quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Big Bang, questão de fé?



Existe um argumento que volta e meia aparece reciclado em discussões online -- mais recentemente, encontrei-o no twitter, que é uma plafatorma exasperante para discutir esse tipo de coisa, já que lá todo raciocínio se reduz a uma sucessão de slogans -- que é o da boa e velha "fé na ciência". Ele assume diversas formas e, como costuma acontecer, se presta a diversos tipos de prestidigitação semântica.

A linha geral, por trás da maioria dessas formas, é a de estabelecer uma espécie de situação de terra arrasada: eu acredito na minha ciência, você acredita no seu deus, e nenhuma crença é melhor ou pior que a outra, porque, no fundo, todas se baseiam em fé. O problema começa já na hora de definir o que "fé" quer dizer neste contexto -- seria confiança? crença pura e simples? ou crença irracional?

Tomando "confiança" como exemplo, a situação se agrava quando tentamos definir o que se quer dizer com "confio na ciência".

Isso pode significar, confiança no establishment científico (universidades, periódicos com peer-review, o comitê do Prêmio Nobel); confiança no corpo atual de conhecimento científico (Teoria da Relatividade, Evolução por Seleção Natural, Modelo Padrão das partículas elementares); e confiança nos métodos e processos da ciência (empiricismo, lógica, busca por evidências, por simplicidade, livre circulação de críticas e informações, reprodutibilidade). Falando por mim mesmo, confio muito na terceira opção, razoavelmente bem na segunda e, sim, acho que a primeira até que dá para o gasto.

E será que algum desses graus de confiança é irracional?

Na iteração mais recente do argumento a que fui exposto -- via twitter; a elaboração talvez não seja, portanto, a ideal -- a frase, referente ao Big Bang, veio da seguinte forma (dei um tapa na redação, para descompactar o formato espremido de 140 caracteres): "Um evento de força e causa desconhecidas em que se pressupõe o ocorrido com base no que se acredita mas não se prova, também é fé".

Neste caso, então, o que se afirma é que a crença no modelo do Big Bang é um ato de fé porque a grande explosão seria um evento de causa desconhecida; apenas pressuposto; e sem provas. Suponho, portanto, que a definição operacional de fé, neste contexto, seja "crença sem provas". O argumento se sustenta?

Não. Por quê? Vejamos: começando pelo mais simples, "causa desconhecida" não significa "sem provas". Durante milhares de anos a humanidade desconheceu a causa da varíola, mas havia ampla evidência da realidade da doença. É perfeitamente possível haver provas de um efeito, mesmo que sua causa esteja envolta em mistério (incontáveis episódios de seriados de TV dependem dessa premissa, aliás).

Agora, a ideia de que o Big Bang é apenas pressuposto. Durante um bom  tempo, isso até foi verdade. Quando George Lemaître propôs a hipótese de que o Universo teria se expandido a partir de um "átomo primordial", em 1931, ela era uma suposição consistente com a Teoria da Relatividade Geral -- isto é, uma possível consequência lógica das leis descobertas por Einstein. Como essas leis, até onde sabemos, estão corretas, uma proposta compatível com elas também tem chance de estar correta.

Mesmo nesta fase de "mero pressuposto", a opção de aceitar o Big Bang como um modelo de trabalho não era uma "crença sem provas". As provas estavam nos cálculos de Lemaître, na consistência com a Relatividade Geral e, algo que eu ainda não havia citado, na observação de que o Universo encontra-se em expansão. Algo que está crescendo ao longo do tempo deve, por definição, ter sido menor no passado. E menor ainda antes disso. E menor. E menor. E...

Durante algum tempo, no entanto, outras propostas pareciam capazes de dar conta dos mesmos fatos cobertos pelo "átomo primordial" de Lemaître.

Da mesma forma que o som de uma criança chorando no apartamento ao lado dá margem a várias explicações possíveis -- alguém está imitando uma criança; a TV do vizinho está ligada num canal onde tem uma criança chorando; há mesmo uma criança chorando presente no local -- as observações e cálculos também podiam ser explicados por outros modelos, como o do estado estável  estacionário, que propunha uma criação constante de matéria no interior do espaço-tempo.



A tese do estado estável estacionário, no entanto, começou a sofrer reveses cada vez maiores, primeiro com a descoberta de que certos corpos astronômicos (como quasares) eram mais abundantes no passado, o que sugere que o Universo muda com o passar do tempo (em contradição ao conceito de estabilidade eterna) e depois com o encontro do pano de fundo cósmico de micro-ondas, que pode ser explicado como o brilho do Big Bang, desgastado após uma viagem de 14 bilhões de anos.

Então, o Big Bang é aceito "sem provas"? Bem, temos, pela ordem, três fatos observáveis e observados: a expansão do Universo; o dado de que o Universo era diferente no passado; e as micro-ondas de fundo. Além, claro, da compatibilidade teórica com a Relatividade Geral.

Existem, claro, problemas ainda a serem resolvidos: não sabemos por que o Universo se encontrava num estado de "átomo primordial" há 14 bilhões de anos, por que começou a crescer, nem mesmo se ele havia passado por outros estados mais interessantes antes de virar um pontinho (ou, até, se faz sentido falar em um "estado anterior" à Grande Explosão).

Mas reconhecer ignorância não significa abrir espaço para o sobrenatural ("foi deus que  fez"). Significa que, ou mais trabalho é necessário, ou chegamos ao limite do cognoscível. O que só poderemos afirmar, de fato, com mais trabalho. O LHC, o Hubble e um monte de outros instrumentos estão aí pra isso.

Alguns cosmólogos flertam com a possibilidade de o "nosso" Universo ser uma bolha em meio a uma espuma infinita de espaço e tempo, com outros Universos borbulhando em existência ao nosso redor, mas todas essas propostas serão avaliadas, ao fim e ao cabo, pelos méritos de prova e consistência, e não aceitas ou rejeitadas por "fé".


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tarzan do Macacos, um livro de 100 anos


Entre as várias efemérides literárias -- centenário de Jorge Amado, 25 anos sem Drummond -- de 2012, uma anda passando meio despercebida: os 100 anos da publicação do que Ray Bradbury considerava o "mais influente romance do século 20", Tarzan dos Macacos, de Edgar Rice Burroughs.

Claro, aqui e ali as pessoas começam a falar no "centenário de Tarzan" mas, na maioria dos casos, as manifestações de apreço pelo personagem logo enveredam por sua longa carreira cinematográfica, ou nos quadrinhos; pouca gente faz referência aos livros, dos quais Burroughs produziu mais de 20, e que depois contaram com autores do calibre de Philip José Framer e Joe R. Lansdale.

O que é uma pena, e uma injustiça. Afinal, foi a publicação de Tarzan dos Macacos, em 1912, que que lançou o mito -- e Tarzan, o homem-macaco, é o mito por excelência. Mais até do que outros candidatos, como Sherlock Holmes ou o Superman, Tarzan é um caso especial de construção de mitologia, de um nome, uma imagem, um conjunto de atributos que colam na cultura e entranham-se nela, a ponto de as pessoas se esquecerem da origem humana e artificial daquilo tudo. Falar que Tarzan teve um criador -- para além de Kala, a macaca que o amamentou na selva africana -- soa quase tão estranho quanto imaginar que Hércules teve um pai além de Zeus.

Alguém poderia suspeitar de que esse caráter mítico deriva tanto da força do personagem quanto da fraqueza do autor: se nos lembramos de Conan Doyle como criador de Sherlock Holmes mais facilmente do que nos lembramos de Burroughs como criador de Tarzan, é porque o texto de Conan Doyle tem um valor e uma força que ombreiam o valor e a força do grande detetive. Burroughs, um escritor mais limitado, não teve e mesma sorte.

Mas "limitado" em que sentido? O Burroughs das aventuras de Tarzan certamente não tem nenhuma sofisticação de estilo. Seu talento está na criação de cenário, personagem e situação. O melhor que se pode dizer de seu uso da linguagem é que ele não a deixa ficar no caminho: o texto é claro, conciso, quase transparente. E, se não ajuda, também certamente não atrapalha o desenvolvimento da trama. (Quem já teve a experiência de tropeçar numa frase ruim ou numa metáfora estúpida sabe certamente reconhecer o valor de um texto que não machuca o ouvido ou a sensibilidade do leitor, expulsando-o do livro).

Ele era um mestre do suspense, da coincidência e do mal-entendido, desenvolvendo situações em paralelo -- aqui vemos o que está acontecendo com Jane; no próximo capítulo, o que Tarzan faz, sem saber o que se passa com sua amada; no seguinte, como Jane reage ao que imagina que Tarzan deve estar fazendo -- que põem o leitor na agonizante posição de saber mais do que os protagonistas e ser incapaz de avisá-los do que os espera.

Burroughs também era um autor econômico, algo impensável nesta era de best-sellers de milhares de páginas, espalhadas em incontáveis volumes. Hoje em da, os eventos narrados nas pouco mais de 200 páginas de Tarzan dos Macacos -- o motim de piratas que deixa os pais de Tarzan naufragados na costa africana; o nascimento do menino; a morte dos pais; a adoção pelos macacos; a infância e a juventude na selva; o primeiro contato com seres humanos; o apaixonar-se por Jane; a partida para os Estados Unidos -- seriam facilmente distribuídos por duas ou três trilogias, com volumes de 500 páginas cada.

Tarzan dos Macacos também tem dois aspectos que são pura ficção científica: o primeiro é a identidade dos primatas que adotam o jovem lorde inglês. Muitas vezes tratados por "gorilas", os Grandes Macacos (como são chamados no livro) na verdade não correspondem a nenhuma espécie conhecida de símio, tendo uma linguagem e uma cultura muito mais sofisticadas do que as dos animais do mundo real.

O segundo, e mais delicado, é o fato de Tarzan conseguir aprender a ler por conta própria, apenas folheando os livros que encontra na cabana construída por seu pai humano na mata.

Burroughs tenta suavizar a inverossimilhança mencionando o fato de que, entre os livros, havia cartilhas e obras infantis ilustradas, mas o efeito em si -- uma criança não só aprender a ler por conta própria, mas descobrir os conceitos de leitura e escrita sem jamais ter tido contato com a ideia, aprendendo até mesmo a usar corretamente conjunções, preposições e pronomes sem jamais ter ouvido uma voz humana atriculá-las -- é tão ultrajante quanto o Homem Invisível de HG Wells. E, assim como Wells, Burroughs sai-se muito bem, convencendo o leitor da (falsa) plausibilidade dos eventos, ao menos pela duração do livro.

Há, ainda, a velha acusação de que Tarzan, o personagem e o livro, é racista. E, de fato, há apenas dois tipos de personagens negros em Tarzan do Macacos:  selvagens canibais e uma empregada doméstica que está ali apenas para propiciar alívio cômico, desmaiando a torto e a direito e cometendo violências contra gramática piores que as de Tarzan. O que se pode dizer para equilibrar esse fato bruto é que os personagens brancos também não se saem muito melhor: são, no geral, piratas, vilões, assassinos, covardes pusilânimes e interesseiros.

Por exemplo, o professor Porter,  pai de Jane, é ora um idiota, o esterótipo do cientista  maluco, ora um velho insensível disposto a vender a filha em casamento para um milionário, a fim de financiar suas pesquisas. O único homem branco honrado do livro, além de Tarzan, é o marinheiro francês Phillippe D'Arnot, que se torna o primeiro (e único) amigo humano do rei da selva.

O Tarzan dos livros é não só um gigante físico, mas também cultural -- no segundo volume da saga, O Retorno de Tarzan, somos informados de que em Paris, a convite de D'Arnot, ele passa os dias nas bibliotecas e as noites, nos teatros e cabarés.

Tarzan dos Macacos foi mesmo o romance mais influente do século 20? Talvez. Ele, afinal, definiu o modelo de herói -- forte, inteligente, cortês, cavalheiresco, curioso, crítico da sociedade mas capaz de viver dentro dela, amante da natureza, leal para com os amigos e fiel para com a mulher amada, alguém que não busca a violência deliberadamente, mas que também não se esquiva dela quando a causa é boa -- que seria reproduzido, ad infinitum, em obras das mais diversas mídias, por todas as décadas seguintes.

A imagem de Tarzan é tão forte que muitas pessoas talvez ainda tenham nele seu ideal pessoal, o homem que gostariam de ser (ou que gostariam de ter) mesmo sem saber que esse ideal é, no fim, um homem-macaco literário criado por um autor iniciante em 1912.

Muitos dos livros originais de Burroughs estão já em domínio público, e usuários do Kindle podem baixar vários dos romances, gratuitamente, da Amazon.