quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Cantada, crime e censura

Parece que algumas pessoas estão tendo dificuldade em absorver o resultado da Pesquisa Chega de Fiu-Fiu, segundo a qual 83% das mulheres não gosta de ouvir cantada -- entendendo-se, aí, "cantada" como uma manifestação não-solicitada de interesse sexual  em espaço público.

De todas as críticas ao resultado, talvez a única que tem algum valor real é a do vício da amostra: a pesquisa foi aplicada por um site feminista, no âmbito de uma campanha contra a cantada, o que torna o resultado, do ponto de vista estatístico, tão discutível quanto o uma pesquisa do site do Greenpeace sobre rotulagem obrigatória de transgênicos: ninguém vai se surpreender se 90% dos respondentes forem a favor!

Ainda assim, quase 8.000 mulheres responderam. E mais de 6.000 delas disseram que não gostam de cantadas. Números absolutos costumam ser um mau guia para avaliar pesquisas, mas num tema tão íntimo quanto a reação a cantadas, a opinião negativa de 6.000 mulheres certamente deve ser levada a sério.

Ênfase no negativa: certas reações à pesquisa chamaram a atenção para o fato de que algumas mulheres, afinal, gostam de cantadas, mas proponho que as duas situações -- gostar ou não gostar -- estão longe de ser simétricas. Em virtualmente todo tipo de interação social, o "não gosto/não quero" é assumido como default. É por isso que se deve pedir licença para fumar na casa dos outros, e que convidamos as pessoas para eventos, em vez de arrastá-las, e oferecemos bebida e comida aos convidados em festas, em vez de simplesmente enfiar copos e salgadinhos em suas mãos. Comportamento civilizado, em geral, implica em deixar o outro confortável o suficiente para dizer "não".

E é exatamente isso que a cantada não faz. Mesmo quando ela é formulada sob a forma de pergunta -- "Vamos lá em casa ouvir o cedê do Robertão?" -- se a frase é gritada por um desconhecido enquanto a mulher passa pela calçada, a liberdade do "não" está lá, mas o elemento de conforto encontra-se, obviamente, ausente. Se você não tem certeza de que a pessoa com quem está interagindo deseja o comportamento C, não faça C. Ou pergunte antes, mas de uma forma que permita que a pessoa se sinta segura e confortável para recusar. O que vale para qualquer coisa, de acender cigarro a contar piada suja e a convidar para ouvir o cedê do Robertão.

Isso tudo é simplesmente ter boa educação, não ser um bully, ou um babaca. Por que, nas relações que envolvem romance e sexo, seria diferente? Alguns homens reclamaram da reação pública de repúdio das feministas à cantada, dizendo que ela "criminaliza o elogio". Trata-se de um típico excesso retórico: "criminalizar" um comportamento significa que o governo pode mandar homens armados atrás de quem o pratica. Dizer que um comportamento é babaquice e falta de educação é outra coisa.

Também se fala em "censura". Só se for no sentido de repreender -- tipo, "Amélia censurou a bebedeira de Abelardo". Censura, no sentido de proibir forçosamente a expressão de ideias e informações, é algo que o Judiciário se apraz de fazer com jornalistas. Chamar a atenção para a inadequação de certos comportamentos é, de novo, outra coisa.

Há ainda quem expresse temor pela extinção da espécie -- se não se pode mais "chegar junto nas mina", de onde virão o amor e o romance? Não estamos burocratizando o sexo, exigindo firma reconhecida em três vias antes do primeiro beijo?

Não sei se quem faz essa objeção está falando sério, sendo cínico ou simplesmente não pensou bem no assunto. Não deveria ser necessário lembrar de que nem todo consentimento -- ou recusa -- precisa ser verbal, e que a adequação da abordagem varia com o contexto. Dá para ler errado o contexto, e eventualmente fazer bobagem? Claro que dá. Errar é humano. Mas parar, desistir, pedir desculpas, sair de fininho, pensar a respeito e aprender com a experiência também é.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

As aparições da Mãe de Jesus e os bugs do cérebro humano

O que os municípios de Ferraz de Vasconcelos (SP) e Chicago (EUA) têm em comum? Aparentemente, pouquíssima coisa: com 168 mil habitantes e 29 quilômetros quadrados, a cidade brasileira faz parte da periferia de São Paulo. Já a americana é uma metrópole, com mais de 2 milhões de habitantes e 600 quilômetros quadrados. Ambas, no entanto, abrigam imagens que, de acordo com alguns fiéis, são retratos milagrosos da mãe de Jesus. (continue lendo a coluna Olhar Cético no site da Galileu)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sambaquis são descobertos na Amazônia boliviana

Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada por Umberto Lombardo, da Universidade de Berna, na Suíça, descobriu que pelo menos três das “ilhas de floresta” existentes na região de Llanos de Moxos, na Amazônia boliviana, são, na verdade sambaquis: montes de conchas de animais aquáticos, ossos e carvão, erguidos por ação humana há cerca de 10 mil anos. Essas “ilhas” são elevações do solo cobertas por árvores, que se destacam em meio à vegetação baixa da região. (Leia mais na coluna Telescópio, do Jornal da Unicamp)

domingo, 8 de setembro de 2013

Rogue Male

Capa e lombada da edição da Folio Society
Fazia tempo que estava querendo ler Rogue Male, de Geoffrey Household: a primeira vez que ouvi falar do livro foi numa biografia de Ian Fleming, onde se dizia que Household tinha sido um autor muito admirado pelo criador de James Bond; a segunda foi em SOE, de M.R. Foot, uma história da Executiva de Operações Especiais, órgão clandestino criado pelo governo britânico para estimular a subversão e a sabotagem na Europa ocupada pela Alemanha, durante a 2ª Guerra. Nesse livro, não só Rogue Male é elogiado como "um dos melhores thrillers já escritos", como somos informados de que Household havia tomado parte num projeto para sabotar os campos de petróleo da Romênia, caso os nazistas se apossassem deles.

Com essas indicações, ficou óbvio que eu tinha de ler o livro. Há alguns dias, finalmente consegui pôr as mãos numa edição fantástica da Folio Society e, obrigando-me a abrir uma pausa nas leituras de não-ficção que andam monopolizando meu soi-disant tempo livre, passei o sábado mergulhado no livro, publicado originalmente em 1939. Dizer que um livro é "devorado" já virou clichê, mas foi o que aconteceu: sentei-me com o volume de 142 páginas logo depois do almoço e só me levantei da poltrona depois de terminar a última linha. Fantástico.

Narrado em primeira pessoa por um protagonista sem nome, Rogue Male conta a história da fuga de um homem acusado de tentar matar um "grande homem", líder político de uma potência europeia -- não fica claro quem seria sua suposta vítima, mas a geografia do livro abre apenas duas possibilidades: Hitler ou Stálin. O título é uma expressão de caça, que no contexto pode ser traduzida como "macho desgarrado", numa referência ao animal que, perseguido por caçadores, se separa do bando ou matilha. "O Todo-Poderoso protege o macho desgarrado", diz o narrador, em duas ocasiões.

Visto pelas lentes do século 21, o narrador é, a um só tempo, uma figura fascinante e repugnante. Falando da segunda característica  primeiro: ele é um aristocrata que caça por esporte; machista; acredita que o bullying sistemático a que os jovens britânicos eram submetidos nas chamadas "escolas públicas" do país era importante para a formação do caráter; acredita na existência de uma certa "classe X" de pessoas que merecem respeito incondicional, que são líderes naturais, que deveriam estar acima das leis comezinhas que servem para o resto dos mortais.

E é fascinante porque, desapegado de suas terras e título, decide ceder sua velha propriedade feudal a uma cooperativa de arrendatários; num diálogo com dos agentes -- fascistas? comunistas? -- que o perseguem, acusado de não ter respeito pela nação ou pelo Estado, ele aceita a acusação e responde: "Mas respeito os direitos dos indivíduos"; e pela psicologia complexa de sua motivação (afinal, ele realmente tentou matar o "grande homem", ou não, e por quê?), algo que faz com que o autor da introdução da edição da Folio, John Banville, compare Rogue Male à obra de Samuel Beckett.

Mas, claro, Rogue Male é um thriller, e todos os ingredientes estão lá, do suspense ao mistério -- tanto físico quanto psicológico -- e às escapadas tão intricadas quanto inverossímeis. O romance de Household trança dois fios que depois viriam a ser desenvolvidos de modo separado na literatura de ação e espionagem subsequente, tendo ao mesmo tempo a densidade psicológica de um bom Le Carré e a tensão física de um Fleming. O que o narrador sem nome de Household sofre nas mãos -- da SS? da NKVD? -- não fica nada a dever aos momentos mais excruciantes da carreira de James Bond.

Na comparação com os livros de suspense atuais, Rogue Male surpreende tanto por trazer juntas essas duas tradições, que depois iriam se desenvolver em campos quase antagônicos, quanto por ser tão curto: em 140 páginas, empacota um efeito que o leitor de hoje se acostumou a esperar de trilogias inteiras.

Escrito por um autor contemporâneo nosso, Rogue Male provavelmente conteria seções inteiras sobre os pensamentos e a vida íntima de Saul, o amigo banqueiro que auxilia o narrador em sua fuga, ou do Major, o agente continental que empreende a caçada humana, ou sobre a vida doméstica do pescador polonês que socorre o narrador logo no início da narrativa. E também ficaríamos sabendo qual o destino final do assecla suíço do Major, que sai abruptamente do livro.

Tudo isso talvez fosse interessante de ler e de saber, mas seria apenas mais voyerismo, não necessariamente  melhor literatura. Certa vez li uma citação, atribuída a Machado de Assis, que diz algo como "detesto o autor que me conta tudo". Rogue Male não conta tudo, mas sabe contar o suficiente. O que é quase uma arte perdida.