sexta-feira, 16 de março de 2012

E, apresentando: o Universo



A Nasa divulgou um mosaico de imagens, feitas pela sonda Wise, cobrindo todo o céu. Em outras palavras, trata-se de uma foto completa do Universo observável -- dentro, claro, do poder de definição da Wise, e em infravermelho, que é a faixa do espectro que a sonda foi construída para cobrir. Acho que clicando na imagem dá para ampliar. Se não, há uma versão completa, com zoom, aqui.

De acordo com a nota divulgada pela Nasa, "pequenos objetos móveis", como asteroides e planetas, foram removidos da imagem, para não poluir o efeito geral. A grande faixa brilhante no centro é, como talvez já tenha dado para desconfiar, o plano da Via-Láctea, a galáxia da qual fazemos parte, olhando-se na direção de seu centro.

Abaixo, uma versão legendada da imagem (em tamanho original, aqui):


Só para dar uma ideia de escala: tem um pontinho mixuruca marcad perto do canto direito da imagem com a legenda "Thor's Helmet" ("Capacete de Thor"). Trata-se de uma nuvem de gás em expansão, soprada por uma estrela extremamente quente localizada em seu centro. Essa nuvem tem 30 anos-luz de diâmetro, o que é umas oito vezes a distância entre o Sol e a estrela mais próxima, Alfa Centauri. A distância entre a Terra e o Sol é de 8 minutos-luz.

Abaixo, uma foto mais detalhada do "Capacete" (versão completa, aqui). Não se esqueça de que a cintura dessa mancha de pó é oito vezes maior que a distância que nos separa da estrela mais próxima:


Pense nisso da próxima vez que estiver se sentindo o centro do Universo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Needle, à venda. Comigo dentro.

Saiu, finalmente: está à venda na livraria virtual lulu.com a edição mais recente da revista americana de mistério e suspense Needle, editada por Steve Weddle. Eu compareço com o conto Bad for Business, a respeito de um motel-puteiro que tem como proprietário um investigador da polícia civil. Sórdido? Claro.

A revista, afinal, se apresenta como "a magazine of noir", e faz por valer o nome: em sua edição anterior, trouxe um conto de Gil Brewer, cujas histórias sobre crimes motivados por perversões sexuais tornaram-no virtualmente impublicável no fim da vida -- e ele morreu em 1983.

A capa da edição com o meu conto é esta aí à esquerda. Só posso dizer que ando tendo sorte com meus capistas ultimamente (meu conto pós-apocalíptico Antropomaquia vai sair na coletânea Fantasias Urbanas, que também tem uma capa estonteante).

O conto foi escrito diretamente em inglês. Não se trata de minha primeira publicação no mercado americano: já saí, em priscas eras, num número do clássico fanzine Crypt of Cthulhu e, mais recentemente (mas não muito), na antologia Rehearsals for Oblivion, com uma história sobre monstros sobrenaturais e teatro alternativo durante a ditadura militar de 64-85. Mas esta é minha primeira história de mistério a sair lá fora e, se me permitem um pouco de cabotinismo, por baixo da roupagem "noir" trata-se de um crime de quarto fechado até que bem razoavelzinho.

Enfim: para quem gostar desse tipo de coisa, fica a sugestão. Ler Needle é meio que um soco no estômago, mas quem quer ficar para sempre na zona de conforto?

terça-feira, 13 de março de 2012

A quem serve a universidade confessional?

Meu mórbido interesse pelas intrusões das hierarquias da fé na esfera pública chamou-me a atenção para manifestação de um bispo, Luiz Gonzaga Bergonzini, a respeito da natureza das Pontifícias Universidades Católicas (PUCs) e dos limites à liberdade de pensamento de seus docentes, num comentário a respeito de posições -- a favor dos direitos reprodutivos da mulher e da eutanásia -- defendidas no blog do jornalista Leonardo Sakamoto, professor da PUC-SP.

Basicamente, Bergonzini diz que as PUCs são universidades católicas, estabelecidas e governadas pela Santa Madre, e portanto quem discorda da linha oficial do Vaticano não tem nada que lecionar por lá. O argumento é plausível: uma Universidade Corintiana certamente haveria de fazer restrições a professores com a camisa do Palmeiras, e uma Universidade Tucana dificilmente toleraria um professor de história que defendesse, em sala de aula, que Lula foi o melhor presidente da história do Brasil.

Não ajuda nada, também, o fato de Sakamoto ter usado, em sua postagem-resposta ao bispo, do velho e surrado argumento do "verdadeiro cristianismo". "Fico imaginando que certos sacerdotes não leram o Novo Testamento, ficando apenas com o resumo executivo", brinca, sugerindo que uma leitura atenta de Evangelhos, Atos e Epístolas revelaria uma fé comprometida com a liberdade e os direitos humanos. Sinto desiludi-lo, mas é exatamente o contrário: a liberdade só aparece no resumo executivo. O que a leitura atenta traz é tirania e opressão.

Mas esse nem é o ponto. Ou os pontos, que a meu ver são dois. Um deles é o fato de Sakamoto ter feito suas defesas da liberdade da mulher e da eutanásia num blog pessoal. Ao atacar a propriedade de o jornalista lecionar na PUC com base em opiniões emitidas num ambiente extra-campus, o bispo obviamente invade, indevidamente, um espaço privado, no qual só deveria imiscuir-se quando, e se, convidado.

Ao escrever que "as escolas e universidades católicas não são obrigadas a admitir empregados com posições contrárias aos seus ensinamentos", o sacerdote enuncia uma meia-verdade. As universidades privadas não são mesmo "obrigadas" a contratar ninguém de quem não gostem, mas também não têm a prerrogativa de patrulhar a consciência de quem quer que seja. A ideia geral -- se você aceita meu dinheiro, você não pode discordar de mim em nada e em lugar nenhum -- é de uma escrotidão acachapante.

Imagine-se um caso assim: uma universidade laica que decidisse demitir um professor que, num blog pessoal, defendera a presença de crucifixos nos tribunais. Os gritos paranoicos de "cristofobia!""de volta às catacumbas!" logo seriam ensurdecedores.

 O segundo ponto, que me parece o mais importante -- o que torna o caso exemplar -- é o seguinte: para que serve uma universidade confessional? Não só as PUCs, mas também o Mackenzie e outras tantas? Sendo propriedades de igrejas, é de se supor que sua função fundamental seja, como tudo que as igrejas fazem, dilatar a fé. Mas, dilatar, como?

Há três caminhos:

1. Pelo exemplo: este é o caminho mais legítimo, e é, ao menos em tese, a via preferencial dos hospitais religiosos, também. A universidade está lá como um exemplo do bem que a religião pode fazer, dos benefícios que ela pode trazer para a sociedade, do espírito de abertura e caridade que acredita encarnar. O objetivo, aqui, é levar as pessoas a dizerem "Olha como os católicos são legais, eles mantêm aquela universidade tão boa! Queria ser como eles."

2. Pela doutrinação: as pessoas que vão lá estudar são inculcadas com os princípios da fé, na esperança de que saiam convertidas. Doutrinação funciona melhor como um complemento do "exemplo" -- é ele que atrai os estudantes e, além disso, se o exemplo é realmente bom, o público torna-se mais dócil à persuasão.

3. Pela imposição: se você quiser estudar aqui, seja católico ou cale a boca. Se você quer trabalhar aqui, seja católico ou cale a boca. Assim como a via da doutrinação, esta depende do sucesso do exemplo: é ele que faz as pessoas quererem ser parte da instituição -- e, eventualmente, leva-as a se submeterem a exigências descabidas.

 Em tese, se a instituição tem um compromisso firme com o caminho do exemplo, ela não tem como evitar um corpo docente plural e variado. Nessa via, o caminho para servir à igreja passa, primeiro, por servir à sociedade, e para servir bem à sociedade é preciso ter os melhores professores -- não importa se forem hindus, satanistas ou ateus.

Mas isso, em tese. Como Christopher Hitchens bem exemplificou em sua devastadora crítica a Madre Teresa de Calcutá, servir ao público e servir a Deus pode se revelar um compromisso instável. No caso da  beata, enquanto sua clínica na Índia mergulhava na mais abjeta pobreza, centenas de conventos de sua ordem eram abertos pelo mundo com o dinheiro de doações milionárias!

No caso das universidades confessionais, o exemplo é uma espécie de pré-requisito para a implementação das outras duas táticas. A tensão entre a pluralidade necessária para sustentá-lo e a estreiteza implícita nos dois outros caminhos é grande, e não duvido de que haja muitos religiosos que prefeririam que o exemplo fosse a única via usada, e as demais, descartadas.

Mas, se a história nos ensina algo, é que a persuasão suave pelo exemplo é algo que as religiões em geral (e, para ser justo, partidos políticos e outros tipos de organizações doutrinárias) só praticam quando não têm escolha. Dê-lhes um pouco de poder -- seja o de contratar e demitir, ou o de aprovar e reprovar -- e a paciência dos fanáticos se esgota rapidamente. Temo, portanto, que esse contingente idealista esteja condenado  à tarefa inglória de simplesmente dourar a pílula amarga oferecida pelos bispos Bergonzinis do mundo.

domingo, 11 de março de 2012

Para o mundo que eu quero descer!

Olha que domingo legal: João de Deus no Estadão, JJ Benítez na Folha. A entrevista com o autor de Operação Cavalo de Troia tem o pretexto de estar num caderno de entretenimento, onde nada é para se levar muito a sério mesmo (quem ainda se lembra de quando a Ilustrada era um caderno sério de cultura?), mas sofre do título inepto: "Autor que refuta a Bíblia...". Refutar, crianças, é provar de forma cabal que algo está errado. Benítez não faz isso. O que o editor responsável pelo título queria dizer é "Autor que contesta" ou, vá lá, "que polemiza". Fica a dica.

(Uma pequena digressão: na entrevista, Benítez diz que os Evangelhos omitem o fato de que Maria não entendia a missão de Jesus. Ele está errado: em Marcos, fica bem claro que a família de Jesus achava que o Filho do Homem estava doidão e precisava ser detido. Mc 3:31: "Quando os seus o souberam, saíram para o reter; pois diziam: "Ele está fora de si."").

O caso do Estado é, certamente, mais grave. O texto expõe, acriticamente, afirmações como "Quem não pode se deslocar até Abadiânia, manda fotos ou peças de roupa por intermediários. As curas de João de Deus, garantem os funcionários da casa, podem ser sentidas à distância." Ou, "A ele são creditadas curas de cegos e paralíticos".

O repórter evita se comprometer com as alegações, afastando-se delas por meio de expressões ensaboadas como "os funcionários garantem" e "a ele são atribuídas". Mas, primeiro, o jornalista está ali para dar os fatos ao leitor ou para reproduzir boatos? O leitor não merece algo além de testemunhais que poderiam estar num comercial de TV? E, segundo, supondo que o jornalista não tivesse mesmo os meios de levantar todos os dados necessários para emitir um juízo honesto, que tal oferecer, ao menos, uma perspectiva crítica? A análise do Skeptic Dictionary está a um Google de distância, pelamordezeus.

E suponho que os conselhos de medicina tenham algo a dizer a respeito. Ou não? Outra fácil de achar no Google é esta matéria aqui, da imprensa goiana, com opiniões de médicos e do Ministério Público.

Do jeito que o texto está, nada impede que algum pobre-diabo que o leia resolva interromper a quimioterapia, na esperança de mandar uma cueca usada para ser "operada" por João. Uma chamada de capa a mais no currículo vale isso?