sexta-feira, 28 de março de 2014

A Ascensão de Cthulhu: começa 2014

Será lançado em meados de abril, na Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre,  o volume de contos A Ascensão de Cthulhu, da Argonautas Editora -- livro que traz um conto de minha autoria, e representa o pontapé inicial da série de lançamentos contendo escritos meus que deve ocorrer, salvo alguma intervenção dos Grandes Antigos, ao longo do ano.

Cthulhu é, claro, o Grande Cthulhu, a entidade alienígena-extradimensional que reside em animação suspensa sob o Oceano Pacífico, e cujo despertar marcará o fim da história humana sobre a Terra -- ou, ao menos, é o que se depreende do conto The Call of Cthulhu, de H.P. Lovecraft. O livro da Argonautas é uma coletânea de contos de inspiração lovecraftiana.

Minha relação com a obra de Lovecraft passou, como se costuma dizer, por fases. Esse autor foi uma das principais influências de minha primeira década como ficcionista publicado -- digamos, de 1992 a 2002.

Gostava muito, como ainda gosto, da forma como estruturava suas narrativas, e ele me deu um formato dentro do qual trabalhar.

Com o tempo, comecei a me distanciar ideologicamente de seu trabalho: enquanto, na ficção lovecraftiana, a ignorância geralmente é uma bênção e a compreensão do verdeiro lugar da humanidade no cosmo leva à loucura, minhas convicções pessoais deslocaram-se na direção oposta: se o conhecimento traz problemas, eles só podem ser resolvidos com mais conhecimento, não queimando papéis, trancando livros em cofres ou alimentando mentiras.

Claro, dá para discutir se Lovecraft realmente achava que a ciência era o caminho do desastre -- há sinais de que não -- mas, enfim, peguei outros caminhos, me meti a fazer ficção científica hard, etc.

Curiosamente, no entanto, sempre me senti tentado a cometer uma "última história lovecraftiana". E, por conta disso, acabei escrevendo umas três ou quatro. A primeira-última foi Sob o Signo de Xoth, que está para ser republicada pela Draco numa coletânea de futebol, e depois ainda vieram  Deus dos Abutres, seguida por Toda Forma de Amor e, finalmente, por Caos e Eternidade, que é a que aparece nas páginas da nova coletânea da Argonautas.

O convite para participar de A Ascensão de Cthulhu me pegou de surpresa. Veio num momento em que eu já havia me decidido a parar de escrever ficção para o mercado brasileiro -- mas, por sorte, Chaos and Eternity era um conto que eu já tinha pronto, escrito originalmente em inglês, sob encomenda, para uma antologia americana sobre Nyarlathotep que acabou não se concretizando. Peguei o conto, traduzi, cortei, costurei, reformei e, graças ao editor Duda Falcão, aí está ele para quem quiser ler.

A história foi produzida bem na época em que eu transitava do terror para a ficção científica hard, e isso aparece. Mais não digo, para evitar spoiler.

E como o mundo é cíclico, estou recomeçando a ler (ou começando a reler) literatura dos Mitos de Cthulhu. Algum Lovecraft original, e incursões nesse universo por James Blish, Ramsey Campbell e Karl Edward Wagner, entre outros nomes. Está sendo um passeio bem interessante.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O que aprendi sobre a ditadura

Nas últimas semanas, entrevistei uma série de professores da Unicamp sobre a ditadura de 64-85 e seu legado. Foram horas de conversa com historiadores, cientistas sociais, críticos de arte e de literatura. O resultado aparece na edição de 1º de abril (pois é) do Jornal da Unicamp, e se me permitem dizer, representa uma das coisas mais relevantes que já fiz em quase 25 anos de jornalismo.

As avaliações que coletei foram bem nuançadas, com alguns méritos reconhecidos (expansão do ensino público, modernização da economia), alguns bichos-papões redimensionados (a censura pegava mais no pé da música brega que da música de protesto, o regime foi amicíssimo do cinema nacional). Tudo isso, coisa que dá para discutir ad eternum. Mas o que sempre ficou claro, em todas as conversas, em todos os balanços, foi um dado só, constante: essa porra foi uma ditadura.

Não há méritos, não há conquistas, que "relativizem" isso. E esta talvez seja a faceta mais difícil de capturar e transmitir: o que é uma ditadura. Para nós, que vivemos numa democracia, e onde o discurso dito "sofisticado" se apropria da palavra como metáfora, quase até castrá-la ("ditadura do mercado", "ditadura da beleza", "ditadura do agronegócio", "ditadura gay", etc., etc.) a consciência do estar-em-ditadura não existe.

Como quem nunca viu uma vítima de pólio pode acabar acreditando que vacina é frescura, quem só tem a experiência da liberdade pode acabar achando que esse negócio é supervalorizado. Não é. "Melhor ter pão que liberdade". E sem liberdade, como você vai saber se o seu vizinho tem mesmo pão? Quem o seu vizinho vai avisar quando o pão dele acabar? Quem você vai avisar?

Ditadura -- qualquer ditadura, seja de esquerda, de direita, alienígena, genocida, complacente, "ditabranda", etc. -- pressupõe o exercício do poder sem freios, sem peias, sem necessidade de prestação de contas. Numa ditadura, não só Amarildo teria desaparecido, como as pessoas teriam medo de falar nele: medo de se exaltar perto de um vizinho dedo-duro. Medo de desaparecer, também, na calada da noite.

Existe algo, uma experiência da opressão, o medo que paira no ar, a sensação de que toda autoridade é arbitrária, de que direitos fundamentais na verdade são privilégios que podem ser revogados a qualquer momento, dependendo do humor do guarda da esquina: de que não há recurso, ouvido ou apelação -- existe algo que não aparece nos dados do PIB, nas estatísticas de saúde pública, nos números da educação. Mesmo se a ditadura tivesse sido o sucesso tecnocrático que seus ideólogos esperavam (e não foi: é sempre bom lembrar que entregou à sociedade civil um país na lona, destruído e desmoralizado), não teria valido a pena. Porque era uma ditadura.

E há a questão das Comissões da Verdade. Que os opressores de ontem dizer ser "unilaterais". Curioso. Todo mundo sabe quem sequestrou o embaixador X ou assaltou o banco Y. Todo mundo sabe, também, que muitas dessas pessoas foram punidas -- nos porões, com tortura, com exílio, com a morte. Agora, quem matou Herzog? Quem assassinou Rubens Paiva? Ninguém sabe. Quem foi punido? Há uma assimetria, uma "unilateralidade" nessa situação, sim. Só que não é a que se propaga por aí.

Depois da mentira de que liberdade e democracia são luxos negociáveis, a maior de todas é a de que havia alguma simetria na luta entre os agentes da repressão e os guerrilheiros de esquerda. "Excessos foram cometidos dos dois lados", diz a platitude corrente.

Mesmo que aceitando, por um só instante e para fins de argumento, que todas as vítimas da ditadura eram assaltantes, sequestradores e terroristas (e não também intelectuais, políticos, artistas, gente comum que só estava no lugar errado e na hora errada), existe uma diferença brutal entre criminosos cometendo crimes, de um lado, e agentes públicos valendo-se do aparelho do Estado para impor o terror, torturar e punir extrajudicialmente, do outro. Bandidos desrespeitam direitos humanos, e é por isso que são bandidos. Um Estado que se iguala a eles torna-se algo muito pior.

Voltando às entrevistas para o Jornal da Unicamp, outro ponto que a maioria dos professores que ouvi fez questão de deixar claro foi que se tratou não de uma "ditadura militar", mas de uma ditadura civil-militar. Como um deles me disse, os militares não "roubaram" o país da sociedade civil, mas sim, uniram-se a parte dessa sociedade: juntos, esses dois grupos apossaram-se do Brasil, com os resultados trágicos conhecidos. Esses civis -- entre eles, alguns que são peças-chave da base do governo do PT e, a acreditar nas foto-ops que circulam por aí, amigos do peito do ex-presidente Lula -- não foram "apoiadores" da ditadura militar, como damas constrangidas arrastadas para um baile pelos maridos rabugentos. Foram, isso sim, parte integral dela.