sexta-feira, 13 de junho de 2014

E por falar em futebol...

Para não dizer que não tentei tirar uma casquinha do Evento-Que-Não-Pode-Ser-Mencionado, já que seu nome está protegido pelos temíveis guardiões dos Ritos de Koopy ("Koopy Rites", em inglês), eis que a Editora Draco anuncia o lançamento da antologia Futebol, que reúne contos sobre o esporte escritos com um viés fantástico -- de ficção científica, terror e fantasia. Meu conto presente no livro, Sob o Signo de Xoth, já havia saído na antologia de ficção científica com futebol Outras, Copas, Outros Mundos, de 1996 1998, lançada pela mais importante editora extinta de que você nunca ouviu falar, a Ano-Luz.

Lembro-me de que o "Xoth" do título fez subirem algumas sobrancelhas irônicas, na época. O nome de refere à estrela de origem dos filhos de Cthulhu, criados por Lin Carter para sua versão pessoal da mitologia de H.P. Lovecraft. O conto trata de uma tentativa de manipulação da energia emocional de uma torcida de futebol para fins inomináveis.

Esse conto foi um dos últimos da minha "década lovecraftiana", que começou lá por volta de 1989 e foi até o início deste século. Foi nessa época que saiu meu livro de contos de terror, Medo, Mistério e Morte, e que deve ser relançado assim que eu reunir energia para revisá-lo. Enfim, eu já escrevia terror cósmico antes de virar modinha (e de dar dinheiro, mas essa é a história da minha vida).

Da velha Copas, há dois outros contos resgatados nesta antologia, Pátria de Chuteiras, de Gerson Lodi-Ribeiro, e O ano em que faremos contrato, de Fábio Fernandes. É uma pena que a Draco não tenha conseguido também Eu Matei Paolo Rossi, de Octavio Aragão, que considero o melhor trabalho da antologia original, seguido pelo Pátria, do Gerson.

Quem ficar curioso com o Signo de Xoth pode encontrar outras coisas do meu período lovecraftiano disponíveis em e-book, por exemplo, aqui, aqui e, à guisa de saideira, aqui.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Meu problema com a Copa

Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo deste ano, minha reação foi um misto de resignação e mau-humor. Que é exatamente como me sinto hoje, no dia da abertura do torneio. Resignação com o que eu sabia que viria por aí: gastos desbragados, obras inacabadas ou finalizadas nas coxas e pelo triplo do preço, a tal da "soberania nacional" tão cara aos posers de sempre vergada, sem a menor cerimônia, sob as exigências da Fifa.

Já o mau-humor era um pouco mais difícil de explicar. Em parte, era por causa das complicações -- transporte, horário, agenda -- que o evento inevitavelmente traria para a minha vida, logo eu que não dou a mínima para futebol. Mas só em parte.

Não se tratava também, exatamente, da questão de prioridades: investimento público em esporte e lazer pode ser legítimo, afinal. Dizer que há "coisas mais importantes a fazer" é um truísmo, sempre, não importa o que se esteja fazendo: eu, por exemplo, estou aqui, blogando, em vez de ir para Gana distribuir remédio para malária.

Mas acho que agora, enfim, entendi o principal motivo de meu mau-humor, que de lá para cá só aumentou: é o fato de que fui criança durante a ditadura, o que significa que passei os meus anos formativos sob o bombardeio constante da euforia patriótica fabricada pelo governo.

Deve ser difícil explicar para quem não viveu o período, nem foi alvo preferencial das manobras toscas de "lavagem cerebral" dos governos militares -- cata-ventos verde-amarelos no 7 de Setembro, trabalhos escolares que se resumiam a fazer cartazes ufanistas (verde-amarelos) no Dia do Soldado, pronunciamentos do "Excelentíssimo Senhor Presidente da República General Ernesto Geisel" volta e meia em rede nacional obrigatória na TV, a Rede Globo gritando histérica em época de Copa do Mundo, vizinhos malufistas pintando a bandeira do Brasil na rua...

A coisa toda me deixou vacinado -- com a vacina da má-vontade profunda -- contra euforias fabricadas, congraçamentos de encomenda, celebrações ensaiadas, explosões de "alegria espontânea" que tinham a maior cara de ordem unida. E é daí que vem, finalmente me dei conta, a maior parte de meu mau-humor com esta "Copa das Copas": uma reação imunológica à tentativa quase fascista de se estabelecer, de cima para baixo, um clima de alegre unanimidade que, poderia dizer o ditador Garrastazu Médici nos idos de 1970, nunca antes tinha sido visto na história deste país.

Nesse aspecto, a adoção do bordão "complexo de vira-lata", como versão atualizada do "ame-o ou deixe-o", foi coisa de gênio: como se capacidade de autocrítica tivesse se transformado em manobra de autossabotagem e crime de lesa-pátria. Nelson Rodrigues é uma boa fonte de frases de efeito, mas H.L. Mencken também era -- e dele é uma de minhas favoritas: "Toda pessoa decente tem vergonha de seu governo".

Na época da escolha da sede já era irritante, e agora tornou-se insuportável, o esforço de entidades, pessoas e empresas que querem, que exigem, que eu ame a Copa, que eu curta a Copa, que eu consuma a Copa, que eu me entregue à Copa como se não houvesse amanhã. São os publicitários, os jornalistas, os fabricantes de televisores, de bebidas, de carros, de antissépticos bucais (!!), as empresas de mídia, as empreiteiras, o Galvão Bueno, a Fifa, o governo tucano de São Paulo e o governo petista em Brasília. O suado trabalho de construção de um clima de euforia ufano-futebolística é talvez a coisa mais próxima de uma grande conspiração reptiliana a existir no Brasil, neste momento.

Ter tanta gente em volta dizendo como eu deveria me sentir -- e todos apontando exatamente na mesma direção -- ativa antigos anticorpos gestados em tempos sombrios e me põe em contato com meu rabugento interior. Daí, enfim, o meu problema com a Copa.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Fumo passivo, fato ou ficção? Fato!

A regulamentação, pela presidente Dilma Rousseff, da lei que proíbe o fumo em espaços fechados de uso coletivo, como restaurantes ou escritórios, está causando alguma polêmica. Há um argumento, brandido pelos opositores da proibição, que merece um olhar cético: o de que os malefícios do fumo passivo “não estão comprovados” pela ciência. Só para deixar claro: estão, sim. Os efeitos do fumo passivo são pesquisados há décadas, e o resultado tem sido tão consistente quanto constrangedor – para os tabagistas. (Leia o artigo completo no Olhar Cético da Galileu online)