quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Piramidal!

Alguém que usa o sugestivo endereço de email sociedadesecreta123@gmail.com anda inundando minha caixa postal profissional aqui na Unicamp com seguidos convites para um esquema de enriquecimento rápido, a "fantástica máquina de fazer dinheiro".

Basicamente, eu deveria depositar R$ 2 em cada uma das seis contas bancárias que aparecem numa lista no pé da mensagem; apagar o número da conta que está no topo da lista; acrescentar o número de minha conta na sexta posição; e fazer forward da mensagem, com a lista reestruturada, para o maior número possível de pessoas. Podem ser apenas seis, mas podem ser também 250, ou mesmo mil!

As perspectivas de ganho são fantásticas: se cada uma das (digamos) 250 pessoas que receberem meu forward seguirem as instruções do e-mail, eu receberei 250 depósitos de dois reais, o que gera a respeitável quantia de R$ 500. Na rodada seguinte, cada um dos 250 destinatários originais enviará e-mails para outras 250 pessoas, e eu receberei 2502 vezes dois reais, o que resultará na parruda quantia de R$ 125.000. Até a sétima rodada (quanto meu nome cairá fora da lista) o ganho total será de R$ 5x1014, ou 500 trilhões de reais.

(Isso é mais de 100 vezes o PIB brasileiro do ano passado, o que gera a dúvida de se existem tantos reais assim, afinal.)

O problema da massa monetária não é, no entanto, nem de longe o que há de mais esquisito nesse esquema. Pior mesmo é o fato de que, em algum momento entre a quarta e a quinta rodadas, o número de participantes necessário para manter o jogo andando passará a superar a população da Terra.

Ops.

Caso alguém ainda não tenha notado, a "fantástica máquina de fazer dinheiro" não é nada mais, nada menos, que um bom e velho esquema de pirâmide financeira. Pirâmides, também conhecidas como "esquemas de Ponzi" (em homenagem ao idealizador da mais infame delas, o ítalo-americano Charles Ponzi), são investimentos em que o lucro pago aos aplicadores mais antigos sai diretamente da aplicação dos recém-chegados.

Para se manter, o esquema precisa de uma reserva infinita de novos aplicadores -- o que, obviamente, é impossível de se conseguir. Cedo ou tarde, o esquema estoura, e as pessoas que fizeram aplicações imediatamente antes da explosão ficam a ver navios. Claro, é possível lucrar numa pirâmide se você entrar nela logo cedo, bem antes do momento do estouro.

Conheci um cara que conseguiu trocar de carro com os ganhos de um esquema assim. Mas a entrada prematura pode ser vista ou como um golpe de sorte, ou como um ato deliberado de fraude, com o intento de faturar em cima da ingenuidade alheia, e não sei exatamente como a polícia faz para distinguir entre uma coisa e outra. Meu conselho é: não se arrisque.

Pirâmides têm o (dúbio) mérito de serem esquemas de Ponzi "pelados", isto é, sinceros: fica claro, desde o início, que os ganhos dos veteranos não são nada além do que a soma dos investimentos dos novatos.

O "Esquema Ponzi" original, e muitas das versões mais danosas surgidas depois, escondem o fato: você pensa que está investindo em algo que vai agregar valor -- gado, empresas, imóveis -- quando, na verdade, o administrador apenas faz as vezes de guarda de trânsito, manipulando o fluxo do dinheiro, dos investidores "verdes" para os maduros, até a hora em que se esgota o estoque de "verdes".

Numa nota mais profunda, reparo que existe uma suspeita, entre alguns filósofos, cientistas sociais e economistas, de que na verdade todas as instituições humanas (e, no fim, a própria espécie humana) são Esquemas de Ponzi, já que dependem, ainda que apenas implicitamente, do pressuposto de que algumas coisas -- seja o PIB, a população, o número de trabalhadores com carteira assinada, a produção de alimentos, etc. -- são capazes de crescer infinitamente ao longo do tempo. Há algumas especulações sobre como escapar dessa armadilha, mas não parece haver nada de definitivo a respeito, no momento.

Por fim: e-mail da tal "sociedade secreta" vem assinado por um certo Nelson Pires mas, curiosamente, entre as iniciais dos supostos donos das contas a serem beneficiadas pela rodada do esquema a que fui convidado a aderir, não há nenhum "N.P.", mas há um F.J.K.P. Será a mulher dele?

Bem, seja ele quem for, espero que o sr. Nelson e sua família, se de fato existem, não tenham conseguido prejudicar muita gente. E que parem de importunar os outros com sua "sociedade secreta" da "máquina de fazer dinheiro".

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Driving Mr. Radford

Na verdade, quem conduziu o psicólogo, jornalista, investigador de monstros e fenômenos paranormais americano Benjamin Radford em sua breve passagem por São Paulo, inclusive indo buscá-lo no aeroporto,  foi Kentaro Mori, o incansável editor do Ceticismo Aberto, mas como também tomei parte nas atividades de Radford pela capital paulista -- um almoço com jornalistas e blogueiros, seguido de um debate no auditório do jornal Folha de S. Paulo, tudo na última sexta-feira -- e vi que o título ainda não tinha sido usado, resolvi apropriar-me dele.

Imbuído de espírito turisto-etílico, eu havia sugerido que levássemos Radford para almoçar no Sujinho ou no Bar Brahma  (o Ponto Chic era uma terceira opção), mas imagino que considerações de caráter mais pragmático -- incluindo o fato de que não poderíamos passar a tarde inteira no restaurante jogando conversa fora e enxugando canecas de chope -- fizeram com que Mori e o editor de Ciência e Saúde da FSP, Reinaldo José Lopes, optassem por realizar a refeição no Wraps do Center 3, uma casa de sanduíches e pratos rápidos, estrategicamente próxima ao metrô.

O almoço, seguido de uma parada para o café na franquia Starbuck's do mesmo shopping, foi bem agradável, embora Reinaldo começasse a dar mostras de preocupação com o horário. Depois, via metrô e uma instrutiva caminhada (a passo acelerado) pelo centro paulistano, chegamos à Folha e ao debate.

Não vou tentar resumir tudo aqui mas, em linhas, gerais, Radford buscou estabelecer uma distinção entre o que eu chamaria de crença de caráter pessoal e crença de impacto público. Com base nessa distinção, ele tentou descartar a ideia de que existiria uma vinculação necessária entre ceticismo científico e ateísmo.

Nessa distinção, a questão da existência de Deus seria uma crença pessoal, de foro íntimo, sobre a qual não caberiam juízos externos ao da consciência da pessoa que a professa. Já crenças de impacto público, que invocam evidências disponíveis no mundo e afetam a vida e saúde das pessoas -- dizer que Deus existe porque Nossa Senhora apareceu flutuando numa nuvem, ou não vá ao médico, basta rezar, ou homeopatia funciona ou um vampiro mordeu meu cachorro -- são perfeitamente contestáveis, testáveis e, de fato, existe até mesmo um certo imperativo  moral para que as contestemos e desafiemos, exigindo provas satisfatórias de quem alega esse tipo de coisa.

Por conta disso, Radford buscou distanciar-se do ateísmo militante de Richard Dawkins ou PZ Myers, que seria, até certo ponto, contraproducente para a causa da disseminação do pensamento crítico e do ceticismo científico.

Embora a distinção entre crença pessoal e crença de impacto (esses termos são meus, e não faço ideia de se Radford concordaria com eles) seja intelectualmente -- digamos, platonicamente -- aceitável, tenho sérias dúvidas sobre se ela é aplicável fora do mundo das formas ideais e aqui, no mundo real. Ofereci duas provocações nesse sentido, uma no almoço, outra durante o debate. A primeira foi: tá, mas se você esvazia uma crença de todos os seus referentes no mundo material, se você a desconecta de toda e qualquer forma de teste, prova ou evidência, o que resta? O que sobra para acreditar, enfim?

A resposta que obtive foi um exemplo: o amor. Você acredita que uma pessoa o ama. Como você justifica essa crença? Porque a pessoa trata você bem? Mas todo mundo trata muita gente bem, e o motivo nem sempre é amor.

É um argumento interessante, mas depois me ocorreu que esse é um caso típico em que uma prova evidencial negativa é perfeitamente possível: se você acredita que é amado por uma pessoa, mas essa pessoa tenta lhe matar assim que você se distrai -- bem, ou sua crença é falsa ou você tem de redefinir amor de uma forma totalmente incompreensível para o restante da humanidade.

A conversa na mesa estava animada, no entanto, e não tive como saber qual resposta Radford daria a essa objeção à ideia de que é possível sustentar uma crença pessoal significativa sem, ao mesmo tempo, abrir caminho para algum tipo de desconfirmação evidencial.

Minha segunda tentativa de sondar a questão veio bem no fim do debate na Folha, quando perguntei a Radford se não se irritava com os religiosos que começavam oferecendo milagres -- empiricamente testáveis -- para justificar sua fé e que, quando viam o milagre desconstruído pela ciência, recuavam para a posição de que a fé era uma coisa de foro íntimo.

Ele disse que sim, que isso é meio irritante, mas fez duas ressalvas. A primeira foi a de que sua atividade de investigador cético diz respeito a alegações específicas -- esta estátua chorou sangue; aquela pessoa foi curada por um milagre -- e não a doutrinas, filosofias ou religiões in toto. A segunda foi a de que o processo também acaba sendo meio divertido, porque sempre gera novos supostos "fenômenos" para ele investigar.

Para mim ficou claro, no entanto, que ele considera a manobra intelectualmente desonesta. Cito de memória, mas Radford disse que, cedo ou tarde, os proponentes de milagres religiosos "se refugiam em milagres de 2.000 anos atrás, que não tenho como investigar".

Enfim, a questão de se existe a possibilidade concreta de haver uma crença íntima que não seja também uma crença de impacto, e suas consequências para o debate teísmo-ateísmo, ficou em aberto. E embora eu concorde com o princípio de que o que se deve investigar, sob a perspectiva cética, são alegações específicas de fenômenos, e não sistemas, a ideia de que a evidência acumulada no estudo de um sem-número de fenômenos não teria nada a dizer sobre a validade do sistema no qual eles se inserem me parece mais uma saída diplomática do que uma proposição intelectualmente respeitável.

Mas isso pode ser só o meu ateu ranheta interior falando. Foi muito bom passar a tarde de sexta-feira na companhia, não só de Benjamin Radford, mas também de amigos brasileiros muitos dos quais eu só conhecia por e-mail. Só espero que Ben possa voltar, algum dia, com mais tempo. Quem sabe aí rola uma tarde de seresta no Bar Brahma?