sexta-feira, 1 de junho de 2012

Criacionismo ainda convence 46% dos americanos

Saiu uma nova pesquisa Gallup -- a 11ª em 30 anos -- sobre as crenças da população dos Estados Unidos a respeito da origem da espécie humana. Como vem acontecendo há mais de uma década, o instituto ofereceu aos respondentes três opções: Humanos evoluíram sob o controle de Deus; Humanos foram criados por Deus em sua forma atual, há menos de 10.000 anos; humanos evoluíram, e Deus não teve nada a ver com isso.

O resultado, você vê na tabela abaixo:


Segundo a análise feita pelo próprio Gallup, os números mostram-se virtualmente estáveis ao longo das três décadas de existência da pesquisa, com os valores atuais desviando-se pouco em relação à média do período.

De minha parte, se fosse dar um palpite, na verdade daria dois: primeiro, que os dados mais recentes parecem indicar uma tendência de polarização entre os criacionistas "hard core" e os evolucionistas "puros", com a chamada "evolução teísta" perdendo espaço.

Segundo, o aumento perceptível no número de evolucionistas "puros" a partir da virada do século: desde 2002 que a proporção se mantém em dois dígitos. Este foi, de fato, o grupo que mais cresceu desde o início da pesquisa, com sua parcela da população entrevistada tendo aumentado em dois terços, de 9% a 15%. Seria, talvez, um sinal do sucesso das táticas de combate mais estridentes adotadas, no pós-11 de Setembro, por gente como Richard Dawkins, Jerry Coyne e PZ Myers?

Em artigo recente, publicado no periódico Evolution, Coyne defende a ideia de que a alta religiosidade do povo americano é responsável pela também alta taxa de rejeição ao darwinismo no país. Outra pesquisa Gallup indicava que os EUA são o mais religioso dos países desenvolvidos, com 64% da população considerando a religião "muito importante".

Se a religiosidade leva à rejeição de Darwin, no entanto, o que dizer do Brasil? Segundo dados do Gallup, 88% dos brasileiros consideram a religião importante em suas vidas. Pesquisa DataFolha de 2010 apontava que 59% dos brasileiros acreditam numa evolução guiada por Deus; 25%, numa criação da humanidade já sob sua forma atual, há menos de 10.000 anos; e 8%, evolucionistas "puros". Um dado curioso levantado pelo instituto brasileiro é o de que a proporção de criacionistas "hard core" é maior entre umbandistas (33%) do que entre cristãos pentecostais (30%).

terça-feira, 29 de maio de 2012

Cuidado com quem prega o ateísmo de 'alma branca'

Já escrevi anteriormente (texto completo aqui) sobre o porquê de considerar o que costumo chamar de ateísmo in your face -- vibrante, exultante, blasfemo, ultrajante, desrespeitoso, divertido -- necessário: resumindo, porque apenas grupos, partidos, religiões, movimentos, etc., que têm a coragem de entrar em modo in your face (IYF, pra encurtar) conseguem algum progresso neste mundo.

Há alguns anos, o New York Times publicou uma reportagem sobre o zoroastrismo, provavelmente a mais antiga religião monoteísta do mundo e, bem, a conclusão é que eles são tão inclusivos, mansos, tolerantes, respeitadores e simpáticos que... estão virtualmente extintos.

É preciso notar, antes de prosseguir, que ser IYF não significa ser violento (Gandhi foi altamente IYF quando resolveu quebrar a lei imperial britânica que proibia os indianos de produzir sal), nem totalitário ou autoritário.

Quando o papa diz que a falta de Deus no coração causou a crise econômica na Europa e os ateus respondem dizendo que Ratzinger podia bem ir cuidar lá dos pedófilos dele e parar de falar merda, o que está em curso não é uma tentativa de "calar o Vaticano" (como se fosse possível...) mas, sim, de mostrar que, não, não é porque o cara é velhinho, usa saia e mora num palácio em Roma que tudo o que ele diz deve ser automaticamente levado em conta e ouvido em reverente silêncio pelo amplo conjunto da raça humana.

Uma pessoa que fala merda merece ouvir que falou merda, não importa sua faixa etária, escolha de guarda-roupa ou endereço, ora bolas.


Quando um grupo como a ATEA (do qual sou membro fundador, com muito orgulho) sacaneia a iconografia desta ou daquela religião, como na imagem de Ganesha ao lado, bem, um elefante gorducho de quatro braços é, venhamos e convenhamos, uma imagem ridícula. E, ao chamar a atenção para o fato, o ateu não faz nada além de afirmar a própria identidade: nós somos os caras que acham essas coisas ridículas. Assim como o papa é cara que acha que a secularização do mundo é a raiz de todos os males. Ou o pessoal da marcha para Jesus é o pessoal que acha, bem, que Jesus quer ver gente marchando. Se eles podem afirmar suas identidades em público, de modo claro e, até, incômodo (o trânsito, minha gente, o trânsito) por que não nós? 


Você pode levantar um bilhão de razões etnográficas e antropológicas explicando por que, para alguns milhões de hindus, a imagem de Ganesha é bela e venerável, mas isso não tira de ninguém o direito de considerá-la ridícula. E de dizer isso. Nutro uma profunda reverência pelos Daleks e por sua nobre meta de exterminar toda a vida do Universo, e confesso que considero o cartaz à direita meio ofensivo, mas nem por isso vou me escandalizar -- na verdade, sou bem capaz de encontrar em meu coração a grandeza necessária para achá-lo até que engraçado.

Existe, é verdade, todo um debate em torno da questão de faz sentido afirmar uma "identidade social" coletiva para os ateus, da mesma forma que para os católicos, os zoroastristas, os tucanos, os petistas. Digo, exceto o mané do Alain de Botton, não vejo ninguém querendo estabelecer uma "Igreja da Razão" ou qualquer outra besteira do tipo, então, há realmente algum sentido em se falar nos ateus como se fossem um grupo? E um grupo organizado, ainda por cima? Ateísmo não é uma coisa de cada um? Sim, é. Mas, até aí, orientação sexual também é. E, a despeito disso, existe um movimento gay por aí que vem conquistando importantes vitórias, mesmo lutando sempre morro acima.

Resumindo, a "identidade social" ateia certamente não é algo tão firme ou essencial quanto as "identidades" religiosas, étnicas e políticas que existem por aí, e que fluem de autoridades centrais, textos sagrados, origens geográficas compartilhadas. Ela é, assim como a "identidade" gay, forjada por uma série de causas comuns.  

Trata-se, portanto, de uma identidade coletiva artificial, tática, que talvez até venha a desaparecer quando a causa estiver ganha. Que causa? Cometendo autoplágio, cito dois parágrafos de uma postagem anterior:

Não se engane: nenhum ateu parte para o ativismo sem prévia provocação. Isso geralmente toma a forma de um momento em que o ateu olha em volta e diz: "Peraí, esses caras estão atrapalhando a minha vida por causa de umas merdas em que eles acreditam".

Ao se dar conta de que essas "umas merdas" são passivamente toleradas, quando não abertamente promovidas, pela sociedade que ajuda a sustentar com os impostos que paga, o ateu pode ser perdoado se decidir entrar em campanha para explicar a seus concidadãos que elas são, ora bolas, merdas.



Fiz toda a elaboração acima para chegar ao ponto essencial desta postagem, que é o que menciono no título, o do "ateísmo de alma branca". O que é isso? Bom, trata-se de um fenômeno que vejo aparecer cada vez mais nas redes sociais e em alguns blogs: gente dizendo, "Sim, os ateus merecem respeito, mas antes disso eles não deveriam se dar ao respeito? Essas coisas de ficar blasfemando, tirando sarro, acabam depondo contra..."


Não tenho um estudo a respeito, mas de repente me vem a impressão de que todo grupo que busca afirmar uma identidade própria, cedo ou tarde, acaba trombando com esse tipo de amigo da onça. Claro que os negros merecem respeito. Mas eles também têm de cloaborar, pô, sabendo o seu lugar. Claro que cada um faz o que quiser com a sua sexualidade. Mas homem andar na rua de mão dada com homem já é demais, né? Mulheres? Sim, têm de ser respeitadas. Mas votar, usar calça comprida, dar pra quem quiser? Opa, opa, peraí.


E então, assim como o preto bom é o preto de alma branca, mulher pra casar é mulher honesta, sindicalista bom é o pelego, gay legal é o viado enrustido, o ateu bom é o ateu manso, que não ri, não blasfema em público. 


Claro que o IYF não é a única estratégia nessa batalha. Há espaço e tempo para o debate cortês, para o silêncio, para um monte de outras coisas. Mas não dá, simplesmente, para abrir mão do IYF, assim como os sofisticadíssimos teólogos do Vaticano não abrem mão do Chalita e do Padre Marcelo. Saber ser IYF é importante. É necessário. Tem gente reclamando? Ótimo. Mais um sinal de que funciona.