sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Agora só falta a Universal ter um país só dela

A imagem dos camisas pretas de Mussolini marchando sobre Roma foi a primeira que me veio à mente quando li a notícia de que uma tropa de camicie bianche da Universal do Reino resolveu tomar as leis de trânsito nas próprias mãos e decidir quem podia, ou não, usar as vias públicas durante a inauguração do Templo, dito de Salomão, sem ser incomoda pelas autoridades que, em tese, deveriam zelar pelo direito de ir e vir de cidadãos de todos os credos, etnias, orientações sexuais, etc.

Logo me dei conta, no entanto, de que a comparação com o fascismo era um exagero, em que pesem a tropa uniformizada, o líder carismático fardado (ou, no caso, fantasiado de rabino) e a guarda de honra, vestida como extras de Indiana Jones e o Templo da Perdição, a carregar a Arca da Aliança nos ombros (foram eles que confundiram os filmes, não eu).

A temporária privatização branca -- trocadilho intencional -- das ruas no entorno do templo, assim como a presença dos chefes dos três níveis do Executivo apenas mostram que a Universal do Reino ascendeu, aos olhos dos políticos brasileiros, ao céu dos "amigos" citados na frase "aos amigos tudo, aos inimigos, a lei".

Qualquer um pode adentrar esse paraíso, bastando para isso uma alta capacidade comprovada de financiamento eleitoral ou de produção de votos -- ou, idealmente, ambos. Quem está nele é, para todos os efeitos práticos, tão inimputável quanto o Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa. Nele convivem movimentos sociais, igrejas, empreiteiras, sindicatos.

Há variações regionais e partidárias, é claro, mas existem alguns poucos "amigos" realmente nacionais, e a Universal do Reino parece ter conquistado seu lugar entre eles, bem ao lado da Católica. Para haver isonomia completa só falta o Edir Macedo firmar um tratado diplomático com o governo brasileiro, indicar ministros ao STF e o dia da inauguração do templo virar feriado nacional.

A primeira parte pode parecer delirante, mas uma história da Cientologia diz que L. Ron Hubbard tentou comprar um Estado na África para criar seu próprio "Vaticano". Talvez outros possam vir a ter sucesso onde ele falhou? Tornar-se uma teocracia pode ser o que falta para Sealand ser levado a sério na política internacional, afinal.

Já a segunda e a terceira podem estar mais perto do que se imagina: o segundo suplente na chapa de José Serra ao Senado, por exemplo, é bispo (licenciado) da Universal.


Alguém poderia ver nisso um sinal de evolução da democracia brasileira: não só a lista de "amigos" torna-se mais inclusiva, como a deferência concedida historicamente ao catolicismo passa a ser estendida a outros credos. Mas esse seria um "alguém" que eu gostaria de mandar para os quintos dos infernos. A verdadeira democracia não é aquela com um clube elástico de "amigos",  mas uma onde impera o princípio da impessoalidade, em que a lei é, de fato, cega e vale para todos: quem comete um crime é criminoso, não importa se agiu em nome de Deus ou do "movimento social".

Da mesma forma, um Estado democrático é um Estado laico -- o que não significa que todas as religiões devam ter os mesmos privilégios e sinecuras, e sim que nenhuma religião deve ter privilégios e sinecuras. O Brasil, no entanto, segue pelo caminho de menor resistência, onde homens (e mulheres) públicos rifam princípios em nome de ganhos políticos de curto prazo.

Millôr Fernandes, que vem sendo muito lembrado neste ano, tinha uma máxima sobre esse ethos nacional Stanislaw Ponte Preta, o incansável compilador do Festival de Besteiras que Assola o País, tinha uma boa frase sobre esse ha´bito nacional: "Ou se instaura a moralidade, ou nos locupletemos todos". O problema é que não dá para todos se locupletarem ao mesmo tempo: cedo ou tarde, alguém paga a conta.







quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Paraíso segundo Millôr

A verdadeira história do Paraíso ou Esta é a verdadeira história do Paraíso é, na verdade, duas histórias. Ou três. Todas extremamente relevantes para o mundo atual, como veremos a seguir. A primeira dessas histórias é a graphic novel – talvez fosse melhor dizer, graphic poem – criada por Millôr Fernandes para a revista O Cruzeiro, publicada em 1963, onde o grande escritor, ilustrador e humorista reconta os eventos dos capítulos 1 a 4 do Gênesis, pontuando-os com alfinetadas céticas, filosóficas e poéticas: Deus fez o Sol, Deus fez a pedra, mas será que também fez a sombra da pedra, ou foi pego de surpresa? Se tinha toda a eternidade à disposição, por que criou o mundo assim nas coxas, em apenas seis dias? Leia a resenha completa no Amálgama.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Conspiração alienígena às avessas

No início do mês, a CIA usou sua conta no Twitter para celebrar o aniversário do primeiro voo de um avião de espionagem U-2 sobre a União Soviética, realizado em 4 de julho de 1956. Esses aviões, cuja existência foi mantida em segredo durante anos, voavam muito mais alto do que se imaginava possível na época – ao menos, para voos tripulados. Para se ter uma ideia, um avião comercial chegava a 6.000 metros de altitude, enquanto que os U2s atingiam mais de 18.000 metros. E o que isso tem a ver com ceticismo? Bom, um dos tuítes comemorativos da agência central de inteligência diz: “Lembram-se dos relatos de atividades incomuns no céu nos anos 50? Éramos nós”. Leia mais em Olhar Cético, no site da Galileu.