sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu, o crítico

Só uma nota rápida para avisar os leitores do blog de que dois ensaios meus que poderiam ser considerados de "crítica literária" estão disponíveis, alhures, na internet.

O mais antigo é A obra de Lovecraft como paródia do cristianismo, onde apresento a tese (que não é minha, mas com a qual concordo) de que muito do "terror cósmico" de HP Lovecraft na verdade surge de um olhar irônico lançado sobre os mitos da escatologia cristã: afinal, a promessa do Grande Cthulhu, de retornar num futuro distante e recompensar seus adoradores, não é a mesma posta na boca de Jesus pelos evangelistas?

Sobre esse texto, é interessante notar que a sugestão foi levada a sério pelo poeta americano Richard L. Tierney, que no romance Drums of Chaos reinterpreta os eventos dos Evangelhos à luz da mitologia lovecraftiana. Tierney é o criador da série de contos de fantasia protagonizada por Simon Magus, na qual o obscuro personagem dos Atos dos Apóstolos (mas em torno do qual existe uma rica literatura apócrifa) se converte numa espécie de Solomon Kane do mundo pagão. Talvez por seu potencial ofensivo, a fantasia de Tierney é pouco conhecida, mas merece ser lida. Doei meus volume de Tolkien para uma biblioteca pública há anos, mas meus Tierneys continuam egoisticamente guardados lá em casa.

Já a peça mais recente é 20.000 léguas de aventura, minha crítica da edição mais recente de 20.000 Léguas Submarinas, lançada pela Zahar. Confesso que nunca fui um grande fã de Verne, mas creio ter sido justo com autor e obra no texto que produzi para o Amálgama.

Se esses dois textos servirem para inspirar boas leituras para o fim de semana (este ou algum dos próximos), terão ambos cumprido seus papéis.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

E chegamos a 100.000!

Uma das consequências de termos dez dedos é o sistema decimal, e uma das consequências do sistema decimal é o fascínio quase supersticioso que cerca os números "redondos" -- aqueles terminados em zero. Cedendo, então, a esse fascínio, solto esta breve postagem para mencionar que o blog, com menos de um ano de vida, chegou, nesta terça-feira, 17, a 100.000 visualizações.

Sendo um completo ignorante nas minúcias do bloguismo, não sei dizer se isso é muito, é pouco ou, mesmo, se é significativo. Suponho que seja um desempenho médio (afinal, a maioria está, por definição, perto da média) mas, ora bolas, são os meus 100.000, então vamos celebrar um pouco.

Neste tempo de existência, o blog foi se desviando lentamente dos temas puramente científicos e migrando para questões de cunho mais filosófico ou às vezes até político -- pelo que me sinto um pouco culpado, a bem da verdade. A divulgação científica "pura" será sempre parte importante do meu mix, mas creio que outras questões acabarão crescendo em relevância. Eu realmente gostaria de ter escrito mais sobre matemática! Mas é um assunto delicado, que requer mais tempo e concentração do que venho podendo dedicar ao blog.

Em relação ao blog anterior, encerrado em 2010, este aqui certamente é bem mais desbocado em relação a questões como religião e (de novo) política. Não é que houvesse censura no Estadão (ninguém lá jamais interferiu no conteúdo do velho blog), mas é que eu sentia que o espaço lá não era realmente meu, era emprestado; e que me tinha sido franqueado para que eu falasse de ciência, e não de outras coisas.

Aqui, em comparação, é tudo meu e pronto. Não me sinto mais usando roupa alugada, o que é muito bom.

Enfim, muito obrigado a cada um dos responsáveis pelos 100.000 cliques, mesmo os que vieram de gente que, enganada pelo Google, chegou aqui procurando "pornografia homossexual" (durante meses a fio, um dos strings de busca que mais gente trouxe a esta página).

E espero que quem veio, viu e gostou continue comigo. E que, quando os visitantes tiverem um tempinho para matar com uma leitura de papel, considerem a possibilidade de comprar alguns dos livros linkados ali em cima, à direita. Afinal, sustentabilidade não é importante só para a floresta!

De brinde, um vídeo da Nature sobre a importância da cauda no salto do lagarto:


Vida multicelular a jato: evolução em ação

Artigo publicado online pela PNAS mostra que grãos de uma levedura unicelular, Saccharomyces cerevisiae, bem conhecida por animar as noites de sábado dos não-abstêmios, são capazes de formar estruturas muito parecidas com organismos multicelulares em menos de dois meses.

Agora, note que o parágrafo acima fala em "organismos multicelulares", e não em meras "colônias de células". Entre as características anotadas pelos autores do experimento, há a divisão de trabalho entre as células, elas são geneticamente idênticas e os aglomerados se comportam como organismos dotados de identidade individual, gerando até mesmo filhotes: células na superfície dos aglomerados morriam depois de um tempo, o que fazia com que novas células não tivessem como aderir à estrutura original e forçava-as a começar seus próprios aglomerados independentes.

O segredo do experimento foi submeter as células de levedura uma "seleção natural" (no caso, artificial) por gravidade: como aglomerados de células são mais pesados do que células solitárias, os pesquisadores, liderados pelo americano William Ratcliff, da Universidade de Minnesota, montaram um esquema no qual culturas de levedo eram centrifugadas, e apenas o material depositado no fundo dos tubos voltava a ser cultivado.

(Para entender a relação entre força centrífuga e peso, assista a este clipe de 007 contra o Foguete da Morte.)

O resultado dessa pressão seletiva, onde os mais gordos assumem o papel de mais aptos, foi a produção de uma forma rudimentar de vida multicelular em cerca de 60 dias.

Os “flocos de neve”, como os aglomerados foram chamados, tinham um ciclo de vida com estágio juvenil, quando cresciam sem limites, e um adulto, quando após atingir um certo tamanho se dividiam em floco-mãe e floco-filha.

Ratcliff foi capaz, até mesmo, de ajustar os estágios. Se cultivasse apenas os flocos que afundavam mais depressa, os organismos selecionados cresciam muito mais antes de sofrer divisão. Isso confirma que a seleção natural estava atuando no floco como um todo. “Elas (as células) sobrevivem como um todo ou morrem como um todo. A seleção se desloca para o nível multicelular”, disse ele, falando à revista Nature.

Como nota o blog Science Sushi, este é apenas mais um exemplo de como a evolução pode gerar estruturas complexas a partir de pressões seletivas relativamente simples. Abaixo, um vídeo do processo: