Mestre Richard Matheson, lenda

Richard Matheson, que morreu no fim de semana, é, dependendo do tipo de relação que se mantém com o mundo da ficção científica literária, do cinema e da televisão, ou o escritor mais importante de quem você nunca ouviu falar, ou uma lenda, uma assombração.

No primeiro caso, você é apenas um consumidor eventual desse tipo de coisa -- alguém que lê um trabalho aqui, outro acolá, acompanha esta série ou aquela outra, este ou aquele filme, sem muito interesse. Se é assim, talvez não saiba que praticamente todas as ideias legais que nos últimos 50 anos viraram clichês, da ocupação da Terra por mortos-vivos à visita de casas mal-assombradas por caçadores de fantasmas high-tech nasceram em obras de Richard Matheson. Ao lado de HP Lovecraft, Matheson é o grande arquiteto do inconsciente coletivo da narrativa pop norte-americana (e, por extensão, mundial).

No segundo caso, você é alguém que tem um interesse mais profundo por essas coisas -- séries de TV, filmes, livros de aventura, vampiros e fantasmas -- e já notou que, nove em cada dez vezes que algum episódio, alguma história, realmente lhe chama a atenção, desperta uma fagulha, balança a zona de conforto o suficiente para que você se dê ao trabalho de puxar o fio da meada -- quem escreveu isso? de onde veio essa ideia? inspirada por quem? -- cedo ou tarde (um número surpreendente de vezes, bem cedo) o fio passa por Richard Matheson.

Ele foi o roteirista dos filmes de terror de Roger Corman estrelados por Vincent Price, baseados na obra de Edgar Allan Poe. Foi o autor dos melhores episódios de Além da Imaginação, além de ter criado a narração com que Rod Serling abria a série ("Você está entrando num mundo..."). Também escreveu o que talvez tenha sido a mais enxuta e bem-resolvida (em termos de roteiro) adaptação audiovisual de Drácula, estrelada por Jack Palance. Sua obra inspirou o primeiro longa-metragem de Steven Spielberg, Encurralado, além de inúmeros outros filmes, como O Incrível Homem Que Encolheu,  Em Algum Lugar do Passado e o recente Gigantes de Aço, com Hugh Jackman.

Seu romance I Am Legend, de 1954, é a base, não só de toda a indústria de "invasões de zumbis" que se seguiu, como também de todas as histórias envolvendo "vampiros científicos" -- as tentativas de reinterpretar o mito do vampirismo sob um prisma de ficção científica (um vírus, uma mutação genética, etc.).

Outro romance seu, Hell House (1971), fez o mesmo pela casa mal-assombrada, traduzindo os tropos do terror espiritualista em termos de ficção científica. Talvez a primeira história em que um grupo de "caçadores de fantasmas científicos" tenta exorcizar uma casa amaldiçoada seja o romance The Haunting of Hill Hose (1959), de Shirley Jackson, mas o livro e Matheson é mais visceral e, também, mais tecnológico.

A visceralidade talvez seja o aspecto da obra de Matheson que mais se perdeu nas diversas transposições do literário para o cinematográfico. Isso fica bem claro em O Incrível Homem que Encolheu, onde o filme de Jack Arnold, de 1957, mesmo sendo uma obra fantástica, não toca na angústia sentida pelo protagonista por conta de sua castração, progressiva e inevitável, trazida pelo encolhimento geral do corpo. E quem assistiu a outra adaptação, Amor Além da Vida, sabe como o filme é edulcorado.

O texto de Matheson é muito mais cruel do que as adaptações cinematográficas romantizadas. Um bom exemplo de seu estilo é o conto Born of Man and Woman, que também tem várias das características que depois iriam se tornar marcas registradas das séries de TV em que ele se envolveu, como Além da Imaginação.

Lembro-me de ter lido uma entrevista de Matheson, nos anos 90, em que ele contava a briga que tinha sido convencer seu editor a manter o título do romance I Am Legend ("Eu Sou Lenda"), em vez de I Am a Legend ("Eu Sou uma Lenda") ou I Am the Legend ("Eu Sou a Lenda"). Ele explicava que a ideia era deixar claro que o protagonista do livro havia se tornado algo irreal, difuso -- mera "lenda" -- e não uma figura épica ("a lenda") ou uma história exemplar ("uma lenda").

Pondo de lado o triste fato de que nenhum dos responsáveis pelas versões brasileiras da história -- em livro ou filme -- parece ter se dado conta da sutileza, fico com a impressão de que a escolha (e a briga) foi profética: por meio de sua obra, Matheson tornou-se lenda, algo que perpassa toda a cultura, afetando mesmo quem nunca ouviu falar nele.

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