sexta-feira, 2 de março de 2012

'Mind the Gap': da teologia à mitologia

"Mind the gap" é uma já folclórica expressão usada no metrô londrino, significando "cuidado com o vão" -- no caso, o vão entre a plataforma e o trem. Turistas que visitam a capital britânica têm à disposição uma infinidade de produtos com a frase, incluindo canecas, camisetas e moletons.

Mas o gap (ou vão) desta postagem é de outro tipo: um que assoma, como uma espécie de abismo no horizonte distante, em toda discussão sobre teísmo e ateísmo. É o gap entre filosofia e mitologia.

Suponho que todo mundo que já tentou acompanhar uma conversa civilizada -- sim, elas existem -- entre teístas e ateus acabou vendo a história empacar logo no primeiro item: o Universo requer uma causa? O ateu diz que não, o teísta diz que sim, não há acordo e o debate para por aí mesmo, ou então começa girar em círculos.

O apelo à intuição dá alguma vantagem ao teísta nesse ponto, mas uma visão um pouco mais sofisticada da questão basta para mostrar que não é válido elevar um dado empírico -- as coisas que conhecemos têm causas -- ao estatuto de princípio lógico-metafísico. Que é o que o teísta tenta fazer, convertendo o resultado de uma série de observações ("todas as coisas que vemos ao nosso redor têm origem em alguma outra coisa") num princípio de implicação lógica, do tipo "não há solteiros casados" ou "é impossível ser e não ser ao mesmo tempo".

O erro é o mesmo de, a partir da constatação observacional de que tudo o que sobe, desce, concluir que viajar ao espaço deve ser tão impossível quanto desenhar um círculo quadrado.

Aqui cabe, ainda, a objeção do "táxi" de Schopenhauer: se se vai assumir que "tudo que existe tem uma causa" é um princípio tão sólido quanto 1+1=2, não é honesto abandoná-lo (como se fosse um táxi) no ponto mais conveniente -- na porta do Universo. É preciso ir com ele até o fim e perguntar, "então, qual a causa de Deus?"

E não vale dizer que Deus não tem causa porque é o "ser necessário". Mesmo sem levar em conta o óbvio fato de que necessidade lógica é algo que se aplica a proposições, não a seres, afirmar que uma premissa tem validade universal para então deduzir que existe uma exceção a ela não é uma manobra válida -- sequer chega a ser mentalmente sã! --, a despeito de séculos de teologia militando nesse sentido. Tente construir um silogismo que vá de "Tudo o que existe é azul" a "Rosas são vermelhas" sem passar por "Rosas não existem" e veja onde isso lhe leva.

Mas, enfim, há respostas que o teísta pode tentar levantar neste momento, nenhuma delas válida, a meu ver ("Deus está fora do tempo" é um exemplo clássico, mas se algo está fora do tempo, como pode ser causa de outra coisa? Toda causa antecede a, ou ao menos é simultânea com, seu efeito). Para quem quiser um gostinho de até onde esse tipo de discussão pode ir, há este clássico debate entre Bertrand Russell e o Padre Copleston.

Agora: supondo, por um momento, que a etapa metafísica da discussão pudesse ser superada -- assumindo, por exemplo, que o ateu se convencesse, mesmo contra a melhor evidência científica, de que o Universo realmente precisa de uma causa extraordinária, para além das causas específicas de seus componentes individuais -- como poderia ser possível superar o gap que se segue? Como partir, da presunção de uma causa, para a constatação de que essa "causa" é um criador pessoal e, mais especificamente, YHWH, um mito levantino da Idade do Ferro, que antes de se tornar a divindade exclusiva dos judeus era apenas mais um deus das chuvas e das tempestades, parte de um panteão que incluía ainda figuras como El, Anat e Asherah e que, como uma espécie de Thor mediterrâneo, lutava contra serpentes marinhas (mito este, aliás, preservado de modo fragmentário na própria Bíblia?).

Trata-se de um problema análogo ao dos chamados "saltos" de Tomás de Aquino. Em suas clássicas "provas" da existência de Deus, Aquino tenta estabelecer que algo com as propriedade X, Y ou Z tem de existir (algo que seja a causa do Universo, por exemplo) e arremata com "[o ser que tem essas propriedades] é aquilo que os homens chama de Deus". Mas peraí, mermão: como assim? Como ele "salta" do Ser Necessário para o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que coleciona prepúcios, detesta camisinhas e coleta dízimos?

Assim como nos melhores truques de mágica, o movimento crucial acontece longe dos nossos olhos.

Desconfio que a questão do gap (ou do vão, ou do salto) é muito pouco reconhecida porque, claro, o debate nunca avança até esse ponto. Se uma pessoa se deixa convencer de que o Universo requer um criador, o movimento psicológico imediato é submergir nas noções a respeito que prevalecem da cultura circundante.

Mas esse é um desfecho psicológico, não lógico. Se a sua intuição insiste em exigir um mito da criação para sossegar, não há por que baixar a cabeça e seguir a manada. Você pode escolher uma outra história. Adotar uma alternativa moderna. Ou, até, inventar a sua.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Parem as máquinas! Cheguei ao Kindle!

Já está à venda, na Amazon, a edição digital de meu romance de ficção científica Guerra Justa. Para quem ainda não conhece o livro (vamos lá, gente, se vocês frequentam o blog, tratem de ler o livro! Senão, como vou bancar as action figures e camisetas que pretendo lançar?), ele é uma reflexão sobre as responsabilidades morais de Deus -- Ou, se você tem o poder de evitar um desastre, e não o faz,  você se torna cúmplice?




Ele também tem ação, artes marciais, perseguições em alta velocidade e sexo em gravidade zero, entre outras atrações menores. Quem preferir a versão em papel pode acionar este link.

E agora, um pouco do que vem por aí:

Em breve, deve ser republicada minha novela de fantasia oriental As Dez Torres de Sangue, lançada originalmente em 1999, como livrinho de bolso, pelo César Silva. A edição atual será da Editora Draco e, se me permitem dizer, a capa do Erick Sama é uma das coisas mais lindas que já vi:


Como disse, é uma fantasia oriental. As principais influências, para quem quiser ter uma vaga ideia do sabor da coisa, foram a novela Vathek, de William Beckford, e as aventuras africanas do puritano errante Solomon Kane, de Robert E. Howard.

E só para mostrar como sou erudito, a história toda é estrutura em torno do desenho das 10 sephirot da Cabala. E tem monstros, duelos e uma homenagem mais ou menos explícita a Ray Harryhausen. O que prova que não é preciso levar certas coisas a sério para se divertir com elas.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os ricos são mais escrotos? É provável, mas...

Uma série de experimentos realizados por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley sugere que pessoas de classe social mais alta tendem a ser mais trapaceiras e lenientes com o próprio comportamento -- "perdoando-se" mais facilmente quando cometem ações antiéticas e aproveitando com mais frequência oportunidades para roubar e trapacear com impunidade. O trabalho foi publicado pelo periódico PNAS, e há um resumo dos experimentos, em inglês, disponível aqui.

Agora, o resultado não só é plausível em si ("por trás de toda grande fortuna há um grande crime", já dizia Balzac) como também interessante, curioso e vem confirmar o estereótipo favorito de muito esquerdista estereotípico, que vê os ricos como uma massa informe de canalhas destinada, pelo infalível juízo de Deus ou da História, ao paredón. Também é atraente para nós, a massa ignara, que ganhamos autorização científica para encarar nossos problemas de crediário como indício claro de bom-caratismo.

Mas, será que o fato de o resultado ser assim tão atraente não seria um sinal de alerta? Já há algum tempo, desde a revelação das fraudes cometidas pelo psicólogo holandês Diederik A. Stapel, vêm surgindo questionamentos a respeito dos resultados produzidos pela aplicação de testes estatísticos em contextos de psicologia social.

E os problemas nem sempre são causados por fraude. Em novembro do ano passado, a revista Psychological Science trouxe um artigo com o sugestivo título False-Positive Psychology: Undisclosed Flexibility in Data Collection and Analysis Allows Presenting Anything as Significant ("Psicologia do Falso Positivo: Flexibilidade Oculta na Coleta e na Análise de Dados Permite Apresentar Qualquer Coisa como Significativa").

O artigo mostra como, tomando uma série de decisões aparentemente inocentes e perfeitamente éticas a respeito da forma como os dados brutos serão tratados, é possível obter "prova estatisticamente significativa" de resultados impossíveis -- por exemplo, que uma ouvir uma canção faz as pessoas rejuvenescerem 18 meses.

Os autores explicam que o problema nasce do que chamam de "graus de liberdade do pesquisador". Eles elaboram:

No processo de coletar a analisar os dados, pesquisadores têm muitas decisões a tomar: devemos levantar mais dados? Devemos excluir algumas observações? Quais as condições que devem ser comparadas ou combinadas? Quais controles devem ser considerados? Métricas específicas devem ser combinadas, convertidas, ou as duas coisas?

É raro, e muitas vezes impraticável, tomar todas essas decisões de antemão. Em vez disso, é comum (e aceito) que os pesquisadores explorem várias alternativas analíticas, em busca de uma combinação que produza “significância estatística”, e que reportem apenas aquilo que “funcionou”.

O problema, evidentemente, é que a probabilidade de que pelo menos uma das (muitas) análises produzir um resultado falso positivo no nível de 5% é necessariamenjte maior do que 5%.

Outro artigo publicado no fim do ano passado, desta vez uma peça de opinião no site da Society for Personality and Social Psychology, tinha o título Groundbreaking or Definitive? Journals Need to Pick One ("Revolucionário ou Definitivo? Periódicos Precisam Escolher Um") e chamava atenção para o fato de as publicações científicas, provavelmente sedentas de atenção da mídia generalista, incentivarem a produção de estudos que pudessem ser classificados como "revolucionários e definitivos".

O problema, nota o autor, Sanjay Srivastava,é que o aparentemente "revolucionário" muitas vezes é um falso positivo, e o "definitivo", quando aparece, tende a ser uma tediosa confirmação de vários resultados anteriores. Para que o revolucionário se torne definitivo, diz Srivastava, é preciso que passe por um longo processo de replicação independente por múltiplos métodos -- isto é, não basta que o resultado seja recriado por pesquisadores independentes replicando a metodologia original. 

O ideal é que a mesma conclusão surja de observações feitas em vários ângulos, por exemplo, em situações de laboratório e em levantamentos na população em geral. Esse critério parece ter sido atendido no estudo publicado na PNAS, que realizou sete diferentes experimentos, sendo dois deles de campo.

Mesmo assim, as questões dos "graus de liberdade do pesquisador" e do nível de significância de 5% (talvez "fácil" demais para estudos do comportamento humano) me deixa com o pé atrás. Realmente acho bem provável que os ricos sejam mais escrotos, em média, que a população em geral. Só que, por conta disso tudo, ainda me parece cedo para tomar essa leve impressão como fato científico.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ferraz, Ferraz


Entre novembro e dezembro de 2009, fui, por mais de 20 dias, hóspede da Estação Antártica Comandante Ferraz, mantida pela Marinha do Brasil na Ilha Rei George, na vizinhança da Península Antártica. Essa é a mesma base que foi destruída -- ou, ao menos, seriamente danificada -- por um incêndio, ocorrido neste fim de semana. Dois militares da Marinha morreram, um ficou ferido, mas cerca de 60 pessoas, entre militares e cientistas, escaparam ilesas. É o que informa o noticiário.

A sensação de ver as imagens, feitas pela Marinha chilena, de Ferraz (como a estação é chamada informalmente) em chamas é, para mim, mais ou menos como a de ver a casa de um velho amigo pegando fogo. Morei lá, ajudei na faxina, na cozinha, limpei o banheiro masculino.

A manutenção de Ferraz sempre foi uma ação comunitária: uma vez sob o teto da estação, todos tornam-se corresponsáveis. Por conta disso, para muitos cientistas brasileiros, veteranos de inúmeras temporadas na Antártida, a perda da estação deve parecer a perda de um segundo lar. A eles, estendo minha sincera -- ainda que, efetivamente, inútil -- solidariedade.

Quando estive lá, havia um grupo de arquitetas da Universidade Federal do Espírito Santo analisando as instalações de Ferraz. A líder do grupo, Cristina Engel, era uma velha conhecedora da estação. É provável que ela venha a ser chamada para a reconstrução da base.

Seria interessante ouvi-la, agora, sobre a conformação de Ferraz. Após o incêndio ouvi, por exemplo, críticas ao fato de Ferraz ser formada por um único módulo, o que teria aumentado o potencial destruidor do fogo. Mas, por outro lado, a forma "monobloco" permite que os moradores se refugiem todos num só lugar e cuidem das necessidades da sobrevivência todos juntos e em segurança no caso de uma forte tempestade, por exemplo, sem que ninguém precise se aventurar na neve, como seria o caso se partes vitais, como os geradores, ficassem num módulo à parte.

A causa do incêndio em Ferraz ainda está a ser determinada, mas lembrando-me de minha experiência pessoal "a bordo" da estação, e ainda mais tendo em vista as duas vidas perdidas, não consigo deixar de sentir algo que deve ser muito parecido com que muitos americanos provavelmente sentem quando veem suas tropas em combate no exterior: um profundo respeito pelos homens e mulheres em campo, misturado a uma forte desconfiança em relação aos políticos e aos generais que os mandaram para lá, e que deveriam zelar para que estivessem devidamente preparados e equipados.

Não que o programa antártico seja uma "guerra inútil", como se diz de muitas das incursões americanas pelo globo. Longe disso. Para ficar apenas no lado prático, muito da meteorologia e da ecologia do Brasil depende, para ser corretamente compreendido, de informações que têm de ser colhidas na Antártida. Ampliando um pouco o foco, na Antártida pode estar a chave para mistérios tão profundos quanto a origem da vida na Terra. Trata-se de uma viagem que o Brasil não pode se dar ao luxo de perder.

Mas, em contrapartida, trata-se de uma viagem que exige muito para produzir resultados. Em Ferraz, militares, funcionários do arsenal da Marinha e cientistas faziam muito com muito pouco: no período que estive lá, passamos por um racionamento de água, por conta do congelamento do lago usado como fonte pela estação; a hipótese de os cientistas terem de ir cortar blocos de gelo a golpes de picareta para evitar uma escassez catastrófica chegou a ser aventada, informalmente, mas acabou não se concretizando. No mar, os navios Ary Rongel e Almirante Maximiano (do qual nada se falou na presente crise, aliás) dão apoio às pesquisas científicas ao mesmo tempo em que driblam grandes dificuldades.

Fazer muito com muito pouco é uma tradição brasileira. Mas às vezes o muito pouco é, pura e simplesmente, insuficiente.