sábado, 13 de abril de 2013

Zumbis nazistas de 1941, por Jack Kirby

Sabe aquela história de que a ideia de hordas de zumbis ameaçando a civilização -- em oposição ao zumbi solitário do folclore haitiano -- é uma coisa relativamente recente, dos anos 60? E que o zumbi "rápido", que corre para cima das vítimas em vez de apenas cambalear, é uma invenção ainda mais nova? Bom, folheando um velho álbum de histórias clássicas da Marvel encontrei Hollow Men, um conto do Capitão América contra zumbis nazi-fascistas publicado em 1941, de autoria dos criadores do personagem, Joe Simon e Jack Kirby. Vejam a página dupla, abaixo:


O cara de capuz vermelho é o cientista maluco responsável por criá-los. Ele trabalha nesse laboratório:



Não é Noite dos Mortos-Vivos, nem Walking Dead, e no fim o Capitão e Bucky (são eles, disfarçados, entrando no covil do vilão aí em cima), mas essa HQ foi publicada dez anos depois do que geralmente se considera o primeiro "filme de zumbis", White Zombie, com Bela Lugosi.



























Não é difícil imaginar as hordas zumbificadas de Kirby como uma espécie de elo perdido entre o zumbi cinematográfico de anteontem e o de ontem, e o de hoje. O quadro da multidão de monstros e o do ataque na ponte, na primeira imagem, não ficariam mal numa superprodução hollywoodiana atual. O que só mostra, mais uma vez, que Jack Kirby era mesmo o Rei.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Morte às enquetes online, por favor

Quando comecei a trabalhar em jornal, vinte anos atrás (vinte anos mesmo: a assinatura na carteira de trabalho é de 1993, com um salário de "cincoenta mil, cento e treze cruzeiros reais e cincoenta e seis centavos", o que devia ser o piso de jornalista da época), tínhamos um editor que valorizava muito a interação com o público, que queria tirar o jornalismo dos gabinetes e levá-lo para o povo, para as ruas.

Uma das estratégias para isso era um negócio chamado "fala aí". Volta e meia algum repórter era pautado para "fazer um fala aí sobre..." Enfim, alguma coisa. Podia ser o aborto, o trânsito, o preço do tomate (meninos, eu vi: a hiperinflação). O procedimento do fala aí era simples: o jornalista, acompanhado de  um fotógrafo, dirigia-se a uma via movimentada e começava a pedir a opinião de alguns transeuntes -- escolhidos ao acaso, ou por algum critério estético (o fotógrafo, afinal, estava ali) que opinasse sobre o tema.

Tratava-se de uma iniciativa bem intencionada, punha a cara de "gente comum" no jornal, escapando da velha mesmice prefeito-vereador-policial-empresário, mas -- e isso já me incomodava, na época -- era, ainda que inadvertidamente, desonesto. Porque a justificativa para a publicação do fala aí era a de apresentar a voz "do povo", "das ruas". E ele, obviamente, não era nada disso: era apenas a voz das meninas bonitas que o repórter (quase sempre) achava por bem abordar.

Avançando a fita, e chegamos à internet. Ao maravilhoso mundo da interatividade. Eu ainda me lembro de quando a maioria dos comentários que recebíamos no Estadão, lá por volta de 2000, 2001, era de reclamações de erros de português ou observações, algumas pertinentes, outras apenas pedantes, sobre o conteúdo de algumas matérias -- por exemplo, o exato significado técnico da expressão "armas leves", usado num relatório da ONU.

Naquela época, eu respondia a muitos desses comentários com longos e-mails, debatendo coisas que iam das regras do uso da crase à forma de tratamento correta para mencionar o dalai-lama. Isso, claro, antes das seções de comentários dos sites serem esmagadas por bate-bocas grosseiros e, no geral, tornarem-se fóruns públicos de calhordice do pior tipo.

Mais ou menos nesse período de transição entre o comentário gramático-enciclopédico e o escroto-rasteiro,  surgiram as enquetes online.

Do ponto de vista mercadológico, a enquete é como o boi do provérbio, do qual só se perde o berro: é fácil de criar; gera tráfego (as pessoas entram no site, olham os anúncios, para clicar na opção desejada); gera mais conteúdo fácil e barato -- gráficos de resultados, repercussões, matérias explicando por que enquetes não têm valor -- que, por sua vez, geram mais tráfego. A enquete online é a coisa mais próxima já criada de um meio de extrair energia do vácuo ou, mais importante para os mantenedores de sites jornalísticos, audiência do nada.

O problema é que as enquetes têm, e elevado à enésima potência, o mesmo vício do velho fala aí: são desonestas. Não revelam o que supostamente deveriam revelar. Se o fala aí tinha, pelo menos, o mérito (provinciano, mas ainda assim um mérito) de pôr no jornal a cara e a opinião de pessoas que normalmente não teriam razão para aparecer na mídia, a enquete nem isso faz.

O problema fundamental da enquete é, claro, o de amostra: em termos estatísticos, uma pesquisa, para poder embasar inferências válidas sobre a população em geral, tem de ouvir uma amostra representativa dessa população. E representativa, aqui, não quer dizer necessariamente grande: quer dizer pessoas escolhidas ao acaso ou, falhando isso, selecionadas de modo a refletir, de modo proporcional, os vários extratos relevantes da população -- sejam eles de faixa etária, nível educacional, etnia, etc.

No caso da enquete online, vota, primeiro, quem está motivado a votar, quem já tem uma opinião forte sobre o assunto e sente uma necessidade imperiosa de expressá-la; segundo, quem é aporrinhado por amigos ou colegas da primeira categoria. Por exemplo, uma enquete sobre qual o melhor presidente da história do Brasil provavelmente seria tão inundada por votos de "petralhas" exaltados e "tucanalhas" inflexíveis que a opinião dos poucos cidadãos independentes que se dessem ao trabalho de participar acabaria tão diluída na enxurrada quanto fígado de pato num preparado homeopático.

No fim, uma enquete online revela não a opinião prevalente na sociedade, mas a opinião de quem tem a maior torcida com (a) acesso à internet e (b) forte motivação e (c) tempo de ir lá clicar. Isso, abstraindo-se fraudes mais elaboradas, como a criação de robôs de software que enviam votos de tempos em tempos.

O resultado disso é que a enquete online não produz informação nenhuma. Nada. Neca. Neres de pitibiriba. O resultado da enquete é apenas o resultado da enquete: um objeto que, dependendo do tema, foi criado com muito som e fúria, mas que é totalmente desprovido de significado.

O ponto nevrálgico é: enquetes online são atos brutos de desonestidade intelectual. Não medem o que fingem estar medindo. Mobilizam torcidas para produzir um resultado que, depois, não pode ser usado por ninguém que pretenda manter um pingo de integridade no debate, seja qual for a questão em jogo. São, em resumo, convites ao rebaixamento da discussão.

Os sites de notícias que as realizam tentam se esquivar dessa implicação com a ressalva de que as enquetes "não têm valor científico", o que é uma ressalva meio marota, já que sugere que elas podem ter algum outro tipo de "valor".

Certamente têm valor econômico (para os sites que ganham tráfego), esportivo (para as torcidas organizadas que se formam) ou de entretenimento (para quem assiste às mobilizações). Mas todos esses outros valores são predicados no interesse público que geram, interesse que, por sua vez, para ser legítimo depende do "valor científico" que elas admitidamente que não têm.

Vamos lá, gente. Há de haver outras formas de gerar tráfego sem gastar muito. Pôster de mulher pelada. LOL Cats. Mas, por favor, parem de poluir o debate público com empulhação intelectual.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Nasa confirma missão para capturar asteroide... maomenos



Rolaram, nos últimos dias, boatos de que o orçamento da Nasa para o ano fiscal de 2014 traria a previsão de uma missão para rebocar um asteroide para perto da Terra, onde ele poderia ser estudado em detalhes. A informação tinha sido divulgada por um senador da Flórida (Estado onde fica o Centro Espacial Kennedy, e cuja economia levou uma bela traulitada com o fim do programa de ônibus espaciais).


Agora acaba de sair a previsão oficial de orçamento da agência, e parece que a conversa do senador era para valer -- meio quê.


A parte boa é a nota divulgada pelo administrador da agência espacial, Charles Bolden, que diz lá pelo meio: "Estamos desenvolvendo a primeira missão jamais realizada para identificar, capturar e relocar um asteroide". Mais claro impossível, certo? Mas espere o que vem logo adiante: "Usaremos capacidades existentes, como a nova cápsula Orion e o foguete Sistema de Lançamento Espacial (SLS), e desenvolveremos novas tecnologias como a propulsão elétrica solar e comunicações a laser".

Isso deixa uma certa impressão de que a iniciativa para o asteroide não representa uma coisa nova, em si, mas apenas um jeito de aproveitar -- e justificar -- o que já vinham fazendo. Tanto a Orion quanto o SLS são programas vestigiais do velho Projeto Constellation, estabelecido durante a Era Bush para levar astronautas de volta à Lua e que foi impiedosamente cancelado por Obama. E propulsão elétrica solar e comunicação a laser é o tipo de coisa que a Nasa precisa desenvolver de qualquer jeito, para que suas sondas espaciais sejam mais eficientes.


A nota de Bolden também não dá data para a tal captura de asteroide, embora mencione os prazos para a realização de um pouso humano num desses astros (até 2025) e o lançamento do Telescópio Espacial James Webb, sucessor do Hubble (em 2018).

O texto do orçamento propriamente dito -- que pode ser acessado em PDF aqui -- é ainda mais vago. Ele diz que a Nasa "planejará e começará a projetar esta missão em 2013. Progresso continuará dependendo de sua factibilidade e custo". O que traz à mente a imortal frase "famosas últimas palavras".


Os parâmetros da missão são especificados da seguinte forma: "Identificar, capturar, redirecionar e retirar amostras de um pequeno asteroide". Isso soa menos como a ideia de um potentoso rebocador espacial e mais com uma versão, talvez um pouco mais ambiciosa, do que os japoneses já fizeram em sua missão Hayabusa, que trouxe poeira de astroide para a Terra em 2010.


Quando a notícia de que uma "captura de asteroide" estava nos planos da agência espacial, os mais otimistas logo se lembraram do relatório Asteroid Retrieval Feasibility Study, do Instituto Keck, publicado há um ano e já clássico. O trabalho apresenta um plano detalhado para a captura de um asteroide de meio milhão de toneladas, que ficaria estacionado em órbita da Lua, onde poderia ser estudado detalhadamente por astronautas. A missão poderia ser executada até 2025, a um custo de US$ 2,6 bilhões.

Levando-se em conta que o orçamento total da Nasa para ciências planetária e da Terra, em 2014, está estimado em cerca de US$ 4,6 bilhões, dá para ver que a proposta saiu meio salgada. E o orçamento divulgado hoje ainda precisa passar pelo Congresso, onde poderá sofrer cortes.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Vá para Marte, rapaz!

E eu ainda não escrevi nada sobre o plano de  Dennis Tito de mandar um casal para Marte em 2018, anunciado no fim de fevereiro. Que coisa.



Para quem perdeu: o milionário, ex-turista espacial e ex-engenheiro da Nasa, Dennis Tito, hoje um excêntrico septuagenário, decidiu financiar um plano para enviar um par de seres humanos, preferencialmente um casal casado, num fly-by de Marte no final desta década. "Fly-by" é passar voando, sem pousar. A tripulação da nave de Tito teria uma vista magnífica do planeta vermelho por cerca de 20 horas, e depois mergulharia de volta no caminho para a Terra. Entre ida e volta, os passageiros passariam 501 dias, a sós, no espaço, confinados num cilindro de 17 metros cúbicos, volume aproximadamente igual ao de um quarto de 6 metros quadrados.

É pouco, mas na ausência de peso todas as superfícies podem ser aproveitadas -- o equipamento de ginástica pode ficar parafusado no teto e as camas, ao longo das paredes,  por exemplo. Ainda assim, a pressão psicológica há de ser notável.

O plano todo lembra, dados os devidos descontos, o enredo de da Terra à Lua, de Jules Verne, cujos protagonistas sobrevoaram o satélite da Terra a bordo de uma bala de canhão, cuja trajetória já havia sido predefinida no ato do lançamento e sobre a qual não tinham nenhum controle. Pelo menos uma fonte cita Tito comparando a missão não exatamente a um obus, mas a um bumerangue. O princípio, no entanto, é o mesmo: uma vez tendo o bumerangue deixado a mão do arremessador (ou a bala, a boca do canhão) a trajetória é um fait acompli das leis da física newtoniana.

O plano é factível? Sim. De acordo com um historiador da Nasa, entre 1950 e 2000 foram realizados mais de 1.000 estudos sobre como enviar seres humanos a Marte, começando com o plano megalomaníaco de Von Braun para construção de uma frota invasora em órbita da Terra, cujos astronautas pousariam em Marte de asa-delta.



A viagem a Marte deve ser possivelmente o projeto de engenharia não executado mais planejado e estudado de todos os tempos e, na comparação com outras versões, a de Tito é até bem modesta.

As posições relativas entre Marte e a Terra variam em um ciclo de 15-16 anos, sendo que dentro de cada ciclo há aproximadamente 7 "janelas", ou oportunidades de transferir material de um planeta para o outro com gasto mínimo de energia.

Se você já jogou Angry Birds - Star Wars, sabe como é possível usar a gravidade de um objeto, colocado entre o autor do disparo e o alvo, para acelerar um petardo em direção ao destino. Trajetórias de baixa energia para Marte são assim. O objeto entre o disparo e o alvo é o Sol, o que significa que essas viagens só são possíveis quando Marte e a Terra estão em lados diferentes do astro-rei.

 O ano de 2018 foi escolhido por ser um onde os requisitos de energia serão especialmente baixos. Some-se a isso o fato de que, ao não pousar em Marte, a nave escapa de toda aquela parte chata de desacelerar e de ter de fazer manobras, entrar na atmosfera marciana, calcular o combustível para voltar ao espaço, etc., e dá para ver como tudo fica mais fácil.

Não que a missão planejada por Tito seja uma missão clássica de conjunção, como esse tipo de viagem é chamado: "conjunção" porque Marte e o Sol estão, ambos, juntos do mesmo "lado" da Terra. A expressão é de uma certa brejeirice geocêntrica, mas os engenheiros parecem gostar dela.

Não se trata de uma missão clássica de conjunção porque um caso típico iria requerer que os astronautas passassem alguns meses em Marte, esperando um novo alinhamento adequado entre o planeta vermelho, a Terra e o Sol.  Em vez disso, a versão de Tito requer um retorno imediato (trata-se, afinal, de um fly-by), e por isso a cápsula terá de mergulhar no sistema solar até tangenciar a órbita de Vênus antes de voltar para a Terra.






Disse que o plano apresentado torna as coisas mais fáceis do que num design clássico, mas "mais fácil" não significa fácil. Os principais problemas envolvem a tripulação: não só o desgaste psicológico, como também o físico (passar quase dois anos sem peso não é bolinho) e a exposição à radiação. Explosões solares inundam o espaço com partículas, o que não é nada bom para a saúde, se você estiver fora da atmosfera e do campo magnético da Terra. Astronautas do programa Apollo, por exemplo, escaparam por pouco de exposições a níveis possivelmente letais de radiação solar.

A nave usará parte do foguete que a jogará ao espaço como escudo -- mantendo o estágio apagado apontado para o Sol todo o tempo -- e possivelmente terá outros tipos de blindagem, como fazer a água do sistema de suporte de vida circular por dentro das paredes (água é uma proteção eficaz contra raios cósmicos). Além disso, os viajantes serão voluntários com, espera-se, plena consciência de que, mesmo se voltarem inteiros à Terra, o risco de desenvolver câncer em algum momento do futuro terá sido significativamente ampliado pelo passeio.

A questão dos voluntários traz, talvez, a mais candente de todas as que giram (sem trocadilho) em torno do plano: por que fazer isso? Levar astronautas à superfície de Marte, ou mesmo a uma de suas luas, pode gerar benefícios científicos ou, mesmo, iniciar uma onda de exploração econômica -- talvez colonização -- do sistema solar. Mas, um fly-by? Tripulado? Para quê?

Tito diz que seu objetivo é inspirar a "nova era de exploração espacial". É como se a missão fosse uma espécie de Colosso de Rodes tecnológico, um épico da vida real. É curioso ver um empresário pondo a coisas nesses termos, já que durante as últimas três décadas o discurso da iniciativa privada, quando se falava em ir para Marte, era de desprezo pelo esquema de justificativa simbólica, de "deixar pegadas e plantar bandeiras", e de exaltação da exploração sustentada, lucrativa, como descrita no livro How to Live on Mars, um divertido guia de sobrevivência para um possível futuro anarco-capitalista marciano.