sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Postagem 666: Madre Teresa

Estava aqui dando tratos à bola em busca de uma postagem adequada para ser a 666ª deste blog, e eis que me vem a notícia de que foi autorizada a canonização de Madre Teresa de Calcutá.  Não sei que fração (se alguma) da mídia brasileira vai se lembrar da investigação que Christopher Hitchens realizou sobre o trabalho dessa freira albanesa, radicada na Índia, então deixo aqui o link para o livro e, imediatamente abaixo, o documentário em que apresentou suas conclusões (fundamentalmente, de que ela estava muito mais preocupada em salvar almas do que em salvar vidas, uma postura que teve consequências cruéis e trágicas). 



E, para completar, reproduzo, abaixo, uma postagem bem antiga deste blog sobre o processo de validação de "milagres" da Igreja Católica (lembrando que já escrevi um livro inteiro sobre o assunto):

"A notícia de que o Vaticano reconheceu a cura de uma freira, supostamente portadora do Mal de Parkinson, como sendo um milagre operado por intercessão do falecido papa João Paulo II, chega num momento onde estou até as orelhas em estudos e análises a respeito exatamente desse tipo de fenômeno.


A mídia deu um bom destaque à história do milagre e, como sói acontecer nesses casos, sem basicamente nenhum tipo de análise crítica das falhas lógicas embutidas -- na verdade, falhas essenciais -- no processo católico de criação de beatos e santos.

É instrutivo, portanto, dar uma olhada em alguns detalhes do caso.

Começando pela questão da cura da freira Marie Simon-Pierre. Esta reportagem do Los Angeles Times lembra que, em 2010, autoridades no próprio Vaticano haviam expressado dúvidas quanto ao diagnóstico de Parkinson. É curioso ainda mencionar, numa nota à parte, que esclerose múltipla -- uma doença responsável por quatro milagres certificados do santuário de Lourdes, e que também afeta o sistema nervoso em sua comunicação com os músculos -- apresenta, de acordo com o psiquiatra Terence Hines, vários casos conhecidos de remissão natural.

Hines, em seu livro Pseudoscience and the Paranormal cita um estudo no qual o acompanhamento de pacientes de esclerose múltipla revelou que, 25 anos após o início da doença, 75% deles estavam vivos e dos sobreviventes, 55% não apresentavam nenhuma deficiência significativa.

Mesmo supondo que o diagnóstico da freira foi correto, e que ela não estivesse sofrendo de alguma outra doença mais facilmente curável (ou de uma aflição de origem psicológica), é possível afirmar (a menos que, num caso clássico de raciocínio circular, já se parta dessa premissa) que a cura tenha sido operada por milagre -- isto é, por uma suspensão das leis da natureza -- e que o milagre foi obtido por intermédio de João Paulo II?

Não e não.

Primeiro, porque declarar que um fenômeno (no caso, uma cura) não tem explicação conhecida -- mesmo supondo que nenhum outro médico sobre a face da Terra, com um conjunto de competências e de experiências diferente do dos membros da comissão que investigou o caso, fosse capaz de explicar o ocorrido -- é apenas uma manifestação de ignorância.

Dizer "não sei o que provocou a cura de irmã Marie, logo foi um milagre operado por intercessão de João Paulo II" faz tanto sentido quanto dizer "não sei o que causou aquela luz no céu, logo ela veio de uma nave da galáxia de Andrômeda".

Segundo, a questão da atribuição: a freira rezou para João Paulo II, e depois foi curada. Faz sentido estabelecer uma relação de causa e efeito?

 Em princípio, pode-se tratar apenas de um caso de post hoc ergo propter hoc, o erro lógico de supor que, só porque uma coisa aconteceu depois da outra, ela foi causada pela outra. É como imaginar que estou escrevendo esta postagem porque comi sanduíche de queijo no café da manhã. As causas precedem os efeitos, mas nem tudo que precede um efeito deve ser necessariamente lançado na lista de suas causas.

A hipótese de coincidência, em oposição à de causalidade direta, ganha força quando levamos em conta o fato de que candidatos a santo tão populares quanto João Paulo II costumam ser alvos decampanhas -- basicamente, os fãs do candidato passam a sugerir a todas as pessoas que conhecem e que precisam de um "milagre" que rezem para ele, solicitando a intercessão. Com milhares, ou milhões, de suplicantes, o surgimento de um ou dois casos que escapem ao poder explicativo das comissões investigatórias é uma certeza matemática.

Assim como nas eleições parlamentares brasileiras -- onde, dado um determinado nível de investimento em publicidade de campanha, a conquista do mandato é virtualmente inevitável -- deve haver um brake-even de orações que também torna a beatificação, e posterior santificação, de um candidato um fato garantido.

Resumindo, o sistema de reconhecimento de santos e beatos do Vaticano é formado por uma máquina de geração de eventos, a campanha,  que multiplica as súplicas (às vezes por séculos a fio, se necessário) até que a lei das probabilidades gere um pequeno saldo a respeito do qual um grupo de especialistas esteja disposto a manifestar ignorância. A essa manifestação segue-se a aplicação de dois erros básicos de raciocínio: o apelo à ignorância e o post hoc."

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Papai Noel faz mal?

Krampus, o demônio de Natal
Entrando no clima da temporada, resolvi ler The Myths that Stole Christmas ("Os Mitos que Roubaram o Natal"), do filósofo David Kyle Johnson. O livro apresenta alguns fatos já razoavelmente bem conhecidos: por exemplo, que os festejos do solstício de fim de ano nunca foram e nem são uma exclusividade cristã, que Papai Noel tem muito mais a ver com divindades pagãs como Pã e Odin e, até mesmo, com demônios medievais, como o Krampus, do que com São Nicolau (que, aliás, provavelmente nunca existiu, sendo uma versão cristianizada do taumaturgo pitagórico Apolônio de Tiana).

Johnson, no entanto, vai além desses mitos mais conhecidos, tecendo argumentos contra o "mito" de que as compras desenfreadas de Natal são boas apara a economia -- não são, diz ele, já que envolvem desperdício de recursos e abuso do crédito -- e atacando o caráter estressante e compulsório dos rituais de troca de presentes. Quando ele define a compra de presentes de Natal como o ato de "gastar dinheiro que não temos comprando, para pessoas de quem realmente não gostamos, coisas que elas não querem e de que não precisam", a imagem de inúmeras festas de Amigo Secreto me saltou imediatamente aos olhos.

A afirmação mais polêmica do livro, no entanto, deve ser a de que sustentar a crença das crianças na realidade de Papai Noel é imoral e pernicioso. Imoral porque é uma mentira pura e simples -- e os pais não devem mentir para os filhos -- e pernicioso por uma série de motivos que o autor enumera.

O primeiro é que faz com que as crianças que realmente acreditam nos pais passem por idiotas: quando os coleguinhas que já perceberam que Papai Noel não existe se põem a humilhá-la, a criança que ainda confia na palavra dos pais se vê punida por sua devoção filial, e essa quebra de confiança entre pais e filhos pode ter consequências dolorosas (o livro cita alguns exemplos).

O segundo é que embota a bússola moral, inicialmente ao vincular virtude a recompensas materiais, e não a  valores, e depois por contradição: a criança pobre e decente que vê o "bully" rico ganhar presentes fantabulásticos todo ano tende a acabar se perguntando o que diabo é "bom comportamento", afinal, e para que serve. O terceiro é que torna as crianças gananciosas e ingratas.

O quarto, e talvez mais importante, é que o reforço da crença em Papai Noel "adestra" as crianças para um hábito mental de credulidade e atrasa o desenvolvimento do senso crítico, já que, a fim de sustentar a ilusão, muitos pais acabam usando argumentos falaciosos para debelar as dúvidas razoáveis dos filhos quanto à existência de Papai Noel. Uma criança que ouve dos pais que "se você quiser acreditar, ele existe" já está pré-programada para cair em engabelações como O Segredo, acreditar no poder do pensamento positivo, apelar para curas quânticas e adjacências várias.

Johnson antecipa a objeção mais óbvia: "ei, mas são apenas crianças!". Em resposta, escreve: "Os anos formativos são os mais importantes(...) As lições que aprendemos na infância são as que ficam conosco. Cada lição ruim sobre pensamento crítico que uma criança aprende será exponencialmente mais difícil de desaprender (...) Não espero que garotos de quatro anos sejam pensadores críticos, mas digo que devemos dar lições de pensamento crítico, recomendar esse tipo de pensamento e encorajá-lo, pelo exemplo, desde cedo. Você não espera a criança saber falar para aí começar a ensiná-la a falar, e você nunca a encoraja a falar errado."

É fácil, suponho, admitir que as críticas de Johnson têm algum mérito, mas são exageradas. Mas serão, mesmo? Eu ainda me lembro de ter me sentido traído quando achei os presentes escondidos no fundo do armário, no dia 23 de dezembro, trinta e tantos anos atrás.

Por outro lado, as objeções que eu até então vinha levantando contra Papai Noel não eram muito diferentes das que tinha, ainda em forma embrionária, a respeito de Deus e de Jesus, e o choque de descobrir que elas eram, afinal, válidas no que dizia respeito ao Bom Velhinho talvez tenha aumentado minha confiança em sua aplicação mais ampla.

Falando nisso, Jonhson nota que a conspiração dos adultos para convencer as crianças da realidade de Papai Noel é mais forte, até, que a paixão religiosa: outdoors dizendo que Deus não existe são até aceitáveis, ainda que polêmicos, afirma, mas propõe um experimento: tente pôr um cartaz na beira de uma estrada movimentada dizendo "Não existe Papai Noel". O autor aposta que nenhuma empresa aceitará a encomenda e, se o outdoor chegar a ser montado, seu criador correrá sério risco de sofrer linchamento.

Não duvido.