quinta-feira, 21 de março de 2013

Precognição #fail

Alguém por aí talvez ainda se lembre do alarde com que foi saudado o artigo Feeling the Future, assinado pelo psicólogo americano Daryl Bem e publicado, no início de 2011, pelo importante periódico científico Journal of Personality and Social Psychology (JPSP). Nesse trabalho, Bem descreve uma série de nove experimentos, dos quais oito -- oito! -- teriam gerado prova estatística de que o futuro é capaz de afetar o passado: ou, mais especificamente, de que pessoas são capazes de prever eventos que ainda estão por acontecer. O assunto não só gerou furor na mídia internacional, como até rendeu uma capa da IstoÉ aqui no Brasil, além de uma entrevista de Bem ao portal iG.

O artigo de Bem chamou atenção porque não só seu autor é um cientista respeitado, como o veículo que aceitou publicá-lo, o JPSP, também goza de grande prestígio. Não se tratava de (mais um) artigo de pesquisadores obscuros lançado numa revista de nicho, do tipo que circula apenas entre crentes fiéis, mas do trabalho de um pesquisador sério numa publicação mainstream.

O artigo de Bem não demorou a atrair críticas, no entanto. A mais completa talvez tenha sido a de James Alcock, que apontou uma série de erros metodológicos no planejamento, na execução e na análise dos resultados. Entre eles, estão a mudança de procedimentos com o experimento já em andamento, e o uso, sem correção, de múltiplas análises estatísticas sobre as mesmas bases de dados (o que é um problema porque, fazendo isso, cedo ou tarde você acaba encontrando uma relação aparentemente significativa, por puro acaso).

Bem escreve uma resposta às críticas de Alcock, mas a questão fundamental -- os resultados poderiam ser reproduzidos? -- ficou em aberto. Reprodução é parte fundamental do processo científico: a fusão a frio, por exemplo, caiu em descrédito quando ficou claro que nenhum outro laboratório era capaz de obter os mesmos resultados dos autores originais, Fleischmann e Pons. A falha na replicação de resultados é um dos fatores cruciais citados no clássico artigo sobre a prevalência de falsos positivos na literatura científica, Why Most Published Research Findings Are False.

Um artigo chegou a ser apresentado como replicação positiva de parte dos resultados de Bem, obtida por um pesquisador da Universidade de Viena, num trabalho com 70 voluntárias. Uma tentativa mais robusta, envolvendo 150 participantes, foi publicada pouco depois no periódico online PLoS-ONE, registrando falha: nada de precognição, nesse caso. E esse artigo foi capa de... bem, de nenhuma revista brasileira, na verdade. Nem seus autores, Richard Wiseman, Stuart Ritchie e Christopher French, convidados a dar entrevista para a mídia local.

Pode-se dizer, no entanto, que a PLoS, um veículo exclusivamente online, não tem o mesmo peso da impressa JPSP, e que a amostra de 150 indivíduos ainda é pequena comparada à de Bem, que envolveu mais de 1.000 participantes.

Agora, no entanto, o mesmo Journal of Personality and Social Psychology que havia divulgado os resultados bombásticos de Daryl Bem publicou o artigo Correcting the Past: Failures to Replicate Psi, onde sete tentativas de recriar dois dos oito resultados precognitivos originais, envolvendo mais de 3.000 pessoas, falham espetacularmente. Podemos esperar uma capa de revista de circulação nacional com a manchete "Ciência descarta premonição"? Não creio.

Resultados científicos decepcionantes sofrem da mesma síndrome midiática das erratas e desmentidos: em política, a denúncia rende manchete, a correção, salvo caso de sentença judicial, uma nota de pé de coluna. Com o agravante de que a ciência não costuma constituir advogado para pedir direito de resposta.

Falando em precognição, é interessante notar como outros cientistas usaram a capacidade de estabelecer laços causais espúrios entre o futuro e o passado não para anunciar a realidade dos poderes da vidência, mas para chamar atenção para as limitações de certas tradições de investigação científica.

Em 2001, Leonard Leibovici publicou artigo sobre o poder retroativo da prece, mostrando uma correlação estatística entre o tempo de recuperação de um grupo de pacientes e orações feitas de quatro a dez anos após os pacientes terem tido alta.

Em comentário publicado depois de o artigo causar furor, Leibovici reconheceu que o trabalho tinha sido feito em tom mais ou menos humorístico, para demonstrar a necessidade de a pesquisa científica debruçar-se sobre questões bem formuladas e que sejam coerentes com o restante do conhecimento científico disponível.

Em especial, ele notou que probabilidade prévia de o resultado ser real é tão pequena que faz desaparecer a validade do efeito detectado: para realmente estabelecer causalidade reversa, o tamanho do efeito teria de ser várias ordens de magnitude maior do que o encontrado no estudo.

O trabalho de Leibovici é anterior ao de Bem, mas  o artigo False-Positive Psychology, de Joseph Simmons, Leif Nelson e Uri Simonsohn, é quase simultâneo. Nele, os autores mostram como "é inaceitavelmente fácil acumular (e descrever) evidência estatisticamente significativa de uma hipótese falsa" no campo da psicologia. Por exemplo, eles "demonstram" que uma ouvir uma canção faz as pessoas rejuvenescerem 18 meses.

Simmons et. al. explicam que o problema nasce do que chamam de "graus de liberdade do pesquisador". Já citei trechos do artigo deles em outra postagem, mas vale o repeteco:

No processo de coletar a analisar os dados, pesquisadores têm muitas decisões a tomar: devemos levantar mais dados? Devemos excluir algumas observações? Quais as condições que devem ser comparadas ou combinadas? Quais controles devem ser considerados? Métricas específicas devem ser combinadas, convertidas, ou as duas coisas?

É raro, e muitas vezes impraticável, tomar todas essas decisões de antemão. Em vez disso, é comum (e aceito) que os pesquisadores explorem várias alternativas analíticas, em busca de uma combinação que produza “significância estatística”, e que reportem apenas aquilo que “funcionou”.

O problema, evidentemente, é que a probabilidade de que pelo menos uma das (muitas) análises produzir um resultado falso positivo no nível de 5% é necessariamente maior do que 5%.


Os autores da refutação mais recente dos achados de Bem, publicada no JPSP, especulam que os resultados positivos informados pelo pesquisador possam ter surgido, exatamente, do uso imprudente desses "graus de liberdade". 

quarta-feira, 20 de março de 2013

O "papabile" criacionista e o fantasma do design


Agora a eleição já passou e tudo, mas fica a curiosidade: um dos cardeais tidos, até a semana passada, como um dos "favoritos" para assumir o comando do Vaticano, o austríaco Christoph Schönborn, havia causado um certo furor, alguns anos atrás, ao assinar um artigo no New York Times afirmando que o darwinismo, em sua formulação atual  (o "dogma neo-darwinista", como o cardeal chama), é filosoficamente incompatível com o magistério da igreja católica.

Schönborn, que mais tarde publicaria um livro sobre sua visão do assunto, Chance or Purpose? Creation, Evolution and a Rational Faith, está longe de ser um "six-day creationist", o tipo de sujeito que acha que o capítulo 1 do Gênese deve ser interpretado literalmente. Magnanimamente, ele concede, em seu texto para o NYT, que a igreja de Roma "deixa para a ciência muitos detalhes sobre a história da vida na Terra", e que "a evolução, no sentido de uma ancestralidade comum, pode ser verdadeira". Mas, em seguida, ataca: "no sentido neo-darwiniano -- um processo caótico e sem planejamento de variação aleatória e seleção natural -- não é".

E por quê? Porque "a Igreja Católica (...) proclama que, pela luz da razão, o intelecto humano pode, de modo claro e imediato, discernir propósito e planejamento no mundo natural, incluindo no mundo das coisas vivas". O argumento do cardeal põe o dedo na ferida, no ponto crucial de incompatibilidade -- ou, vá lá, de desconforto -- entre a teoria da evolução e as religiões de matriz judaico-cristã-islâmica: a questão do impacto do darwinismo sobre o que se convencionou chamar de teologia natural.

"Teologia natural" é a ideia de que a existência de uma divindade pode ser deduzida da natureza. Embora, digam os teólogos, seja necessária uma revelação sobrenatural para informar a humanidade de alguns detalhes a respeito das intenções e do caráter dessa divindade (tipo, ela não gosta de prepúcios), sua presença -- ou, no mínimo, sua inteligência criativa -- seria autoevidente para qualquer um que não seja idiota, louco ou turrão demais para acatar a evidência dos próprios olhos.

O que o darwinismo faz, nesse contexto, é desmontar a aparente cogência dos apelos à teologia natural: se a "evidência dos próprios olhos" pode ser explicada pelo processo de evolução por seleção natural, então a divindade torna-se supérflua. Ou, como escreve A.C. Grayling em seu The God Argument: The Case against Religion and for Humanism, a partir do instante em que há uma explicação natural para a cor das flores, não precisamos mais imaginar que são fadas invisíveis que pintam as pétalas de amarelo e de vermelho. Isso não prova que fadas invisíveis não existem, mas elimina uma das razões que tínhamos para supor que existiam.

Não que a teologia natural fosse inatacável antes disso: incluindo Demócrito e David Hume, vários filósofos duvidaram, antes de Darwin entrar em cena, da ideia de que o mundo natural apontava para a necessidade de um criador. Hume, especificamente, chamou a atenção para o fato de que a analogia entre deus/relojoeiro e natureza/relógio, se realmente fosse levada a sério, indicaria a existência não de uma divindade única onipotente, mas de uma oficina de deuses, sendo um projetista, um vidraceiro, um metalurgista, etc.

Mas foi a ideia de evolução por seleção natural, e as seguidas provas de que o processo funciona como criador de complexidade e da aparência de projeto, que puxou de vez o tapete de debaixo dos pés dos teólogos naturais.

A partir de então, o antigo argumento do design -- demonstrar a existência da divindade apontando para os sinais de projeto inteligente na natureza -- teve de ser dividido em dois: primeiro, um argumento pelo design -- a tentativa de demonstrar que há um projeto racional por trás da natureza -- seguido do velho conhecido, o argumento do design, que busca determinar que o projetista é a divindade onipotente e não uma alternativa menos espantosa, como a comezinha oficina de artesãos de Hume.

O cardeal Schönborn conclui que a evolução por seleção natural é incompatível com o catolicismo porque, para ele, a necessidade de um argumento pelo design é impensável. O design está aí, e pronto. Ele cita o catecismo: "A inteligência humana já é certamente capaz de encontrar a resposta para a questão das origens. A existência de Deus Criador pode ser conhecida com certeza através de suas obras, pela luz da razão humana". O que o leva à conclusão de que "qualquer sistema que negue ou busque dispensar a esmagadora evidência de design na biologia é ideologia, não ciência".

Uma resposta seria que qualquer sistema que busque afirmar a presença de design na biologia, dada a esmagadora evidência de evolução por seleção natural é dogma, não ciência, mas dogma-não-ciência é precisamente o negócio do cardeal, então a coisa fica meio tautológica.

Claro, nem toda reação ao impacto do darwinismo sobre a teologia natural se resume a negação dogmática. O movimento pseudocientífico do Design Inteligente foi -- ainda é -- uma tentativa de escorar um argumento pelo design, com resultados sofríveis.

É importante notar que a evolução por seleção natural só chuta o banquinho de debaixo de um tipo de argumento teísta, o proposto pela teologia natural. Há outros, como os argumentos a priori ou os baseados em revelação, que também não funcionam, mas sobre os quais a evolução nada tem a dizer.

Só que a teologia natural tem um apelo formidável, o que faz com que seja difícil abandoná-la. Se estiver correta, ela pode ser universalizável, como a ciência é. De fato, se a existência da divindade puder ser deduzida dos fatos concretos do mundo, então a divindade passa a ser um dado tão científico quanto átomos e moléculas. Por conta disso, uma espécie de espectro dos argumentos pelo design e do design permanece, mesmo nas discussões mais sofisticadas, sem jamais ser exorcizado de fato.

Há algumas manobras usadas para mantê-lo assombrando corações e mentes, embora me pareçam um tanto quanto duvidosas -- não apenas em eficácia, mas também em termos de honestidade intelectual. Chamo essas manobras de argumento de segunda ordem, argumento cosmológico e dúvida razoável.

O argumento de segunda ordem é uma espécie de judô retórico, já que tenta usar a ausência de design para demonstrar a presença de design. Funciona mais ou menos assim: "A evolução por seleção natural é um processo tão elegante e inteligente! Cria complexidade sem design. Quem teria inventado isso?" A resposta, claro, é que ninguém inventou a evolução -- ela é o resultado emergente da existência de sistemas que fazem cópias imperfeitas de si mesmos em ambientes de recursos finitos.

O argumento cosmológico vai um passo além: e quem estabeleceu as condições iniciais do Universo para permitir que houvesse sistemas replicadores? Essa pergunta, embora possa ter valor científico -- haverá um princípio geral organizador por trás das leis da natureza? -- me soa, quando formulada em tom de apologia teísta, muito semelhante à questão de quem projetou o nariz humano, para permitir que ele acomodasse óculos. Em outras palavras, até onde sabemos são os replicadores que estão aí por causa do Universo, e não o contrário.

Por fim, o apelo à dúvida razoável: mas não dá para afirmar com certeza que não há um guia por trás da natureza! O que é verdade, mas a ideia de que a margem de dúvida gerada por essa constatação seja, de fato, "razoável" é, no mínimo, duvidosa. Afinal, também não dá para afirmar com certeza que não existem lojas McDonald's na Galáxia de Andrômeda, por exemplo. Aliás, não dá nem para afirmar com certeza que uma queda de nove andares seja fatal. Mas certeza e razoabilidade são, no fim, critérios bem diferentes.