terça-feira, 24 de julho de 2012

Quem tem medo da torre de celular?

No imbróglio envolvendo a suspensão das vendas de chips de três operadoras de telefonia móvel no Brasil, um dado ficou meio soterrado nas idas e vindas da discussão -- a queixa, feita pelas operadoras punidas, de que há muitas dificuldades para a instalação de novas torres para a rede celular, o que acaba prejudicando a qualidade do serviço.

Seja ou não válido como argumento no caso específico, é interessante notar que a antena de celular é, de fato, mais um dos "bichos-papões" tecnológicos que causam uma espécie de desconforto difuso, quando não focos de pura histeria, em alguns setores da população. Outro caso típico é o dos transgênicos.

Mas, ficando nos celulares e suas antenas de rádio-base: a radiação usada nesses sistemas é não-ionizante e de baixa intensidade, o que significa que não tem energia suficiente para danificar moléculas ou destruir ligações químicas. Só esse fato já deveria trazer um profundo ceticismo quanto às alegações de que celulares podem, de algum modo, estimular o surgimento de câncer. Para causar um tumor, a radiação tem de ser capaz de machucar a molécula de DNA no núcleo da célula.

De acordo com a Sociedade Americana de Câncer (ACS, na sigla original), "a exposição do público a ondas de rádio por torres de telefonia celular é mínima, por duas razões. Os níveis de potência são relativamente baixos, as antenas são montadas bem acima do nível do solo, e os sinais são transmitidos intermitentemente, não constantemente". Além disso, "no nível do solo perto de uma estação-base típica, a quantidade de energia de radiofrequência é de milésimos dos limites seguros".

A ACS diz ainda que, no caso de antenas montadas sobre edifícios, a própria estrutura do prédio já oferece uma blindagem que reduz significativamente a exposição.

O raciocínio geral contra antenas de celulares, que no fundo não passa de um tipo de preconceito, é mais ou menos assim: não sei direito o que é, não entendo como funciona, tem alguém ganhando dinheiro com isso e não sou eu; ergo, deve fazer mal. E como se trata de um tipo de preconceito, é facilmente manipulável por manobras populistas (como neste caso, por exemplo).

E quando medo, preconceito e populismo se juntam, pode apostar que a mídia vem logo atrás. Em 2010, um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais ganhou amplo destaque na imprensa. Citando a reportagem: "A engenheira Adilza Condessa Dode, 52, cruzou dados sobre mortes por tumores entre 1996 e 2006 em Belo Horizonte com áreas onde essas pessoas moravam e a localização das antenas de celular. (...) Em um raio de até mil metros das antenas, o risco foi maior."


O principal problema com esse estudo -- no caso, tratou-se de uma tese de doutorado -- é, para além da boa e velha observação de que correlação não implica necessariamente causação, o fato de que não houve nenhuma tentativa, para além de se levar a densidade demográfica em consideração, de controlar os chamados "confounding factors", isto é, outros fatores que as vítimas de câncer poderiam ter em comum, para além do fato de morarem perto de antenas de celular.

 A tese, diga-se, reconhece a existência desses fatores (página 174: "Não podemos deixar de considerar que a região Centro-Sul possui outros agravantes, como: exposição ao ruído; aos gases; aos vapores; aos aerodispersoides; aos hidrocarbonetos - o que também gera danos à saúde humana. Portanto, são vários fatores ambientais, agressivos, que influenciam negativamente na qualidade de vida dos moradores da região."), mas não os leva em conta em sua análise.

Um controle, por exemplo, para a exposição aos gases de óleo diesel -- um contaminante que tem muito mais chance de ser causador de câncer do que radiação de celular, segundo a OMS -- teria sido útil. De fato, sem controles do tipo, fica difícil levar a conclusão da tese mais a sério do que, digamos, esta curiosa correlação entre signo astrológico e infidelidade conjugal.

O fato é que anos de busca frenética por correlações entre radiação de celular, seja a do aparelho ou a da torre, e problemas de saúde não produziram nenhum resultado sequer vagamente conclusivo. Em 2007, um grupo de trabalho da OMS publicou um artigo sobre o impacto das antenas, que chega à nada manchetável conclusão de que "a exposição do público aos níveis permitidos de radiofrequência de telefonia móvel e estações-base provavelmente não afeta de modo adverso a saúde humana". E em 2010 um grupo de pesquisadores suíços publicou, no Bulletin of the World Health Organization, uma revisão sistemática de estudos sobre os efeitos na saúde das estações-base.

Foram identificados 134 trabalhos, dos quais 117 (!!) foram excluídos da análise por problemas de qualidade (entre eles, o de não levar em conta "possible confounders"), sobrando 17. A conclusão da análise, enfim, foi de que "a evidência de que não existe relação entre a exposição a estações-base e o desenvolvimento de sintomas agudos pode ser considerada forte".

Os autores fazem a ressalva de que "ausência de evidência de dano não deve ser, necessariamente, interpretada como evidência de que não existe dano", principalmente quando não há muitos dados disponíveis, e pedem mais estudos de longo prazo e estudos envolvendo crianças e adolescentes. Um estudo britânico, também de 2010, não encontrou sinais de problemas de saúde causados por celulares em crianças.

Ao fim e ao cabo, a questão se reduz à necessidade de sopesar o que sabemos sobre física das radiações não-ionizantes e fisiologia humana, duas áreas que sugerem que é extremamente improvável que emissões de radiofrequência possam nos fazer mal, com as incertezas inerentes ao processo científico e, sim, com o conforto que os equipamentos digitais proporcionam, de um lado, e o medo visceral do desconhecido, do outro.

Parafraseando Carl Sagan, pensar com as vísceras não é, geralmente, uma boa ideia.