terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Casamento gay e a ameaça ao futuro da humanidade

O papa Bento XVI decidiu declarar que a união homossexual representa uma ameaça ao futuro da humanidade. Ele não estava, aparentemente, se referindo ao fato de que uniões entre pessoas do mesmo sexo são, em princípio, estéreis (ao menos por enquanto; mas a tecnologia não para de nos surpreender, e ao menos para as lésbicas já há alguma esperança), mas a uma eventual malaise social. Como escreve a Reuters:

Segundo Bento 16, a educação das crianças precisa de "ambientes" adequados, e "o lugar de honra cabe à família, baseada no casamento de um homem com uma mulher"
O sentido geral parece ser, portanto, o de que um par homossexual seria, de algum modo e em essência, deficiente na tarefa de criar uma criança. Pondo de lado minha forte suspeita de que esse ideal de família, com papai e mamãe cooperando ativamente para educar os pimpolhos, cada um dos genitores bem encaixado em seu papel bem-definido, provavelmente foi mais exceção que regra ao longo da história da humanidade, o fato é de que a pesquisa científica disponível simplesmente desmente Sua Santidade. 

Trabalho publicado no periódico Developmental Psychology em 1995 já sugeria que, se há alguma diferença na forma como são criadas crianças por casais tradicionais ou por casais de lésbicas, as crianças com duas mães levam vantagem

Além disso, uma metanálise publicada em 2010, avaliando vários estudos sobre o impacto do tipo de família -- casal heterossexual, pai solteiro, mãe solteira, casal gay masculino, casal gay feminino -- na criação dos filhos conclui que crianças criadas por duas mães tendem a receber mais amor, atenção e carinho, mas que "o sexo dos pais (...) tem uma significância mínima na saúde psicológica ou no sucesso social" dos filhos.

Claro, o papa representa uma organização cujos membros são obrigados a acreditar que um biscoito se transforma em carne humana ao mesmo tempo em que continua a ser um biscoito, e que insiste que preservativos são inúteis no combate às doenças sexualmente transmissíveis. Talvez não devamos, portanto, esperar que ele leve a ciência sério. Exceto, claro, quando lhe interessa: hoje, a maioria das igrejas tem para-raio, afinal.

De qualquer modo, pode ser interessante dar uma olhada numa breve lista de "ameaças" anteriormente detectadas pelos sempre atentos ocupantes do Trono de Pedro:

Heliocentrismo
O papa Paulo V acatou, em 1616, as conclusões de uma comissão de cardeais segundo a qual a ideia de que a Terra gira em torno do Sol é "contrária à fé católica".

Liberdade religiosa
Em seu sempre divertido (anda que infame) Syllabus, o papa Pio IX condena a ideia de que "todo homem é livre para abraçar e professar a religião que considerar verdadeira".

Contracepção
Em sua encíclica Humanae Vitae, de 1968, o papa Paulo VI declara que todas as formas artificiais de contracepção -- pílula, camisinha, etc. -- são "intrinsecamente más", isto é, sempre erradas, a despeito de qualquer intenção ou circunstância. Para comparar: a escravidão só foi declarada "intrinsecamente má" por um papa, João Paulo II, na década de 90.

A verdadeira ameaça ao futuro da humanidade parece, mesmo, ser prestar atenção no que esses caras dizem. Mas é difícil evitar: não só há um lobby forte na mídia, como Bento XVI vem aí em 2013. Minha (talvez vã) esperança é de que não venham querer rachar a continha da visita não-solicitada com a gente.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Arquimedes e o mau-olhado

Reza a lenda que, lá pelo século 3 AEC., Hierão II, rei de Siracusa, na Sicília, ficou em dúvida sobre o real conteúdo de ouro de uma coroa que havia recebido de um artesão. Temendo ter sido trapaceado, ele pediu ao sábio Arquimedes que determinasse quanto ouro realmente havia na peça -- sem destruí-la no processo.

Em busca de uma solução para o problema, o grande matemático acabou descobrindo o princípio da impulsão: um corpo imerso num líquido recebe um empuxo -- uma força de baixo para cima -- igual ao peso do líquido deslocado. A dependência do empuxo em relação ao peso do líquido explica porque navios de aço flutuam, mesmo pesando várias toneladas, enquanto pregos de poucos gramas afundam: o grande volume da embarcação garante que ela desloque uma quantidade de líquido capaz de equilibrar sua enorme massa.

Aplicado ao problema da coroa, o princípio da impulsão oferece um meio de determinar a densidade dos materiais, isto é, quanto de massa existe um cada unidade de volume. A noção intuitiva de densidade é bem fácil de obter: basta imaginar dois cubos, exatamente do mesmo tamanho, sendo um de madeira e um de chumbo. O de chumbo pesa mais -- isto é, tem mais massa -- que o de madeira; logo, o chumbo é mais denso que a madeira, já que concentra mais massa num mesmo volume.

Pondo-se os dois cubos na água, o de madeira flutua e o de chumbo, não: ambos deslocam o mesmo volume de água, sendo que o empuxo gerado é suficiente para sustentar a massa menor da madeira, mas não a massa maior do chumbo. No caso da coroa, Arquimedes, em tese, poderia medir o volume de água deslocado por uma peça de ouro com o mesmo peso da coroa e, depois, pela própria coroa. Se os volumes fossem iguais, isso significaria que a coroa teria a mesma densidade do ouro puro -- um indicador razoável de que era realmente feita de ouro.


Do princípio da impulsão é possível deduzir uma regra simples: corpos menos densos que a água flutuam; corpos mais densos que a água afundam. (A densidade da água, por falar nisso, é 1kg/litro, ou 1g/ml).

Não sei como anda a educação hoje em dia, mas acho que meu primeiro contato formal com essa regra ocorreu nas longínquas trevas da infância, antes mesmo de meu décimo aniversário. Trata-se, afinal, de um princípio simples, deduzido por um dos grandes gênios da humanidade há uns 2.300 anos.

Fast-forward, Brasil, 2012. Encontro um amigo que me conta algo curioso que aconteceu na empresa onde trabalha: a execução de um processo para detectar "mau-olhado" no setor, já que algumas pessoas vinham sentindo um "clima carregado" por ali.

O método: põe-se sal num copo; completa-se o copo com água; joga-se um pedaço de carvão na água salgada. E, se o carvão boiar, é porque há influências maléficas no ambiente.

Agora, para tudo. Voltemos à lição de Arquimedes em Siracusa, dois milênios e uns quebrados atrás: se um objeto tem densidade menor que a da água, ele inevitavelmente tenderá a boiar, a despeito da presença de Lúcifer, Exu, Sauron ou Darth Vader ali, na mesma sala.

Alguns dados: a densidade do carvão vegetal comum vai de 0,31 g/ml a 0,18 g/ml, de acordo com este ensaio científico. Isto é de 70% a 80% menos que a densidade da água comum, de 1g/ml. A água salgada é ainda mais densa que a água pura. No Mar Morto, por exemplo, a densidade chega a 1,24 g/ml.

Acho que já ficou mais do que claro que o "teste" não passa de um jogo de cartas marcadas para garantir que a leitura de mau-olhado dê "positivo" -- o resultado é tão certo quanto seria jogar uma maçã para o alto e dizer que, se ela não entrar em órbita, é porque fomos todos amaldiçoados pela Bruxa Malvada do Oeste.

É evidente que testes assim garantem aos vendedores de figas, ramos de arruda, trabalhos, orações, benzeduras, fogueiras santas e descarregos em geral um fluxo contínuo de diagnósticos preocupantes que favorece a prosperidade de seus respectivos negócios. Mas a questão principal nem é essa: é o fato de pessoas com diploma universitário ficarem olhando para o carvãozinho flutuante como se ele fosse um misterioso oráculo, e não uma mera reafirmação de leis da física descobertas há 23 séculos.

E isto num país que, diz o mito, tem um Ministério da Educação.