sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Monteiro Lobato, racismo e eu

Tenho uma dívida enorme para com Monteiro Lobato. Mesmo. Eu não seria escritor, não seria blogueiro, não seria jornalista, sem ele. Não escreveria fantasia, aventura e ficção científica se não tivesse lido Os Doze Trabalhos de Hércules e sua adaptação da lenda de Robin Hood. Não teria me interessado tanto pela ciência e pela cultura clássica sem A Reforma da Natureza, O Minotauro e Viagem ao Céu. Não teria aprendido a desconfiar da autoridade constituída e a duvidar, sempre, das "boas intenções" do governo e do capital sem O Poço do Visconde.

Confesso que a fase "doméstica" da saga do Sítio do Pica-Pau Amarelo, mais centrada no sítio em si e no folclore brasileiro (como Reinações de Narizinho, O Saci, As Caçadas de Pedrinho) sempre me fascinaram muito menos. Qual a graça de perseguir sacis no mato com uma peneira se dava para caçar hidras e centauros da Grécia micênica com clava e flechas envenenadas, ora bolas?

Por conta disso, a celeuma atual em torno de As Caçadas de Pedrinho me pega meio que de calças curtas, e não por me remeter de volta à infância, mas porque se trata de um livro, a meu ver, menor, de que tenho lembranças bem pouco claras e com o qual minha ligação afetiva é quase nula.

De qualquer modo: o ponto central da crise é a acusação de que a obra reforça esterótipos racistas e, por conta disso, deveria ser considerada inadequada para certa faixa etária, a menos se complementada por notas, prefácios ou posfácios explicativos. Em algumas manifestações, fica claro que o problema realmente não é do livro, mas da incompetência dos professores em trabalhá-lo. Teme-se, por exemplo, que os epítetos coloridos (sem trocadilho) usados pela boneca Emília para desancar Tia Nastácia sejam reproduzidos nos pátios escolares. Mas suponho que parte da missão civilizatória da escola envolva ensinar a respeitar o próximo.

Dizer que o texto de Lobato "sanciona" o uso de linguagem racista (note-se que Emília, mesmo sendo carismática, é também tratada como inconveniente e grosseira) é como dizer que as aventuras de Arsène Lupin "sancionam" o crime.

O risco de algum leitor resolver imitar as facetas menos recomendáveis de personagens da obra lida existe em qualquer contexto, e o contexto escolar está lá para, entre outras coisas, orientar os jovens a não fazer isso e explicar o porquê. Botar uma nota de rodapé nos diálogos de Emília dizendo que não se deve xingar os outros por causa da cor da pele me parece tão "útil" quanto botar uma nota de rodapé nos diálogos de Drácula dizendo que não se deve matar as pessoas para beber-lhes o sangue. Mas, de repente, dado o nível da educação e a qualidade dos professores, isso acabe se mostrando necessário. O que seria uma pena.

O problema maior é que, dada a temperatura alcançada pela discussão, entrou em curso uma espécie de character assassination da obra infanto-juvenil (e não só: até o conto Negrinha entrou na roda) de Monteiro Lobato, in toto. De repente, seus textos passaram a ser tratados, em certos círculos, como peças de propaganda nazista, que precisam ser manipuladas com luvas de chumbo e longas pinças, como as que Homer Simpson usa para mover bastões de combustível nuclear.

Com isso, perde-se de vista o impacto mais geral e duradouro da obra: afinal, a leitura da literatura infanto-juvenil de Monteiro Lobato serve mais à perpetuação do racismo ou à promoção de valores como ceticismo, amor às artes, à ciência e à literatura, ao desenvolvimento do senso crítico?

Há um conto, acho que está em A Reforma da Natureza, em que Emília flagra uma flor branca tentando tiranizar as demais flores do canteiro, que são coloridas. E esta mesma Emília, que tanto destrata Tia Nastácia, resgata a autoestima das flores coloridas e leva-as à revolta ao convencê-las de que o fato de terem pigmentos tornava-as mais ricas que a déspota branca, desprovida deles.

 De tudo que Lobato escreveu que pode ser interpretado como tratando de questões de raça, essa alegoria foi a que mais me marcou, na infância. Nunca a esqueci.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Olhando para o alto e para trás

Esta semana tem sido cheia de pequenos aborrecimentos. Primeiro a torneira da lavanderia lá de casa começou a pingar, depois a máquina de lavar quebrou e, agora, o piso de cerâmica da cozinha explodiu com o frio da última madrugada. Mas aí, quando começo a ficar chateado e a achar que o universo tá de sacanagem comigo, a Nasa solta isto aqui:


Esta imagem (acho que, clicando, dá para ampliar) é o "Campo Extremamente Profundo", ou XDF, para simplificar, produzido pelo Telescópio Espacial Hubble. Ela foi obtida reunindo-se luz acumulada ao longo de dez anos pelo telescópio, a fim de registrar a impressão de 5.500 galáxias, a mais distante das quais tem um brilho que corresponde a dez bilionésimos da luz mais fraca que o olho humano é capaz de detectar.

E toda essa superpopulação estelar foi encontrada numa janela minúscula do céu, menor do que a ocupada por uma lua cheia. O infográfico abaixo mostra, em escala, a área do XDF comparada à ocupada pela lua:


Quer dizer, se você consegue cobrir a lua cheia com um dedo, o XDF é menor que uma unha. E lá estão, pelo menos, 5.500 galáxias. Mas isso não é tudo: como sempre que olhamos para o céu estamos, de fato, olhando para o passado -- já que a luz viaja à conhecida velocidade de um ano-luz por ano -- as 5.500 galáxias do XDF são, também, muito antigas. Quanto? Bem, algumas delas têm 13,2 bilhões de anos.

É um número impressionante, mas se torna mais impressionante ainda se nos lembrarmos que o universo como um todo tem 13,7 bilhões de anos. E o planeta Terra, 4 bilhões. Essa imagem mostra coisas que já existiam quando o universo tinha mero meio bilhão de anos -- quando os átomos de carbono que compõem você e eu possivelmente ainda nem tinham sido forjados no coração das estrelas.

Enquanto escrevo isto meu piso continua quebrado, amanhã vou ter de ficar em casa esperando pedreiro, e sei lá quanto isso tudo vai me custar. Tudo isso tem lá sua importância, assim como são importantes o julgamento do mensalão e quem vai ganhar as próximas eleições mas, quer saber? O universo está apenas marginalmente envolvido nessas coisas. Ele não está de sacanagem comigo. Como poderia? Ele está muito ocupado sendo fantástico. Eu é que sou uma besta e não paro o tanto que deveria para prestar atenção.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Quem roubou a democracia que estava aqui?

Deixa ver se entendi: nos últimos dias o Judiciário brasileiro mandou prender um cara do Google pra tentar censurar o Youtube, proibiu um blog de dizer que um político alvo de processo é alvo de processo, impediu a divulgação de uma pesquisa eleitoral e, agora, decide censurar o trailer de A Inocência dos Muçulmanos.   Impressão minha ou nos livramos da censura da ditadura militar só para cair numa ditadura da censura judicial?

Tá, claro, o problema não é de hoje. Especificamente, a mania que a Justiça brasileira tem de proibir as pessoas de contar a verdade sobre os outros já causou inúmeros embaraços à publicação de biografias -- como bem notou Ruy Castro, os juízes brasileiros são bem capazes de mandar apreender todos os livros de história brasileira caso a família Vargas se sinta ofendida pelo dado de que Getúlio se matou -- mas o caso do blog impedido de dizer que um político goiano do Amapá investigado pela polícia é investigado pela polícia leva a coisa a um novo nível.

Agora, com e censura ao trailer da Inocência, vemos os muçulmanos brasileiros atingindo um grau de privilégio comparável ao alcançado pelos católicos quando da proibição, pelo governo Sarney, da Ave Maria de Goddard.

Enfim, assim é o Brasil: em vez de fazer a coisa certa, democratiza-se o erro. Preciso me lembrar de manter o passaporte em dia.