quarta-feira, 27 de junho de 2012

Depois disso, só falta a Skynet

Óquei, esqueçam o apocalipse zumbi. O apocalipse cibernético chegou antes. japoneses construíram um robô capaz de derrotar seres humanos no joquempô 100% das vezes. Na verdade, o robô trapaceia -- ele vê qual dos três instrumentos (tesoura, pedra, papel) o ser humano selecionou e só então faz sua jogada, mas com um atraso de apenas 1 milissegundo, o que é suficiente para enganar nossos pobres olhos humanos.

Então, não se trata apenas de uma máquina capaz de nos vencer, como no caso dos computadores jogadores de xadrez ou de damas, mas de nos vencer sempre, jogando sujo. É o fim.

Abaixo, o vídeo que prefigura nossa iminente derrocada:


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Lago Ness, criacionismo e o futuro que nos aguarda

Um leitor envia-me um e-mail chamando minha atenção para esta nota, segundo a qual uma editora de material didático dos EUA está distribuindo um livro de biologia que diz que o Monstro do Lago Ness prova que a evolução é uma fraude. Mesmo supondo, por um instante, que o monstro exista (mais sobre isso, adiante) coisa toda soa como um non sequitur, e é mesmo: a ideia geral que os criacionistas parecem querem usar é a de que, se houvesse provas de que dinossauros e seres humanos coexistiram, então o registro fóssil, como é interpretado hoje, não seria digno de confiança -- e não seria mesmo.

Mas -- preste atenção, isto é crucial! -- o argumento só funciona caso haja provas de que seres humanos viviam na época dos dinossauros, isto é, antes de a espécie humana ter tido tempo de evoluir, segundo a cronologia ortodoxa. A eventual sobrevivência  de dinossauros até os dias atuais não contradiz em nada a teoria da evolução.

Detalhe que, ao que tudo indica, escapou aos autores do tal livro.

Mas, tratemos de coisas mais agradáveis: o monstro. O Lago Ness (ou "Loch Ness"), na Escócia, é muito mais longo do que largo: em sua dimensão sudoeste-nordeste, tem mais de 30 quilômetros, mas a distância entre as margens ocidental e oriental é de menos de 3 quilômetros. Há relatos de que São Columba (521-597), missionário cristão que converteu o rei dos pictos ao cristianismo, certa vez impediu que uma serpente monstruosa devorasse um homem no lago, detendo-a com o sinal da cruz, gesto que a fez fugir em pânico. A hagiografia de Columba que contém essa história -- e que relata como os pictos, que vinham sendo acossados pela fera aquática, deram graças ao Senhor -- é considerada por algumas pessoas a primeira evidência documental da presença de um monstro em Loch Ness.

Críticos, no entanto, apontam para o óbvio fato de que hagiografias não são exatamente relatos históricos confiáveis, que histórias do tipo "pagãos têm um problema/santo resolve o problema/pagãos caem de joelhos, convertidos" parecem muito mais peças publicitárias do que qualquer outra coisa e, por fim, que a identificação da serpente aquática de Columba com Nessie, como o monstro também às vezes é chamado, não passa de mais uma tentativa de ler a cultura pop do passado com o vocabulário da cultura pop atual, mais ou menos como as pessoas que associam a carruagem de fogo que levou o profeta Elias ao céu, no Velho Testamento, a uma nave espacial.

A história real de Nessie começa em 1933, com a publicação de um despacho, no jornal Inverness Courier, afirmando que duas pessoas que passeavam pela margem do lago haviam visto as águas perturbadas por "algo que não era um morador ordinário das profundezas". Tempos mais tarde, uma dessas testemunhas viria a dizer que acreditava ter visto dois patos brigando.

De qualquer modo, a semente estava plantada, e novos avistamentos logo se seguiram. É improvável que uma única explicação dê conta de todos os eventos, nos últimos 80 anos, que já foram interpretados como aparições de Nessie, mas a lista de objetos e animais confundidos com o "monstro" inclui de alces que atravessavam a água a lontras mergulhando; de troncos flutuantes a barcos vistos à distância.

As descrições de Nessie, no início, variavam enormemente: para algumas testemunhas ele tinha chifres, ou presas como um elefante; foi avistado saindo da água e cruzando uma estrada, com um animal morto na boca; e um espertinho usou um cesto de guarda-chuvas feito a partir da pata de um hipopótamo para criar rastros da criatura nas margens do lago.

A tradição de trotes envolvendo Nessie chegou, aliás, até este século: em 2003, foi descoberta, na margem do lago, a vértebra fossilizada de um plessiossauro. O problema é que o fóssil estava incrustado em rochas de um tipo que não existe na região, sugerindo que algum espertinho o carregara até lá. E, em 2005, um pedaço de chifre de alce foi apresentado como um "dente" do monstro.

O que finalmente cimentou a imagem popular de Nessie como um sáurio aquático -- imagem que inspirou a fraude de 2003 -- foi a chamada "foto do cirurgião", feita pelo ginecologista Robert Wilson em abril de 1934 (a data exata é incerta, mas uma das possibilidades é 1º  de abril, o que explicaria muita coisa). Ei-la:



Em seu livro The Loch Ness Mystery Solved, publicado em 1984 e geralmente considerado a melhor fonte sobre a "criatura", Ronald Binns escreve que um dos filhos de Wilson disse, anos mais tarde, que a foto tinha sido uma fraude. Em 1994, dois pesquisadores relataram que a fraude havia sido orquestrada por Christopher Spaulding e Marmaduke Wetherell, com o Dr. Wilson atuando de fotógrafo. O "monstro" é, na verdade, um submarino de brinquedo com uma cabeça de massa de modelar.

Finalmente, em 2003, a BBC realizou uma varredura de todo o volume do lago com sonar, e não encontrou nenhum sinal de um grande animal vivendo ali. No mesmo ano, o maratonista e ex-jogador de futebol inglês Lloyd Scott percorreu a extensão do leito do lago a pé, usando um escafandro -- num percurso de 12 dias. O que viu? Nada de Nessie.

O uso do monstro inexistente para apoiar o relato bíblico da criação me lembra da Rainha Branca dizendo a Alice que é possível acreditar em até seis absurdos antes do café da manhã. O livro que sugere essa criativa abordagem é adotado, nos EUA, em algumas escolas consideradas aptas a receber verba pública, mas que vêm sendo criticadas como o equivalente cristão fundamentalista das madrassas. 


Agora, espere só o próximo blefe da bancada evangélica para ver se o mesmo esquema não acaba sendo adotado no Brasil. Rir dos gringos pode ser divertido, mas não se iluda. O sertão do Kansas somos nós amanhã.

Acabou a solidão de George

Morreu no domingo, no Equador, o último exemplar conhecido da subespécie de tartaruga gigante Chelonoidis nigra abingdoni, Lonesome Gorge ("George Solitário"). Originalmente de uma das Ilhas  Galápagos, a espécie foi levada à extinção pela caça e, também, pela introdução de cabras na ilha, o que devastou a vegetação nativa. Claro, nem as cabras nadaram espontaneamente até a ilha, e nem foram os incas venusianos que caçaram as tartarugas até a extinção. Asteroides e convulsões geológicas acontecem de vez em quando, é fato, mas tem coisas que só o ser humano faz por você.

Lonesome George já havia sido descrito como "a criatura mais rara do mundo". Tentativas de fazê-lo reproduzir-se com fêmeas de subespécies próximas nunca deram certo, e a menos que algum outro exemplar seja encontrado na natureza, ou que Tony, uma tartaruga mantida no zoológico de Praga, seja confirmado como membro da mesma subespécie, um outro produto da evolução terá ido pelo mesmo caminho do pássaro dodô.

Falando no dodô, aliás, a Wikipedia nota que o Ocidente levou quase 200 anos para reconhecer que o pássaro havia sido extinto: o fato de ele ter desaparecido da face da Terra era visto como indicação, talvez, de que a espécie jamais tivesse existido: era mais fácil acreditar que os relatos dos séculos 16 e 17 descrevendo o dodô fossem mitologia do que aceitar a ideia de que uma espécie pudesse ser extinta.

Como se vê, se há algo que não entra em extinção é o uso de wishful thinking e de falsificação histórica para fazer de conta que problemas ambientais causados pelo homem não existem. Mas, enfim, George não é mais um solitário. Nós é que somos uma espécie cada vez mais sozinha.