sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"Mercado" prevê resultado de testes científicos

Um mercado de apostas sobre quais estudos escolhidos para o “Projeto Reprodutibilidade: Psicologia”, que buscou confirmar as descobertas anunciadas em dezenas de artigos científicos da área psicológica – e que concluiu que menos da metade das conclusões anunciadas na literatura era reprodutível – se saiu melhor em prever esse resultado do que uma pesquisa de opinião realizada entre especialistas, aponta estudo publicado na PNAS.

Enquanto o Projeto Reprodutibilidade ainda estava em andamento, cerca de 40 pesquisadores envolvidos responderam a uma pesquisa de opinião sobre qual a chance que viam de cada estudo sob escrutínio ser reproduzido. Esses mesmos pesquisadores participaram de uma bolsa de apostas, onde receberiam US$ 1 se apostassem num estudo que acabaria reproduzido, ou nada, se apostassem num estudo “errado”.

A pesquisa de opinião previu o resultado do Projeto Reprodutibilidade com apenas 50% de precisão, mas a bolsa de apostas se saiu bem melhor, com o preço médio de fechamento dos lances em US$ 0,55, o que se traduz numa previsão de consenso de que 55% dos trabalhos seriam reproduzidos. Esse consenso de mostrou apenas um pouco mais otimista do que a realidade. Já um modelo matemático construído com base no jogo previu os resultados individuais com 71% de precisão, bem superior aos 50% da pesquisa de opinião.

Psicólogos ouvidos sobre o assunto pela revista Nature levantaram duas hipóteses sobre o resultado: os participantes podem ter sido mais criteriosos no jogo do que ao responder à pesquisa, porque havia dinheiro envolvido; ou a própria dinâmica do mercado pode ter permitido que cada jogador ajustasse seu ponto de vista a partir do comportamento dos demais, possibilidade que a pesquisa de opinião não oferece. Outro resultado do estudo foi uma estimativa da probabilidade de uma hipótese psicológica ser verdadeira, dado que um artigo publicado afirma que ela é: a mediana ficou em 56%. Após uma replicação, essa estimativa mediana sobe para perto de 100%.

Esta nota faz parte da edição mais recente da coluna Telescópio, que escrevo para o Jornal da Unicamp.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Flores e Fúria: e-books à venda!

O editor Erick Sama me avisa de que os dois livros que lancei na Bienal do Rio deste ano -- o volume de contos Tempos de Fúria e a novela de fantasia Flores do Jardim de Balaur -- já estão disponíveis em formato e-book, para Kindle, e em breve estarão à venda em outros formatos eletrônicos, também. Os links para adquiri-los na Amazon.com.br já estão ativos nos títulos ali em cima. Quem tem conta Kindle nas "outras" Amazon (dos EUA, Reino Unido, etc.) também pode encontrá-los, basta buscar pelo título.

E o que são esses livros? Escrevi sobre eles na época da Bienal, e dá pra achar a postagem inteira aqui. Mas, lá vai um resumo:

Tempos de Fúria: publicado originalmente em 2005, este foi o livro que fez a minha "fama" -- seja lá o quanto disso que tenho. Foi adotado como leitura obrigatória numa importante escola de ensino médio do interior paulista, garantiu-me participação num documentário de TV sobre ficção científica nacional e rendeu minha primeira resenha numa revista de circulação nacional. Enfim, chamou a atenção de um bocado de gente que não me conhecia para o meu trabalho (embora nenhum produtor de Hollywood). Tempos de Fúria também é muito usado como régua para medir toda a minha obra posterior – que geralmente acaba sofrendo na comparação, o que me parece um tanto quando injusto, mas quem sou eu para opinar? Entre os contos mais populares deste volume estão o que abria a primeira edição (hoje é o segundo), o levemente surrealista Estes 15 Minutos; e Planeta dos Mortos, uma, com o perdão da linguagem pretensiosa, sinfonia de destruição e tripas.

Flores do Jardim de Balaur: como já disse, É uma fantasia, e algo que acho que posso chamar de "semi-inédito". A novela já havia sido publicada, décadas atrás, numa edição especial do fanzine Juvenatrix, de Renato Rosatti, lá na época em que fanzines eram feitos na base de datilografia e xerox. Ele é a primeira -- e até agora, maior -- aventura de meu único protagonista recorrente: Hieron de Zenária (você encontra outra peripécia dele neste conto). Hieron é minha resposta a Conan da Ciméria: não um bárbaro errante, mas um erudito errante.No continente perdido de Darach, dominado por magia e superstição, os sábios de Zenária são os únicos cultores do que chamaríamos de lógica e filosofia natural.

Cansado da mesmice da vida acadêmica, e desconfiado do engessamento intelectual de seus mestres, sempre mais preocupados em citar autoridades do que em investigar a natureza, Hieron corre o mundo, vivendo aventuras e inventando o método empírico-científico no processo, vendendo seus serviços como professor, advogado, matemático e engenheiro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Carl Sagan versus Astrologia: uma lição

Hoje é aniversário de Carl Sagan: o astrônomo americano, idealizador original da série de TV Cosmos e um dos mais importantes popularizadores da ciência no século 20, estaria completando 81 anos nesta data, se o câncer não o tivesse levado em 1996.

Além de divulgador da ciência, Sagan foi uma das principais vozes do movimento cético americano, que ganhou fôlego renovado a partir dos anos 70 do século passado. Quem assistiu a Cosmos provavelmente se lembra do duro ataque desferido por ele à astrologia, no início do terceiro episódio da série (há vários clipes dessa passagem online, como, por exemplo, este aqui).

É curioso, portanto, que ele tenha se recusado a participar do manifesto contra a astrologia assinado por 186 cientistas, incluindo dezoito ganhadores do Nobel, publicado na revista The Humanist em 1975 e enviado a todos os jornais dos Estados Unidos e do Canadá: esta foi a manifestação antiastrológica mais contundente desde a publicação de Disputationes adversus astrologiam divinicatrium (“Argumentos Contra as Previsões Astrológicas”) de Pico della Mirandola, no século 15. 

Dizia o manifesto: “A aceitação da astrologia permeia a sociedade moderna. Ficamos especialmente preocupados com a contínua disseminação acrítica de cartas astrológicas, previsões e horóscopos pela mídia e por jornais, revistas e editoras de livros que, de resto, têm boa reputação. Isso só pode contribuir para o avanço do irracionalismo e do obscurantismo”.

Sagan se insurgiu contra o tom autoritário do manifesto. Ele disse que assinaria um texto apontando alegações astrológicas específicas e as bases científicas para refutá-las, mas não uma condenação ampla, sustentada apenas na autoridade dos signatários. Foi o que ele fez em Cosmos, citando tanto objeções clássicas, como a dos destinos diversos de irmãos gêmeos, quanto outras baseadas em conhecimentos científicos modernos.

A história do manifesto dos 186 é curiosa e instrutiva. Curiosa porque a publicação do texto acabou desencadeando uma série de estudos -- muitos executados por astrólogos -- sobre a prática, e que acabaram gerando uma massa compacta e virtualmente inquestionável de resultados negativos. Muitos desses trabalhos e suas conclusões são descritos em meu livro sobre astrologia, que será lançado em dezembro. 

E instrutiva porque Sagan, no fim, estava certo: argumento de autoridade não é como a ciência funciona. De fato, relativistas como o filósofo Paul Feyerabend acabaram usando o texto dos 186 como munição em seus ataques à ciência "dogmática" e "oficial". 

Esta á uma lição importante para os dias de hoje, e não só para a ciência, mas também em várias outras arenas de debate, onde opiniões apaixonadas acabam levando as pessoas a fazer vista grossa para argumentos ruins e métodos, em si, injustos: não é porque se concorda com o mérito do que se diz que se deve concordar também, e automaticamente, com o modo como se diz.