoal, ou os exemplos que estão mais à mão, são verdadeiramente típicos e representativos da realidade em geral). Cada um deles traz sérios desafios à tarefa, quase sempre árdua, de pensar com clareza, e tem parcela razoável de responsabilidade por muita coisa lamentável no estado atual da civilização.

Mas a leitura de Suspicious Minds,  do psicólogo britânico Rob Brotherton, chamou minha atenção para um outro viés que não só é bastante subestimado em seus efeitos, como também muitas vezes passa por raciocínio válido: o caso de uma falácia que não é reconhecida como tal mesmo quando articulada em toda sua glória.

Trata-se do viés de proporcionalidade, a pressuposição de que grandes efeitos requerem, necessariamente, grandes causas. A ideia de que incidentes desprezíveis podem ter efeitos momentosos é repugnante para a intuição humana. Ela exige que um grande evento tenha uma grande causa.

É uma intuição de raízes profundas e afeta até mesmo decisões, muitas vezes, inconscientes: por exemplo, a maioria das pessoas arremessa os dados com força quando quer um número alto, e mais delicadamente quando espera um resultado baixo -- grande força, grande número, e vice-versa. O problema é que essa intuição está errada. Grandes eventos às vezes têm causas grandiosas, às vezes não. A força do arremesso não afeta o resultado do lance de dados.

Brotherton descreve uma série de experimentos engenhosos, realizados por cientistas sociais e psicólogos, que mostra como o viés de proporcionalidade vai fundo no nosso modo de pensar. Num deles, voluntários ouviram duas versões de uma história sobre um acidente aéreo, em que uma explosão no compartimento de carga faz com que o avião perca o controle.

Numa versão, o piloto consegue realizar um pouso de emergência; na outra, o avião cai e todos a bordo morrem. A maioria das pessoas que ouve a versão com o final feliz tende a considerar uma explosão acidental mais plausível do que um atentado terrorista; já quem ouve a versão trágica prefere terrorismo como explicação. Mas, explica o autor, a única variante causal objetiva entre as histórias é a habilidade do piloto.

Outra história envolve uma epidemia num zoológico, causada por um vírus trazido por um de dois novos animais -- um urso ou um coelho. Se a história termina com a população do zoo dizimada, a maioria dos ouvintes tende a suspeitar de que o vírus veio no urso; se a doença vai embora sem deixar maiores sequelas, o suspeito preferido passa a ser o coelho.

O livro de Brotherton trata de teorias de conspiração, e o viés de proporcionalidade é citado como um dos fatores psicológicos que nos predispõem a, se não aceitá-las, ao menos a dar a elas o benefício da dúvida, seja na ausência de evidências ou, mesmo, até quando a preponderância das provas aponta na direção oposta. A morte de John Kennedy é apontada como um exemplo saliente dessa tendência.

No debate político, não é raro ver o exercício do viés de proporcionalidade ser tratado como sinal de profunda sabedoria, um argumento válido em si mesmo. Quem o aplica geralmente lança a frase "mas você não acha mesmo que foi só isso?", seguida por um piscar de olhos ou um arquear de sobrancelhas.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Vestígio de um asteroide extinto

O meteorito, no centro da placa de calcário

Um meteorito de um tipo até agora desconhecido na Terra foi descoberto numa pedreira sueca, informa artigo publicado no periódico Nature Communications. A pedra espacial única foi encontrada num leito de onde também foram extraídos mais de 100 meteoritos de um tipo mais comum, os L-condritos. Os autores do trabalho, de instituições da Suécia e dos EUA, especulam que a rocha pode ser parte de um asteroide que colidiu com o corpo original de onde vieram os L-condritos, há cerca de 470 milhões de anos. “Este pode ser o primeiro exemplo documentado de um meteorito ‘extinto’, isto é, um tipo de meteorito que não cai mais na Terra porque seu corpo de origem foi consumido em colisões”, escrevem os pesquisadores. Esta e outras notas da ciência internacional você encontra no Telescópio do Jornal da Unicamp.

domingo, 19 de junho de 2016

A mentira dos "2% de sobrevivência"

Meus contatos recentes com a subcultura das "terapias alternativas" para câncer andaram me expondo, seguidas vezes, à alegação de que a "quimioterapia tem uma taxa de sobrevivência de apenas 2%". Como costuma acontecer no reino das pseudociências, trata-se de uma frase de impacto mas cujo sentido exato, uma vez que se para para pensar a respeito, não é claro: o que essa "taxa de sobrevivência de 2%" quer dizer, afinal? Que as pessoas que entram em quimioterapia já se encontram tão à beira da morte que a intervenção quase não traz benefício? Que o tratamento quimioterápico é ridiculamente ineficaz? Que a quimioterapia em si mata 98% dos pacientes?

Seja qual for o sentido preciso que se procure atribuir à afirmação, ela é falsa. Mentirosa. Irresponsavelmente cruel. Eu, que já escrevi defendendo a liberação da autobiografia de Adolf Hitler, relutaria, por alguns instantes, em condenar a ideia de pôr na cadeia quem sai por aí repetindo esse tipo de coisa. Porque mentiras como a do "2% de sobrevivência" não só causam desespero e sofrimento que poderiam muito bem ser evitados, como ainda ajudam a convencer gente que teria uma boa chance de cura ou sobrevivência com tratamentos convencionais a jogar tudo para o alto -- inclusive a própria vida -- e abraçar falsas alternativas.

Agora, despejados os adjetivos carregados e extravasada a indignação moral, será que tenho fatos e dados para apoiar o que afirmei acima? Obrigado por perguntar. Claro que tenho. A eles.

A primeira coisa a fazer é checar a fonte original da alegação: em algum momento, afinal, as expressões "quimioterapia" e "2%" acabaram ligadas. Quando e onde isso aconteceu? Bom, foi num artigo de cientistas australianos publicado em 2004. O título era "The contribution of cytotoxic chemotherapy to 5-year survival in adult malignancies", ou "A contribuição da quimioterapia citotóxica para a sobrevivência de 5 anos em tumores malignos em adultos". Os autores concluem que, da taxa de sobrevivência de 5 anos de pacientes de câncer tratados na Austrália (que, o artigo diz, em 2004 era de 60%), a quimioterapia contribui com apenas 2%. 

Veja bem, os australianos não estão dizendo que a quimioterapia mata, ou que 98% das pessoas que fazem quimioterapia acabam morrendo. Eles estão dizendo que a contribuição da quimioterapia para a taxa geral de sobrevivência é de 2%. "quimioterapia tem uma taxa de sobrevivência de apenas 2%" é uma distorção grosseira, irresponsável, criminosa e execrável de "quimioterapia contribui com 2% para a taxa de sobrevivência de 60%".

E a última frase do parágrafo anterior só seria verdadeira se o estudo australiano tivesse chegado a conclusões válidas, o que muito provavelmente não é o caso. Os detalhes você encontra no blog do oncologista David Gorsky, mas resumindo: o trabalho em questão foi duramente criticado dentro da comunidade médica. 

Entre outros motivos, ele ignora leucemias e linfomas, exatamente os dois tipos de tumor contra os quais a quimioterapia é mais poderosa; ignora, também, a diferença entre o uso da quimioterapia como via de ataque principal ao câncer e como via auxiliar. Em muitos casos, a quimioterapia é usada como complemento à cirurgia: as curas e remissões então são atribuídas à cirurgia, e o mérito da químio acaba obscurecido.

 Para efeitos de comparação, Gorsky oferece um estudo, publicado na revista Lancet, que avaliou o impacto da quimioterapia no câncer de mama, agregando os resultados de 123 estudos, envolvendo 100 mil mulheres. O resultado global é de uma redução de 30% na mortalidade atribuída à doença num período de dez anos. 

Como os autores do artigo apontam, esse benefício está ligado ao risco inicial: se o câncer trazia um risco de vida de 10% em dez anos, ao ser detectado, a redução de 30% significará uma queda para algo em torno de 6,6%. Uma vantagem aparentemente pequena, mas que precisa ser vista no devido contexto.

Outro ponto importante levantado pelo oncologista é o modo como os mascates de curas milagrosas e tratamentos mágicos promovem o pânico e a insegurança em torno da quimioterapia como argumento de venda. Trata-se de uma verdadeira estratégia de marketing, implementada ao preço de intenso sofrimento psicológico para os pacientes e, no limite, de vidas humanas. 

Gorsky pondera que o retrato da quimioterapia oferecido pelos "alternativos" guarda boa semelhança com a imagem que a técnica tinha, na comunidade científica, 50 ou 60 anos atrás, quando o entusiasmo inicial com os primeiros sucessos no uso de drogas contra o câncer, na década de 30,  começou a arrefecer diante de novas dificuldades. A maioria das frases contra a químio atribuídas a médicos cientistas mais citadas na literatura dos charlatões foi extraída de trabalhos publicados nessa "Idade Média" da quimioterapia.

Mas muita coisa mudou desde então. Citando Gorsky: "Por volta de 1970, a doença de Hodgkin passou de uma sentença de morte para ser vista como amplamente curável com drogas, o primeiro câncer adulto curado por quimioterapia. Some-se a isso o progresso espantoso feito em cânceres infantis na época, e a maré começou a virar". Resumindo, os críticos alarmistas da quimioterapia estão com a cabeça no passado distante, assim como os proponentes da ideia de que a fosfoetanolamina funciona atacando células anaeróbicas apelam para uma visão da biologia do câncer desacreditada também desde, pelo menos, a década de 70. No fim, eles todos se merecem.  Só quem não merece nada disso são suas vítimas.