sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Minha quase-palestra na Bienal

No último domingo, a convite de Ana Cristina Rodrigues, estive no estande da Biblioteca Nacional, na Bienal do Livro de São Paulo, para falar sobre "O Desafio de Escrever Ficção Científica para Jovens e Crianças". Como o horário reservado para mim era enorme (uma hora e meia!), preparei-me escrevendo um longo ensaio a respeito, para usar de roteiro. 

Felizmente para todos os envolvidos, no entanto, a Ana Cristina administrou o evento como um misto de debate e bate-papo, o tornou minha longa e tediosa peroração desnecessária e redundante. 

Mas o fato é que eu já estava com o texto pronto e, bem, parafraseando Robert Heinlein, escrever para o público e não publicar é um desperdício de tempo e trabalho, além de uma forma especialmente perversa de covardia. Então, a quem interessar possa, mais algumas reflexões tolas  e não-solicitadas sobre um assunto de que não entendo patavina, literatura e crítica literária:

O tema de hoje, “desafios da ficção científica para jovens e crianças”, é especialmente interessante pelo simples fato de se reconhecer que há um desafio: é muito fácil, se pararmos para pensar, pressupor que a ficção científica é, de fato, um gênero voltado para jovens e crianças, e que o verdadeiro desafio estaria em escrevê-la para adultos!


Ficando numa anedota pessoal: há vários anos, eu estava na sede de uma grande editora, cujo nome não declinarei, para fazer um serviço de jornalismo, quando o editor que me havia contratado para a empreitada perguntou se eu também escrevia ficção.

Quando eu lhe disse que era escritor de ficção científica, ele, provavelmente achando que me fazia um enorme favor, começou a citar nomes de editoras de livros juvenis: “Então, por que você não procura a Ática, ou...” Enfim, fiquei sem jeito de explicar para ele que literatura de ficção científica não é, automaticamente, literatura juvenil. Apenas sorri, fingindo estar agradecido.

Ano passado, participando da Feira de Livros de Porto Alegre, encontrei a mesma situação: num jantar, acabei dividindo a mesa com uma funcionária de uma grande editora brasileira, cujo nome também não mencionarei, mas que é muito maior que a primeira, e que se disse extremamente frustrada por não conseguir dar um jeito de classificar o trabalho de alguns autores que vendem muito bem no exterior e que ela gostaria de promover no Brasil, mas que faziam uma “coisa meio ficção científica, só que não para crianças”.

Um nome que ela citou foi China Mielville, que se vocês não conhecem, é um autor britânico de grande sucesso que escreve livros bem complexos e sofisticados, com uma cara de ficção científica misturada à fantasia.  O problema dela era “vender” para o dono da editora a ideia de que sim, esse cara faz uma coisa meio ficção científica, mas não, não é voltado para crianças e adolescentes e, sim, é literatura séria. Simplesmente parece não existir espaço para uma “coisa” assim no mapa conceitual do establishment literário brasileiro.

Imagino que seria muito fácil pôr a culpa dessa identificação automática da ficção científica com o juvenil no cinema – afinal, quem dá bilheteria para os grandes sucessos do gênero, se não hordas de adolescentes? Mas a raiz do engano vem, na verdade, de mais longe. Vem das Viagens Extraordinárias de Jules Verne.


A série de romances que compõe as Viagens, e que inclui títulos como 20 Mil Léguas Submarinas e Viagem ao Centro da Terra, foram concebidas por Verne e por seu editor, na segunda metade do século retrasado, como folhetins paradidáticos, publicados como uma espécie de suplemento literário de um periódico infanto-juvenil chamado Revista de Educação e Recreação.

Essa concepção, da obra ficcional como uma espécie de “colherada de açúcar” que ajuda o xarope amargo da ciência a descer pela goela dos jovens, ainda persegue a ficção científica em várias partes do mundo. De fato, segue tendo muita força na mentalidade editorial brasileira que, a despeito dos enormes avanços feitos pela máquina de propaganda da indústria cultural americana, segue amplamente colonizada pelo pensamento francês.

Nessa concepção, a ficção científica só se justifica como uma espécie de embuste didático, a tal da “colher de açúcar” de que falei antes: o livro de ficção científica passa a ser um livro-texto de sala de aula, só que disfarçado com personagens e diálogos.

Se, hoje em dia, a maior parte dos autores de ficção científica para o público em geral – que escrevem livros que podem ser lidos por jovens ou adultos, sem um público-alvo específico em mente – já aprendeu a escapar dessa armadilha, de produzir um mero livro didático com enfeites, no caso do autor de ficção científica escrita tendo como alvo específico os jovens, a situação é mais complexa.

E é mais complexa porque não dá para – ao menos, eu não vejo como – escapar da responsabilidade didática. No caso específico de Nômade, meu romance juvenil de aventura espacial: sabendo o que é a educação no Brasil, eu não teria sido capaz de me olhar no espelho depois de terminar o livro se não tivesse usado a história para, não necessariamente passar conceitos científicos (embora eu tenha me esforçado para contrabandear um pouco de ecologia e um pouco de física newtoniana no enredo), mas para tentar mostrar o que é pensar cientificamente.

Meus personagens avançam pela história por meio de raciocínios lógicos, do acúmulo de evidências, de conclusões tiradas da experiência. Exatamente como fazem os cientistas. Na verdade, a decisão de escrever Nômade como ficção científica e não como, por exemplo, um conto de fadas ou uma fantasia contemporânea à la Harry Potter, veio exatamente do desejo de expor os jovens a esse tipo de pensamento e de visão de mundo.

E é aí, claro, que aparece o desafio: acho que foi Bertold Brecht quem disse, e cito de cabeça então estas provavelmente não são as palavras exatas dele, mas enfim, que disse algo do tipo, o pior veículo para uma ideia é uma história chata, uma história que não entretém. É pelo entretenimento que o conceito de fundo, a “mensagem”, por assim dizer, é passada do modo mais eficaz.

O livro não podia, portanto, ser um sermão. E aí é que entra o difícil equilíbrio: é muito tentador sacrificar a mensagem em nome do entretenimento, ou o entretenimento em nome da mensagem. Não transigir com nenhuma das duas missões é o mais difícil.

Alguém já disse que quem tem a obrigação de transmitir mensagem é o correio, livros servem para outra coisa. E eu concordo, em se tratando de livros em geral. Mas faço exceção quando o assunto é literatura escrita especificamente para o público jovem. O autor adulto que escreve tendo em vista um leitor ainda em formação, uma, duas ou várias décadas mais novo – e, portanto, menos experiente – do que ele próprio tem uma responsabilidade especial. Ele está dizendo algo para alguém que talvez ainda não esteja pronto para julgar o que é dito.

Pior, um escritor profissional tem à mão toda uma técnica – ferramentas de estilo, de retórica – contra a qual o jovem talvez ainda não esteja preparado para se defender.

Antes que alguém me pergunte, não acho que livros ruins corrompam os jovens, e não acredito, de jeito nenhum, que uma menina de 12 anos vá sofrer traumas horríveis e irreparáveis se, por acaso, pegar o 50 Tons de Cinza da mamãe para ler escondido. A aventura de ler um livro “proibido” talvez até lhe faça bem. Trangressão faz parte do processo de amadurecimento.

Mas um livro escrito para jovens e vendido como obra juvenil pertence a um quadro conceitual bem diverso do da “obra maldita”, e o autor que aceita trabalhar dentro desse quadro aceita, também, responsabilidades especiais. Pode ser subversivo? Claro que pode! Monteiro Lobato foi, e ainda é, extremamente subversivo.

Mas tem de ser com jeitinho. Além da responsabilidade de que falei anteriormente, há ainda o fato, mercadológico, de que a maioria dos livros infanto-juvenis são, no fim, escolhidos por adultos, sejam pais ou professores. No Brasil, principalmente, à exceção de fenômenos como Harry Potter ou Jogo Vorazes, os livros juvenis que vendem são os adotados por escolas. Que foram, digamos, previamente “censurados” por professores.

Acho que ficou faltando falar na questão da linguagem: o que é uma linguagem adequada para escrever para o jovem? Escrevi Nômade tentando ser, sempre, muito claro, e sempre o mais simples possível, mas nunca mais simples do que isso. Existe uma diferença entre simplificar e emburrecer, entre ser claro e ser condescendente, e há que se confiar no instinto de autor para ver onde está a linha.

O fato de o livro ser “de ficção científica” trouxe desafios especiais quanto ao tratamento da linguagem? Na verdade, não. O truque que usei foi apresentar os conceitos científicos mais estranhos ao dia-a-dia do adolescente comum – digamos, sobre como as coisas se movem num vácuo sem gravidade – por meio de exemplos concretos: jogue meu protagonista num vácuo sem gravidade.

Se a apresentação do conceito se desenrola de modo concomitante à ação, o fato de o leitor supostamente ignorar o que está sendo explicado deixa de ser um fator de alienação e se torna um fator de suspense. E suspense puxa o leitor para dentro do livro – que é, no fim, o que todo escritor quer.

Antes de encerrar, uma palavra final (ou, algumas palavras finais) sobre o debate, tão velho quanto o Cometa de Halley e que, como ele, parece retornar uma vez a cada geração – pelo menos – sobre a questão da literatura “de entretenimento”.

Afinal, esse conceito de “literatura de entretenimento” se opõe a quê? “literatura de aborrecimento”? de “entediamento”? Se são essas as opções, certamente prefiro estar do lado dos entertainers! Mas, claro, os mesmos autores que talvez se ofendam ao verem seus livros classificados como “obras de entretenimento” provavelmente também ficariam ofendidos com a classificação de “livros chatos”.

Eu ousaria propor uma distinção baseada não nas dicotomias fáceis entre “linguagem” e “narrativa” ou “realismo” e “fantástico” (e, aí, entre “fantástico literário” e “pulp”), mas num plano cartesiano com dois eixos: “esforço cognitivo” e “recompensa cognitiva”.

“Esforço cognitivo” seria uma medida de quanto o leitor precisa trazer para a obra, a fim de desfrutá-la no nível pretendido pelo autor: leituras anteriores, experiência de vida, atenção a detalhes, sofisticação intelectual, etc. Já “recompensa cognitiva” seria o que o leitor leva da obra: ela transforma sua vida? enriquece seu universo emocional? muda, ou ao menos aprofunda, seu modo de encarar pessoas e situações? Quando você fecha o livro, o azul do céu parece diferente do que era quando você o abriu? Ou o texto apenas reforça, reafirma, regurgita o que você já sabia, já acreditava, já imaginava ou o que gostaria de saber, de acreditar e de imaginar, só que com uma roupagem retórica e textual mais sofisticada? O livro mexeu com você, ou apenas ajudou a passar o tempo?

Eu apostaria que uma plotagem de obras escolhidas ao acaso, lançadas neste gráfico, não revelaria nenhuma diferença sensível entre as obras tidas como “literárias” e as tidas como “de entretenimento”.

Talvez se formasse um aglomerado de obras “de entretenimento” na parte mais baixa do eixo do esforço cognitivo, e de obras “literárias” mais para o alto, mas mesmo esses aglomerados não seriam significativos, em comparação com o caos geral da distribuição dispersa. Principalmente sobre o eixo da “recompensa” – que é, ora bolas, o que realmente interessa.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Morreu Harry Harrison, que trouxe o ateísmo para a (minha) ficção científica

Se você não é um entusiasta da ficção científica, você provavelmente nunca ouviu falar em Harry Harrison, cuja morte, aos 87 anos, foi anunciada hoje. O que só prova como não ser um entusiasta da ficção científica limita o horizonte cultural das pessoas. Escritor, ilustrador, editor, Harrison deixou marcas indeléveis no que poderíamos chamar de cultura pop ocidental.

Suas séries de aventuras espaciais Stainless Steel Rat, sobre um anti-herói carismático, amoral e absurdamente competente em tudo o que faz, e Deathworld, a respeito de um planeta cuja ecologia faz todo o possível para eliminar a população humana, provavelmente serviram de inspiração -- não-creditada -- para mais histórias em quadrinhos, episódios de seriados de TV e filmes de ação do que seria possível contar.

O próprio Harrison trabalhou com quadrinhos, tendo sido roteirista da tira de Flash Gordon durante muitos anos, e desenhou histórias de ficção científica para mítica editora EC Comics, cuja -- por assim dizer -- ousadia editorial geralmente recebe o crédito por ter desencadeado a onda de censura aos quadrinhos que tomou conta dos EUA em meados do século passado.

Ele também escreveu o hilariante romance Bill, Herói Galáctico, tirando onda com a ficção científica militarista que surgia nos EUA em apoio à Guerra do Vietnã, e o livro Make Room! Make Room!, sobre superpopulação e colapso ecológico, que depois foi adaptado para o cinema com Charlton Heston no papel principal. O filme, no Brasil, recebeu o título de No Mundo de 2020.

Isto tudo já conta como um currículo respeitável, mas provavelmente cada uma dessas realizações será muito bem celebrada alhures. O que eu gostaria de celebrar, muito especificamente, é um conto que Harrison escreveu em 1961 e que acabou sendo publicado originalmente na Inglaterra -- o autor é americano -- porque não encontrava mercado que o aceitasse nos EUA.

Intitulado The Streets of Ashkelon, o conto é especialmente notável, para além de suas qualidades literárias (o final da história é daqueles que ficam na mente do leitor por muito tempo depois de o livro ter sido fechado), pelo fato de seu protagonista, o herói da narrativa, ser um ateu.

O conto trata do conflito entre o herói, um comerciante ateu que mantém contato com uma raça de alienígenas ingênuos, e um missionário cristão que se dispõe a catequizar esses mesmos alienígenas.

Não vou entrar em detalhes, aqui, para não privar ninguém do prazer de ter um primeiro contato direto com a história, mas adianto que o missionário, no caso, não é um televangelista disposto a tirar o couro dos ETs ou escravizá-los, mas um homem sinceramente preocupado com a salvação de suas almas. Essa visão caridosa do antagonista torna o conto ainda mais poderoso, e dá uma complexidade especial ao conflito ideológico entre os dois personagens humanos.

Não sei se essa foi a primeira história de ficção científica publicada no mercado anglo-americano a mostrar um ateu como herói e, ao mesmo tempo, a mostrar o ateísmo em si sob uma luz positiva, mas é possivelmente a mais famosa.

Da obra de Harrison, é a mais republicada -- com mais de 30 edições, em 14 línguas. Outra denúncia tão poderosa do teísmo, sob a forma de ficção científica, só apareceria 20 anos depois, no conto The Pope of the Chimps, de Robert Silverberg, em que uma tentativa de explicar religião a um grupo de chimpanzés, usando linguagem de sinais, produz resultados inesperados.

Para mim, como escritor, The Streets of Ashkelon foi uma revelação. Até encontrar essa história, toda a ficção científica que conhecia ou tratava a religião com reverência (fosse uma reverência fria e distante ou a reverência do proselitismo), ou não tratava dela de modo algum. Mesmo obras antirreligiosas, como A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells, só se revelavam assim sob cuidadosa exegese. Ashkelon mudou tudo.

Adendo: No Google+, o Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa me chamou atenção para um romance de HG Wells, The Shape of Things to Come, em que um ditador "progressista" elimina o Islã e o Cristianismo, na base da porrada. O que só reforça o caráter autobiográfico desta postagem (eu havia lido A Ilha... antes de Ashkelon, mas não Shape of...), e justifica a inclusão, tardia, do "minha" no título.


Sem o conto de Harrison, é provável que meu romance Guerra Justa, ou mesmo os contos que escrevi para as antologias Fantasias Urbanas e, principalmente, para Brinquedos Mortais, não existissem.

Então, esta noite vou, com toda a gratidão, abrir meu volume de The Best of Harry Harrison e pensar sobre o poder da literatura -- sobre como um conto a respeito de um herói ateu, escrito por um americano e publicado na Inglaterra, foi capaz de afetar a vida e a obra de um escritor de outro país e de outra língua, que só iria nascer 10 anos depois de a história ser impressa.

As pessoas que falarem sobre Harry Harrison, nos próximos dias, provavelmente falarão de como Bill, Herói Galáctico é divertido, ou de como Make Room! Make Room! é profético. The Streets of Ashkelon talvez nem seja mencionado, em parte por ser um conto, em parte por ser (ainda hoje) tão subversivo.

Mas é preciso que Harry Harrison seja lembrado, não apenas como o criador de fantásticas aventuras cômicas ou profeta do caos ambiental, mas também como o homem que finalmente quebrou o tabu da religião numa vertente da ficção científica -- a gestada a partir dos "pulps" americanos -- que sempre se orgulhou de não respeitar tabu algum.