quinta-feira, 5 de maio de 2016

E por falar em cunhas...

Árvore da vida, mostrando o parentesco das espécies da Terra
Muito se tem falado -- e escrito -- sobre a possível (provável?) nomeação do bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Marcos Pereira, para o posto de titular do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) num futuro governo de Michel Temer. O ponto saliente aqui é que não só Pereira é um criacionista declarado, como o líder supremo de IURD -- a quem, supõe-se, Pereira deve obediência ideológica e teológica --, Edir Macedo, já escreveu artigos atacando a Teoria da Evolução.

A ideia de que esses fatos tornam complicada a nomeação de Pereira para a chefia do MCTI pode, em princípio, parecer preconceituosa. Por exemplo, em seu famoso discurso de 1960 sobre a laicidade, em que defende uma "separação absoluta entre igreja e Estado", John Kennedy afirma que "a ninguém deve ser negado cargo público por causa de sua religião". As críticas à eventual nomeação do bispo não violam esse princípio fundamental?

Há dois pontos a levar em consideração aí. Um é o que se quer dizer, exatamente, com "criacionismo"; outro, para que serve um ministro de Estado. Criacionismo, em geral, tem duas acepções. A menos usada no debate público hoje em dia é a que eu chamaria de criacionismo metafísico, a ideia de que o Universo tem sua origem na vontade de um ser sobrenatural. Ela é provavelmente a posição default de boa parte da população. Mais importante para o assunto aqui, ela pode ser formulada de modo a não entrar em atritos óbvios com a ciência e o método científico (a lubrificação está longe de ser perfeita, no entanto, mas isso é assunto para outro artigo).

A segunda acepção, que podemos apelidar de criacionismo efetivo, é a que vê a explicação baseada na vontade sobrenatural como existindo no mesmo plano, e portanto como concorrente direta -- e superior -- à dada pela ciência e pelo método científico. Essa vertente passou por diversas mutações (sem ironia) em seu berço, os Estados Unidos, onde, ao longo do século 20, foi sendo forçada a bater em retirada por juristas e cientistas.

Incialmente, tentou prevalecer como dogma, pondo-se, por definição legal, acima da ciência e tentando sufocá-la (esse foi o tempo e o contexto do famoso "Julgamento do Macaco" do Tennessee).

Com a paulatina perda de espaço para esse tipo de manobra, o discurso do criacionismo efetivo sofreu pressão seletiva e evoluiu (de novo, sem ironia), em busca de um novo nicho: hoje em dia, seu objetivo é disputar espaço no campo da ciência, nos fóruns e nas instâncias da ciência: quer, no fim, ser visto como ciência. Aí surgiu a estratégia da cunha ("cunha", no caso, é uma referência às cunhas de madeira usadas para abrir brechas em toras e facilitar a tarefa de rachar lenha), já derrotada nos Estados Unidos, mas exportada, por grupos cristãos protestantes bem financiados, para o Brasil: a de travestir o criacionismo em jargão científico, chamá-lo de "design inteligente" e tentar vendê-lo ao público e às autoridades em nome de um princípio de "dúvida razoável" ou de "equanimidade".

E aqui chegamos ao segundo ponto que mencionei lá no início: para que serve um ministro? Sendo o ministério um órgão técnico, por que precisamos de ministros políticos? A razão é que o ministro político define o tom e o rumo das políticas que os técnicos deverão implementar.

É por isso que a identidade ideológica de um ministro da Fazenda é alvo de especulações e contestações na academia e no mercado; é por isso que a nomeação de um cardeal católico para o Ministério da Saúde causaria desconforto entre os defensores dos direitos reprodutivos das mulheres; é por isso que um vegano radical e ativista da PETA dificilmente seria bem aceito no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

É por isso, enfim, que a eventual presença de um criacionista efetivo no MCTI é causa de alarme. Ainda mais num momento em que a "estratégia da cunha" -- que busca travestir o criacionismo como ciência -- é usada para tentar legitimar o design inteligente no país, a ideia de um titular do MCTI simpático ao projeto é mesmo de causar arrepios. Em sua entrevista ao blog de Fernando Rodrigues, o "ministeriável" Pereira declara "respeitar" a teoria da evolução. A declaração parece pacificadora, mas é perfeitamente compatível com a tática de "pregar a controvérsia", que é parte da cunha.

Há alguma prova de que, se nomeado e empossado, Pereira vá guiar a política científica brasileira por canais simpáticos ao design inteligente e à estratégia da cunha? Não. Mas, até aí, não há prova de que um ministro da Fazenda vinculado à tradição desenvolvimentista vá buscar aumentar os gastos públicos -- ou que um ministro ortodoxo vá, necessariamente, cortá-los. Só é o que geralmente acontece.

Mais adiante em seu discurso, John Kennedy diz que acredita num país em que "nenhuma autoridade pública solicita ou aceita instruções de política pública" vindas de autoridades eclesiásticas; e onde "nenhum corpo religioso busca impor, direta ou indiretamente, sua vontade sobre a população em geral ou sobre os atos públicos das autoridades". O Brasil já se encontra longe, muito longe, desse ideal. Não deveríamos nos afastar dele ainda mais.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Cérebro semântico

A elaboração de um mapa que localiza as regiões do cérebro que reagem ao significado de conceitos semânticos é descrita na edição mais recente da revista Nature. Esse “atlas narrativo” foi criado submetendo um grupo de voluntários a ressonância magnética funcional do cérebro, enquanto ouviam histórias que giravam em torno de grupos semânticos diversos, como “comida” ou “números”. A ressonância acompanhou o fluxo sanguíneo para cada parte do cérebro à medida que as histórias progrediam, detectando que partes do órgão reagiam com maior intensidade a cada palavra.

Um algoritmo foi usado para modelar os resultados, revelando um padrão comum às diversas leituras individuais. O resultado mostrou que o processamento semântico se espalha por mais de 100 regiões do cérebro, e que há associações tanto anatomicamente próximas – uma região estimulada pelas palavras “mãe” e “gravidez” é contígua a outra estimulada também por “mãe”, mas ainda por “casa” – quanto distantes: a palavra da língua inglesa “top” – que pode significar alto, elevado, e também é o nome de uma peça de roupa – ativou áreas ligadas a números, mas também outras, mais distantes, que respondem a termos de vestuário e de arquitetura. Também foram encontradas conexões funcionais: uma palavra visualmente descritiva, como “listrado”, ativou uma área bem próxima ao córtex visual. No geral, as representações se distribuíram por ambos os hemisférios cerebrais.

“Nossos resultados sugerem que a maioria das áreas dentro do sistema semântico representa informação sobre domínios semânticos específicos, ou grupos de conceitos relacionados, e nosso atlas mostra quais domínios são representados em cada área”, escrevem os autores, vinculados ao laboratório do pesquisador Jack Gallant, da Universidade da Califórnia, Berkeley. “Este estudo demonstra que métodos de uso intensivo de dados – comuns em estudos de neuroanatomia e conectividade funcional em humanos – oferecem meios poderosos e eficientes para mapear representações funcionais no cérebro”. (Leia esta e outras notas -- incluindo novidades sobre o sono dos dragões e a memória das plantas -- no Telescópio do Jornal da Unicamp.)