sexta-feira, 26 de abril de 2013

Vivendo a vida motivada

Alguma alma caridosa do condomínio em que moro costuma pôr pequenas crônicas motivacionais no quadro de avisos do elevador -- geralmente trocando o texto uma vez por semana. São breves exortações bem-intencionadas, produzidas por um desses gurus engravatados da vida corporativa que, hoje, são mais fáceis de se achar por aí do que fungo em madeira podre, sempre falando como é importante dar duro, ser honesto, tratar bem o cliente, liderar para a vitória, blá-blá-blá, e amar o que se faz. Um texto recente lembrava que "você passa as melhores horas dos melhores anos da sua vida no trabalho" e tentava fazer isso parecer uma coisa boa, como se não fosse, na verdade, uma das constatações mais deprimentes já escritas desde que Jean-Paul Sartre pôs o ponto final em A Náusea.

O que me deixou pensando na relação das pessoas com o trabalho, e em como fomos todos fraudados pelas promessas de transformação profissional que ouvimos lá nos longínquos anos 80. Ou talvez fossem mais antigas? Eu me lembro delas nos anos 80, mas até aí, eu não pensava muito em trabalho antes disso.

Mas, enfim: até algum momento do passado, havia uma distinção entre "trabalho" e "vida". Trabalho era uma coisa que você fazia -- varrer o chão, lavar pratos, apertar parafusos, contar dinheiro -- e vida era o que você era: pai amoroso, marido carinhoso, zagueiro do time de várzea.

Algumas carreiras, principalmente nas artes e na política, fundiam trabalho e vida, enquanto outras, como medicina e jornalismo, tendiam a tornar mais finas as paredes entre as duas esferas, mas esses eram os casos excepcionais. No geral, a coisa seguia uma demarcação clara: da catraca para dentro, trabalho; da catraca para fora, vida.

Não que fosse uma situação confortável. Bibliotecas inteiras já foram escritas sobre os efeitos deletérios da alienação do trabalho, sem falar no filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin. H.L. Mencken produziu um artigo cáustico, chamado "A Mente do Escravo", sobre  a cabeça do homem que trabalha apenas para ganhar o sustento, sem nenhum outro objetivo em vista. O sonho de Marx de uma vivência realmente integrada -- onde fosse possível pescar pela manhã, caçar à tarde, criticar à noite -- era uma aspiração mesmo entre os não-marxistas. Profissões, como a de ator ou compositor, onde vida e trabalho pareciam existir numa espécie de fluxo contínuo eram -- como ainda são -- glamurizadas.

A promessa que minha geração ouviu, nos anos 80, era a de que, no futuro, todo trabalho seria assim: existiria em fluxo, e seria possível levar a vida para o trabalho. Parecia uma perspectiva excitante, refrescante, inacreditavelmente humana. Porém, como o talismã maligno do conto A Pata do Macaco, que amaldiçoa seu possuidor ao mesmo tempo em que realiza seus desejos, a mudança teve um preço imprevisto: o de termos de levar o trabalho para a vida.

Isso não é um problema se o que você faz coincide naturalmente com o que você é -- no caso, digamos, de um cineasta ou de um poeta -- mas a coisa fica um pouco mais complicada quando o que se faz é apertar parafusos ou vender ternos. Nem mesmo o patrão sádico do filme de Chaplin esperava que seus funcionários amassem suas porcas e parafusos como um poeta ama sua poesia; ou se mantivessem em prontidão 24 horas para atender o cliente, como o cineasta pode virar a noite acordado esperando o momento exato para sua cena.

Essa é a promessa quebrada: esperávamos que poderíamos todos fazer arte, e em vez disso o que ganhamos foram as mesmas funções maçantes e sem sentido de sempre, mas agora somadas à obrigação de desempenhá-las com todo o zelo e o desprendimento de verdadeiros artistas. Tínhamos acreditado que poderíamos fazer o que amássemos; em vez disso, demos de cara com o dever de amar o que -- o que quer que seja -- que fazemos.

Nesse contexto, o discurso motivacional é uma espécie de Fanta Uva da alma, um doce refresco que tenta convencer as pessoas de que vender um apartamento ou um carro merece a mesma recompensa emocional que pisar na Lua ou compor um poema épico em decassílabos: que o importante não é buscar as aspirações mais nobres, mas considerar nobres as aspirações que estão à mão.

O fato da indústria da motivação não dar mostras de exaustão reflete, talvez, o fato de que o efeito de seu alucinógeno edulcorado é passageiro, de que as pessoas precisam de doses cada vez maiores, e a intervalos cada vez menores, para sustentar o delírio de que o trabalho que fazem é o verdadeiro propósito de suas vidas. De que ser vendedor é mais importante, num sentido profundo, ontológico, do que ser zagueiro no time de várzea.

Enfim, se a solução para a alienação do trabalho é a alienação da vida, será que podíamos ter a primeira de volta, por favor?

terça-feira, 23 de abril de 2013

E se a vida aqui começou... lá fora?

O título desta postagem é um plágio descarado da narração inicial da série Galactica original, mas não resisti: o assunto é um artigo publicado no ArXiv, assinado por dois físicos, que propõe que a vida, tal como existe na Terra, teria começado há 10 bilhões de anos -- o que é uns 5 bilhões de anos antes da formação do Sistema Solar.

O ponto mais interessante ad discussão toda (altamente especulativa, aliás) é que o argumento levantado pela dupla leva à conclusão de que a Terra é o primeiro planeta, em todo o Universo, a abrigar vida inteligente -- o que resolve o Paradoxo de Fermi, embora deva desapontar os ufólogos.

Mas, afinal, que argumento é esse? Trata-se de uma especulação engenhosa: a de que o ganho de complexidade dos seres vivos, ao longo da evolução, obedece a algo como a Lei de Moore, segundo a qual o número de transistores num chip de computador -- e, por tabela, outras características como velocidade e capacidade de memória -- deve dobrar a cada dois anos, aproximadamente.

No caso dos seres vivos, dizem os autores do artigo, a complexidade do genoma, medida em termos do tamanho das sequências não redundantes que codificam proteínas, cresce numa escala em que vem a dobrar a cada 376 milhões de anos. Projetando isso para o passado, o ponto de "complexidade zero" aparece 10 bilhões de anos atrás, como mostra a tabela abaixo, surrupiada do artigo original:


A conclusão de que não pode ter havido vida inteligente antes da evolução dos seres humanos na Terra decorre do fato de que o Universo, como um todo, tem apenas 14 bilhões de anos -- se são mesmo necessários 10 bilhões para gerar inteligência, simplesmente não houve tempo para nenhuma outra espécie chegar antes da gente. Como se vê em outra figura tirada do paper:




Mas, como já disse, isso tudo é altamente especulativo. Os próprios autores do artigo reconhecem que suas conclusões dependem de uma série de pressupostos -- que vão desde a escolha de uma medida de complexidade até a ideia, bastante problemática, de que a taxa de aumento dessa complexidade seria constante. Se, por exemplo, nos primórdios da vida (ou, mesmo, na evolução química, pré-biótica) o ganho tiver sido muito acelerado, talvez os efeitos atribuídos aos primeiros 5 bilhões de anos nos gráficos acima tenham, na verdade, sido compactados num intervalo muito menor.

Ainda assim, os autores defendem sua ideia como sendo uma hipótese testável. Escrevem:

"Vida extrassolar está provavelmente presente em alguns planetas e satélites do Sistema Solar, porque (1) todos os planetas tiveram oportunidade comparável de serem contaminados com  vida microbiana e (2) alguns planetas e satélites (...) oferecem nichos onde certas bactérias podem sobreviver e reproduzir. Se vida extraterrestre estiver presente no Sistema Solar, ela deverá ter fortes semelhanças com micróbios terrestres (...) Esperamos que tenha os mesmos ácidos nucleicos e mecanismos similares de transcrição e tradução, como nas bactérias terrestres".


É ousado, sem dúvida, mas é testável, o que é mais do que se pode dizer de coisas como o tal do Design dito Inteligente.

Aqui tenho de confessar que nutro uma simpatia um tanto quanto irracional (romântica?) pela ideia de panspermia -- de que a evolução da vida começou no espaço -- e que é, claro, apoiada pela hipótese apresentada no artigo.

No fim, o veredicto virá, como sempre, das evidências, ou da ausência delas. Mas como não trabalho com isso, posso deixar meus vieses cognitivos correrem mais ou menos soltos e ficar aqui na torcida.

P.S.


Via Twitter, o Roberto Takata me lembra de que, caso a vida tivesse mesmo caído do espaço, depois de evoluir por lá ao longo de bilhões de anos, seria improvável que a genética atual indicasse, como indica, que todos os seres vivos do planeta têm um ancestral comum: seria de se esperar uma pluralidade de formas primitivas semeando a Terra. O que só mostra que o romantismo não é um bom guia para escolher teorias...