sexta-feira, 14 de junho de 2013

Prova pra eles

Conheço GiulianaVallone, a jornalista da TV Folha que foi atingida no olho por uma bala de borracha disparada por algum membro soberbamente corajoso da Tropa de Choque da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Digo soberbamente corajoso, de uma bravura olímpica, até, porque, como Giuliana conta em postagem no Facebook, não foi uma "bala perdida", mas um tiro mirado, calculado.

Então, imagine: você um soldado treinado, armado, contando com o apoio dos colegas ao seu redor. Vê uma menina pequena, magrinha (a última vez que vi a Giu, ela não devia pesar mais que 60 quilos, se tanto) de óculos, desarmada, na rua. E aí, deliberadamente, puxa a arma de balas de borracha, mira na cabeça, atira. Tem de ser muito macho, muito homem, pra fazer uma coisa dessas. Com mais testosterona que o Conan do Schwarzenegger. Ou o Hércules do Kevin Sorbo. Um verdadeiro homem honrado.

Mas, enfim. Deixemos os estereótipos de gênero de lado. Como ia dizendo, conheço a Giu. Ela trabalhou comigo, por alguns meses, na editoria de Ciência e Educação do Estadão online, até pedir para ser remanejada para Economia. Devia estar cansada de traduzir boletins do EurekAlert, que era basicamente o que eu lhe pedia para fazer. Não a culpo. Digo isso para deixar claro que a análise a seguir é, possivelmente, enviesada. Caveat lector.

O PSDB em São Paulo nunca conseguiu extirpar da PM a truculência instilada na tropa durante a ditadura e cultivada nos governos Quércia (um tia minha, já falecida, professora estadual, apanhou muito da PM do Quércia) e Fleury. Às vezes, me pergunto se sequer tentou.

É verdade que o governador Mário Covas desculpou-se publicamente pelos crimes de tortura e extorsão cometidos por PMs em Diadema, em 1997, mas esse foi um ponto fora da curva. No caso do Massacre da Castelinho, ou "ônibus do PCC",  por exemplo, o governador Geraldo Alckmin partiu em defesa dos policiais envolvidos, mesmo depois de a perícia revelar um cenário mais compatível com uma ação de esquadrão da morte.

Alckmin parece favorecer, quando não estimular, uma espécie de "truculência sanitária", restrita, na medida do possível, aos jovens sem voz da periferia e a grupos já marginalizados, como usuários de drogas e presidiários. Essa ferramenta gera uma ilusão de segurança que é reconfortante para boa parcela dos "cidadãos de bem", crentes de que os bárbaros estão contidos para além dos portões. Tanto os ataques periódicos do PCC quanto a taxa ridiculamente baixa de resolução de crimes mostram, no entanto, que a sensação de segurança é tão falsa quanto promessa de político.

Às vezes essa truculência "vaza" para dentro dos muros da pólis dita civilizada, como no caso das agressões a estudantes da USP e na fúria do Choque contra os manifestantes e jornalistas na Paulista, ontem.

Esses transbordamentos são didáticos e, numa visão talvez por demais otimista, civilizadores: se é verdade que o transporte coletivo só vai melhorar quando a classe média deixar o carro em casa, talvez seja preciso que a classe média tome borrachada no lombo para que a pressão da opinião pública force polícia a, finalmente, respeitar o contribuinte que a sustenta. Foi por isso, até, que me manifestei aqui, tempos atrás, contra a retirada da PM da USP: a elite intelectual precisa saber, afinal, como é a polícia do Estado em que vive.

Eu já escrevi algo parecido numa longa postagem sobre direitos humanos, mas vamos lá: quando se autoriza o cara que está lá na ponta da repressão, com a arma na mão, a decidir discricionariamente quem é "trabalhador" ou "bandido", quem é "manifestante" ou "baderneiro", todos nos tornamos bandidos e baderneiros em potencial. Esse tipo de triagem a olho nu pode parecer útil, até profilático, quando visto de longe e praticado contra os outros, mas trata-se, mais uma vez, de pura ilusão.

O Ziraldo tem um cartum, do tempo da Redentora, em que duas serpentes conversam com um elefante. Elas dizem que o elefante deve tomar cuidado, porque o clima está ruim para as cobras. Ao que o paquiderme responde, entre surpreso e indignado: "Mas eu não sou cobra!"

Prova pra eles, desafia o réptil em fuga.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O quântico da consciência

O livro Pura Picaretagem, que escrevi em parceria com o físico Daniel Bezerra, inclui um capítulo sobre consciência quântica -- a noção de que a consciência humana (ou algum tipo de "campo de consciência" imanente) afeta o comportamento das partículas subatômicas e, por tabela, o estado da realidade. Durante a fase de esboço do livro, chegamos a considerar incluir também uma discussão sobre o fenômeno inverso, o que chamo de "quântico da consciência": a hipótese de que a mente humana é tão fantabulasticamente maravilhosa que só pode ser explicada em termos quânticos.

Acabamos deixando essa segunda questão de fora, no entanto, porque ela acabaria desviando demais o livro de sua linha mestra -- a física quântica, em si um assunto já complexo o bastante -- para outro tema talvez até mais cabeludo, o da natureza da consciência humana. Mas essa não deixa de ser uma tangente interessante.

Há duas características da mente humana que, para muita gente, requerem algum tipo de explicação extraordinária: o pensamento consciente e o livre arbítrio. Por partes.

O suposto problema com o pensamento consciente -- a capacidade de termos sensações subjetivas (tristeza, alegria), para além dos estados psicológicos manifestados como comportamentos (riso, choro) -- costuma ser exemplificado com um construto teórico, o zumbi filosófico.

Um zumbi filosófico é uma pessoa exatamente idêntica a uma outra (digamos, você) e que reage a estímulos exatamente como você: sorri ao ver um amigo se aproximar, balança a cabeça em desgosto quanto acha um erro de digitação neste blog... Mas que, na verdade, não sente nada. O zumbi filosófico é uma espécie de androide, com um cérebro todo feito de polias, engrenagens e alavancas: o estímulo "X" no córtex visual repuxa os músculos da boca, o estímulo "Y" na área de processamento de linguagem move os tendões do pescoço. Ele não sente alegria ou desgosto de modo algum, mas demonstra alegria ou desgosto da mesma forma que você demonstraria. E também amor, tristeza, fome...

A ideia geral é a de que, se o zumbi filosófico é possível -- e não parece haver, no momento, motivo para imaginar que não seja -- então a capacidade de reflexão consciente e subjetiva dos seres humanos é uma coisa extra, um, como dizem por aí, "plus a mais". E aí há quem puxe deus para dar conta disso, e há quem puxe a mecânica quântica.

Confesso que essa afirmação de que a consciência exige um "plus a mais" nunca me convenceu. Na verdade, sequer me impressionou. Soa muito -- em minha sempre humilde opinião -- como um apelo à vaidade antropocêntrica. É como se o pavão achasse que sua cauda é linda demais para ser fruto da "mera" seleção natural.

Mesmo supondo, por um instante, que zumbis filosóficos sejam, como parecem ser, fisicamente possíveis, não há nenhuma garantia de que eles seriam mais eficientes, ou econômicos, que a operação de uma mente consciente. Uma sequência do tipo "perigo-sair correndo" pode parecer mais enxuta do que "perigo-medo-sair correndo", mas não será a emoção, "medo", no meio, o modo mais eficaz encontrado pela natureza para ligar estímulo a resposta? Em vez de criar um enorme catálogo de coisas das quais o zumbi deve correr, o melhor pode ser estabelecer uma conexão genérica: "corra do que quer que seja que faça seus neurônios dispararem desta forma". "Medo" seria apenas o nome que damos a "esta forma".

O livre arbítrio, por sua vez, é outro saco de gatos. Resumindo bem, a disputa se dá entre compatibilistas (para os quais é possível ser livre num universo regido pelas leis da física) e incompatibilistas (para quem isso não é possível, já que o cérebro é um sistema físico e, portanto, suas ações estão predeterminadas pelas leis da ciência).

O apelo ao quântico da consciência tenta resolver ambos os problemas, da consciência da liberdade, invocando a atuação de fenômenos quânticos, como sobreposição de estados e emaranhamento, no cérebro. Essa abordagem, no entanto, tem três problemas. Um deles é a demonstração, pelo físico Max Tegmark, de que a escala de operação quântica é muito diferente da escala em que se dá o funcionamento fisiológico do cérebro. Outro é o de que ela é desnecessária.

Desnecessária porque a consciência pode muito bem ter, como vimos, uma explicação evolutiva perfeitamente razoável. E, no caso da liberdade, existem inúmeros exemplos de sistemas que, mesmo obedecendo às leis da física clássica, parecem se comportar como se fossem "livres". A Teoria do Caos está aí exatamente para estudá-los.

Para quem vê incompatibilidade lógica entre determinismo e imprevisibilidade, há até mesmo entidades matemáticas que, mesmo sendo perfeitamente determinadas, são também completamente imprevisíveis: a sequência de dígitos de pi, por exemplo.

(A questão de se o "livre arbítrio" experimentado por sistemas assim é real ou ilusório, ou se uma articulação de diversos sistemas caóticos e matematicamente imprevisíveis poderia, de algum modo, gerar "liberdade" genuína é algo que deixo para uma postagem do futuro distante. Bem distante).

Existe, ainda, um problema de fundo conceitual, que é o de explicar em quê, exatamente, a introdução do
quantum contribuiria para a compreensão da consciência ou do livre arbítrio. Ela tornaria parte das operações do cérebro aleatórias, o que, segundo alguns autores, poderia "explicar" a criatividade, mas como? Criatividade não é ter ideias novas ao acaso, e sim ter ideias novas e úteis.

No quesito da liberdade, há quem diga que uma sobreposição de estados quânticos reflete nossa situação antes de tomarmos uma decisão, e que o colapso da função de onda seria a decisão em si. Mas esse colapso se dá aleatoriamente: se é realmente isso que acontece,  então toda ligação entre liberdade e responsabilidade desaparece, já que estaríamos agindo totalmente ao acaso. Mas sabemos que não é assim: nossas decisões são informadas pelas condições em que encontramos o problema sobre o qual precisamos decidir, o que se parece muito mais com um processo clássico, ainda que caótico.

PS: o lançamento do livro é semana que vem, no Rio de Janeiro.