quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

Nos últimos tempos, as redes sociais -- ou, ao menos, as minhas timelines -- andam virtualmente entupidas de notas, notícias e insinuações a respeito do surto de microcefalia no Brasil, sua ligação com o vírus zika e supostas manobras do governo para esconder as "verdadeiras causas" do problema, que iram desde "vacinas cubanas vencidas" a um plano maligno de ONGs internacionais para... Bom, ninguém parece saber para quê, mesmo.

A questão das vacinas é a que surge em mais versões, e a que mais seduz os incautos que buscam motivos para culpar o governo federal (como se ele já não tivesse culpas reais suficientes, mas deixa pra lá). Ela toma, pelo menos, duas formas, a saber: (a) teria havido uma campanha de vacinação contra rubéola usando vacinas vencidas, que foram aplicadas a mulheres grávidas ou que engravidaram logo depois da dose;  (b) a campanha contra sarampo, realizada no Nordeste em 2015, e que usou as vacinas dupla (que também contém o vírus da rubéola) e tríplice (sarampo, rubéola e caxumba), teria inadvertidamente atingido gestantes ou mulheres que viram a engravidar logo em seguida.

O vírus da rubéola é considerado um importante suspeito, nesse contexto, porque se sabe que mulheres que contraem a doença durante a gestação podem vir a dar à luz filhos com vários tipos de malformação, incluindo microcefalia.

Mas, enfim: quanto à primeira hipótese, das "vacinas vencidas", especialistas ouvidos pelo jornal Zero Hora lembram que o Brasil não realiza campanhas de vacinação específica contra rubéola há anos, sendo considerado um país livre da doença; e que vacinas de rubéola vencidas perdem seu poder imunizador, mas não passam a causar a doença. As informações dadas ao periódico gaúcho depois foram ampliadas num depoimento detalhado de Lavínia Schüler-Faccini, presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, no site da Associação Médica Brasileira, (AMB).

Vacinas vencidas poderiam estar ligadas ao surto se, por serem ineficazes, tivessem aberto o caminho para uma epidemia de rubéola entre mulheres grávidas, mas não há registros disso na história recente do Brasil.

E quanto à campanha de vacinação contra sarampo no Nordeste? No fim de janeiro começou a circular na internet um gráfico que aponta uma suposta coincidência entre a campanha de vacinação do final de 2014 e o início do pico nas comunicações de microcefalia, nove meses mais tarde, no segundo semestre de 2015. Mas essa associação ignora o fato de que campanhas agressivas de vacinação contra sarampo já vinham acontecendo na região desde 2013.

Ainda mais importante, o risco para o feto trazido pela presença do vírus da rubéola na vacina é apenas teórico. Como disse Lavínia Schüler-Faccini à AMB,  "na época da campanha de vacinação para todas as mulheres em idade reprodutiva [contra rubéola], em 2002, acompanhamos em parceria com a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul mulheres em Porto Alegre que não sabiam que estavam grávidas quando tomaram vacina, e em mais de cem gestantes acompanhadas, nenhuma teve bebê com microcefalia ou com síndrome de rubéola fetal."

Esse dado é corroborado por números dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo dos Estados Unidos encarregado de monitorar e controlar epidemias. Os CDC recomendam que mulheres grávidas não devem receber vacinas contendo o vírus da rubéola, porque "por razões teóricas, não se pode excluir o risco para o feto", sugerindo um intervalo mínimo de 28 dias entre a data da vacinação e o início de uma gravidez. No entanto, acrescenta que um registro de 226 mulheres que receberam vacina de rubéola de 3 meses antes a até 3 meses após a concepção "não encontrou evidências de complicações" para as crianças. A conclusão é de que "a vacinação tríplice viral ou contra rubéola durante a gestação não deve ser considerada motivo para interrupção da gravidez".

E, por fim, o zika vírus. A relação de causa-e-efeito entre esse vírus e a microcefalia ainda não foi estabelecida cientificamente, embora a associação, sim. Há vários websites fazendo um cavalo de batalha da alegação de que a Fundação Rockefeller seria a "dona" do vírus, e que há empresas fornecedoras de material biológico que vendem amostras de zika. Daí, tira-se algum tipo de ilação sobre plutocratas causando doenças de propósito para auferir mais e maiores lucros.

A verdade é que o zika foi descoberto, na África, por pesquisadores da Fundação Rockefeller. Que é uma ONG internacional, que concede bolsas de estudo a um bocado de gente, já fez muita bobagem (como financiar centros de estudo que promoviam a eugenia) e também muita coisa boa (como financiar o desenvolvimento da vacina contra a febre amarela). Quanto à venda de amostras, ora bolas, os cientistas que trabalham com vírus -- seja como modelos para estudos teóricos, seja buscando novas vacinas -- precisam obtê-los em algum lugar, certo?

Teorias de conspiração se beneficiam bastante de um fenômeno psicológico chamado validação subjetiva -- a tendência que todos temos de interpretar dados díspares e não-relacionados como parte de um padrão que confirma nossos preconceitos.

Meu esforço pessoal para escapar dessa tentação passa por três critérios heurísticos. Os dois primeiros são as chamadas "navalhas", a de Occam -- "se duas hipóteses se encaixam igualmente bem nos fatos, prefira a mais simples" -- e a de Hanlon -- "nunca atribua a malícia o que pode ser adequadamente explicado por estupidez".

O terceiro é uma invenção minha, que chamo de Escala de Plausibilidade AIV. Proponho que, diante de um desastre, as explicações, na ausência de fatos ou evidências em contrário, são, da mais para a menos plausível, Azar (deu merda), Incompetência (alguém deixou dar merda) e, apenas então, Vilania (alguém se esforçou para que desse merda).

Nenhum desses critérios substitui uma investigação rigorosa, com certeza, mas são um bom modo de calibrar as expectativas e evitar sangue nos olhos antes de se ter todos os dados relevantes à mão.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Editando embriões humanos: a era biopunk?

Pesquisadores do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, obtiveram autorização oficial para aplicar uma técnica de edição genética em embriões humanos saudáveis. A técnica, chamada CRISPR/Cas9, envolve basicamente o uso de um "robô" bioquímico para realizar operações de "copy-paste" no material genético do núcleo celular, não só eliminando sequências indesejadas, como também permitindo que elas sejam substituídas por versões escolhidas pelos pesquisadores.

Adaptada por cientistas a partir do arsenal imunológico de certas bactérias, que usam ferramentas naturais de edição genética para se livrar do DNA de parasitas, a CRISPR/Cas9 vem causando revolução tecnológica na área de manipulação genética, por causa de sua enorme precisão: ela permite que recortes e emendas sejam feitos no genoma com um controle de localização extremamente apurado. Em setembro do ano passado, a revista Science publicou artigo que relata a tentativa, bem-sucedida, de trocar um gene defeituoso, responsável por causar distrofia muscular em camundongos, por uma versão saudável, produzindo animais sem os sintomas associados à doença.

A autorização concedida agora pela Autoridade de Embriologia e Fertilização Humana (HFEA, na sigla em inglês) permite que os cientistas do Francis Crick usem a técnica para manipular o DNA de embriões humanos saudáveis, doados por casais que passaram por procedimentos de fertilização in vitro.

A pesquisa aprovada envolve a manipulação de genes implicados no desenvolvimento do embrião, com o objetivo de compreender como esses genes funcionam. Todos os experimentos serão interrompidos após uma semana de crescimento, quando o óvulo fertilizado tiver atingido o estágio de blastocisto, uma esfera de menos de 300 células, incluindo as que poderiam vir a dar origem à placenta e ao feto.

Os primeiros experimentos envolvendo a edição genética de embriões humanos por meio de CRISPR/Cas9 haviam sido descritos em abril do ano passado por pesquisadores chineses. Assim como previsto na pesquisa proposta pelos britânicos, os embriões manipulados na China não foram implantados em útero e não se desenvolveram para além dos estágios iniciais. O trabalho chinês foi mais uma prova de conceito -- ver se a técnica funcionava no genoma humano, e com que eficácia -- do que qualquer outra coisa.

O uso de edição genética em embriões humanos traz um pequeno imbróglio ético com, pelo menos, quatro vertentes: a primeira é a que questiona o uso de embriões humanos em pesquisa (qualquer pesquisa, envolvendo genes ou não). Esse é um debate que, cedo ou tarde, acaba se confundindo com o do direito da mulher ao aborto, embora o Supremo Tribunal Federal brasileiro tenha conseguido erguer uma espécie de barreira acolchoada entre as duas questões.

A segunda é da modificação deliberada do genoma humano, levada a termo -- isto é, a produção de uma criança geneticamente modificada, ou mesmo geneticamente montada em laboratório. Assim como no caso do uso de embriões em pesquisa, ela tem conotações místico-mítico-religiosas, envolvendo coisas como uma suposta Providência Divina com a qual o ser humano não deveria interferir, ou a alegação que a natureza é sábia e, mais uma vez, com ela não se deve mexer; e ainda o problema, bem mais palpável, de se já existiria conhecimento suficiente para que se faça esse tipo de manipulação de modo responsável.

A terceira questão deriva da segunda: modificações genéticas num embrião humano que venha a ser levado a termo, que gere um bebê que viva até a idade adulta, cedo ou tarde serão transmitidas para as gerações futuras e entrarão no patrimônio genético da espécie. Queremos isso? Será seguro?

Por fim, há o problema dos interesses e dos direitos do primeiro ser humano "CRISPR": como poderemos saber se essa criança nascerá sem deficiências ou outros problemas trazidos, indiretamente, pela modificação? Seria ético tentar criar esse bebê por tentativa e erro, destruindo os fetos malsucedidos até que um se saia bem? E se o procedimento for necessário para gerar um bebê saudável? Na adolescência e na idade adulta, essa pessoa sofreria discriminação? Pais se recusariam a permitir que seus filhos fossem à escola com ela, ou a impediriam de namorar seus filhos?

Para complicar um pouco mais a equação, a ferramenta CRISPR/Cas é tão fácil de usar que já tem gente tentando produzir kits, à semelhança dos antigos jogos de química juvenil, para quem quiser brincar de edição genética em casa -- por enquanto, mexendo apenas com bactérias.

"Biopunk" é um subgênero de ficção científica pouco divulgado, que especula sobre como seria o mundo se as ferramentas da biotecnologia se tornassem tão baratas e democráticas como são, hoje em dia, as da informática e da telecomunicação. Desconfio que, assim como aconteceu com o cyberpunk, ele em breve será ultrapassado pela realidade (momento comercial: tenho um conto meio biopunk, aqui).