sexta-feira, 13 de maio de 2016

Terapias alternativas para câncer: qual o problema?

Nestes tempos de histeria fosfoetanolamínica, com um bocado de gente que deveria estar mais bem-informada embarcando na onda do "que mal que tem", do "se querem usar, que usem, e daí" e (meu favorito pessoal) "é só uma última esperança para quem já tentou tudo", chega dos Estados Unidos um trabalho que -- com uma boa dose de otimismo -- pode trazer alguma sobriedade à conversa. Fundamentalmente, é mais uma evidência de que terapias sem comprovação científica, toleradas como "alternativas e complementares" acabam, na prática, se tornando "substitutivas", com resultados trágicos.

Falando em resultados: mulheres que usam suplementos alimentares como uma forma de terapia alternativa têm mais chance de adiar -- ou, até, de rejeitar -- o início da quimioterapia contra câncer de mama, mesmo depois de o tratamento ser indicado como necessário pelo médico. Em estudo realizado pela Universidade de Columbia e publicado em JAMA Oncology, de um grupo de quase 700 mais de 300 mulheres com câncer de mama em estágio inicial e indicação de quimoterapia, 11% não iniciaram o tratamento. Dessas, 88% eram usuárias de suplementos alimentares, sendo a maioria (71%) de suplementos baseados em vitaminas e minerais. Entre as que iniciaram quimioterapia, uma taxa menor( 62%) eram consumidoras de suplementos, e uma menor ainda (27%) de usuárias de suplementos de vitaminas e minerais. A diferença entre os grupos  foi considerada estatisticamente significativa.

O artigo do JAMA Oncology segue  apontando uma correlação mais geral entre o número de tratamentos alternativos usados pela mulher e a probabilidade de ela não iniciar a quimioterapia. Os únicos tratamentos alternativos que parecem não reduzir a disposição da paciente a se submeter à terapia recomendada pelos médicos foram os classificados como "práticas mente-corpo", categoria que inclui meditação, yoga, massagens e acupuntura.

Os autores do artigo chamam atenção para o fato de que suplementos alimentares têm mais "cara de remédio" (são apresentados sob a forma de cápsulas, por exemplo) do que as práticas mente-corpo, que muitas vezes assumem a forma de comportamentos ou exercícios físicos. Além disso, muitos suplementos são vendidos "para" um órgão específico (fígado, estômago, coração), o que reforça sua identidade simbólica com medicamentos reais. "Até o momento, no contexto da oncologia de mama a maioria das intervenções baseadas em suplementos alimentares não se provou benéfica", lembra o artigo. Esse "maioria", aí no texto publicado pelo JAMA Onc., é diplomático: imagino que "totalidade" seja uma descrição mais precisa.

Os autores concluem sugerindo que os médicos perguntem às pacientes sobre o uso de terapias alternativas, e que encarem o consumo de suplementos alimentares como um indicador de que há uma chance alta de que a paciente vá se recusar a iniciar a quimioterapia, mesmo quando clinicamente indicada.

Trocando em miúdos, isso tudo quer dizer que mulheres que acreditam que tomar pílulas inúteis de vitaminas faz bem para a saúde (e, também, que abraçam coisas como florais e ervas) estão predispostas a abrir mão de um tratamento que pode salvar suas vidas.

O trabalho de Columbia não investiga a causa da predisposição, e é óbvio que recusar tratamento médico é um direito humano fundamental -- em minha opinião, até mesmo a eutanásia é -- mas um direito de livre escolha só é realmente exercido quando as opções são apresentadas de modo claro e honesto: qualquer outra coisa representa indução ao erro, talvez até fraude. E é difícil não imaginar que boa parte dessas mulheres que preferem suplementos e vitaminas à quimioterapia toma a decisão enganada: enganada por amigos, parentes, terapeutas, vendedores, pela mídia, até pelo governo.


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Hidrelétricas e meio ambiente

O controle do fluxo de água dos rios por barragens hidrelétricas pode ameaçar a cadeia alimentar à jusante, ao eliminar populações de insetos aquáticos, alerta estudo realizado nos Estados Unidos e publicado no periódico Bioscience.

A equipe de autores, encabeçada por pesquisadores da US Geological Survey (USGS), debruçou-se especificamente sobre os efeitos da prática de regular a liberação de água pela barragem de acordo com o consumo de energia, fazendo o rio correr com maior vazão em horários de pico de demanda.

Usando amostras colhidas por cidadãos voluntários ao longo do Rio Colorado, e por um levantamento da diversidade de insetos em rios barrados do Oeste do país, os cientistas concluem que o controle artificial da vazão do rio é incompatível com os hábitos de reprodução de certas espécies de inseto importantes para a cadeia alimentar. O resumo do artigo pode ser lido neste link.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Cientistas canadenses falam sobre (e não mais sob) censura

Reportagem publicada no website da revista Nature analisa o fim da política de censura na comunicação científica, imposta pelo governo conservador que administrou o Canadá entre 2006 e 2015. Nesse período, pesquisadores vinculados a órgãos públicos tinham de solicitar permissão a seus superiores hierárquicos antes de falar com jornalistas. Essa política foi revertida com a chegada da atual administração liberal ao poder.

Pesquisadores ouvidos pelo periódico referem-se ao fim das limitações como um “peso” retirado de seus ombros. “Era um malabarismo incrível tentar levar a informação mais inócua para a mídia ou o público”, disse Diane Lake, que trabalhava como assessora de imprensa de um órgão de pesquisa federal. “Era como se uma cortina de ferro tivesse se fechado sobre a comunicação das pesquisas aos canadenses”. (Mais notas sobre ciência no Telescópio do Jornal da Unicamp)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Eliminando falsas esperanças contra o câncer

Os métodos atualmente usados para avaliar a eficácia de possíveis novas drogas contra o câncer – os chamados ensaios de proliferação – são inadequados e deveriam ser substituídos por um procedimento que leve em conta os efeitos da droga ao longo do tempo, argumenta artigo publicado no periódico Nature Methods.

O trabalho, de autoria de pesquisadores da Universidade Vanderbilt, nos EUA, descreve o procedimento fundamental dos ensaios de proliferação celular da seguinte forma: “uma droga é adicionada a uma população celular dentro de um espectro de concentrações, e o efeito sobre a população é quantificado segundo a métrica escolhida. A métrica padrão ‘de facto’ é o número de células viáveis 72 horas após a adição da droga”.

Os autores argumentam que, por depender de medição feita num ponto fixo do tempo, esse processo é “estático” e não leva em conta especificidades da proliferação celular, incluindo possibilidades como a de um “rebote” proliferativo das células cancerosas sobreviventes, após uma intervenção aparentemente bem-sucedida.

Chamando atenção para a baixíssima eficiência dos métodos atuais de prospecção de drogas contra o câncer – menos de 90% das moléculas que chegam a ser testadas em seres humanos dão origem a terapias – a equipe de Vanderbilt propõe uma nova métrica, chamada Proliferação Induzida por Droga (DIP, na sigla em inglês), definida como a taxa de proliferação das células, sob diferentes concentrações da droga, ao longo de um intervalo de tempo. Os detalhes do cálculo da DIP são descritos no artigo “An unbiased metric of antiproliferative drug effect in vitro” (doi:10.1038/nmeth.3852). Esta e outras notas estão na Coluna Telescópio da semana.