quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Curso superior, aprendizado contínuo?

Ter cursado graduação numa universidade não estimula as pessoas a manter uma vida intelectual mais ativa do que a da população em geral, mas por outro lado reduz a probabilidade de um adulto se tornar abstêmio, sugerem duas pesquisas realizada pelo Instituto Gallup nos Estados Unidos. Mais detalhes sobre os levantamentos, além de outras notas sobre ciência e educação superior, você encontra no Telescópio do Jornal da Unicamp.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Picaretagem quântica: qual o dano?

Faz uns dois anos que saiu Pura Picaretagem, livro em que eu e o físico carioca Daniel Bezerra dissecamos as falácias pseudocientíficas que tentam aderir ao campo perfeitamente legítimo da física quântica, mais ou menos como cracas grudam nos casos dos navios. A obra gerou, vem gerando, um feedback dos leitores que, se não é caudaloso, é constante: gente que ou escreve na página do livro no Facebook, manda e-mail ou inbox.

Uma coisa que tenho notado, no entanto, é uma mudança no tipo do feedback: no início, ele vinha quase sempre de gente comum ou professores, na maioria dos casos comentando o livro em si ou pedindo algum esclarecimento sobre nossas fontes bibliográficas. Em tempos recentes, começaram a predominar os contatos que buscam chamar minha atenção para algum evento deprimente ou para o uso do nome quântico em vão. Na última semana, no entanto, chegou algo totalmente novo: um pedido de socorro.

Um contato me procurou, via rede social, para pedir auxílio: uma pessoa ligada a sua família havia se convencido de que tinha um suposto "poder quântico de cura" e, por conta disso, vinha se recusando a fazer um tratamento médico considerado necessário. Será que eu tinha alguma ideia para ajudar?

Dei um ou dois palpites, mas duvido que algum deles seja realmente útil. Relações interpessoais, envolvendo questões de afeto, ego e confiança, são notoriamente complexas já para as partes envolvidas. Para um estranho (no caso, eu) podem ser totalmente incompreensíveis e impossíveis de manejar.

Uma coisa que vale a pena comentar de modo mais geral, sobre esse caso, é o fato de a vítima ser, ela também, uma promotora da "cura quântica". O estereótipo do curandeiro charlatão, que sabe que está vendendo ilusões mas insiste nisso, pelo lucro, é apenas isso, um estereótipo. A literatura está cheia de casos que mostram que, ao longo do tempo, mesmo quem começa, cinicamente, como "charlatão" tende a acabar convertido em crente fiel.

Há um artigo clássico do psicólogo Ray Hyman sobre sua experiência com quiromacia que  descreve bem o fenômeno e suas causas mas, em linhas gerais, os principais fatores são o impacto sobre os clientes -- o curandeiro, a princípio, se surpreende ao ver como os outros aceitam seu discurso, e começa a encarar o feedback positivo como sinal de que talvez haja alguma verdade naquilo, afinal -- e uma série de filtros cognitivos que reforça essa percepção, como viés de confirmação e validação subjetiva. Se o efeito atinge até os cínicos, é de imaginar seu poder sobre quem já entra nesse meio como crente.

Mas, enfim, o que é esse "discurso"? Depois de tudo que já li e vi sob o rótulo de "cura quântica" ou "consciência quântica", dá para dizer que, arranhando o verniz retórico e o jargão pseudocientífico, todas essas propostas se reduzem ao bom e velho mito do poder do pensamento positivo. Ou, como escrevi tempos atrás, para a revista Galileu:

A ideia de que nossos pensamentos podem construir ou destruir nossas vidas é antiga. “Porque como imaginou em seu coração, assim o homem é”, diz um versículo do "Livro dos Provérbios" da "Bíblia", citação que batiza o primeiro best-seller de autoajuda pelo pensamento positivo, "As a Man Thinketh", de 1902. A ele se seguiram inúmeros outros, incluindo o megassucesso "O Segredo".

Só o que mudou de 1902 para cá foi a apropriação indevida -- porque descontextualizada, e largamente exagerada -- da palavra observação, que no contexto quântico significa interação: duas partículas que interagem estão "observando" uma à outra e, no processo, definem parte de suas propriedades físicas -- para sugerir, ou mesmo afirmar, que o observador consciente "cria" a realidade, ou que os pensamentos dos indivíduos "atraem" o que lhes acontece. Você pode chamar esse negócio de "lançar no Universo o que deseja que o Universo traga para você" ou "harmonizar as vibrações energéticas", mas no fim é tudo a mesma coisa: desejar e esperar a fada madrinha.

Ah, sim: questões do tipo, como descobertas científicas revolucionárias são possíveis (já que contrariam a experiência e as expectativas da totalidade dos "observadores conscientes" do planeta até o instante exato em que são feitas) e por quê 6 milhões de observadores conscientes judeus teriam concordado em usar o poder de suas mentes para "atrair" o Holocausto são, convenientemente, varridas para debaixo do tapete.