terça-feira, 17 de julho de 2012

Mas o que caiu em Roswell, mesmo?

Estamos em julho, o que significa que chegou a hora de faturar uma grana fácil em cima do "Evento Roswell": por exemplo, este ex-agente da CIA que, por acaso, tem um livro sobre conspirações governamentais para promover. O mês marca o aniversário da maior bola fora de relações públicas de todos os tempos, quando, em 1947, um tenente da Força Aérea americana (na época, ainda chamada de "Força Aérea do Exército", ou AAF) divulgou um comunicado à imprensa dizendo que os destroços de um disco voador haviam sido recuperados numa fazenda da cidade de Roswell, no Novo México.

Um dia depois um desmentido formal foi emitido, afirmando que os restos recolhidos eram de um balão meteorológico, mas aí a bomba-relógio já estava armada, e a expressão "balão meteorológico" se viu a meio-caminho de virar sinônimo de "desculpa esfarrapada".


A bomba, no entanto, não estourou de imediato. Foi preciso esperar até o fim da década de 70, quando um dos três homens da Força Aérea que se dirigiram ao local dos escombros para recolhê-los, Jesse Marcel, passou a declarar, para quem quisesse ouvir, que o desmentido era falso, e que ele e seus colegas haviam, de fato, capturado os vestígios de um disco voador.

Marcel virou uma espécie de herói nos círculos ufológicos, e foram necessários ainda alguns anos até que investigadores mergulhassem em sua ficha militar e descobrissem que o homem era um mitômano: por exemplo, ele havia dito em várias entrevistas que atuara como piloto e canhoneiro em bombardeiros na 2ª Guerra Mundial, mas a ficha informa que ele jamais recebera treino para pilotar aviões ou manusear artilharia.

Ele também declarou ter sido o autor do pronunciamento lido pelo presidente Truman, anunciando ao povo americano que os russos haviam construído uma bomba atômica. Mas o fato histórico é que o anúncio da existência da bomba soviética não foi feito em pronunciamento presidencial.

Não que as discrepâncias em relação ao histórico militar e o currículo inflado sejam os únicos obstáculos à aceitação da versão de Marcel. Ele também dizia que, na entrevista coletiva em que houve o desmentido da história do disco voador, os destroços reais tinham sido substituídos pelos restos de um balão meteorológico antes de os jornalistas entrarem, mas que ele mesmo, Marcel, tinha posado para algumas fotos com os vestígios reais. Bem, abaixo, uma foto de Jesse Marcel com os destroços de Roswell (antes da "troca"):


E, a seguir, uma das fotos da imprensa, com os destroços nas mãos do general Roger Ramey, autor do desmentido e portanto, supostamente, pós-"troca":


Agora, quero ser um sabugo de milho se as duas imagens não mostram exatamente o mesmo tipo de material. Em sua única declaração registrada sobre o assunto, publicada na imprensa, o fazendeiro William "Mac" Brazel, que descobriu os destroços e chamou a Força Aérea para recolhê-los, descreveu-os como papel alumínio, fita adesiva e palitos de madeira. Outras pessoas que tiveram contato com o material ofereceram descrições parecidas, acrescentando que parecia haver "figuras" ou "hieróglifos" (nas palavras de Marcel) na fita. Seria escrita alienígena?

A resposta surgiu no início da década de 90, depois que o Congresso americano determinou que a Força Aérea realizasse uma investigação interna e revelasse todas as informações pertinentes ao "incidente de Roswell". Como parte do processo, todas as pessoas envolvidas no incidente que, por algum motivo, estivessem presas a acordos de confidencialidade foram liberadas de seus juramentos, contratos, etc., a respeito.

O relatório da investigação pode ser lido online. Ele inclui, em seus apêndices, declarações juramentadas do tenente-coronel Sheridan Cavitt, que acompanhara Marcel até os destroços. Cavitt diz que os restos no chão eram "consistentes com um balão meterológico" e que ele nunca imaginou que fossem "grande coisa". "Não havia nenhum esforço especial de segurança ou segredo", disse. "Só voltei a pensar nisso bem depois de me aposentar, quando passei a ser procurado por pesquisadores de óvni (...) Na época pensei, como ainda penso agora, que eram os restos de um balão caído".

O relatório conclui que o que caiu em Roswell foi provavelmente não um balão meteorológico, mas um balão e um conjunto de refletores de radar do Projeto Mogul, uma iniciativa ultra-secreta (na época) para fazer microfones flutuarem na atmosfera a fim de captar vibrações produzidas por testes nucleares soviéticos (era 1947, lembre-se: os satélites espiões ainda não tinham sido inventados). Abaixo, uma foto de um dos refletores de radar usados nos modelos de teste do Mogul:




Esses refletores eram feitos de papel alumínio, palitos de madeira balsa revestidos de cola e fita adesiva. Um dado interessante é o de que os primeiros deles foram produzidos por uma fábrica de brinquedos, que usava neles sobras de seus outros produtos -- incluindo fita adesiva com marcas coloridas de flores e formas geométricas. Eis os "hieróglifos" de Marcel. Um conjunto de balões arrastando uma trilha de refletores era como a imagem um pouco mais abaixo, à esquerda.


O fato de a Força Aérea americana terceirizar parte de um programa ultra-secreto para uma fábrica de brinquedos pode soar estranho, mas é importante lembrar que praticamente nenhum dos componentes de um conjunto Mogul -- o balão, os refletores -- era de fato secreto. Apenas seu uso (espionar as atividades nucleares da Rússia) é que era confidencial.

No caso do Mogul, a cobertura era a de que se tratava de um programa de pesquisas sobre balões da Universidade de Nova York. De fato, nem o pessoal da base de Roswell -- na época, a única instalação militar em todo o mundo capaz de lançar um ataque nuclear -- tinha conhecimento do trabalho para descobrir explosões soviéticas, o que talvez ajude a explicar a confusão inicial e o infame press-release sobre "disco voador".

O relatório de 1994 da Força Aérea, enfim, conclui que "todo o material oficial disponível, embora não trate diretamente de Roswell, indica que a fonte mais provável dos destroços recuperados no Rancho Brazel é um dos conjuntos de balões do Projeto Mogul". A identificação equivocada com um balão meteorológico é plausível porque "não havia diferença física nos alvos de radar e nos balões de neoprene (exceto pela quantidade e configuração) entre os balões Mogul e os balões meteorológicos normais".

Mas é claro que o assunto não morreu no relatório. Não só a cidade de Roswell descobriu no óvni de 1947 uma importante fonte de renda (via turismo) como a própria lógica da teoria de conspiração agiu contra os resultados da investigação da Força Aérea: é claro que eles iriam inventar uma desculpa!

 O problema com esse raciocínio é que ele só admite como verdade aquilo que quer ouvir. Mas, o que se oferece em contraponto à evidência -- a ficha de Marcel, as fotos, as declarações de Cavitt e dos cientistas ligados ao Projeto Mogul tal como descritas no relatório oficial, o depoimento de Brazel à imprensa, falando em "papel alumínio e palitos de madeira"? Exceto pelos depoimentos de Marcel a ufólogos (e o livro The Roswell UFO Crash: What They Don't Want You to Know, de Kal Korff, mostra como a história de Marcel mudou com o passar do tempo), só existem relatos de segunda ou terceira mão de supostas testemunhas ou de descendentes de supostas testemunhas. Especulações, fantasia e paranoia.

E uma dose saudável de interesse comercial, para manter a vaquinha de Roswell firme do pasto, dando leite a quem se dispuser a ordenhá-la.

(As imagens da postagem são reproduções do livro de Korff)

domingo, 15 de julho de 2012

Não quero ser Guimarães Rosa. Sou escritor?

Não sou muito de filosofar sobre literatura. Minha impressão é a de que escrever (e ler) ficção é meio como fazer sexo -- um negócio privado onde as únicas coisas realmente importantes são o caráter consensual e a satisfação mútua. Sempre que vejo alguém teorizando sobre se o escritor deve "procurar o público" ou "buscar a academia", se o importante é "contar uma boa história" ou "debruçar-se sobre a materialidade da linguagem", a coisa toda me parece tão estéril quanto um debate sobre o que é melhor, papai-mamãe ou coito anal. Cada um faz o que gosta, ora bolas, e embora sugestões de fora possam, eventualmente, até indicar possibilidades interessantes, é no mínimo patético esperar que tenham algum tipo de caráter normativo.

O parágrafo acima é um disclaimer para o fato de que agora vou, contrariando meus instintos mais profundos, filosofar sobre literatura. Mais precisamente, filosofar em torno da questão de por que a maioria das definições consensuais de literatura que flutuam no senso comum brasileiro não me leva em consideração -- não só a mim, mas a muita gente bem melhor, e/ou mais bem-sucedida que eu -- como produtor de literatura.

O caso imediato que apresento é esta resenha do romance O Erro de Glover, de Nick Laird, escrita para o  site cultural Amálgama pelo escritor gaúcho Rafael Bán Jacobsen. Nela, encontrei o seguinte trecho:

"De fato, hoje, em nosso país, não há escritor (ou candidato a escritor) que deseje, antes de mais nada, contar uma boa história e/ou entreter o seu leitor; todos parecem muito mais preocupados em revolucionar a literatura, em soar genial, em ser a nova Clarice Lispector ou o novo Guimarães Rosa."

Vamos lá. Publiquei minha primeira peça de ficção profissional (isto é, pela qual recebi uma quantia de dinheiro bastante para bancar um jantar num restaurante decente) em novembro de 1992. Foi um conto de ficção científica, que saiu numa revista, Isaac Asimov Magazine, que era publicada não pela Gráfica Cudujudas, mas pela Editora Record. Vários outros escritores brasileiros já haviam publicado peças de ficção nessa mesma revista, antes de mim -- de fato, fui o penúltimo a fazê-lo, antes de a publicação fechar as portas. E a maioria deles, posso garantir, não tinha pretensões à la Rosa ou Lispector.

Falando do que conheço mais intimamente: nunca quis ser Rosa ou Lispector, e tenho 20 anos de carreira como escritor de ficção, período em que publiquei cinco livros-solo, entre romances e coletâneas de contos, e participei de pelo menos 15 antologias. Não que minha carreira seja, de algum modo, excepcional: há gente com currículos muito mais recheados -- por exemplo, Jorge Luís Calife (publicado originalmente pela Nova Fronteira, mesma editora de José Lins do Rego) e Gerson Lodi-Ribeiro. E também não é o caso de que apenas quarentões-cinquentões façam parte do fenômeno "não quero ser Guimarães Rosa": basta checar, por exemplo, a obra de Jim Anotsu ou Ana Cristina Rodrigues.

Há ainda, claro, o fato saliente de que os ficcionistas brasileiros mais vendidos (e, provavelmente, mais lidos) da atualidade -- Paulo Coelho, André Vianco, Eduardo Spohr -- não têm e, sou capaz de apostar, não querem ter porra nenhuma a ver com Clarice Lispector ou Guimarães Rosa, em termos estilísticos ou de tratamento da linguagem.

A afirmação de que "todos" os escritores em atividade no Brasil, hoje, parecem preocupados em substituir Rosa ou Clarice no panteão das letras lusófonas deve, suponho, ser relegado relegada ao reino da ignorância -- ou da hipérbole. Uma chave para a interpretação surge quase no fim da resenha:

"O erro de Glover é, portanto, o tipo de livro que a literatura brasileira contemporânea “que se leva a sério” dificilmente pariria (ou que, pelo menos, seria visto com muita desconfiança por conta de sua visível ausência de grandes ambições)."

Literatura "que se leva a sério". Mais uma vez falando sobre o que conheço melhor, digo que levo a maior parte de meus escritos ficcionais muito a sério. Não há um conto de crime e mistério que escrevi que não tenha custado pelo menos uma noite em claro, revisando pontas soltas, plots e contraplots. E admito quase suei sangue para terminar o conto de ficção científica No vácuo, você pode ouvir o espaço gritar, que deve ser publicado no fim do ano. Ah, mas o "que se leva a sério" do original está entre aspas, aspas irônicas, supõe-se. Então, o que a frase significa, exatamente?

Arrisco dizer que significa "que espera ser levado a sério pelo circuito Sabático-Prosa&Verso-Ilustríssima-Flip". Pelo, com o perdão da palavra, sistemão literário brasileiro.

Agora, não tenho nada contra o "sistemão", per se. Também não tenho nada contra o fato de o sistemão não dar valor à minha obra -- eu também não dou valor a ele. Basicamente, não acho que trocadilho infame seja o equivalente de poesia, e não me interesso por livros cujos protagonistas são intelectuais apaixonados por periguetes que escrevem livros sobre como é difícil escrever um livro quando se é um intelectual apaixonado por uma periguete (ou, na versão feminina, protagonizados por belas intelectuais apaixonadas por personal trainers que escrevem livros sobre como é difícil, etc., etc.)

O que contesto, veementemente, é a pretensão do "sistemão" de arrogar-se -- com o beneplácito e a cumplicidade da imprensa -- o papel de expressão da totalidade da literatura brasileira.

Porque, conforme exposto à exaustão nos parágrafos acima, ele obviamente não é nada disso.

O leitor mais atento vai ter notado que, durante toda a discussão, evitei entrar na questão da qualidade. Os motivos para isso são dois: primeiro, porque há muita coisa boa (e muito mais coisa ruim) tanto dentro do "sistemão" quanto fora dele. Não há nada, a priori, que faça uma história sobre a dor de cotovelo de um petista desencantado que se exila em Paris para lamber as feridas da adesão de Lula ao malufismo e pesquisar a vida de Molière melhor (ou pior) do que uma história sobre a invasão da Terra por lulas inteligentes de Alfa-Centauri. Embora eu certamente prefira ler a segunda, mas isso é mais uma questão de gosto pessoal.

Segundo, porque, na definição do que é a  totalidade da literatura brasileira, a questão da qualidade é irrelevante. Você pode detestar Michel Teló ou Zeca Pagodinho ou Chico Buarque, mas você não pode negar que todos os três são parte da totalidade da música brasileira. E é esse reconhecimento mínimo -- de que o que fazemos, nós que não queremos ser Guimarães Rosa, é, antes de mais nada, literatura brasileira -- que nos é seguidamente, consistentemente, irritantemente, negado. 

Quero deixar bem claro que este artigo não é um ataque a Bán Jacobsen (com quem, aliás, já dividi espaço em antologias organizadas pela Não Editora). Destaco seu artigo por considerá-lo exemplar do senso-comum do meio literário, para o qual tudo o que não aspira ao "sistemão" torna-se, automaticamente, invisível. Outra expressão desse mesmo senso-comum aparece na seguinte declaração da editora e agente literária Luciana Villas-Boas ao jornal O Estado de São Paulo:

"O profissional liberal que tem dinheiro para comprar um best-seller internacional não compra de um autor brasileiro. É um preconceito que talvez até se justifique. (...) Porque os editores, talvez influenciados pelos departamentos de Letras das universidades, passaram a publicar, principalmente, autores brasileiros extremamente "difíceis". Ao mesmo tempo, pegue o Philip Roth, Complô Contra a América. Eu achei bom, mas, se fosse publicado no Brasil, não dariam bola. Porque não se trata de um livro de grandes experimentações linguísticas. Aqui, a tendência da crítica seria não levá-lo muito em conta."

Luciana, profissional tarimbada do meio, que já foi editora do mesmo Calife citado acima, também aparece, nesta declaração, cega para o sucesso comercial de Coelho, Vianco, Spohr. Essa é uma cegueira que atinge as próprias editoras, cevadas dentro do "sistemão": Vianco, por exemplo, foi abordado por uma grande casa editorial brasileira apenas após anos de sucesso como autor virtualmente independente. E a existência de editoras como a Draco, criadas para viver à margem do "sistemão", é simplesmente ignorada.

Não se trata de atacar o "sistemão": quem aprecia trocadilhos infames e masturbação metalinguística é perfeitamente livre para seguir nessa linha. Como eu disse no primeiro parágrafo desta postagem, literatura é como sexo: se autor e leitor curtem, ninguém tem nada que dar palpite.  O ponto é questionar o pressuposto de que o sistemão é tudo, de que não existe vida fora dele -- pressuposto que a imprensa, numa falha trágica de seu dever de bem informar o leitor, não só compra como também reforça. 

Nós não queremos ser Guimarães Rosa. Nós existimos. Mais importante ainda, nossos leitores existem. É desonesto e mentiroso fingir o contrário.