sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Contos para animar o Natal e o Ano-Novo

Meu primeiro livro de contos de ficção científica chamava-se Tempos de Fúria e foi lançado, se não me engano, em 2005. O leitor astuto há de ter notado que ele não aparece na seção "livros que escrevi", na coluna à direita, e por um motivo bem simples: por uma questão contratual (contrato que, diga-se de passagem, assinei com plena consciência e de livre e espontânea vontade) não recebo um tostão de direito autoral pelas vendas. Portanto, não vejo motivos para promovê-lo.

Isto é, não via, até hoje. Porque, com os direitos do livro transferidos, finalmente, para a Editora Draco, eis que me vejo em posição de fazer uns cobres com o material contido ali: antes de relançar o volume em papel, a Draco optou por publicar alguns dos contos que compõem o livro em formato digital, e este material já está disponível na Amazon.com.br e, suponho, em outras livrarias online também (já há versões para Kobo). O leitor masoquista pode, portanto,  conceder a si mesmo o presente natalino de uma série de trabalhos meus de ficção, pelo preço módico de R$ 2,99 cada.

Dos contos agora oferecidos, o que recebeu mais elogios (ou menos críticas, dependendo do ponto de vsita) foi Planeta do Mortos, que é uma espécie de história natural alternativa -- o que aconteceria se a teoria de Wilhelm Reich, de que a vida é transmitida por uma partícula microscópica chamada bíon, estivesse certa? -- misturada com aventura de zumbis. E em Vênus, que é para manter a coisa interessante.

Outras histórias razoavelmente bem-recebidas foram Estes 15 Minutos, passada numa favela carioca e escrita sob a influência de Jorge Luis Borges e Cordwainer Smith (não que qualquer um deles deva ser culpado pelo resultado), e Questão de Sobrevivência, onde especulo sobre qual seria o destino do Brasil se as forças políticas e os movimentos sociais que atuavam no país no fim dos anos 90 continuassem a se comportar como vinham agindo até então.

O fato de já ter mudado, em revisões, pelo menos duas vezes a data em que a história se passa, jogando-a cada vez mais para o futuro, pode ser um sinal de que, ao escrever o conto, eu havia subestimado a  maturidade política da sociedade brasileira -- ou isso, ou demos sorte. Você, leitor, decide.

Um conto que a maioria dos críticos ou ignorou ou simplesmente desprezou foi Desígnios da Noite, passado numa sociedade onde todas as disputas são resolvidas, literalmente, na porrada: um mundo regido por um código de duelo, o que, à primeira vista, parece muito mais prático e, até, honrado que o nosso sistema de tribunais bizantinos e advogados sebosos.

Curiosamente, ao imaginar esse mundo, logo me ocorreu que as pessoas mais ricas dariam um jeito de contratar mercenários para lutar em seu lugar, e que os duelos teriam de ser regidos por regras minuciosas, abrindo espaço para todo tipo de chicana, e que... bem, o resultado final acabou não sendo um mundo muito diverso do que temos hoje, em essência. O conto foi escrito sob influência de Mickey Spillane, o que ajuda a explicar o linguajar chulo e a sexualidade meio pervertida. Quase ninguém concorda, mas acho essa uma de minhas obras mais originais.

Outra história que envolve Vênus é Pressão Fatal, sobre um crime cometido numa estação em órbita do planeta. Trata-se de um crime de quarto fechado -- duplamente fechado, já que não só a vítima estava trancada num aposento, isolada do restante da estação, como a própria estação, por sua natureza, está isolada do restante do universo. Foi minha primeira tentativa de escrever um conto de mistério, e reflexos dessa história aparecem em muito de minha produção subsequente -- por exemplo, no conto policial "puro-sangue" que escrevi para o volume Ficção de Polpa -Crime!.

Muita gente acha que o detetive, um tipo meio pomposo que fala francês, é inspirado no belga Hercule Poirot, de Agatha Christie, mas minha fonte real foi Henri Bercolin, investigador francês criado pelo gênio americano do crime de quarto fechado, John Dickson Carr.

Para a segunda edição em papel de Tempos de Fúria, que a Draco deve publicar no ano que vem, incluí dois contos à guisa de faixa bônus -- basicamente, para que quem já tem o livro em sua edição original se sinta tentado a comprar o novo volume. Essas faixas também foram publicadas como ebook, e estão disponíveis.

Uma delas é Colosso de Bering, uma novela meio difícil de resumir em poucas palavras -- digo apenas que ela foi inspirada pelo curioso fato de que, na convenção internacional que definiu Greenwich como o meridiano zero para a contagem de tempo na Terra, apenas dois países votaram contra a resolução: França e... Brasil.

A outra é uma aventura de viagem no tempo, e representa uma espécie de "versão alternativa" da Intempol, a polícia internacional do tempo, criada pelo escritor, designer e professor universitário carioca Octavio Aragão. Referências oblíquas à organização encontram-se espalhadas pelo conto, mas ele não faz parte do universo compartilhado criado por Aragão, e provavelmente não teria como se encaixar na mitologia oficial da série.

Este é talvez  o conto mais antigo do livro, escrito ainda em minha fase de fascinação com a obra de HP Lovecraft -- onde praticamente tudo que eu escrevia tinha alguma coisa de livros proibidos ou alienígenas disfarçados de deuses jogado no meio. É curioso também notar que a história foi criada bem antes de eu me tocar de que era ateu -- acho que ainda me imaginava vagamente católico, na época -- mas o conto de certa forma já traía minhas convicções mais profundas.

Além do material de Tempos de Fúria, a Draco também publicou três contos meus que, originalmente, fazem parte de antologias temáticas: A Festa de Todos os Deuses, extraído de Brinquedos Mortais; Antropomaquia, de Fantasias Urbanas; e No Vácuo, Você Pode Ouvir o Espaço Gritar, de Space Opera 2.

Festa e Antropomaquia são histórias que brincam com questões de religião e mitologia: a primeira trata de um terrorista monoteísta que tenta destruir um festival onde são homenageados deuses de diversos panteões; já a segunda surgiu da seguinte especulação: se humanos, que comem carne bovina, fazem touradas (também chamadas de tauromaquias), por que vampiros, que bebem sangue humano, não fariam antropomaquias?

No Vácuo..., por sua vez, é uma tentativa de produzir new space opera. O subgênero da ficção científica conhecido como space opera tem um histórico de traduzir, em termos de aventuras espaciais épicas, o mesmo tipo de história que encontramos em narrativas do Velho Oeste, ou de guerras coloniais ou imperais de conquista, ou mesmo da Guerra Fria. Meu objetivo era fazer algo parecido, mas associando à tradução as sensibilidades de hoje, além de uma visão científica mais precisa sobre, por exemplo, a possibilidade de viajar mais depressa que a luz.

Enfim, para quem tem um Kindle, ou um tablet ou celular com a "app" do kindle (que, se não me engano, a Amazon distribui de graça) os contos estão aí, à venda, por menos de R$ 3 cada. Elogio em boca própria é vitupério, mas eu diria que qualquer um deles é remédio razoável para a ressaca e o tédio deste período em que o mundo parece parar à espera do próximo ciclo de asneiras da raça humana.

Sempre lembrando que o celular é uma plataforma de leitura muito discreta, especialmente útil para a hora em que a sua tia-avó resolver reunir as crianças diante da árvore de Natal e forçá-las a recitar um jogral sobre a importância de nos lembrarmos do verdadeiro significado da Estrela de Belém e da importância de preservar o espírito de..., e blá-blá-bla´.

#Justsaying.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A galinha apocalíptica

"Um terror pânico do fim do mundo tomou conta do bom povo de Leeds e da vizinhança no ano de 1806", escreve o jornalista escocês Charles Mckay em seu hoje clássico Extraordinary Popular Delusions and The Madness of Crowds, publicado em 1841. "O medo surgiu das seguintes circunstâncias. Uma galinha, numa vila próxima, estava a pôr ovos onde aparecia escrito: Cristo está chegando." Prossegue Mckay: "Como marujos numa tempestade, esperando a cada instante ir a pique, os crentes repentinamente tornaram-se religiosos, rezavam violentamente, gabavam-se de terem se arrependido de seus maus caminhos".

O fervor apocalíptico em torno da poedeira de Leeds desapareceu quando sua dona -- que, segundo algumas fontes, havia começado a vender "selos" que marcavam o possuidor como uma alma a ser salva -- foi flagrada forçando ovos, com a frase escrita à tinta, galinha adentro. A dona, por falar nisso, chamava-se Mary Bateman, era conhecida como "Bruxa de Yorkshire" e, pelo que se sabe dela, era uma figura especialmente sinistra, que acabou executada por homicídio.

Antes de entrar no negócio de molestar aves, Mary já havia conquistado alguma fama lendo a sorte e aplicando pequenos golpes -- uma biografia diz que ela chegou a enganar o marido, fazendo-o partir numa viagem, sob falsos pretextos, a fim de vender os pertences que ele deixara para trás em casa. Mas, aparentemente, foi só depois do colapso do esquema da galinha profética que Mary passou para o ramo da "medicina tradicional popular", realizando abortos e vendendo remédios que, em muitos casos, continham veneno: há suspeita de que, após a morte dos pacientes, a curandeira tratava de se servir dos móveis e roupas da casa das vítimas.

Presa em 1809, depois de ser denunciada pelo marido de uma de suas vítimas -- que, espantosamente, continuara, por dois anos após enviuvar, a pagá-la por seus serviços medicinais esotéricos -- Mary foi julgada e condenada à morte na forca. Tentou escapar da pena de morte declarando-se grávida, mas estava mentindo, e foi executada.

Nem mesmo as provas apresentadas no julgamento, a condenação e a incapacidade da "bruxa" de escapar do cadafalso fizeram desaparecer a crença em seus poderes mágicos, no entanto: numa nota grotesca -- ou irônica -- a pele do cadáver de Mary foi curtida e retalhada, os fragmentos vendidos como amuletos de boa sorte.

O esqueleto de Mary Bateman (que ilustra esta postagem) faz parte do acervo do Museu Tackaray de Medicina, na cidade de Leeds.