sábado, 5 de maio de 2012

Religião faz mal para as mulheres?

É bastante comum encontrar na mídia reportagens e notas a respeito dos benefícios da religião para a saúde -- como ter fé, esperança, acreditar numa "força maior", etc., ajuda a superar problemas tanto físicos quanto emocionais. Semana sim, semana não, alguma revista (feminina ou, até, de interesse geral) toca no assunto. Mas pouca gente parece disposta a investigar a hipótese contrária: e se a religião fizer mal para a saúde?

Há poucos dias, foram divulgados dados sobre a expectativa de vida nos Estados Unidos, quebrados por condado (conceito próximo ao de "município", na estrutura administrativa do Brasil). Um dos resultados surpreendentes da pesquisa foi o de que, em algumas partes dos EUA, a expectativa de vida das mulheres na verdade regrediu ao longo dos últimos 20 anos. Como diz o texto que anuncia a divulgação do estudo, em algumas partes dos EUA as meninas nascidas em 2009 devem ter vidas mais curtas que as de suas mães.

O curioso nisso é que as regiões onde a expectativa de vida feminina caiu ficam dentro do chamado Bible Belt, a região do sudeste americano onde o cristianismo, especialmente o fundamentalista, prevalece. Abaixo, um mapa, tirado da Wikipedia, com o contorno geral do "Cinturão Bíblico":


E, aqui, um mapa com a distribuição da expectativa de vida feminina entre os condados americanos em 2009:


A sobreposição da "mancha da morte prematura" com a do Belt não é exatamente perfeita, claro, mas não deixa de ser sugestivo que as regiões mais críticas estejam todas contidas nele. Uma outra comparação interessante é com o mapa da gravidez na adolescência:



Onde quatro dos cinco Estados onde a situação é crítica encontram-se dentro do Belt. Um desses Estados críticos para gravidez juvenil é o Missouri, Mississippi, o mais religioso dos EUA, de acordo com pesquisa Gallup realizada em 2009. O mesmo Estado não aparece muito bem na pesquisa sobre expectativa de vida feminina. 

De acordo com o estudo da longevidade das mulheres, o retrocesso, nesse caso,correu em 84% dos condados de Oklahoma, 58% dos do Tennessee e 33% dos da Georgia. Os três encontram-se no Bible Belt e um deles, Oklahoma, também tem uma situação crítica de gravidez na adolescência.

O mapa abaixo é de uma pesquisa Pew onde as pessoas responderam à pergunta: O quanto a religião é importante na sua vida?



Dá para notar que há um núcleo de Estados, centrado no Missouri   Mississippi, mas envolvendo também Arkansas, Louisiana, Tennessee a Alabama, onde a resposta "muito importante" foi dada por mais de 71% dos entrevistados. Esse mesmo núcleo inclui boa parte dos condados onde a expectativa de vida das mulheres é menor e seus Estados estão entre aqueles onde os números de gravidez na adolescência vão de graves a críticos.

Não creio que seja polêmico afirmar que a correlação entre os três fatores -- fervor cristão, alta taxa de adolescentes grávidas e baixa expectativa de vida feminina -- é notável. É bem possível que haja um fator social envolvido, já que pobreza leva ao desespero e o desespero (geralmente) leva à religião. O mapa abaixo descreve o PIB de cada um dos Estados dos EUA, em 2008, onde os mais escuros são os mais ricos:


Dá para ver que os Estados mais pobres do país estão todos fora do Bible Belt e o Texas e a Georgia, entre os de PIB mais elevado, estão dentro. A Georgia, aliás, é um dos Estados onde a gravidez de adolescentes é um problema grave, e onde a expectativa de vida feminina teve retrocesso notável, atingindo um terço dos condados.

É apenas justo notar que essas comparações todas não provam que o fervor cristão é antagônico à saúde da mulher -- a análise não é sofisticada o bastante para permitir afirmar algo assim -- mas as repetidas coincidências geográficas não deixam de ser sugestivas. Só não prenda a respiração esperando alguma revista feminina seguir a sugestão.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Possessão espiritual reconhecida pela OMS? Jura?

Estou começando a fazer pesquisa para um livro sobre as tentativas feitas por vários cientistas (incluindo alguns ganhadores do Nobel), ao longo da história, mas principalmente a partir do século 19, para tentar provar a existência de espíritos -- não no sentido metafórico ou poético, mas espíritos, mesmo, seres feitos de alguma coisa que não matéria (ou de um tipo especial de matéria) e que, entre outras funções, seriam a verdadeira essência a animar o corpo humano.

Há muita coisa interessante nessa seara (tentativas de pesar a alma, de registrá-la numa câmara de nuvem, universidades disputando na Justiça a dotação deixada por um milionário para estudos sobre a imortalidade do espírito...), e estou, compreensivelmente, com o radar ligado para o assunto: há poucos dias terminei de ler um calhamaço de um teólogo inglês sobre experiências de quase-morte -- aquele negócio de túneis, luz, Jesus e os amigos mortos na outra ponta, etc., etc.

Por conta disso, fiquei intrigado quando Eli Vieira chamou a atenção de algumas pessoas no Twitter para o fato de que anda circulando um boato de que a Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS), em sua versão mais recente, reconhece "obsessão espiritual" como doença real, e que portanto o paradigma materialista da medicina está à beira da derrocada, e a ciência já começa a aceitar o papel das influências espirituais na saúde humana.

A versão mais recente da história tem poucos dias e apareceu no Facebook, mas uma busca rápida no Google mostra que a excitação toda vem, pelo menos, desde maio de 2011.

Bem sei que a OMS não é de todo imune a pressões políticas (a organização até hoje usa uma linguagem altamente diplomática para dizer que homeopatia é bobagem, por exemplo), mas até isso me pareceu um pouco demais. Mas como o boato dava a referência exata do CID -- item F44.3 -- e o livro está disponível online, fui conferir. E, bem: não são só os políticos que estão dispostos a torturar os fatos até que eles se encaixem em suas versões preferidas. Vejamos.

O item F44.3 é, na verdade, um sub-item de F44, "Distúrbios dissociativos", que por sua vez faz parte da seção F00 a F99, que ostenta o título sugestivo de "Distúrbios mentais e do comportamento". A definição dos distúrbios reunidos na rubrica F44 diz:

"Presume-se que sejam psicogênicos em origem, estando estreitamente associados, no tempo, a eventos traumáticos, problemas insolúveis ou intoleráveis, ou relacionamentos perturbados. os sintomas frequentemente representam a concepção do paciente de como uma doença física deveria se manifestar [grifo meu] (...) Além disso, há evidência de que a perda de função é uma expressão de conflitos e necessidades emocionais."

Tudo, como bem se vê, firmemente dentro do tal paradigma materialista. Traumas, conflitos, necessidades emocionais. Como já disse Sherlock Holmes, no ghosts need apply.

Mas, e o item em si? Tá, de fato, o título do F44.3 é -- rufem os tambores -- "distúrbios de transe e possessão". Definidos como:

"Distúrbios em que há uma temporária perda do senso de personalidade individual e consciência plena do ambiente. Incluídos aqui estão apenas os estados de transe que são involuntários ou indesejados, ocorrendo fora de situações aceitas pela religião ou pela cultura." [grifo meu, de novo.]

E, bem, não só não há nenhuma menção a demônios ou fantasmas na definição dada, como o problema é mencionado como possível sintoma de esquizofrenia, consumo de substância psicoativa e distúrbios psicóticos. A única ligação com qualquer coisa remotamente "espiritual" -- no sentido forte, de dualismo corpo-espírito -- de toda a história é o uso da palavra "possessão" na definição do item.

Mas dizer que isso configura uma aceitação do "paradigma espiritual" pela OMS faz tanto sentido quanto dizer que a presença da categoria A30 (lepra) representa uma aceitação da realidade da maldição divina e da necessidade de se mandar bodes expiatórios para morrer no deserto.

De fato, embora a definição de "transe e possessão" no item F44.3 exclua distúrbios causados por drogas, outro trecho do CID, F10.0, menciona que "estados de transe e possessão" como possíveis consequências de dez tipos de intoxicação: por  álcool, opioides, canabinoides, sedativos/hipnóticos, cocaína, estimulantes, alucinógenos, tabaco, solventes e combinação de substâncias. De acordo com a OMS, portanto, o que pode entrar no corpo para causar a "possessão", quando alguma coisa entra, é um complexo de moléculas psicoativas; certamente, não um espírito.