quarta-feira, 9 de março de 2016

Nos tempos do óleo de cobra


Quem tem alguma familiaridade com westerns conhece a figura do vendedor de óleo de cobra: um tratante que vai de cidade em cidade, a bordo de uma carroça vistosa e colorida, vendendo preparados de composição misteriosa e duvidosa salubridade, com a promessa de curas milagrosas.

Os "óleos de cobra" dos Estados Unidos representaram um desdobramento dos chamados "remédios de patente" britânicos, que originalmente deviam o nome ao fato de terem recebido cartas-patente de figuras ilustres (por exemplo, membros da família real) autorizando o uso do nome da celebridade em material publicitário. Depois, a expressão passou a ser aplicada a qualquer gororoba que tivesse um nome ou marca registrado.

Os primeiros remédios de patente, datados do século XVIII, eram "elixires", soluções de ervas amargas "medicinais" em álcool. Muitos sobrevivem até hoje, mas agora vendidos cono licores, bitters ou cordiais. No lado não-alcoólico do espectro, a coca-cola começou sua carreira como um remédio de patente, "recomendado" para fadiga e dores de cabeça.

Aos poucos, no entanto, esse cenário de placebos alcoólicos ou adocicados começou a incluir também drogas reais: em 1900, as mães americanas tinham a opção de ajudar os filhos a dormir e a se comportar bem com uma colher de sopa do Xarope Calmante da Senhora Winslow, uma mistura de morfina, álcool e amônia.

Finalmente, em 1905, um conjunto de reportagens publicado na revista Collier's, intitulado "A Grande Fraude Americana" e assinado pelo repórter Samuel Adams, expôs a indústria dos remédios de patente, os perigos inerentes a essas misturas e, com isso, pôs em andamento uma série de movimentos legais e na opinião pública que levou ao estabelecimento do sistema de vigilância sobre medicamentos e alimentos dos EUA, sistema que acabou servindo de modelo para o resto do mundo, incluindo o Brasil. Sistema que, no caso brasileiro, começou a ser jogado pela janela na noite de ontem, por obra e graça da Câmara dos Deputados, com a aprovação do Projeto de Lei 4639/2016

Tendo entre seus autores figuras tão -- aparentemente -- díspares quanto Arlindo Chinaglia e Jair Bolsonaro, o projeto "autoriza o uso da fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna" e também "a produção, manufatura, importação, distribuição, prescrição, dispensação, posse ou uso da fosfoetanolamina sintética, direcionadas aos usos de que trata esta lei, independentemente de registro sanitário".

Já escrevi longamente sobre a "fosfo" e por que os testes científicos pelos quais a tal "pílula do câncer" não passou são essenciais, e não mera frescura burocrática (aqui e aqui, mas quem quiser um resumo pode olhar para o gráfico ao lado: publicado em 2007 numa revista do grupo Nature, ele mostra que mais de 95% das drogas "promissoras" para câncer que iniciam testes em humanos acabam rejeitadas). Nesta postagem, então, pretendo me concentrar num argumento que consta da justificativa do projeto de lei, que já vi ser brandido por gente que deveria estar mais bem informada a respeito de certas coisas:

"Ora, se não há mais alternativas terapêuticas eficazes, se o estágio do câncer não deixa muitas saídas médicas para o paciente, nada mais justo que ele possa ter o direito de escolher o que consumir, de tentar outros caminhos e alternativas, mesmo que estes ainda estejam no campo experimental."

O primeiro ponto saliente é que, ao contrário do que o parágrafo acima dá a entender, o projeto aprovado em momento algum restringe a circulação da fosfoetalonamina a moribundos desenganados. O texto da proposta só faz três exigências, como se lê:  "Poderão fazer uso da fosfoetanolamina sintética, por livre escolha, pacientes diagnosticados com neoplasia maligna, desde que observados os seguintes condicionantes: I- laudo médico que comprove o diagnóstico; II- assinatura de termo de consentimento e responsabilidade pelo paciente ou seu representante legal". 

Ou seja, só se requer diagnóstico de câncer, laudo e termo de responsabilidade. O projeto inclui uma cláusula patética, o parágrafo único que diz que "a opção pelo uso voluntário da fosfoetanolamina sintética não exclui o direito de acesso a outras modalidades terapêuticas". 

Esse "não exclui o direito" aí é coisa de gênio: ele quer dizer que ninguém pode ser obrigado a abandonar tratamentos convencionais para receber a "fosfo". Legal, exceto pelo fato de que o principal evangelizador da "pílula do câncer" (e cuja palavra é, ao fim e ao cabo, a única fiança da droga) já se manifestou contra a quimioterapia

Ao pé da letra, por essa lei uma pessoa sem sintomas e, para todos os efeitos práticos, ainda perfeitamente saudável, mas com um diagnóstico de câncer, pode jogar todas as opções sérias de tratamento para o alto e apostar a sorte nas pílulas de "fosfo", que lhe serão fornecidas legalmente por, imagino, um médico ou farmacêutico. 

Óquei, rejeitar tratamento médico é um direito humano fundamental, e se o cara quer tomar "fosfo" o problema é só dele, mas se o argumento é esse -- o da liberdade e autonomia do paciente -- o mais honesto seria legalizar o suicídio assistido. E a maconha e as drogas pesadas, também. 

O segundo ponto a destacar desse parágrafo fundamental da justificativa, e é o que me parece principal, é a ingenuidade implícita no trecho-chave: "nada mais justo que ele possa ter o direito de escolher o que consumir, de tentar outros caminhos e alternativas". 

Como se esses "outros caminhos e alternativas" existissem num vácuo, ou surgissem por geração espontânea em pleno ar. Como se a compaixão pelo desesperado que vê na "fosfo" sua última esperança devesse nos cegar para a teia de mistificação e irresponsabilidade que fez com que a "pílula da USP" passasse a ser vista pelos desavisados como um "caminho e alternativa". Como se nos cegasse para a constatação óbvia de que dar a uma pessoa desesperada o que ela nos pede, no paroxismo do desespero, nem sempre é a coisa mais ética a fazer. Como se a verdadeira compaixão não fosse diferente de mera demagogia.

Se levados a sério, os princípios por trás do projeto nos jogam de volta à era do óleo de cobra e dos remédios de patente, onde os únicos critérios para a presença e permanência de uma droga no mercado eram a lábia dos inventores e a credulidade dos doentes. Com os resultados conhecidos.

terça-feira, 8 de março de 2016

Considerações sobre a polarização

Uma coisa que costumo dizer, quando me convidam para dar palestras sobre divulgação científica, é que é possível encontrar pesquisa feita sobre praticamente qualquer tema relevante que se possa imaginar. Digo isso para sugerir às pessoas que debates acalorados não precisam ser baseados só em afeto e palavrão, mas que dá pra trazer dados à mesa. Mesmo que os dados sejam falhos, inconclusivos ou passíveis de distorção, eles pelo menos ajudam a mapear o terreno em disputa.

Por exemplo: existe uma literatura ampla sobre o fenômeno social e psicológico da polarização, quando pessoas assumem atitudes extremas e se veem incapazes de levar o adversário a sério -- qualquer pessoa menos extrema ou está vendida ou é idiota. E quem está no polo oposto é vendido e idiota.

É verdade que muito dessa literatura tem como foco a situação norte-americana, mas do jeito que andamos mimetizando as dinâmicas e o jargão de lá, tanto à esquerda ("empoderamento", "blackface") quanto à direita (com a onda de "neoconservadorismo" e o crescente ativismo político neopentecostal), de repente a coisa é aplicável. Queria aproveitar este momento para citar três artigos que me parecem relevantes ao momento atual.

O primeiro, publicado em 2013 no periódico Public Opinion Quarterly, parte de um questionamento que me parece fazer muito sentido por aqui: o de que a polarização em termos de visão de políticas públicas é, na verdade, muito menor do que parece. Afinal, quantos "direitistas" realmente querem acabar com o bolsa-família e privatizar o SUS? E quantos "esquerdistas" estão aí a fim do controle estatal pleno dos meios de produção e do fechamento compulsório das escolas privadas?

Os autores de Affect, Not Ideology: A Social Identity Perspective on Polarization propõem que são os afetos, as emoções, que realmente polarizam, não as diferenças ideológicas. Diz o "abstract": "Usando dados de diversas fontes, demonstramos que tanto republicanos quanto democratas cada vez mais desapreciam, e até detestam, seus oponentes. Também descobrimos que o afeto partidário tem uma base inconsistente (e talvez falsa) em atitudes políticas. O relato mais plausível se baseia na natureza das campanhas políticas: a exposição a mensagens atacando o grupo externo reforça a visão enviesada que os partidários têm do oponente".

Ou seja; a polarização tende a ter mais a ver com não ir com a cara das pessoas do que em concordar com as propostas delas. Para quem se lembra de que, na eleição presidencial de 2002, José Serra tinha uma proposta de política econômica mais à esquerda que a de Lula, isso faz sentido.

O segundo artigo, de 2010, publicado no Journal of Communication, investigou a relação entre exposição seletiva à mídia e polarização. O que a autora, da Universidade do Texas, encontrou foi uma espécie de efeito Tostines: "análises documentam que a exposição seletiva partidária leva à polarização. Alguma evidência sugere uma direção causal reversa, a saber, que a polarização leva à exposição seletiva partidária". Um ponto positivo levantado foi o de que a polarização aumenta o nível de participação popular na política.

Essa maior participação dos radicais pode não ser, no entanto, uma boa notícia: artigo de 2013 no periódico Psychological Science tem um dos títulos mais desanimadores de todos os tempos: Political Extremism Is Supported by an Illusion of Understanding. Em outras palavras, as pessoas tendem a radicalizar-se quando acham que entenderam alguma coisa -- sem na verdade ter entendido patavina.

Mas há, com o perdão do clichê, luz no fim do túnel! Em uma série de experimentos, os autores (Colorado-Boulder, Harvard, UCLA, Brown) encontraram apoio para a hipótese inicial de que "as pessoas tipicamente sabem menos sobre as políticas do que imaginam (a ilusão da profundidade explanatória) e que atitudes polarizadas tornam-se possíveis por modelos causais simplistas". A adoção de modelos causais complexos, especificamente, milita contra o extremismo.

Avaliando esse ponto, os experimentos realizados como parte do estudo determinaram que pessoas radicalizadas não mudam de convicção quando se pede que elas enumerem suas razões para defender esta ou aquela política, mas que a convicção fervorosa diminui quando se pede que elas expliquem a mecânica de como a política funciona. "A evidência sugere que o senso errôneo das pessoas, de que entendem os processos causais subjacentes às políticas, contribui para a polarização política".

Resumindo tudo: fazer a pessoa perceber que ela não entende a política que está defendendo ajuda  a semear um saudável ceticismo. Mas muitas vezes as pessoas só parecem apoiar políticas; na verdade elas apoiam pessoas (ou apenas detestam as pessoas que se opõem às pessoas que apoiam). E o acesso restrito à mídia aumenta a polarização, ao mesmo tempo em que a polarização leva a um cardápio mais restrito de mídias.

O que fazer a respeito? Uma possibilidade é mudar as estratégias de debate, substituindo a enumeração de razões por uma abordagem mais socrática. Isso em relação aos outros. Mas também há lições importantes para nós mesmos. Em nosso diálogo interno: antes de assumir compromisso com uma causa, vale a pena perguntar se entendemos, de fato, os mecanismos pelos quais esperamos que ela funcione. Tomar cuidado com o estreitamento voluntário das fontes de informação. E tentar evitar que antipatias figadais tomem o lugar da razão.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Reprodutibilidade na economia, racismo na justiça

O Projeto Reprodutibilidade: Psicologia, que no ano passado reportou falhas na tentativa de reprodução de cerca de metade de 100 importantes experimentos da área, gerou um filhote, na economia: tentativa de reprodução de 18 experimentos laboratoriais da área  -- em que voluntários são divididos em grupos e, em interações que lembram jogos, têm de tomar decisões econômicas sob diferentes circunstâncias -- é reportada na edição mais recente da Science, e com resultados bem mais promissores que os da psicologia.

Por sua vez, o periódico  Journal of Quantitative Criminology traz um levantamento sobre os resultados de 17 mil julgamentos realizados no Estado da Carolina do Sul, e conclui que réus negros primários, acusados de crimes leves, tendem a ser condenados a penas mais pesadas que brancos nas mesmas condições. A disparidade racial desaparece quando os réus já têm extensa ficha criminal e cometem delitos mais graves.

Essas e outras notas estão no Telescópio do Jornal da Unicamp.