sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Meteoro!

Buraco aberto por meteorito em lago congelado. Foto de Andrey Orlov
Postagem atualizada  na manhã e sábado, 16/2, com informações da Nasa!


O que se sabe até o momento (via RT e Astronomy Now): um meteoro, com massa estimada, antes de sua entrada na atmosfera terrestre, em 50  9.000 toneladas, explodiu sobre o sul da Rússia, a leste dos Montes Urais, por volta das 9h20 da manhã, hora local (1h20 da madrugada, no Brasil). Pelo menos três fragmentos já foram recuperados, dois na vizinhança do Lago Chebarkul, perto da cidade de Chelyabinsk, a 1.500 km de Moscou. O terceiro fragmento estava a 80 km dali, na cidade de Zlatoust.

As ondas de choque e os fragmentos menores produzidos pela passagem do meteoro causaram danos que, por sua vez, levaram mais de 900 1.000 pessoa a procurar serviços de saúde. Pelo menos duas pessoas estariam em estado grave.

De acordo com a prefeitura de Chelyabisnk, uma cidade de 1,1 milhão de habitantes, citada pelo site RT, cerca de 3.000 edifícios foram danificados, incluindo 34 hospitais e postos de saúde e 361 escolas. O total de janelas estilhaçadas soma uma área de 100.000 metros quadrados.

A região da queda
 Os fragmentos sugerem que o objeto que entrou na atmosfera, despedaçando-se a uma altitude de 10.000 24.000 metros, era composto de uma mistura de metal e rocha, tinha 15 metros de diâmetro e uma massa de 9.000 toneladas. O objeto teria entrado na atmosfera terrestre a uma velocidade de 30 quilômetros por segundo  -- isso é 108.000 km/h  65.000 km/h, aproximadamente igual à velocidade com que a Terra orbita o Sol. Isso sugere que a pedra estava "parada" ali no espaço, e nós é que trombamos com ela (NE: ou pode ser só uma coincidência, como apontado nos comentários).

Sobre se eventos assim são raros ou comuns, o astrônomo Jay Tate, do Centro Spaceguard do Reino Unido, disse ao Astronomy Now que pelo menos três casos parecidos foram registrados no século 20: Tunguska, Sibéria, em 1908; Rio Curaçá, na Amazônia brasileira, em 1930; e, talvez o mais parecido com o evento de Chelyabisnk, Revelstoke, no Canadá, em 1965, quando a queda produziu, de acordo com a Wikipedia, um "esplendoroso rastro no céu". Ainda sobre meteoritos que atingiram áreas urbanas, em 1992 uma rocha espacial caiu no porta-malas de um automóvel em Peekskill, Estados Unidos.

O carro de Peekskill, atingido por meteorito nos anos 90

Neste século, já tivemos o caso de uma criança atingida por um meteorito, na Alemanha, em 2009; e o meteorito do Sudão, que foi rastreado em sua trajetória rumo ao deserto africano, em 2008. Não há, no entanto, nenhum registro confirmado, até agora, de que alguém já tenha sido morto por causa da queda de uma rocha espacial. Há uma lenda persistente de que o meteorito Nakhla, um pedaço do planeta Marte que caiu na Terra em 1911, teria aterrissado sobre um cachorro especialmente azarado, matando-o, mas o relato carece de confirmação.

A Nasa completou, em 2011, uma tarefa que lhe havia sido dada pelo Congresso americano, em 1998, de rastrear e catalogar 90% dos os asteroides capazes de provocar uma catástrofe global -- o que não deixa de ser uma boa notícia, mas eventos como o de Chelyabisnk deixam bem claro que não é preciso o potencial de uma "catástrofe global" para que uma rocha no espaço seja perigosa. A tabela abaixo, retirada deste artigo da Wikipedia, mostra a frequência esperada do impacto de meteoroides com o planeta:


De acordo com esses números, podemos esperar um asteroide pequeno, com cerca de 4 metros de diâmetro, praticamente a cada ano, e outros um pouco mais desagradáveis, com 20 metros, uma ou duas vezes por século. A maior parte dos impactos acontece no oceano -- que cobre a maior parcela da superfície terrestre -- mas, à medida que a humanidade expande sua pegada sobre o planeta, o risco de um meteorito causar danos graves a pessoas ou a atividades econômicas cresce.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Tudo é genético. E isso é mais complicado do que você imagina

Creio que todo mundo já viu uma das inúmeras fotos que circulam pela internet, de tartarugas que cresceram dentro de anéis de plástico e ficaram com as carapaças deformadas. Agora, responsa rápido: a deformidade  dessas pobres tartarugas tem causa genética ou ambiental?

A carapaça da tartaruga é, obviamente, um fenômeno genético. Genes de tartaruga levam ao surgimento de carapaças de tartaruga, afinal. Só que a deformidade não existiria se não fosse o anel de plástico, que é um fator ambiental. Mas a deformidade também não seria o que é se não fossem os genes: são eles que ditam como o desenvolvimento do animal vai responder à pressão exercida pelo plástico. Com genes diferentes, a tartaruga poderia arrebentar o anel, ou crescer de um modo ainda mais rococó.

Enfim, a deformidade da tartaruga é genética ou ambiental? Um brinde para o cavalheiro que pensou na palavra interação, ali ao fundo. Notemos, porém, que tanto a genética quanto o ambiente são determinantes para o resultado: tirando um ou outro, não haveria um quelônio com aquele formato de carapaça específico.

Notemos, ainda, que o anel de plástico só está no mar porque os seres humanos têm genes que lhes dão cérebros grandes o bastante para refinar petróleo e moldar polímeros, mas aparentemente não grandes o suficiente para jogar o lixo no lugar certo. Mais um ponto para a genética, portanto.

Ou não? Os maus hábitos humanos são, afinal, um fenômeno da cultura, algo "totalmente independente" da genética. Certo?

Sempre que ouço alguém defendendo a ideia de que fenômenos culturais e fenômenos genéticos pertencem a esferas separadas e estanques, fico tentado a responder: "Mas claro! É por isso que os pombos escrevem poesia, que as formigas demonstram teoremas e que os babuínos desenvolveram a democracia parlamentar. Afinal, só o que nos separa dessas outras espécies são os genes e, como todo ser humano bem pensante sabe, genes e cultura são coisas totalmente independentes!"

Para dar o devido crédito aos isolacionistas genético-culturais, sua posição parece derivar de uma espécie de preocupação ética, ou desconfiança ideológica, para com a ideia de que certos fenômenos culturais desprezíveis, tais como a opressão da mulher, o racismo ou o hábito de destruir o meio ambiente, uma vez declarados "genéticos", passem a ser vistos como dados imutáveis ou obrigatórios da natureza humana.  Aliás, para muita gente, a simples ideia de "natureza humana" soa terrivelmente reacionária.

Mas esses temores todos nascem de uma visão extremamente simplista de o que genes são e de como funcionam. Uma metáfora útil, ainda que limitada, é a que compara o gene a uma receita de bolo: ele dá o caminho, mas o produto final depende da qualidade dos ingredientes, do talento do cozinheiro, do estado da cozinha. Essa metáfora permite ainda incluir o mecanismo de feedback: uma vez servido, o bolo gera reações entre os comensais que podem acarretar em mudanças na receita, em seu modo de preparação -- ou, mesmo, garantir que ela nunca mais seja executada.

Da mesma forma, os genes humanos que se expressam de modo a produzir cultura geram um ambiente que vai, por sua vez, afetar a expressão dos genes, reprimindo ou premiando certos comportamentos, estimulando ou vedando a transmissão de certos genes. São genes que produzem, no cérebro, o potencial para surtos de fúria homicida, do mesmo modo que são genes que criam as funções executivas de autocontrole, no mesmo cérebro. Da interação entre os seres humanos, construídos por esses genes, surge o ambiente cultural que vai valorizar o guerreiro berserker ou o diplomata sutil -- ou ambos.

Uma das fronteiras atuais do conhecimento é exatamente a busca por entender como o ambiente afeta o gene -- não apenas sua chance de transmissão para as futuras gerações, mas sua expressão: se um gene predispõe para determinada doença ou determinado comportamento, quais os gatilhos que ativam esses resultados? Alguma substância presente no ambiente? Um hormônio do próprio corpo, liberado em resposta  a um determinado estado emocional? Uma cascata de outros genes, cada um com seu gatilho específico?

É até possível que, no caso dos genes que se expressam de modo a afetar a cultura, a rede de interações seja tão caótica e complexa que, para todos os fins práticos, o modelo de "cultura" aqui e "genética" ali, como campos separados, seja o mais eficaz para fins epistemológicos, assim como tratamos a biologia como algo separado da física de partículas, embora todos os entes biológicos sejam feitos das mesmas partículas estudadas pelos físicos.

Mas notemos que os biólogos não conseguem escapar de vez das partículas dos físicos: a dança dos elétrons no interior da célula é parte fundamental do fenômeno da vida. Talvez, um dia, psicólogos e antropólogos também tenham de pôr o pejorativo termo "biologicista" de lado e comecem a falar, ainda que de forma bem limitada, em genes ou, mais provavelmente, em redes de interação gene-ambiente-cultura.

 As culturas humanas e as sociedades humanas são produtos do genoma humano. Têm de ser: a espécie humana, afinal, é um produto do genoma humano!

A aversão a esse fato deriva, provavelmente, do temor de que o apelo à genética  seja usado para impor limites artificiais e desnecessários ao que a cultura pode aspirar, ou ao que a sociedade pode vir a ser. Não está claro, porém, que a genética nos imponha qualquer limite nesse sentido -- de fato, a inteligência produzida por nossa genética está prestes a nos conceder o poder de modificar essa mesma genética, o que torna a questão  de eventuais limitações um tanto quanto ociosa, ao menos no longo prazo. Mas, se limites existirem, conhecê-los -- até para que possamos, talvez, eliminá-los -- é melhor do que fechar os olhos e nos esborracharmos contra eles.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Bento XVI: o lado B

Uma prova da forte influência católica na sociedade global -- e, por tabela, na mídia -- é o fato de Joseph Ratzinger estar deixando o pontificado como "um grande teólogo" e não como um "um facilitador e acobertador de crimes sexuais contra crianças". Nada, é claro, impede que ele seja as duas coisas ao mesmo tempo, e ambos os títulos dependem, até certo ponto, de uma série de juízos de valor,  mas a escolha de ênfase pelo noticiário é sintomática.

A justificativa mais ampla para o menos lisonjeiro dos títulos veio a público há quase dois anos, quando advogados ligados à causa dos direitos humanos apresentaram uma denúncia contra Bento XVI no Tribunal Penal  Internacional, (TPI), em Haia. E em 2010, o jurista britânico Geoffrey Robertson já havia publicado o livro The Case of the Pope: Vatican Accountability for Human Rights Abuse , onde argumenta que documentos ratificados por Ratzinger enquanto cardeal, responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, a antiga Inquisição, impuseram uma lei do silêncio mafiosa a padres, bispos e católicos leigos, efetivamente proibindo-os de denunciar padres pedófilos às autoridades civis. O livro, aliás, saiu no Brasil, com o título O papa é culpado?, mas a acho que a imprensa estava ocupada demais babando ovo para a  Jornada Mundial da Juventude para notar.

"Não existe dúvida de que a escala do escândalo de abuso sexual só foi atingida porque diretrizes do Vaticano -- especificamente, da Congregação para a Doutrina da Fé -- exigiam que todas as queixas de abuso sexual fossem processadas em absoluto segredo e escondidas da polícia e das cortes, sob uma Lei Canônica que era obsoleta e não-punitiva", escreve Robertson.

Em pelo menos um caso, o do padre Lawrence Murphy -- acusado de molestar cerca de 200 meninos deficientes auditivos -- o então cardeal Ratzinger foi informado, por carta, dos abusos, mas nada fez a respeito. O Vaticano defende-se dizendo que as cartas chegaram décadas depois de os crimes terem sido cometidos. Ainda assim, a ausência de qualquer tipo de reação ou resposta é intrigante.

Sua atuação como papa  também não foi muito melhor que a de inquisidor, ainda que tenha envolvido algum esforço de relações públicas: como a punição de Marcial Maciel, o maníaco sexual fundador dos Legionários de Cristo, cuja carreira de crimes foi absurdamente relevada por João Paulo II. No entanto, a queda de Maciel, sob Bento XVI, foi um caso típico  de "gato fora do saco": veio tarde demais, quando o escândalo já era de domínio público e o culpado se encontrava quase à beira da morte.

Criticamente, a norma De gravioribus delictus, editada no reinado de Bento XVI, em 2010, não exige que bispos que tenham conhecimento de atos criminosos praticados por padres os denunciem à polícia, mas apenas à Congregação para a Doutrina da Fé. De fato, o Vaticano chegou a publicar, depois de muita pressão, uma "sugestão" de que os bispos procurassem as autoridades civis, mas ela não foi incorporada à norma. Sugestões à parte, a lei da Igreja segue exigindo "o segredo dos julgamentos, para preservar a dignidade dos envolvidos".

A ONG americana Survivors Network of those Abused by Priests (SNAP) emitiu uma nota sobre a renúncia de Ratzinger, também largamente ignorada pela imprensa. A SNAP oferece, a meu ver, o melhor resumo do pontificado de Bento XVI, tanto sob o ponto de vista teológico quanto moral: "Bento deixa uma Igreja ainda regida por leis sob as quais (...) não se pode ser casado e padre, nem mulher e padre, mas pode-se ser um estuprador de crianças e padre".