segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mitos sobre a violência

"A violência é o último refúgio do incompetente", diz Isaac Asimov pela boca de um dos protagonistas de sua série de romances Fundação. Como toda frase de efeito, o dito asimoviano deixa de contemplar nuances: acusar uma pessoa que luta pela própria vida ou contra um regime tirânico, por exemplo, de "incompetência" pode até ser justificado, em certas circunstâncias, mas dificilmente será a melhor avaliação possível do que ocorre. No entanto, notícias como a da invasão do Instituto Royal ou do quase linchamento do coronel da PM paulista mostram que a sabedoria de Asimov continua a encontrar amplo espaço de aplicação.

É importante notar que as soi-disant "forças da ordem"  não vêm mostrando, também, nenhuma relutância em buscar esse último refúgio, e que é a avidez com que o procuram que acaba emprestando, aos depredadores e agressores "civis", a pálida aura de legitimidade com que tentam revestir-se -- aura que também se ampara en mitos, alguns propalados por gente que deveria saber melhor, e que por isso mesmo precisam ser expostos. Entre eles, estão:

"Nenhuma transformação social real jamais aconteceu sem violência"

 Mesmo supondo que isso seja verdade: e daí? Onde está a linha lógica que diz que, porque tem sido assim, tem de continuar a ser assim? Mais importante, nas democracias da segunda metade do século passado, em que casos a violência foi realmente necessária para produzir alguma mudança significativa para melhor, e em que casos foi contraproducente, ou mesmo instrumento de retrocesso?

Argumentando na mesma linha, também dá para dizer que nenhuma grande civilização jamais foi construída sem ampla depredação ambiental e uso de trabalho escravo. Vamos, portanto, endeusar o pior do obscurantismo ruralista como o "black bloc" do processo civilizatório?

"Destruir propriedade não se compara a agredir uma pessoa"

Destruir propriedade é agredir uma pessoa, ou pessoas: o proprietário, o usuário, o contribuinte (no caso de um bem público). Toda propriedade é fruto do trabalho de alguém, de tempo gasto e esforço. Quando trabalho humano é desperdiçado, alguém, cedo ou tarde, sofre, porque recursos escassos estão sendo consumidos em reparos que deveriam ser desnecessários. Destruição de propriedade não é uma violência sem vítimas: só acontece de as vítimas não aparecerem sangrando na hora, diante das câmeras.

"A violência nas manifestações não é vandalismo, é um gesto político"

Atentados terroristas e assassinatos de autoridades também são "gestos políticos", mas nem por isso deixam de ser terrorismo e assassinato. Existe uma diferença, que algumas pessoas não são capazes de -- ou não querem -- ver entre o que é um recurso político legítimo numa democracia e num regime de exceção. Toda a rationale da democracia, aliás, gira em torno do pressuposto de que deve ser possível fazer política sem recurso à violência.