terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Não é, mas deveria ser

É uma pena que a maior parte do conteúdo da revista Free Inquiry não seja oferecido online. Isso é até parte de uma estratégia de marketing -- "o melhor conteúdo sobre humanismo e ateísmo não está na internet!", diz o slogan da publicação -- mas aí o pessoal perde coisas como o artigo publicado no fim do ano passado pela jornalista Katrina Voss, chamado Homosexuality Is Not a Choice, But It Should Be: ou, "Homossexualidade Não É Uma Escolha, Mas Deveria Ser".

 O argumento é o de que o movimento gay americano (e, por tabela, no resto do mundo) acabou caindo numa armadilha dos conservadores religiosos ao usar o dado científico, de que a orientação sexual tem base biológica, para sustentar a reivindicação de direitos civis iguais aos dos heterossexuais e o fim do preconceito.

A ideia geral parece ser a de que, se convencermos os fundamentalistas de que ser gay é um fato biológico, como ser canhoto ou ter olhos azuis, e não algo sob a tutela do livre arbítrio, então não tem como ser pecado; se não tem como ser pecado, então, ora bolas, não é pecado; e se não é pecado, não tem por que esses carolas ficarem enchendo o saco.

Os problemas em adotar essa linha de argumentação são tantos que chega a ser difícil começar uma enumeração, por isso vou citar apenas três: primeiro, quem assume essa ideia de igualar o "natural" ao "irrepreensível" um dia corre o risco, a depender dos avanços da ciência, de ter de declarar pedófilos, estupradores e autores de crimes de ódio (homofóbicos, racistas, etc.) como pobres vítimas inimputáveis de pulsões plantadas no cérebro do primata tribal pela evolução.

Segundo, implicitamente legitima o conceito altamente problemático e autoritário de "pecado" -- que corresponde, na raiz, não àquilo que prejudica outros seres humanos ou demais seres vivos capazes de sofrer, que é a preocupação básica da ética racional,  mas àquilo que "ofende a Deus".

Terceiro, e talvez mais grave, a estratégia subestima de modo cabal a capacidade que "Deus" tem para se ofender com as coisas que Ele mesmo faz. Há vários casos clássicos na Bíblia -- o mais famoso deles provavelmente é o do Dilúvio, onde toda a natureza criada de repente passa a ser vista como "ofensiva" pelo Criador, com os resultados conhecidos.

Mas temos ainda outros exemplos. Aqui, durante o Êxodo: quem viu o filme do Charlton Heston provavelmente se lembra de que as pragas foram enviadas ao Egito porque o faraó tinha desobedecido à ordem de Deus para deixar partir os hebreus, certo? Usou o livre-arbítrio para fazer bobagem, danou-se.

Mas:

O Senhor disse a Moisés: “Vê: vou fazer de ti um deus para o faraó, e teu irmão Aarão será teu profeta./Dirás tudo o que eu te mandar, e teu irmão Aarão falará ao rei para que ele deixe sair de sua terra os israelitas./Mas eu endurecerei o coração do faraó, e multiplicarei meus sinais e meus prodígios no Egito./Ele não vos ouvirá. Então estenderei minha mão sobre o Egito e farei sair dele os meus exércitos, meu povo, os israelitas, com uma grandiosa manifestação de justiça. 
(Êxodo 7:1-4)

Ou seja, o Senhor fez o faraó desobedecê-lo só para poder castigá-lo depois. Até mesmo o Rei David caiu numa dessas:

1. A cólera do Senhor se inflamou novamente contra Israel e excitou Davi contra eles, dizendo-lhe: Vai recensear Israel e Judá./ (...) /Depois que foi recenseado o povo, Davi sentiu remorsos e disse ao Senhor: Cometi um grande pecado, fazendo isso. Mas agora apagai, ó Senhor, a culpa de vosso servo, porque procedi nesciamente.
(2 Samuel 24)
.
Quer dizer, Deus induz o rei a fazer um censo (o que, por algum motivo, era pecado) e, depois, o rei ainda tem que pedir desculpas. Não vou nem entrar na questão do papel de Judas Iscariote no plano da salvação, para não complicar demais a coisa, mas os exemplos são bem claros: Deus volta e meia cria situações só para ter a quem punir depois. Nada impede, portanto, que ele tenha inventado o fenômeno natural da homossexualidade só para "se ofender" e aí ter o prazer de atormentar os gays. Mesmo dentro da lógica bíblica, portanto, a ideia de "é natural, logo não é pecado" não funciona.

Toda a discussão sobre se a homossexualidade é "natural" ou não, no fim, não passa de uma armadilha: um atoleiro retórico. E se não fosse natural? Óculos não são, e nem por isso a moral cristã exige que os míopes andem por aí dando trombadas nas paredes. O verdadeiro critério de certo e errado, admissível e inadmissível, etc., não é, não pode ser esse.

(Claro, a investigação dos limites e das interações entre o biológico e o cultural tem valor intrínseco; o que questiono aqui é o uso dos resultados dessas investigações na esgrima -- ou seria no pugilato? -- em torno dos direitos civis dos gays.)

Em seu romance The Forever War, escrito na ressaca da Guerra do Vietnã, Joe Haldeman fala de um soldado que, depois de passar séculos numa guerra, volta à Terra e descobre que, por conta de uma campanha maciça de propaganda do governo, toda a população tornou-se homossexual. Ele quase chega a seduzir uma mulher com tendências heterossexuais latentes, mas evita fazê-lo, para que ela não fique estigmatizada.

A ficção de Haldeman, escrita numa época em que a sexualidade humana era vista como perfeitamente maleável, explicita o fato de que a relação da cultura e da sociedade com a homossexualidade depende muito mais dos mores do momento do que de qualquer outra coisa.

Se nossa soi-disant civilização tem alguma vantagem nesse campo, é a capacidade de refletir criticamente sobre esses mores e sobre as tradições que os trouxeram até nós: matar e roubar têm consequências negativas óbvias, mentira e traição causam sofrimento em gente inocente, mas duas pessoas adultas e descompromissadas que sentem desejo uma pela outra e agem com base nisso estão prejudicando quem, exatamente?

Quem considera a homossexualidade imoral e, portanto, deseja ver os direitos dessas pessoas restringidos, tem a obrigação de encontrar uma resposta para isso. Não são os defensores dos direitos dos homossexuais que devem explicações à comunidade maior dos seres humanos pensantes, mas o contrário.

Por fim, voltando um pouco à questão bíblica: alguns exegetas mais sofisticados já concluíram que as condenações à homossexualidade na Escritura, em Levítico e nas cartas de Paulo, não se referem à prática em si, mas a um tipo de prostituição ritual praticada em honra de deuses pagãos. Ou seja, o que temos não é YHWH fiscalizando o que cada um faz com as partes pudentas, e sim tendo apenas mais uma das inúmeras crises de ciúme tão exaustivamente documentadas no Velho Testamento.

Em seu artigo The Husband of One Husband, o teólogo Robert M. Price pondera:

Romanos 1:27 condena homens que, contra suas inclinações, têm relações com outros homens, mas não é disso que trata a homossexualidade moderna. Pelo contrário, ser gay é obedecer às inclinações de ser atraído pelo mesmo sexo. Então, dá para dizer que Paulo está condenando os gays?