quarta-feira, 20 de junho de 2012

Guia prático da pseudociência negacionista

Negacionismo é um fenômeno que ocorre quando um determinado dado da realidade, confirmado por sólida evidência científica, por algum motivo, desagrada tão profundamente uma determinada parcela da sociedade que passa a ser lucrativo -- psicológica, política ou financeiramente -- tergiversar a respeito. Hoje em dia a vítima mais evidente é o aquecimento global de origem humana, mas já houve picos envolvendo, por exemplo, a natureza cancerígena da fumaça de tabaco, a evolução das espécies por meio de seleção natural, o Holocausto na 2ª Guerra.

Embora cada um dos negacionismos citados tenha especificidades próprias, há algumas estratégias comuns, adotadas por todos. Um livro que trata do assunto é o Merchants of Doubt. Abaixo, apresento algumas das jogadas clássicas do negacionismo:
Encontre acadêmicos que defendem o seu ponto de vista.

É só procurar. Do mesmo modo que conviver com a Hustler (e, vá lá, com a Veja) é o preço a pagar pela  liberdade de imprensa, o preço da liberdade de investigação acadêmica é haver catedráticos falando bobagem: procurando bem, deve dar para achar até um astrônomo que ainda defenda que o Sol gira em torno da Terra. Claro, gente assim é minoria, e o melhor que um leigo pode fazer é se guiar pelo consenso da comunidade científica, não pela opinião de especialistas isolados, mas na hora de montar o seu documentário (ou livro, ou reportagem) você pode passar por cima desse critério que (quase) ninguém vai ligar.

Cite fatos científicos corretos, mas irrelevantes para o assunto em questão.

"A órbita da Terra não é circular, é elíptica"."Aranhas não são insetos". "O derretimento do gelo que flutua sobre o Oceano Ártico não elevará o nível dos mares". "Cidades criam ilhas de calor". Coisas assim devem ser ditas no mesmo tom em que as patricinhas de anedota dizem "Hellooooo-ôu", a insinuação sendo a de que a implicação a favor da tese negacionista é tão óbvia e fulgurante que não precisa ser explicitada, a menos que o ouvinte seja um idiota. Como ninguém gosta de passar por idiota, todo mundo balança a cabeça, espertamente, e o argumento inválido, devidamente vaselinado, desliza feliz rumo ao alvo.

Descontextualize a ciência.

Afirmações como "erupções vulcânicas injetam milhares de toneladas de CO2 na atmosfera" muitas vezes são usadas para causar um clima de impotência -- como não dá para controlar o que os vulcões fazem, para que se preocupar com as míseras emissões humanas? Para estar no contexto adequado, no entanto, essa afirmação deveria vir suplementada pelo dado de que o efeito dos vulcões no clima é, majoritariamente, de resfriamento, por conta do enxofre e de outras partículas que eles lançam na atmosfera; pelo fato de que as emissões humanas de CO2 já superam as vulcânicas; e, por fim, pela constatação do óbvio: não temos controle sobre os vulcões mas temos (algum) controle sobre nós mesmos.


Manipule desonestamente o conceito de "dúvida" científica.

Uma das coisas que tornam a ciência uma empreitada maravilhosa é sua incapacidade de reconhecer verdades absolutas. Mesmo que uma verdade absoluta seja descoberta -- um candidato razoável seria, por exemplo, a afirmação de que todos os seres vivos da Terra têm um ancestral comum -- o processo científico jamais fechará de vez a questão a respeito.

Sempre haverá a possibilidade (cada vez mais remota, mas sempre aberta) de novas evidências demonstrarem que o que parecia verdade era, de fato, apenas ilusão, ou somente uma versão grosseiramente simplificada de como as coisas realmente são. Negacionistas tentam lançar mão desse componente de dúvida estrutural que acompanha toda afirmação científica para deslegitimar diagnósticos dos quais discordam (que cigarro faz mal, que todos temos um ancestral comum, que a revolução industrial vem aquecendo a Terra, etc.).

Ao fazer isso, no entanto, eles deliberadamente passam com o trator por cima de três conceitos importantes: o de dúvida razoável, o de informação boa o suficiente e o de ação responsável. Por partes.

Embora toda dúvida seja possível, nem toda dúvida é razoável, frente às evidências disponíveis. Por exemplo, você pode duvidar que esteja lendo esta postagem -- talvez isto tudo seja um sonho especialmente tedioso -- mas, qual o motivo, a evidência, para isso?

Quanto à informação boa o suficiente: em muitos casos, até sabemos que os dados que temos não correspondem a como as coisas realmente são, mas ainda assim eles são bons o bastante para guiar certos tipos de decisão -- você não precisa de fotos de altíssima definição de uma paisagem para saber onde acaba a floresta e começa o deserto, e a Nasa se vira muito bem com as leis de Newton para navegar suas sondas, mesmo sabendo que o trabalho de Einstein é superior.

Já ação responsável é, ora bolas, ação responsável. Não é porque existe a possibilidade filosófica de que a lei da conservação da energia não seja uma verdade absoluta que os engenheiros estão livres para ignorá-la ao criar seus projetos. Se verdades provisórias são tudo o que temos, é com base nelas que temos de agir no mundo. E nem é correto dizer que as verdades provisórias são "todas iguais", que acreditar na lei da gravitação universal é "a mesma coisa que" acreditar em duendes. Algumas verdades provisórias admitem menos dúvida razoável, fornecem mais informação boa o suficiente e, no fim, guiam ações mais responsáveis que outras.

Use a inércia e a covardia a seu favor.

Não, o fofo do vovô Hans não era um assassino sádico. O cigarro é tão gostoso, como é que pode fazer mal? Eu, parente de macacos? Como assim, botar a família na SUV a diesel e descer para a praia é colaborar com uma crise ambiental? O ser humano não gosta de ser arrancado de sua zona de conforto, e os negacionismos se alimentam disso -- muitas vezes, de fato, nascem disso. No geral, representam um esforço a fim de reunir dados e criar argumentos que façam essa abstração estatística, o cidadão médio, se sentir melhor. O negacionismo ideal é o que produz, no tal cidadão médio, a sensação de que ele sempre fez tudo certo, que, mesmo sem saber os comos e os porquês, sempre se comportou, pensou e acreditou da melhor forma possível.

Quando o negacionismo contraria algum tipo de consenso social -- como no caso do Holocausto -- seu efeito final é geralmente tranquilizador: veja, esse bicho-papão em que vocês todos acreditavam, na verdade, nunca existiu. Ufa!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Preservando a lacuna necessária

Uma queixa muito comum, na boca dos conservadores, é a que se ergue contra uma suposta "interferência indevida" do Estado na vida das pessoas -- um exemplo típico da retórica aparece neste artigo de Luiz Felipe Pondé, sobre "bullying intelectual". Ele se queixa de uma suposta judicialização da sociedade, onde conflitos e dilemas que deveriam ser resolvidos pela dinâmica própria dos indivíduos envolvidos acabam sofrendo (ou se veem sob ameaça de sofrer) a intervenção da mão pesada do Estado.

Já li artigos de "neocons" americanos queixando-se até mesmo das leis contra embriaguez ao volante, dizendo que se tratam de uma tentativa totalitária do Estado de determinar "a composição do sangue" dos indivíduos. E eu mesmo já me manifestei contra o que vejo como uma judicialização excessiva das questões de liberdade de expressão e de informação, onde parece que é cada vez mais fácil achar um juiz  que mande o adversário calar a boca do que encontrar fatos e argumentos para estabelecer a verdade.

Exageros e polêmicas à parte, no entanto, há dois temores levantados por quem vê o excesso de interferência estatal na vida particular que são bem graves: por um lado, há o temor de que um sistema excessivamente paternalista torne as pessoas incapazes de "se virar" e de lidar de forma madura com frustrações e conflitos; por outro, há o risco de que o açambarcamento das prerrogativas individuais pelo Estado leve a um totalitarismo burocrático, uma espécie de fascismo kafkiano.

Ao notarmos que esses dois efeitos deletérios tendem a se reforçar mutuamente -- pessoas menos autônomas tendem a depender cada vez mais do Estado, que assim se torna mais forte, reduzindo a autonomia das pessoas, e assim por diante -- o cenário de pesadelo está montado.

Não digo que estejamos necessariamente caminhando nessa direção, mas o cenário em si é sinistro o bastante para, no mínimo, servir como espantalho em debates públicos sobre questões que vão desde o desarmamento da população civil ao home schooling, da interferência do Ministério Público em casos de bullying e à censura judicial da imprensa, do controle do câmbio às tarifas de importação.

Uma questão pouco discutida, no entanto, é a causa do crescimento percebido das atribuições e papéis do aparato estatal. Seguindo a máxima aristotélica de que a natureza odeia o vácuo, essa expansão parece ocorrer em resposta a uma retração de outras fontes tradicionais de autoridade, como a religião e a família.

Coisas que antes não pareciam ser reguladas, porque as regras encontravam-se difusas, tão onipresentes quanto invisíveis como o ar, numa cultura largamente consensual, tendem a perder o prumo no momento em que o consenso social se desfaz ou, no mínimo, perde legitimidade como fonte de direitos e deveres. Não se trata, portanto, de um novo autoritarismo imposto pelo Estado, mas de o Estado assumindo as funções de autoritarismos outros, forçados, pelo avanço da civilização, a bater em retirada.

Forças conservadoras tendem a lamentar esse "bater em retirada" dos grandes consensos, enquanto que eu tendo a celebrar o movimento. Afinal, vivemos num mundo diverso, e prisões invisíveis não são menos prisões só por causa disso. De fato, é a desconfiança quanto aos consensos, trazida pela percepção de diversidade, que permite aos membros de cada cultura enxergar as grades da própria cela, ao realizar o esforço (nem sempre fácil) de ver o mundo pelos olhos de quem está de fora.

Mas concordo com os conservadores, quando lamentam o fato de o Estado estar recolhendo os espólios deixados pelas velhas autoridades tradicionais. Se, em alguns casos, isso pode ser benéfico e, até certo ponto, inevitável, também é preciso notar que, se a natureza odeia o vácuo, nós não somos obrigados a concordar com ela in toto. Como diz a velha piada, é preciso evitar preencher algumas lacunas que podem se mostrar realmente necessárias.