quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ciência como biscoito da sorte

Acho que todo mundo na internet lusófona já teve seus cinco minutos de schadenfreude com a infeliz publicação do Instituto Liberal que atribui o desenvolvimento da Física Quântica a uma suposta agenda de relativismo moral e obscurantismo deliberado, arquitetada e manietada pelas esquerdas.

Vale a pena notar que o Instituto teve a honradez de retratar-se publicamente do texto, ainda que o motivo alegado tenha sido uma suposta "ofensa à comunidade científica" e não o fato de o artigo ser uma coleção mal ajambrada de erros grotescos. De qualquer forma, a web nunca perdoa, nunca esquece: o texto, mesmo já removido na fonte original, pode ser lido, em toda sua glória imorredoura, alhures.

Um ponto curioso nesse caso é que a acusação específica -- de que determinado ramo da ciência não passa de uma espécie de ficção criada para sustentar certas pressuposições políticas e valores -- é algo que já foi (e, em certos círculos, ainda é) muito mais fácil de se encontrar nas esquerdas, principalmente em torno de questões de biologia e saúde.

Abstraindo um pouco os casos específicos, o que chama atenção nisso tudo é: por que a preocupação? Qual a lógica que leva pessoas comprometidas com uma determinada corrente política a atacar (ou abraçar) certas ideias e teorias científicas, por razões políticas? Pensando na ciência de um ponto de vista instrumental -- é o que permite, digamos, construir aviões ou produzir vacinas -- isso não parece influir nas correntes políticas: fascistas, comunistas, liberais ou monarquistas, todos, cedo ou tarde, precisam andar de avião e vacinar os filhos.

Claro, o ponto de vista instrumental não é o único que existe, e não estou negando que haja interações entre o fazer científico, ou a definição das pautas de investigação científica, e valores e sistemas políticos, mas a questão aqui é a dos resultados: por que ideólogos políticos haveriam de se preocupar com declarações de cientistas sobre a natureza do elétron ou a genética da sexualidade? De novo, em qualquer sistema haverá a necessidade equipamentos eletrônicos e a presença de homens e mulheres das mais diversas orientações sexuais.

Por que alguém haveria de brigar, por razões políticas, com o melhor conhecimento disponível a respeito das partículas subatômicas ou da bioquímica da hereditariedade? Não sobre as pautas que ditam os usos desses conhecimentos -- a Física Quântica, afinal, produz tanto a bomba atômica quanto a televisão e a internet --, mas sobre os conhecimentos em si. Qual o problema?

Parte dele talvez esteja na definição de ciência como melhor descrição disponível da natureza. Daí não é difícil saltar para alguma das muitas versões da falácia naturalista: a de que algo "natural" é melhor, ou mais seguro, ou mais próximo da vontade divina, ou moralmente superior, etc., do que qualquer alternativa. Ter a "natureza" -- ou seu intérprete privilegiado, a ciência -- a seu lado é uma ferramenta retórica poderosa, ainda que inválida.

A essas falácias soma-se outra, a da inevitabilidade: a ideia de que o natural e o científico implicam o inevitável. O que é uma bobagem! Se é a gravidade que nos mantém presos ao solo, não é a constatação científica de sua existência que torna o voo impossível. Pelo contrário, é ao conhecê-la e estudá-la que descobrimos como voar. Mas o ideólogo dificilmente vê isso: ele compra a relação entre científico e inevitável e, se discorda da inevitabilidade enunciada, ataca a ciência; se deseja que a inevitabilidade de concretize, abraça-a.

Essa falácia da inevitabilidade científica aparece na raiz de ideias como o darwinismo social ou o
relativismo pós-moderno: representa um dar de ombros, um "não podemos fazer nada, é assim que as coisas são", o que é o exato oposto da atitude científico-tecnológica, onde a constatação da verdade científica é penas um ponto de partida -- para o quê, ou para onde, sendo questões cuja resposta repousa em valores e prioridades que geralmente estão fora do escopo da ciência.

É ainda por meio da falácia da inevitabilidade que enunciados científicos são desidratados e transfigurados em "pérolas de sabedoria", frases de biscoito da sorte, afirmações de aplicação genérica e consumo passivo, tipo "em boca fechada não entra mosquito" ou "melhor um pássaro na mão que dois voando", às quais se somam o pseudo-einsteiniano "tudo é relativo", o pseudo-darwiniano "os melhores sobrevivem" e incontáveis bobagens pseudo-quânticas.

terça-feira, 31 de maio de 2016

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

Foram publicados, no site -- que continua no ar e com o mesmo nome -- do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) os relatórios sobre os testes, realizados pelo Laboratório de Oncologia Experimental da Universidade Federal do Ceará (UFC), com a fosfoetanolamina sintética (FS) de São Carlos em animais com câncer. Contrariando as alegações de quem dizia que os primeiros testes, realizados em culturas de células, não haviam funcionado porque a "fosfo" requer um organismo para metabolizá-la antes de atacar o câncer, os resultados in vivo também foram negativos. Ironicamente, em um dos estudos o grupo tratado com FS teve mais casos de metástase do que o grupo de controle.

Um dos trabalhos avaliou os efeitos da FS em ratos inoculados com carcinossarcoma 256 de Walker, um câncer detectado originalmente na mama de uma rata em 1928. O outro tratou de medir a eficácia da FS em camundongos inoculados com sarcoma 180, um outro tipo de câncer. Para quem quiser um resumo rápido, cito o trecho final da conclusão dos dois trabalhos, que é exatamente o mesmo tanto para ratos quanto camundongos:

"... observou-se que a Fosfoetanolamina Sintética não apresentou efeito inibidor nos animais tratados com dose de 1g/kg de peso corporal por dia, administrada durante 10 dias consecutivos". Antes que me acusem de sensacionalismo, o negrito é dos relatórios originais. Os pesquisadores do Ceará avaliaram o progresso da doença medindo e pesando os tumores. Abaixo, os gráficos com a evolução do volume tumoral em ratos e camundongos, respectivamente:





"Controle negativo" refere-se aos animais que receberam solução salina, sem nenhum medicamento. A ciclofosfamida é um quimioterápico tradicional. Os cientistas da UFC usaram 45 animais em cada estudo, sendo 15 destinados para cada grupo -- controle negativo, fosfoetanolamina (ou o que quer que exista no pó inventado em São Carlos) e quimioterápico. 

Curiosamente, no caso dos camundongos inoculados com carcinossarcoma, o grupo tratado com FS foi o que se saiu pior: sete dos 15 animais -- 46%, para quem prefere dados relativos -- acabaram atacados por metástases pulmonares, ante apenas três (20%) dos que só receberam solução salina e nenhum (0%) dos tratados com o quimioterápico tradicional.