quarta-feira, 31 de julho de 2013

Depois do papa, ou a ressaca

Bom, tem gente me cobrando uma "avaliação" da visita do apóstolo Chico ao Brasil, então vamos lá. A primeira coisa de que gostaria de tratar é da tal manifestação em que algumas pessoas quebraram uma imagem de santo, usaram um crucifixo como vibrador ou algo assim. Não estava prestando atenção quando aconteceu, então só peguei a espuma e o atrito da discussão que se seguiu, mas o espírito da coisa parece ser o de que alguns objetos tidos como sagrados pelos católicos foram profanados de um modo muito público e com muito mau gosto.

As discussões a respeito, ao menos nas redes sociais, parecem ter misturado três componentes que, a meu ver, deveriam ser tratadas de modo separado: a admissibilidade do que foi feito; a legalidade; e a conveniência.

"Admissibilidade" é uma questão de ética, ou de etiqueta. Não é a mesma coisa que legalidade, porque há coisas admissíveis que são ilegais (por exemplo, uma mulher dirigir automóvel na Arábia Saudita), e há coisas inadmissíveis que são, ou já foram, legais (ter escravos). Então: sacanear os símbolos da religião dos outros é admissível? Bom, quem segue o blog há mais tempo sabe que considero a blasfêmia um direito humano fundamental. Já escrevi mais longamente sobre o assunto aqui, aqui e aqui. E também aqui.

O aspecto da "legalidade" é um em que tenho muito menos competência para opinar. O Brasil tem umas leis bem cretinas de proteção ao "sentimento religioso", então, sei lá, de repente foi ilegal. Mas, mesmo que tenha sido, é importante ter em mente o grau da ilegalidade: comparações com, por exemplo, a depredação de locais de culto afro-brasileiro ou com a pichação de igrejas ou sinagogas são mal informadas ou desonestas. Comprar uma imagem de Nossa Senhora e quebrá-la na praça é bem diferente de invadir uma igreja e quebrar a imagem no altar, assim como estourar o próprio carro no muro da própria casa é um bicho totalmente diferente de roubar o carro do vizinho e estourá-lo no muro da casa dele.

A "conveniência" talvez seja o aspecto mais aberto a discussão, ainda mais porque depende de uma apreensão dos objetivos dos manifestantes -- uma coisa é conveniente (ou inconveniente) apenas em relação a um determinado fim. Então, a profanação pode ter sido conveniente para algumas pessoas e inconveniente para outras, dependendo dos objetivos que têm em mente. Pode ter sido muito útil, por exemplo, para épater la bourgeoisie. Ou desopilar o fígado. Ou manifestar uma opinião.

Mas também pode ter sido útil para outra coisa, muito importante, que é a diminuição da deferência automática e instintiva que as pessoas têm em relação à religião e símbolos correlatos. Nas palavras do jurista americano Steven G. Gey, "o debate público de ideias religiosas é sutilmente enviesado a favor da religião, por meio da deferência obrigatória imposta, pela lei, ao descrente". Não só pela lei: pelos costumes, pelo ambiente cultural, pela inércia mental.

Quebras dessa superestrutura muitas vezes representam choques úteis. Ainda mais porque essa deferência é esperada pelos fiéis. Eles contam com ela, e não se furtam a usá-la para fazer avançar suas agendas na área política, social, etc. Frustrar expectativas desse tipo é importante.

E importante também é evitar confundir conveniência com admissibilidade, um erro muito comum e fonte de vários casos de censura "bem intencionada".

E, falando em boas intenções, vou romper aqui com o coro de elogios ao estilo boa-praça do papa Francisco e dizer que eu preferia, mas muito mais, o sisudo Bento XVI, ao menos no que diz respeito às questões de moral e costumes (sobre os problemas, mais graves, da pedofilia e dos escândalos financeiros, ainda há que se ver).

Por quê? Porque a mensagem de ambos é essencialmente a mesma e a versão de Francisco, pois edulcorada, é infinitamente mais cruel. A Igreja de Francisco "abre os braços" e "acolhe" os gays, desde que eles "busquem Deus". Omite-se que a busca consiste em concordar em viver como um animal castrado.

Além de produzir culpa -- os braços abertos, afinal, estão lá. Se você não aceita o abraço oferecido, é por despeito ou perversidade -- o discurso acaba se parecendo muito com os nomes de práticas de tortura chinesa, descrições poéticas de grandes suplícios. Como "A Bela Dama Oferece Seus Frutos", que consistia em empilhar pesos cada vez maiores sobre um suporte preso no pescoço da vítima ajoelhada.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

"Olhar Cético" na Galileu

Os leitores mais assíduos (alguém aí?) talvez tenham notado que o blog andou meio às moscas nas últimas semanas. Mas foi por uma boa razão: eu estava juntando material para estrear uma coluna na revista Galileu, chamada, como diz o título desta postagem, Olhar Cético. Como o nome indica, o objetivo é oferecer uma perspectiva cética sobre assuntos que a mídia em geral costuma tratar com muito mais oba-oba do que análise, propriamente, racional.

Muitas pautas envolverão questões científicas ou relacionadas ao ceticismo "clássico" (astrologia, óvnis, monstros), sem dúvida, mas também não pretendo fugir de temas mais quentes e polêmicos, como os ligados à medicina dita "alternativa", fraudes financeiras, manipulação de dados por políticos e coisas quetais.

O primeiro texto, disponível na edição de agosto, que começa a circular por esses dias, é uma espécie de post scriptum da reportagem que escrevi para a edição do mês passado da revista, sobre teorias da conspiração, e trata dos Illuminati, essa misteriosa organização secreta dedicada a destruir o Vaticano e composta por Namor, Doutor Estranho e... Não, espera aí, acho que estou misturando as coisas. Há, ainda, um texto subsidiário sobre o Chupacabra, que completa 18 anos agora em agosto.

Atualização: o texto já está online, e pode ser lido aqui.

Além dos artigos que sairão mensalmente na revista em papel e serão reproduzidos no site da Galileu, também farei uma coluna semanal, exclusiva para o serviço online da revista. Esse compromisso semanal provavelmente vai prejudicar o ritmo de atualização do blog ainda mais porque, sejamos sinceros, não só o meu tempo é finito, como os temas da Olhar Cético quase que com certeza acabarão canibalizando assuntos que poderiam ser aproveitados aqui.

O fato, porém, é que a revista e seu site têm mais acessos e mais leitores que este blog e, não sei se já mencionei isso, mas estou sendo pago para fazer a Olhar Cético, enquanto que o blog... Bom, digamos que o primeiro depósito do AdSense na minha conta está previsto para algum momento do próximo milênio.

Então, bolas, não há o que discutir. Ou, se há, é com os meus credores.

Além de tornar a atualização do blog mais errática, a coluna também terá, por conta da canibalização que mencionei, algum impacto nos temas tratados aqui. Imagino que o blog ficará (ainda) mais político e filosófico, ecada vez menos científico. Pretendo mantê-lo em dia, porém. Na medida do possível.

Enfim, com as graças de Crom e Cthulhu e as bênçãos do Grande Pássaro da Galáxia, entramos em nova fase. Espero que a coluna agrade a quem já curtia a "linha editorial" do blog, agregue ainda mais leitores e ajude a reduzir, nem que seja em um bilionésimo, a taxa de barbaridades que circulam na memesfera. Nos vemos por lá!