quarta-feira, 6 de junho de 2012

'Mais de um modo de queimar um livro', a lição de Bradbury

Morreu Ray Bradbury. Tinha 91 anos, quatro filhas, era viúvo de uma mulher com quem viveu por mais cinco décadas, ganhou a vida fazendo o que amava e era muito bom no que fazia. É o tipo de morte que se lamenta mais por nós mesmos, que continuamos vivos, mas radicalmente empobrecidos, do que pelo morto. Ao partir, Bradbury não "perdeu" a vida. A vida é que o perdeu.

Exemplares de três de seus livros -- O País de Outubro, As Crônicas Marcianas, Os Frutos Dourados do Sol -- desmancharam-se em minhas mãos, de tão lidos, e isso há uns 20 anos. Confesso que, de meados da década de 90 para cá, a obra de Bradbury vem representando uma parcela cada vez menor de minha dieta literária.

Muda-se de idade, mudam-se os gostos: a ingenuidade poética que tanto encanta seus leitores mais fiéis a mim passou a soar, cada vez mais, como uma espécie de despropósito. Passei a valorizar e a buscar em minhas leituras  uma prosa mais seca, um tipo de enredo mais enxuto, uma narrativa mais objetiva.

Mas. Há coisas que transcendem gostos e idiossincrasias. Há, por exemplo, As Crônicas Marcianas, a expressão definitiva de que a humanidade só se revela, em sua plenitude, no confronto com o desconhecido. E há Fahrenheit 451, talvez o mais profético dos livros, o único, em toda sua obra, que o próprio Bradbury considerava "de ficção científica".

A maioria das pessoas provavelmente só conhece a sinopse do romance (uma sociedade onde a leitura é ilegal e onde os "bombeiros" incineram livros), ou o tedioso filme de François Truffaut, mas o romance é muito mais do que isso. É a prefiguração de uma sociedade dominada por espetáculos audiovisuais emasculados, onde perseguições policiais são transmitidas em tempo real para as telas de smartphones.

Isso, veja bem, num livro escrito em 1953.

Mas o verdadeiro toque de gênio -- em termos de especulação social, que é a província específica do tipo de ficção científica (a dita "soft") a que o livro pertence -- está na explicação de como, e por quê, a palavra escrita passou a ser proscrita, como e por quê a sociedade decidiu transformar a leitura de livros em crime:

"Vamos ver as minorias de nossa civilização, sim? Maior a população, mais minorias. Não ofenda os amantes de cães, os amantes de gatos, os médicos, os advogados, os comerciantes, os cozinheiros, os mórmons, os batistas, os unitaristas, os descendentes de chineses, suecos, italianos, alemães, do Brooklyn, da Irlanda, pessoas do Oregon e do México. As pessoas neste livro, nesta peça, neste seriado de TV não devem representar nenhum pintor, cartógrafo, mecânico de parte alguma. Quanto maior o seu mercado, Montag, menos você consegue administrar a controvérsia, lembre-se! Todas as menores, menores minorias,  com seus umbigos a serem mantidos limpinhos. Autores, cheios de pensamentos malignos, tranquem suas máquinas de escrever. E eles trancaram. Revistas converteram-se em belas misturas de mandioca com baunilha. Livros, os malditos críticos esnobes, disseram, eram insossos. Não surpreende que tenham parado  de vender, disseram os críticos. Mas o público, sabendo o que desejava, feliz (...) Então foi assim, Montag. Não veio de cima para baixo, do governo. Não houve decreto, declaração, censura, a princípio, não! Tecnologia, exploração das massas e pressão das minorias fizeram o truque, graças a Deus".


A ressalva, aqui, é que as "minorias" a que Bradbury se refere são, além das "minorias" de sempre -- excluídos, desprestigiados, etc. -- quaisquer grupos sociais organizados: afinal, jornalistas, advogados, cozinheiros, etc., são, em si "minorias" dentro da sociedade. É tautológico: qualquer recorte do todo será, por definição, menor que o todo.

Mas, enfim, não sei você, mas cada vez que leio a passagem do livro e olho para o país em que vivo, sinto um arrepio na espinha. Do mesmo modo que os judeus da Antiguidade concluíram que o único modo seguro de nunca pronunciar "o nome de Deus em vão" era jamais pronunciar o nome de Deus em hipótese alguma, e que os muçulmanos decidiram que a melhor forma de evitar idolatria era proibir de vez toda e qualquer forma de arte figurativa, no mundo de Fahrenheit 451 as pessoas concluíram que a única forma de não ofender ninguém era simplesmente nunca mais ler ou escrever nada.

Exagero? Pergunte aos jornalistas brasileiros que têm biografias não-autorizadas de figuras públicas prontas, na gaveta, mas que não encontram editoras dispostas a correr o risco jurídico de lançar o livro no mercado. 

No mundo de hoje, queimar livros fisicamente nem é mais, de fato, uma prática eficaz como era, digamos, na época em que o apóstolo Paulo instigou uma grande fogueira de obras pagãs na cidade de Éfeso, causando um prejuízo de cinquenta mil peças de prata (1.666 vezes mais do que Judas recebeu por Jesus, eis aí um número cabalístico). Queima-se um exemplar aqui, outro ali, e daí? Milhares ou milhões de outros ainda existem,  sem falar nas cópias digitais.

O que me traz ao título da postagem, uma citação deste artigo de Ray Bradbury, a respeito da pressão que vinha sofrendo para mudar este ou aquele detalhe de sua obra: "Há mais de um modo de queimar um livro, e o mundo está cheio de gente correndo por aí com fósforos". Mais do que nunca, os "bombeiros" estão em toda parte. E é até preciso muito cuidado para não virar um deles.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Quem, afinal, cria tecnologia no Brasil?

Semana passada, passei praticamente uma manhã inteira conversando com o professor Ennio Peres da Silva, responsável pelo Laboratório de Hidrogênio (ou "LH2", como também é conhecido) da Unicamp. Criado durante o choque do petróleo da década de 70, o laboratório nasceu como parte do esforço realizado pelo Brasil, na época, para se libertar da dependência do óleo importado.

O raciocínio, explicou-me o professor, era o seguinte: o Brasil da época tinha escassez de petróleo, mas eletricidade abundante. Haveria, então, como transformar a eletricidade em combustível? Uma opção seria usar energia elétrica para separar o hidrogênio da água e, então, usá-lo para mover veículos. Os carros elétricos Vega, movidos a célula de combustível  de hidrogênio, são uma das criações do LH2.


Não seria difícil olhar para o LH2 como uma espécie de relíquia dos anos de nacionalismo e estatismo megalomaníacos da ditadura, e aos carros Vega como uma espécie de elefante branco, mas o laboratório não se limitou a construir o carro elétrico.

Pesquisas sobre o uso de fontes renováveis (como energia solar) para a produção de hidrogênio estão fazendo do LH2 um parceiro cortejado por grandes empresas do setor elétrico. Principalmente com o crescimento das fontes renováveis intermitentes -- o vento e o Sol, por exemplo, que afinal de contas não têm intensidade uniforme, e periodicamente somem -- a geração de hidrogênio aparece como uma opção para estabilizar o fluxo: o gás pode ser extraído da água com a energia que sobra nos horários de pico de produção, e depois queimado para devolver a potência, nos horários de pico de consumo.

A despeito desse novo papel no cenário energético brasileiro, o LH2 representa uma espécie de "anomalia ideológica" na cultura atual da universidade pública e da visão corrente sobre inovação tecnológica, a ponto de o professor Ennio não ver muitas chances de o laboratório sobreviver a sua aposentadoria, que se aproxima (ele trabalha no LH2 desde 1978).



Essa visão predominante é que o que o laboratório faz deveria, na verdade, estar sendo feito na iniciativa privada: a função da universidade pública seria gerar o conhecimento bruto, talvez até algumas patentes, mas o desenvolvimento final do produto -- o carro elétrico, o sistema de porcas e parafusos para transformar energia solar em hidrogênio -- seria serviço de empresas. Grandes corporações ou mesmo as chamadas empresas spin-off ou startup, que poderiam até, eventualmente, ser fundadas por acadêmicos, mas que estariam institucionalmente fora da universidade.

Ennio concorda que essa estrutura hipotética faz sentido -- "seria ótimo se a universidade pudesse só dar aula", disse-me -- mas considera a proposta utópica para a realidade brasileira. "As empresas brasileiras mal conseguem pagar os funcionários, vão pagar pesquisadores?" Para ele, o desenvolvimento tecnológico é uma demanda social que, dado o status quo brasileiro, cabe à universidade pública atender.

"Sabe por que a universidade é capaz de fazer pesquisa?", provocou. "Porque quem faz o grosso da pesquisa é mão-de-obra grátis. É estudante de pós-graduação, que nem é a universidade que paga, é a Capes".

Confesso que essa última declaração me deixou meio desconcertado mas, pensando melhor depois, não consegui ver bem onde acabava a descrição fiel da realidade e começava a hipérbole. De fato, fiquei desconfiado de que não havia hipérbole. Mas será isso mesmo? O destino econômico do país está pendurado no entusiasmo de jovens bolsistas mal pagos pelo governo federal?